Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

Ênfase e Estilo

with 2 comments

Ênfase e Estilo

Ivan de Almeida, março de 2016

Nós vemos a nós mesmos ao notarmos o que nos interessa na fotografia, o que fazemos, o que e como enquadramos.

 

_IGP0278_DxO

 

Ontem, conversando na rede com um amigo, ele demonstrou interesse pelas fotografias que faço de pessoas. Paradoxalmente, o tipo de foto que ele faz é mais raro, mais acurado, mais dependente da precisão. A fotografia de pessoas implica em alguma espontaneidade. Ele faz paisagens em geral, com uma abordagem muito interessante onde a paisagem está longe e é vasta, é vazia, é imóvel. É claro, faz também outras coisas, mas o fulcro, o ponto de concentração me parece ser este.

E sou um admirador dessa fotografia. Caramba, é brutalmente boa, torna evidente que aquela produção, na sua abordagem, é uma produção superior e que ali há enorme quantidade de atenção e determinação. A atenção necessária para fazer é imensa. Fico bobo olhando várias de suas fotos.

Conversando comigo na rede, me perguntou sobre retratos, um ramo que faz pouco, e expressou esse fazer pouco como uma obrigação não cumprida, talvez, embora de forma leve e sutil. Fiquei pensando nisso. E pensei, com meus botões, que cada um tem sua produção, sua característica. É como comparar o Ansel Adams e o Cartier-Bresson. Um deles, o Adams, é sublime nas fotos de natureza, nas paisagens, isto lhe custava muito tempo e muita presença nos lugares naturais. Este item é fundamental, a presença em lugares remotos. Já o Bresson fotografava a vida diária, então tinha de estar no mundo comum, nas cidades, nos locais onde a vida humana pudesse ser parte do seu tema.

Com os devidos descontos no meu caso, ele toca na orquestra do Adams, eu toco na beirada da orquestra do Bresson.

Sou incapaz de fazer fotos de paisagens com sua ênfase. Nem me vem na cabeça, posso fazer paisagem, mas na minha há uma inserção, uma presença. Nas dele há algo transcendente, uma beleza pura.

Prefiro admirar. A obra alheia nos abre uma janela da percepção distinta do nosso existir.

 

 

Written by Ivan de Almeida

9 de março de 2016 at 12:37 pm

A Fotografia Afetiva

with 4 comments

A Fotografia Afetiva

Ivan de Almeida, março de 2016

A vida fica nas fotografias, talvez a parte mais doce da vida.

IVAN9116

As fotografias, principalmente as fotografias familiares ou de amigos, depois de alguns anos nos emocionam.

Esta é uma coisa maravilhosa da fotografia, ela é um mecanismo onde a saudade encosta em nós. E algo através do qual nós vamos até o passado e lá lidamos com os nossos queridos, com os amigos, com alguém que nos deu atenção.

Sei que é engraçado pois isto aqui, afinal é um blog que fala de fotografia, mas creio que isto é um dos elementos do valor da imagem.

Creio que ser um fotógrafo é coisa tão diversificada que não cabe sequer tentar definir aqui. Há muitos fotógrafos, com muitas especialidades, com muitas utilidades. Nós mesmos, ou eu mesmo, aqui falando na primeira pessoa, exploro diversos temas, busco em diversos temas. A liberdade do fotógrafo não-profissional é para mim muito valiosa, porque a fotografia vira uma busca pessoal, um caminho de autoconhecimento e um caminho de aprendizado.

Aprendizado de quê? Bem, isto é abrangente do aprendizado de como vivemos, do que gostamos, de como é nossa presença na existência, o que vemos e o que, até o instante anterior, não víamos. Uma abordagem fotográfica que descobrimos é também um descobrimento existencial. Porque nós só fotografamos aquilo que nos interessa, só vemos o que nos interessa. E cada um fotografa mais uma coisa que as outras.

IVAN9118

Tenho amigos que são ótimos num tipo de fotografia e menos bons em outro tipo, por vezes uma diferença espantosa de qualidade compositiva, de abordagem, etc. Geralmente a fotografia humana é o Calcanhar de Aquiles, porque ali há algo além da habilidade, há a relação humana. Aquela pessoa, a presença daquela pessoa constrange o fotógrafo nesses casos. Porque ele acha que constrange a pessoa fotografada.

Muitos se embaraçam na fotografia humana. Não se sentem a vontade, não lidam bem com a vontade, a vaidade, a pessoalidade alheia. Entre as fotos que fiz há algumas que mostram a importância da pessoa, que mostram um caminho afetivo, e outras, da mesma pessoa, são sem graça. Porém quase nunca a pessoa se diz afetada, pois quase nada de pose eu peço, quase nada ou nada, na maioria das vezes.

111015SPS_romerito3-1

A fotografia de pessoa pode ser uma violência ou um carinho. Fotografamos e sabemos que a pessoa não consentiria. Esta é a violência. Violência fotográfica. É pegar alguém à força. Enganá-la. A outra postura é fotografamos ali atentos à pessoa, com consentimento implícito ou explícito. Já me aconteceu de parar de fotografar até mesmo o lugar, uma loja-atelier na serra, e descartar todas as fotos feitas –poucas- porque a pessoa ali manifestou desconfiança e desconforto. Desliguei a câmera na hora, apaguei na hora e ponto final. Como não o fotografara, não imaginei seu incômodo ia até os objetos.

Quando fazemos, digamos, três fotos de alguém quase seguidas, quase iguais, com o mesmo enquadramento, uma delas falará melhor conosco, mesmo as demais sendo também boas fotos. Há exceções, mas em geral uma será melhor, pegará o rosto em uma expressão melhor. Porque nós não somos mágicos, não podemos determinar a foto de alguém completamente.

