Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

Paratodos

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Paratodos

No shopping em Orlando, Flórida havia uma loja que era um estúdio de fotografia. Um estúdio aberto, visível através dos vidros, no qual havia um espaço de recepção, umas duas ou três ilhas de edição com monitores grandes e cadeiras para os clientes sentarem-se junto com o fotógrafo e escolherem as fotos e seu tratamento. Na sala dos fundos, que era visível através do vidro, um estúdio de dois ambientes com fundos infinitos, soft-boxes, flashes de sombrinha. Um fotógrafo fazia uma série de fotos com uma criança, estimulando-a a fazer piruetas e caretas enquanto fotografava e os pais assistiam, em um fundo infinito branco. Tudo visível, descomplicado. O fotógrafo fazia a coisa alegremente e sem afetação. O resultado de ótima qualidade era obtido rapidamente em padrões meio pré-definidos, e o cliente ali entrava, fazia as fotos, ia para a olocal de escolha e edição e saía com o produto em pouco tempo, participando todo o tempo do processo. O estúdio vendia as fotos e vendia também a experiência de tê-las feito. Tudo lúdico simples arejado. Nenhuma atitude artística, ensebada, misteriosa. Produto. Chamava-se Picture People.

Isso fez-me pensar sobre a inclinação da produção artística americana, voltada para o entretenimento muito mais do que para o cultivo das transcendências da arte. Por certo aspecto, toda arte americana faz-se primeiro espetáculo e produto antes de arte mesmo. Faz-se acessível. As fotos desse estúdio aqui no Brasil seriam vendidas como esforço artístico de um fotógrafo. Assinadas. “De autoria”. Lá são um produto, um produto fantástico, um “desenho de serviço”.

As fotos que estão em museus em grande parte não foram feitas para estarem neles. Foram feitas como produtos visuais, para serem vendidas a pessoas, para serem publicadas, para ilustrarem editoriais, para moda. Foram parar nos museus, mas não foram feitas para eles.

Abri anteontem o site de um gringo que vendia fine-prints de suas fotografias. Uma foto de cerca de 30X45 4m papel de 50X70, digamos, vendida por 140 dólares. Ou seja, cerca de 225 reais. Boas fotos, bem impressas, papéis de alta durabilidade, etc. Diga para um fotógrafo daqui para vender seus fine-prints por menos de 1000 reais e o cara ficará ofendido. “Quem você está pensando que sou?”. Ora, mesmo considerando a diferença do custo dos insumos, a visão é bastante diferente. Um quer vender. Cria mercadorias, e são mercadorias artísticas, porém não quer sentar em um trono esplêndido em um museu, quer vender, vender para pessoas comuns que gostam e colocam na parede. Vender para quem nos EUA pode pagar 140 dólares, e isso inclui gente de montão. Fotos assinadas, mas não numeradas.

Aqui não é assim. Aqui as fotos são feitas para uma pequena classe consumidora, a qual só a comprará com certificado de pedigree. Não é uma compra comum. Há nisso embutida aspirações de arte. Aqui as fotos têm de ser em série numerada e restrita, de preferência menos de 20 exemplares, ou não serão “exclusivas”.

O único fotógrafo que conheço com uma atitude despojada em relação a isso é o Ricardo Zerrenner, que tem um négócio de venda de fotos decorativas bem definido e estruturado, e já vi pessoalmente suas fotos e digo que têm excelente desempenho estético. São lindas fotos de motivos paisagísticos relacionados ao Rio de Janeiro. Não são em papel museológico, são impressões Lambda comuns em papel fotográfico. É um ótimo fotógrafo, com boa visão estética, mas não se emposta de artista para cobrar caro, conquanto seja dentro do escopo da fotografia como prática artística.

Outro dado da questão: Outro dia passei no Rei dos Quadros. Fui ao Shopping Downtown para acompanhar minha filha em uma atividade escolar e passando por lá via a loja “Rei dos Quadros”. Pois bem, lá são vendidos, já emoldurados, posters do Romero Brito. Grandes, não pequenos. Independentemente do juízo que cada um possa ter sobre a arte do Romero Brito, seu trabalho tem alto desempenho estético e comunicabilidade. 99 reais cada. Não dá para deixar de pensar que isso sim é levar estética para  casa das pessoas. 99 reais. Isso é direto, é fácil, alegra a vida e os olhos. Pega, paga e pendura na parede. Com toda a crítica que se queira fazer ao Romero Brito, seu trabalho tem desempenho estético muito superior à maioria das fotografias vendidas. Pessoalmente gosto da arte dele.