É esse estado de atenção a coisa realmente interessante ao fotógrafo. Fotografar com atenção é quase um transe, é um transe leve. Nós embarcamos e ali já não somos nós, somos o olhar condutos que seguimos. Esta é uma das delícias fotográficas.

Written by Ivan de Almeida

4 de março de 2016 at 12:44 am

Publicado em Sem categoria

Nós não somos uma câmera.

with 2 comments

Nós não somos uma câmera.

Ivan de Almeida, fevereiro de 2016

No quarto das crianças, em Vassouras, eu, menino, deitado na cama via a pequena poeira flutuando no ar pela manhã, quando entravam pelas frestas da janela os raios de sol.

P1130194

 

Para bem entendermos a composição fotográfica, é preciso que entendamos a forma como olhamos. Nós não somos iguais à câmera fotográfica que, no mesmo instante, vê tudo. Nosso olhar é um exame onde há uma hierarquia. Um contexto é examinado de acordo com a hierarquia, e não de acordo com a perspectiva. A perspectiva, ou melhor, a noção de distância, ajuda a hierarquizar mas não manda, apenas é um dos vetores da percepção.

Este artigo nasceu de uma fotografia que fiz há poucos dias em uma brincadeira que foi fotografar com uma câmera simples enquanto esperava a barca que liga o Niterói ao Rio de Janeiro. Ali, na estação de Niterói, esperando para voltar fotografei. Foram três fotos quase iguais e dos mesmos elementos, e só variam ligeiramente na posição da câmera, uma câmera pequena e simples, uma Panasonic FH24.

Quando fotografamos, ou falando na primeira pessoa do singular, quando fotografo rapidamente hierarquizo o conteúdo. É uma coisa bastante rápida, pois nós nos educamos com o tempo, e, se lá no passado eu tinha que pensar nessa ordem buscada, a coisa vai se tornando uma natureza nossa, natureza do nosso olhar fotográfico, e torna-se quase instantânea. A fotografia de rua precisa dessa introjeção do treinamento, coisa que adquirimos com o tempo. Ninguém nasce com o dom compositivo. A composição provém de costumes, pois quando inconsciente reproduz os costumes sociais, a convenção social de fotografia. Quando estudamos a percepção, nos educamos com outros princípios de ajustes sociais que são menos desenvolvidos e conhecidos.

Qual a diferença? Tomemos, como exemplo, um templo na Grécia. O turista comum o olha, tem o deleite de contemplar o belo, recorda, mas não sabe a razão do deleite. O estudioso da arquitetura grega busca, é claro que também tendo o deleite, reconhecer as proporções da arquitetura grega, estudadíssimas. O jogo de proporções entre a coluna e o todo, entre as partes de cada coluna, coisas desconhecidas da maioria, mas estudadas na arquitetura grega e posterior. Quando fiz faculdade de Arquitetura, nós reproduzíamos o desenho de uma coluna Dórica, Jônica para nessa reprodução aplicarmos as regras de proporcionamento entre as partes. Não é “eu acho”, é uma regra clara na composição das colunas e dos templos e construções.

É um examinar semelhante que será empregado nesta foto, não uma foto brilhante, mas interessante de ver. Um examinar que mostrará que olhar é um processo, e não um instante.

Temos nela três pontos principais de atenção, que brigam, no bom sentido, entre si. 1) O vulto da pessoa em primeiro plano, misturada nos demais, porém mais perto; 2) o rosto do anúncio, mais iluminado, 3) o ambiente e barca lá fora. O olho, ao olharmos a foto, pula de lá para cá e termina no rosto iluminado, mas passa pelo vulto de costas, pela paisagem. A palavra brigam usada aqui não é no sentido negativo, mas sim destacando o fato de haver uma coisa olhada, outra coisa olhada e outra, e, aí o interessante, não vemos tudo ao mesmo tempo. O olhar vai pulando de parte à outra parte.

P1130194b

É essa a questão interessante, sabermos examinar a forma como vemos. É importante porque esse saber é uma grande ferramenta da análise e da composição. Para compor, acima de certa complexidade, é preciso entender a forma como examinamos uma cena.

A fotografia em si é muito útil, fotografar é útil, porque nos ensina a ver como vemos a partir de um ver que não vemos. Nós não vemos como a câmera, mas mesmo na câmera vemos um tanto como no mundo, pulando dos objetos principais, de um para o outro. Paradoxalmente, é impossível ver esta foto de uma vez só.

Nossa visão comum é pouco examinada. Nós não fomos educados ou informados do fato de termos uma parte muito pequena da visão que é nítida, e que para conhecermos um ambiente, mesmo parados, os olhos precisarem mudar o foco e mudar sua direção. Mas essa é a verdade. Nós variamos a direção e o foco tão automaticamente que parece que tudo é focado, pois, afinal, quando olhamos para algo focamos esse algo.

No caso do olhar, é necessário prestar atenção no movimento do olho, porque este ver localizado não é só a atenção, é o direcionamento do olho, é a pupila que fecha e abra, fecha para ver a barca, abre para ver o cara de costas ou o anúncio, o olho se direcionando também.

A feitura de uma imagem fotográfica é algo um tanto derivado do conhecer perceptual. Pode ser um conhecer ensinado, pode ser um conhecer relacionado ao funcionamento ocular. Mas a composição ao fim e ao cabo é um arranjo do modo de percebermos uma foto. Há coisas incríveis que demonstram isso, uma delas é a descrição de uma foto vista por algum tempo, descrição onde elementos menos importantes não são lembrados pelos observadores a quem é solicitada a descrição. Outra coisa é o aparelho que segue o movimento do olho, produzindo um gráfico onde fica clara a busca de significação pelo movimento ocular.

Uma pequena foto pode conter um conhecer.