Mas não é para elite alguma, e talvez esse seja o grande pecado. Nesta Pindorama não importa o que é bom ou ruim, mas sim aquilo que serve para diferenciar socialmente, país que ainda preza mais a diferenciação ostensiva do que o valor de uso e um produto. Aqui ser barato é defeito, significa “ser ruim”.

Não sei. tenho pensado que todos os produtores de cultura no Brasil deveriam olhar menos para si mesmos mais para o consumidor. E fazer preços melhores, caso queiram de fato que sua produção seja pop. Pop é abreviação de popular.

Aqui prefere-se batalhar os benefícios da Lei Rouanet do que vender. Há algo errado nisso.

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Written by Ivan de Almeida

6 de junho de 2011 às 3:45 pm

4 Respostas

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  1. Li, certa vez, um texto do Duane Michals, em que ele dizia algo mais ou menos assim: “fotografe, não tente ser um artista”. Mantenho essa frase como um memorial interno.

    Douglas

    6 de junho de 2011 at 7:58 pm

    • Douglas, creio que há uma diferença de atitude nops dois povos. Um produz e depois é dito ou não artista, outro acha que é artista antes mesmo de produzir…

      Obrigado pelo comentário,
      Abraços

      Ivan de Almeida

      6 de junho de 2011 at 8:09 pm

  2. Ivan, concordo plenamente com o que diz, e acredito que o que ocorre no Brasil tem origem cultural.
    Entendo que é possível vender uma obra de arte também como obra decorativa, uma mera reprodução em escala, sem arranhar o conceito de exclusividade da obra original.
    Existem compradores para tudo, desde o material artístico caro e exclusivo ao barato material decorativo reproduzido em grande quantidade. Uma fotografia, por exemplo, pode ser vendida por R$1, se na forma de cartão postal, ou por R$10000, se negociados com grande empresa os seus direitos para uso publicitário. Ela é a mesma obra, continuará sendo arte, e nada mudará isso.

    Ricardo Zerrenner

    7 de junho de 2011 at 11:11 am

    • Olá, Ricardo;

      Obrigado por comentar aqui. Você sabe que sempre admirei sua maneira de lidar com a fotografia, franca, direta, sem subterfúgios, honesta. Sem mistificações, mas com qualidade evidente. O seu modelo de negócios, citei nesse artigo exatamente por isso, porque ele difere da forma brasileira de fazer as coisas tanto no método quanto no propósito.

      Fornecer fotografias para o público, esse público que demanda qualidade de vida, e essa qualidade refere-se também à qualidade estética dos ambientes e as coisas que tem na parede à sua volta. Fornecer fotografias para melhorar o ambiente em que as pessoas vivem, para lhes dar prazer estético, para lhes ajudar a habituar-se com um mundo estético. A fotografia tem seu aspecto de arte, mas a fotografia é um produto também. Muitos dos fotógrafos tradicionais, talvez mais conscientes disso que os atuais, recusavam-se a estipular limites para a quantidade de cópias de uma foto porque isso lhes soava uma traição ao que é a fotografia mesma.

      Como está dito no artigo, as fotografias que hoje estão nos museus não foram feitas para os museus. Foram parar lá por serem reconhecidas como notáveis, mas não foram feitas para serem arte exclusiva e rara, mas sim para comunicar, para entreteer, para dar prazer estético. Hoje me parece que se inverteu a atitude, antes mesmo da fotografia provar sua eficiência em deliciar, entreter, mostrar, ela já é feita para museu. Faz-se exclusiva, pouca, cara. E assim ela se distancia do público comum, das pessoas que precisam dela, das pessoas que a podem consumir.

      Um grande abraço,
      Ivan

      Ivan de Almeida

      7 de junho de 2011 at 12:27 pm


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