Written by Ivan de Almeida

21 de fevereiro de 2016 at 3:24 pm

Publicado em Sem categoria

O Quadrado

with 4 comments

O Quadrado

Ivan de Almeida, fevereiro de 2016

O conteúdo e a forma do continente são, na fotografia, uma das relações fundamentais.

 

007

Quadrado da Urca, filme, Zeiss Nettar, julho de 2005

 

Depois de longo período usando digitais, desde 2003 com uma tosca Canon A30, fui tendo câmeras diversas substituindo uma por outra. As digitais eram caras, ou isso se combinava com um orçamento mais apertado meu, então comprava uma e vendia a outra. Porém, as digitais foram ficando baratas, e hoje tenho diversas câmeras, poucas compradas novas, várias de segunda mão. Hoje são seis câmeras, vão desde a Canon 5DII (comprada neste Brasil, diretamente da Canon e em 12 prestações) até a Panasonic FH24, comprada em Orlando, numa viagem aos EUA em 2011 –aliás, no dia em que chegamos em Orlando e que o Bin Laden foi morto, vejam só…

Bem, quando comprei a primeira de todas, a tosca Canon A30, estava acostumado com o formato 3:2 da fotografia em filme 35mm. Vinha há décadas usando os filmes, e a chegada da digital ao mesmo tempo em que me deslumbrou me incomodou muito quanto ao formato. Este formado 3:4 do sensor das digitais mais simples me incomodava. A primeira digital me fez fotografar como um louco, mas o formato me desagradava, nele eu não achava um terço como divisão forte, e não é simples lidar com proporções em um formato 3:4, pelo menos era difícil para mim.

Foram três câmeras com este formato, num tempo ligeiramente menor do que dois anos e meio. Seis meses de Canon A30, doze meses de Fuji S5000 em 2004 (e, desde sua chegada, o mergulho no RAW), uns dez meses com a Fuji S7000 e então voltei ao formato ao qual estava acostumado comprando usada uma Canon 300D.

Por esse tempo, em 2005, comprei uma Zeiss Ikon Nettar, 518/16, antiga de filme médio formato. Algumas coisas nela me maravilharam, entre as quais a forma quadrada da fotografia. Aquela estranheza que eu tinha com as digitais 3:4 sumiu, e a forte geometria do formato quadrado me deliciava. No fundo era isso, eu gostava e gosto da geometria forte do formato, embora hoje use o 3:4 de forma mais adaptada, mais solta. Claro, podemos ter fotos boas e ruins em qualquer formato, mas com alguns nos adaptamos melhor.

Infelizmente, destruí a Nettar, uma das piores tolices que fiz. Queria usar a lente dela na digital e fiz uma adaptação de rosca. Mas adorei a câmera. Um tosco visor, nenhum telêmetro, nenhum fotômetro, só regulagens manuais. Eu usava uma digital como fotômetro e media a distância no olho. Adorei o quadrado, adoro até hoje. Usei outras que faziam o quadrado, uma Hasselblad emprestada, uma Yashica modelo Rollei. Contudo, o filme tornou-se cada vez mais difícil de usar. E mesmo a loja do lado, onde mandava revelar e escanear, tornou-se difícil, passou a cobrar o escaneamento por foto, o inviabilizou.

Recentemente, há uns seis meses, comprei uma Panasonic GF1. Minha motivação foi ter um bom sensor (nos ISOs baixos) em uma câmera pequena e barata. Um brinquedo. Fui comprando adaptadores e variando as lentes, feliz porque ela podia usar lentes de rangefinder, pois tem corpo estreito. Até o dia em que experimentei a 24mm Nikkor, que multiplicada por dois (fator devido ao tamanho do sensor) resulta em 48mm-equivalente. No fundo eu buscava o equivalente a uma 50mm de filme comum. Fotografei e então me veio ideia de mudar o formato e experimentar o quadrado dela…

P1140161_DxOFP

Quadrado digital, Panasonic GF1, 2015

No caso específico desta câmera, a mudança de formato tem a linda coisa de nos comprometer para sempre com o formato, como eu gosto. A fotografia para mim quando precisa de correção compositiva me incomoda. Não gosto de corrigir as composições. Mas nessa camera, nem o RAW pode ser usado para converter no formato original, como em outras câmeras acontece. Clicou… pinba! Está definido. Só PB e cores podem ser mudados, mesmo porque o RAW é necessariamente colorido.

Como por mágica, voltei ao que usava com a Zeiss Nettar. Exatamente? Não, é claro, nada é exatamente, mas muito aproximadamente sim. Mesma abordagem compositiva, mesmo jogo dentro do quadrado.

P1140129_DxOFP

Panasonic GF1, Parque da República, 2015

 

O que o quadrado tem de fascinante? Não é fácil responder isso, mas eu diria que tudo nele é forte compositivamente, as diagonais, a divisão áurea, etc. O quadrado é a forma mais forte entre os retângulos. Porém, quem está acostumado com o retângulo estranha um pouco. Porque existe uma linguagem específica, uma espécie de síntese. O formato não admite erro compositivo, e um erro cometido, a foto se perde.

Compor no quadrado não é a mesma coisa que cortar o quadrado dentro de uma foto maior. A composição em si é diferente.

Este artigo mostra o uso do quadrado. Certa vez, peguei uma digital mais velha e boa, a Fuji F550 (comprei velha, fascinado que sou com o sensor diagonal Fuji) e coloquei dois pedaços de fita isolante no LCD, para já compor em quadrados. Ótimo, sim, ótimo, delicioso, mas a atual setada em quadrado é melhor ainda…

DSCF6179

Quadrado digital, Fuji E550 com máscara quadrada no visor.

 

Written by Ivan de Almeida

3 de fevereiro de 2016 at 1:38 pm

Publicado em Sem categoria

Tratamento e Significado na Fotografia

with 4 comments

Tratamento e Significado na Fotografia

Ivan de Almeida, janeiro de 2016

 

Na fotografia, o significado da imagem nem sempre prevalece na pura captura. Não é erro ou insuficiência do fotógrafo, é uma iluminação natural que não reforça a mensagem. Por isso, o tratar não é só mexer nos contrastes, mexer na conversão do RAW. Há fotos em que isso basta, mas, grosso modo, a grande maioria das fotografias se beneficia de tratamentos localizados.

Muitos, ao lerem isso, pulam da cadeira gritando: “Mas a foto deve ser boa! Caso não esteja, foi você que errou!!!” Mas não é bem assim. O mito da foto sem nenhuma interferência é um sonho com bases viciadas, pois a mera formação da imagem numa câmera digital tem por caminho a conversão padrão do RAW e a aplicação de contraste determinado pela fábrica da câmera (caso do Photoshop), ou por quem fez o conversor, e não existe neutralidade nenhuma nisso. Uma mesma foto convertida em conversores distintos produzirá resultados distintos mesmo no default do conversor. E mesmo na época do filme cada filme trazia um resultado um pouco diferente.

O tratamento da fotografia, sobre a melhor captura possível, depende de qual mensagem desejamos enfatizar. O que é mais importante? O que desejamos enfatizar? O que desejamos quase anular? Olhar para a fotografia e perceber o que se deseja parece muito simples, mas não é. Na prática isso constitui uma terceira etapa criativa, e a grande maioria dos fotógrafos não percebe isso. Em uma primeira etapa, a foto é aquela. Em uma segunda, podemos procurar tratamentos automáticos –e sim, isto pode ser uma melhoria. Mas o tratamento localizado exige muito mais. Exige uma visão de finalidade, uma clareza da mensagem contida na fotografia, uma visão do que melhorará uma parte, e que fará da outra parte um coadjuvante.

Vamos pegar esta fotografia para examinar. Ela nasce de um filme feito, um Filme Kodak ProImage 200 em uma câmera Kiev IV, lente Jupiter 8, 52mm. Muitas vezes eu saía para passear e fotografar neste lugar, São Pedro da Serra, onde tive casa por muitos anos. E fotografava. Na rua do lado havia uma serraria onde eu comprava madeira para as obras, e lá eu fotografava um pouco. Na rua desta serraria, do outro lado, eu vi a cena e fotografei. Voltando ao Rio, mandei revelar o negativo e escanear, no caso mais ou menos 6mp.

É preciso entender que 6mp escaneados não equivalem aos 6mp de uma câmera, porque cada pixel do escaneamento contém as três cores, enquanto o pixel da fotografia digital contém apenas uma, verde, azul, vermelho, que depois é misturada com as vizinha para se chegar ao tom certo.

 

08990004-1

Escaneamento do filme, sem tratamento

Pois bem, a fotografia, sem tratamento, mostra, mas não nos faz mergulhar no assunto. Foi feita em 2005, janeiro, e ficou durante todos esses anos jogada no diretório, eu olhava para ela e algo ali me fazia falta, embora a foto tivesse também algo me atraindo.

Hoje, pela manhã, olhando os arquivos de fotografias, passei por ela novamente. Peguei a dita e resolvi, com o DxO FilmPack 3 melhorar seus contrastes. Fiz isso, usando a opção Fuji VelviaTM 50 e aí comecei a gostar do resultado…

08990004_DxOFP-1

Tratada no DxO FilmPack 3

Mexi depois um pouco no contraste e postei a dita no Facebook. Ótimo, elogios, etc.

08990004_DxOFP

Um pouco mais fechada, as plantas mais fechadas, sem correção de região

Mas o dia foi passando e ao olhar a foto voltei à minha questão: Há uma espécie de túnel de sombras que conduzem ao cavalo. O cavalo não apenas está no lugar melhor (cada orelha em uma posição “nobre” compositiva, uma no terço da foto, outra na divisão áurea da largura da foto), mas está na ilha de luz dentro da foto. Nosso olhar vai naturalmente para ele.

08990004_DxOFPb2

O terço e a divisão áurea (a mais externa é o terço)

Nesse ponto, abri a foto já tratada e defini, com a ferramenta de seleção pontilhada e de forma livre, a região que devia ser escurecida. Basicamente, em duas mascaras uma abrangendo menos, outra abrangendo mais, escureci a folhagem envoltória, deixando a “janela” de luz sobre o cavalo. Pronto!

08990004_DxOFPb

Foto pronta, tratamento geral e localizado

O tratamento de uma fotografia deve seguir, buscar aquilo que hierarquicamente é importante, ressaltar isso e por vários meios diminuir a força do entorno. Na foto inicial se via o geral, o cavalo chamava atenção, mas não suficientemente. Ele não mostrava tão claramente ser o tema da foto. Na última foto ele é claramente a parte mais importante.

A foto recebeu algum tratamento geral, no DxO FilmPack 3, recebeu algum contraste maior e isso foi a etapa 1. Já se aproximou do desejado.

E então recebeu o tratamento localizado, tornando a mensagem da foto – o cavalo – claramente superior na atenção que damos ao retângulo. Fui fazendo e compreendendo. Um tanto desse tipo de tratamento podemos intuir, mas um tanto descobrimos fazendo. Ao fazermos isso damos ênfase a uma mensagem sobre a percepção geral.

———————————–

Para a feitura deste artigo foram usados os programas DxO FilmPack 3 e Photoshop CC, além do Word. Todos os programas usados regularmente licenciados.

Written by Ivan de Almeida

14 de janeiro de 2016 at 8:16 pm

Publicado em Sem categoria

olhar, como se treina.

with 4 comments

O Olhar, como se treina.

Ivan de Almeida, julho de 2012

[110723quadrado03] 7

O objeto? Ou o reflexo? Qual é o objeto desta foto?

Quando entrei no Jardim de Infância, alguém comentou eu ser ambidestro. Isso ouvido pelos então responsáveis por mim era ruim: eu deveria ser definido e definido no uso da mão direita, destro. Ensinar-me-iam, depois, a escrever, entre outras coisas, então a mão direita era a mais própria para ser ensinada, não por dom meu, mas porque o mundo estava preparado para a destreza. O mundo é assim orientado, os objetos são, em grande parte, feitos para destros. O que não se diz é que os objetos para destros multiplicam os destros. Fui aprendendo a escrever com a direita, a direita preponderou pelo hábito e muita coisa que pensamos em nós serem “de nascimento” são hábitos adquiridos muito cedo. Desenhei, escrevi, liguei e desliguei as coisas com a mão direita. Há muitos anos, entendendo como nós nos tornamos o que somos por camadas sobre camadas de treinamento, tantas que acreditamos serem as camadas mais antigas e profundas dons, características orgânicas de nascimento. Comecei a buscar em mim atos que contrariassem esse treinamento de vida exatamente para ver o quanto eram inatos, o quanto eram adquiridos. Mudei algumas coisas, embora não muito, pois mais queria viver com a certeza da opção do que treinar um corpo/mente pluri-capazes. Há mais ou menos uns 20 anos comecei a fazer a barba com a mão esquerda. Isto era simples, era um ato isolado, juntava atenção e perícia. Fazer com a mão esquerda não afetaria minha vida, mas me mostraria o grau de dependência verdadeiro relativo ao treinamento. Tornei-me plenamente hábil em fazer a barba com a mão esquerda. No início era lenta, era estranho fazer, exigia grande atenção, mas foi ficando solto, foi ficando natural de modo que hoje faço a barba com a mão esquerda todo dia, há quase 20 anos faço com a esquerda e na maior parte dos anos, tirando um breve início disso de menos de dois meses, faço tão naturalmente que nem penso nisso. Capricho na barba, não no método, que tornou-se natural. Faço a barba tomando banho, então não me vejo no espelho, faço a barba cegamente, só com consciência perceptiva e boa atenção. Todo dia. Todo dia sem nenhuma atenção especial pelo fato de ser desde então com a mão esquerda. Nesses meses, ficando em casa, por vezes vou à cozinha e lavo a louça, lavo o que lá estiver. Reformei a cozinha mas tive preguiça de instalar a máquina de lavar, foram meses sem ela funcionar, embora existente e no vão feito para ela. Há uns dois meses está funcionando, nós a ligamos ao tubo de saída e de entrada, enfim, é novinha embora já tenha um ano. É novinha e pouquíssimo usada -dois meses. Então, ao lavar talheres e pratos eu muitas vezes buscava ser artificialmente canhoto, igual fizera no fazer a barba. Não tive ainda disciplina para fazer disso o normal, mesmo porque são questões interessantíssimas e mais complexas, pois ao lavar louça uma a segura, outra passa nela a espuma de lavagem. É um jogo de atenção interessantíssimo inverter, pois inverte-se as duas, a função das duas mãos e é muito claro que não é um dom ser destro, é um treinamento. Mudando a função das mãos na lavagem de um talher (um segura escolhendo posição e a mudando, outro esfrega) são as duas mãos que precisam de novo treino, não é, como na barba, só a mão e o braço esquerdo. Pesquisar sobre a nossa vida nos hábitos motores. Parece que não, mas isso é buscar a verdadeira liberdade, pois a verdadeira liberdade é não ser escravo dos muitos treinamentos lá na base de tudo em nós. Na fotografia treina-se o olhar, o olhar fotográfico não é, o que tantos tolos acreditam, um dom. É algo aprendido. Aprendemos a perceber, aprendemos a ouvir música, aprendemos a estética. Atualmente tenho orbitado muito os reflexos e isso me fez observar sem parar os reflexos em latarias dos carros, que passei a vida sem reparar. O objetivo fotográfico está me reeducando perceptualmente, e isso é um jogo ótimo de jogar, é bom buscar, é bom conseguir, é bom olhar o que conseguimos como novas conquistas do ver. O objetivo fotográfico é o outro lado do objetivo de autoconhecimento, de desmonte do que parece natural para ver-se atrás dessa normalidade perceptiva e tirar daí uma estética fotográfica. Fui, agora há pouco, buscar o carro na revisão, numa concessionária… que delícia ver os reflexos daquele ambiente nas latarias dos carros lá parados!!!

Written by Ivan de Almeida

3 de julho de 2013 at 6:04 pm

Publicado em Sem categoria

Seguindo soltamente uma ideia

with 4 comments

Seguindo soltamente uma ideia

Nós somos as nossas ideias, e conforme as reconhecemos temos uma pequena liberdade.

3A4V0871rsr

Uma das coisas que para mim se tornaram claras na busca por linguagem fotográfica foi ser indispensável reconhecer em algumas fotos, mesmo quando toscas, mesmo quando ruins, um caminho interessante. Há, nos dias de hoje, uns três tipos de fotografia que são mais ou menos buscas minhas, não comuns. Uma foi gradualmente crescendo desde as primeiras fotos há cerca de nove anos atrás, outras vieram mais prontas e, de certa maneira, são tipos parentes daquele primeiro.

Não se trata de fazer fotografias só assim ou só assado. São ramos, são galhos da árvore maior. Não ganho dinheiro com fotografia, então, se pode perguntar: por que, Ivan, essa busca quase obsessiva?

Ora, responder isso não é fácil. Posso no máximo dizer que na fotografia entro por vezes em meio-transe, situação na qual o olho ali agarrado comporta-se diferentemente do olho na vida comum. Ele vê o que não vejo no dia a dia. Ele vê coisas que dependem da câmera para captura.

Fascina-me isso. É uma “viagem”, é deixar outro eu mesmo agir, é buscar o inútil, mas o grande brinquedo, o grande prazer de buscar imagens. E a fotografia, como a faço, não é uma busca de imagem específica, na verdade ela exige uma atenção à vida, não a faço em estúdio, não preparo nada, nada é feito a não ser enquadrar, compor, saber o que é o desejado. Mas esse saber não está pronto, é ali com o olho no visor ou no LCD nas câmeras pequenininhas em que algo ocorre, que minha mente viaja numa busca sem sentido prático algum, mas enorme sentido de viver, de perceber.

Fotografar para mim é parte do viver. Nem como hobby vejo isso, embora possa passar meses sem fazer uma só foto, ou ano, ou mesmo parar de fazer sem nenhuma dessas atitudes ser um aleijão. Porque o viver não é só isso, e isso é um jogo para esse vivo agora, um jogo do agora.

Num tempo quis algo da fotografia. Uma pequena fama, talvez. Felizmente isso foi se diluindo, ficando só o grande brinquedo, a grande busca dentro do sentido visual. Nós fazemos e nos compreendemos, se nisso prestarmos atenção.

Written by Ivan de Almeida

14 de junho de 2013 at 11:05 pm

Dentro da Fotografia – o jogo da composição

with 18 comments

Dentro da Fotografia – o jogo da composição

Ivan de Almeida

6 de maio de 2013

   “É por isso que certos pensamentos não podem ser comunicados às crianças, mesmo que elas esejam familiarizadas com as palavras necessárias. Pode estar faltando o conceito adequadamente generalizado que, por si só, assegura o pleno entendimento.” Pensamento e Linguagem – L.S. Vigotski
 

Fotografo há dezenas de anos, então vou deixar de lado todos os assuntos técnicos, mesmo porque é óbvio o conhecimento deles pela maioria dos leitores. Mas tenho  outro lado, que o que a fotografia tem e para ela é importantíssimo, e, de onde vim (da arquitetura na qual não mais trabalho e do estudo da percepção humana), há uma educação em parte do assunto, embora não tão profunda quanto deveria ser. Este lado é a composição.

A composição, quando lermos um livro do Le Corbusier (grande arquiteto francês, embora não fosse arquiteto –o irmão era-), importantíssimo na Arquitetura Moderna, leremos algo que é pouco dito e muito feito: a forma de proporcionalizar as construções, as fachadas, etc. Ele mostra fotografias de construções renascentistas e lá mostra a forma de obter proporção, isto é, as linhas organizadoras da posição das partes e seus tamanhos e proporções, que são linhas organizadoras ocultas mas existem. Mostra suas obras e como criou a ordem visual da fachada (a arquitetura dele ia muito além disso), isto é, o “desenho oculto” que organizava as janelas, os tamanhos, etc. Mostra nas obras dele, mostra nas obras renascentistas, mostra em obras gregas e em obras de civilizações anteriores à grega mais conhecida.

Ora, essa composição oculta, digamos assim, ao a olharmos nos deliciamos, sem entendermos a razão daquilo nos agradar tanto. Não é óbvio… Por que nos agrada? Esta é a resposta mais interessante… Uma composição nos agrada, falando da fotografia, porque embora na fotografia esteja tudo no papel, o olho não olha tudo de uma vez, e no mundo real, nos ambientes e construções, também não.  É uma coisa boba pouco percebida.

O olho consegue ver uma proporção de 5% do campo visual com nitidez, todo o resto do campo visual é embaçado. Mas nós não temos a impressão de ser assim, porque, aí vem a diferença nossa em relação à câmera, nosso olho muito rapidamente vai de parte em parte da cena voltando para esta parte o centro e a vê nítida, focaliza, e isso na nossa cabeça forma um conjunto. Mas, observe, movemos o olho, então é diferente da fotografia, pois ao movermos o olho movemos a direção da nossa “câmera interna”.

Mas, isto ainda é mais interessante, nosso olhar ao percorrer uma cena a percorre dentro de uma ordem de prioridade decorrente do que está sendo visto. Por isso ao ver algo nós olhamos para a coisa dentro de uma ordem de importância das coisas ali presentes e também de uma ordem formal. Essa ordem formal é importantíssima para o fotógrafo, o arquiteto, etc. A arrumação das coisas numa foto, digamos assim, nos induz a ver isso e não aquilo, nos induz a um ver o que é o objetivo da foto. E numa fachada de arquitetura idem, e numa decoração idem, e numa pintura idem. Há ênfase e há coisas não relevantes, e nosso olhar não vê as coisas irrelevantes. Não vê na visão normal, é claro, e se mandamos a pessoa examinar com cuidado tudo ela provavelmente verá muito mais coisas (não tudo).

Andamos na rua. Olhamos os carros, não olhamos os reflexos do mundo na lataria ou vidros dos carros. Ambos são visíveis, mas ignoramos uma das coisas visíveis porque nossa educação do olhar é uma. Uma ignora a outra.

Você vê isso quando anda na rua?

Somos fotógrafos. Então vemos coisas que os demais não veem, e devemos nos educar para vê-las. Ver o quê? Ora, ver não apenas as coisas retratadas mas sem consciência as proporções usadas, e essas proporções são, digamos, arrumações que jogam um bom jogo com os hábitos perceptuais, mesmo sendo esses hábitos pouco conhecidos.

Em termos tradicionais (na pintura, por exemplo), nos ensinamentos clássicos de composição, sendo que o Henri Cartier-Bresson foi assim educado por seus pais ligados à pintura de quadros, e ele, Bresson, estava sendo ensinado para pintura, as proporções clássicas todas são aprendidas. Número de Ouro, diagonais, terços, etc. etc. A fotografia do HCB é riquíssima nisso, é facilmente observável nisso. Evidentemente, para observar isso é preciso uma educação nisso.

Não significa um sofrimento enorme para a fotografia cumprir algo compositivo. Na medida em que nos educamos, vamos nos tornando habituais nisso e quase esquecendo que nos educamos, como se aquilo fosse natural, quando é educação estética. Aliás, a pior coisa da fotografia é a crença dos fotógrafos em “dom natural artístico”, pois isso os faz não estudarem os jogos de proporção, e por não estudarem ficam limitadíssimos. Acertam muitas, mas não acertam muitos tipos. No máximo desenvolvem um hábito em certos tipos.

Todos os grandes arquitetos estudaram isso. Todos os grandes pintores estudaram isso, muitos e muitos dos arquitetos mais conhecidos estudaram isso, mas é óbvio que ao vermos a obra ela não está ali com o método registrado. Mesmo na arquitetura aos olhos que não foram treinados para ver isso não veem, não percebem que isso existe ali. Acham só “bem composto”, ou “legal”, ou “fulano, você é artista”. Infelizmente as pessoas entendem artista como dom, e não como uma muito sutil educação sobre a percepção. O homem é complexo, então fazer arte não é só isso, isso é somado a outras tantas coisas, mas tudo é mutuamente definido, não é “isto ou aquilo”. No Rio de janeiro, por exemplo, há o Palácio Capanema, antigo Ministério da Educação quando o Rio era a capital. O prédio é belíssimo e é uma obra compositiva minuciosa, segue as idéias corbusianas incluindo nelas o requinte compositivo de forma absoluta. Mas o homem comum o acha um prédio lindo sem perceber o porquê. O homem comum não sabe ler as proporções, ela apenas acha uma delícia o belo que geram.

Bem… O estudo do proporcionamento é o item um, fácil de compreender. O estudo do jogo simbólico em face do proporcionamento é o item dois. Este é mais difícil de compreender em cada foto, mas um exemplo simples é um homem de perfil e uma casa. Caso o homem esteja proporcional à casa, nós lemos a foto como alguém que está entrando, saindo ou habitando aquilo. Caso o homem seja grande na fotografia e a casa pequena, aí vemos um homem que não pertence a ela, que está vendo de uma forma específica, etc. Ou seja, o significado é dado, em grande parte, por proporções e posições dentro da foto (falei de proporção, mas posição também, pois basta virar ao contrário o homem e ele muda de significado na foto).

Bem, tenho de encerrar esse papo… Foi feito para mostrar que entender a composição fotográfica é uma coisa maior. Que essa composição, minimamente e apenas abordando o principal, inclui proporção entre coisas, jogo de linhas, composição mesmo, como na arquitetura ou na pintura, assim como inclui o jogo de significados, que é a colocação das formas signficantes da fotografia, tamanhos, etc.

Toda fotografia é um discurso visual. Nenhuma fotografia é apenas aquela coisa lá fora que aparece na fotografia. A mais óbvia fotografia, a fachada de um palácio, um carro bonito, etc., joga o jogo compositivo, mesmo quando, como num palácio, o jogo é banal e comum.

Há outro jogo, este o importante para qualquer artista visual, que é aprender os jogos. O grande problema da fotografia é quando os fotógrafos acham que a composição boa provém do dom (embora possa provir de uma educação estética inconsciente) e por isso não estudam composição.

Antes, Fotografia. Agora, parte do mingau.

with 5 comments

Antes, Fotografia. Agora, parte do mingau.

Ivan de Almeida Junqueira

17 de janeiro de 1012

As imagens, antes poucas e por isso cada uma chamando a atenção de quem a via, hoje são o ambiente de viver. Ninguém presta tanta atenção ao ambiente costumeiro…

3A4V1491 copy

Os olhos do mundo são as cãmeras diversas, as de fotografia, as das televisões, as dos os telefones que filmam ou fotografam.

De repente, esses olhos deixaram de ser uma luta para lidar com o campo do olhar, das representações com ele algo relacionadas e buscadas, e passaram a ser o olhar oficial do ser humano, da humanidade. O mundo é assim, é a afirmação contida em tudo isso.

De repente, as descrições idealizadas, ou reforçadamente ruins, ou reforçadamente boas, ou repetindo estruturas de captura fotográfica como a infinidade de mares e águas lisas desenhadas pela longa exposição, que há cinco anos maravilhavamquem as achava na rede e agora enjoam e por aí vai.

Porque agora as descrições fotográficas não mais são coisas novas, as mesmas que foram novas antes no mundo digitqal,  hoje são repetições. Porque a linguagem de imagens na época dos filmes antes tinha algo de exceção, de mais raras no mundo e hoje é banal, banal no tosco mas também banal no esteticamente desenvolvido na corrente principal. O hoje diferente um pouco amanhã é banal.

E não há corrente privada. A corrente privada pode ser aquilo que só ao fotógrafo interessa, a família, as pessoas conhecidas, porque esse mundo da imagens paradoxalmente não abraça as pessoas, todas aquelas que são mostradas são idealizações, positivas e negativas. São mostradas quando se encaixam no mostrar tido como o normal, mas esse normal não é nada mais que uma visão padronizada.

Hoje, depois de ter comprado um corpo de cãmera carinho, olho para tudo isso e penso sobre o que fazer, e não desejo mais tanto um fazer que olhado é gostado, quase que busco apenas algo meu, uma visão minha, pessoas que gosto quando são fotos de pessoas, imagens que gosto querendo colocá-las em parede. Na minha parede, inicialmente, porque nenhuma imagem desse tipo que não aceite colocar na parede posso supor boa para outros.

Há nisso muitos enganos, e eu me engano. Ontem lutei para imprimir uma fotografia que me parecia boa na tela. A imprimi num bom papel A4, depois a imprimi grande, num bom papel A3. Bom papel para testes, não para final, é claro. Mas ao olhar a impressão maior, ao ensaiá-la na parede usando uma moldura genérica que uso para isso, vi-me desinteressado na fotografia. A boa para a tela é uma coisa boba para a parede, vistosinha mas sem permanência maior. Aceito meus enganos. Tento aprender com eles, confesso que ainda estou longe de aprender e para mim não é claro quando uma ficará boba e outra, que parece na tela quase sem força, ficará como desejo e suficiente para existir na parede.

Isso seria ingenuidade minha? Talvez um pouco, mas o fato de julgar a fotografia pela sua existência em papel e não a visão na tela, isso não julgo ingenuidade, embora seja, reconheço, menos episódios de julgamento devido à menor quantidade de impressões.

Estou numa fase engraçada. Não quero mais um monte de coisas, quero outras. Quero uma fotografia simples, poucas lentes usadas, pouca projeção futura. Não quero afirmação de uma fotografia, mas pura e simplesmente tentar fotografias que o olho possa suportar por dez anos sem enjoar-se, mesmo que no início ela pareça pouca. Isso, neste mundo de tantas imagens, é uma espécie de Yoga, de meditação nas imagens, na fotografia, no seu próprio olhar, em como olha, em como separa algo do mundo para existir no retângulo representado.

Por paradoxal que seja, essa etapa sem planos, sem convicções afirmativas, essa etapa que parece um enfraquecimento na verdade é vivida com calma, com tranquilidade, com prazer visual, especialmente naquilo realmente buscado.

A FALSA ARTE, A NOSSA ARTE, A TOLA NOSSA PARTE

leave a comment »

A FALSA ARTE, A NOSSA ARTE, A TOLA NOSSA PARTE

Ivan de Almeida Junqueira
janeiro de 2013

Antigamente olhava na Fatos e Fotos ou na Manchete e lá via um mundo que tinha de aprender. Hoje vejo na mídia toda, mesmo nas fotos “artísticas”, mera repetição.

O enorme significado da fotografia de nossa vida, o pequeno significado das tantas vistas todo dia, antigamente raras visões do mundo, hoje uma repetição quase insuportável da mesma coisa.

Todo dia aqui na internet vejo muitas fotos, muitas delas formalmente propositivas, muitas delas obviamente boas em soluções gerais.

Mas todo dia vejo várias, de modo que elas vão se tornando esquecíveis. Uma fotografia, vista ela num mundo menos cheio de imagens, é recordável para sempre, marca nosso olhar… Mas tantas…

Vejo fotos em PB de lagos ou mares alisados pelo tempo de exposição, com alguns poucos elementos ali, de pedra, de alguma construção.

Vejo fotos de pessoas ou de ambientes, que um pouco notáveis são notáveis conforme a moda visual da atualidade. Aliás, essa é a expressão: há uma moda visual, não a moda mais comum da publicidade, mas a “moda da arte” que não passa de moda, que não é de fato algo que nos enrede, que nos retenha, que nos faça navegar por ela sempre que a olhamos. Não, não fazem isso, no máximo cumprem o papel de ocuparem o lugar da imagem contemporânea. “olha, sou contemporânea (a imagem), a proposta do meu fotógrafo é contemporânea”.

Ai, ai, ai, isso me cansa, confesso, porque vivemos um mundo-época em que tudo é contemporâneo, então o hoje proposto amanhã é apenas um nada, um registrozinho igual a tantos, um algo que por si não será capaz de aglutinar nossa percepção simbólica e estética como a arte quando boa faz, e não fará isso porque terá sido superada por outro modelo de época -talvez o escorrido seja então colorido e não PB e outros modismos assim tolos.

Sempre a arte teve uma moda, digamos assim. Mas o hoje só tem isso quase sempre. Vemos em um museu aquilo que foi proposto arte e aceito como tal na época ou quinze anos atrás, e ao vermos já não há ali substrato capaz de nos deslocar esteticamente, de nos capturar esteticamente e nos manter por minutos, por um tempo, enredados. Não vemos isso, vemos algo cara-crachá, algo que apenas cumpre um papel de momentos e depois torna-se cansativo, embora a arte em seu bom aspecto nunca se torne cansativa.

O mundo que agora não quer arte, quer parte, quer somente do lado de quem produz um tronozinho entre tantos, e, do lado de quem observa, produz-se uma cadeira no auditório, auditório que para ele tem lugares limitados e fazem dos ocupantes um reconhecido como pessoa esclarecida e de bom gosto.

Esse jogo é pobre. Pode não ser pobre ao sustentar alguém, trabalho não é arte, alguma coisa pode ser dita arte mas ser tão somente uma produção compatível com as necessidades de giro do mundo. Mas é um jogo pobre no sentido de libertador, porque, aí a questão, não lança ao espectador o lugar deslocado do lugar midiático, mas sim uma confirmação, uma glorificação da estética midiática.

Nosso mundo é dos raros mundos-momentos nos quais a vanguarda artística não é sequer combatida, ao contrário, é vista com a mais conservadora visão de consagração artística. Onde a vanguarda artística é vastamente “compreendida” pelas principais instituições artísticas, que na verdade fazem dessa vanguarda apenas uma diversão de baixa exigência para o observador que assim acha ser também uma personalidade de refinado critério artístico, quando não é mais do que público de uma parte da indústria cultural atual. A arte visual no hoje em dia é mais relativa ao Teatro do que à arte visual tradicional. Faz-se a peça, as pessoas as veem, e aí vamos ao entretenimento seguinte. Este é o processo atual.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 148 outros seguidores