Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

Desenvolvimento (tratamento) e Interpretação da Imagem Fotográfica.

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Desenvolvimento (tratamento) e Interpretação da Imagem Fotográfica.

“Para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve” disse o gato do sorriso – Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll

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Há alguns meses quero escrever esse artigo. Li num fórum de fotografia um fotógrafo escrever, em um tom no qual não faltava uma pitada de ironia, que “ainda precisava aprender fotografia, porque não atinava sobre o que fosse a leitura de uma foto”. Não foi exatamente nesses termos, mas algo parecido.

A forma como a pessoa coloca a questão dá a impressão que a  interpretação de uma imagem, ou seja, sua leitura ou o entendimento de como é construída a mensagem e de qual é a mensagem não é mais que um passatempo esnobe. Que não é algo ligado de fato à fotografia, mas mera exibição de erudição, alheia ao processo “intuitivo” de fotografar.

Ora, essa maneira de ver implicita a defesa de uma fotografia feita sem pensamento, sem consciência do jogo de significados contidos numa imagem, como se esse jogo surgisse espontaneamente a partir de uma fotografia bem feita –talvez tecnicamente bem feita, pois as pessoas, mesmo aquelas defensoras da intuição, ao fotografar reconhecem a necessidade de aprender técnica fotográfica.

Na mesma mensagem lida,  o autor diz que não vê para que deva praticar ou desenvolver uma capacidade de leitura da imagem fotográfica. Bem, creio ser isso um grande engano, pois a fotografia não é uma miniaturização (ou macrificação) do mundo em suas realidades plenas, e sim uma forma de comunicação de idéias –idéias capazes de serem expressadas visualmente– e essas idéias, embora sejam articuladas visualmente, obedecem a uma espécie de sintaxe. Essa sintaxe consiste numa disposição particular dos objetos retratados dentro do retângulo fotográfico de forma a eles transmitirem uma idéia ao observador, idéia essa cuja descrição verbal pode nunca tornar-se consciente para ele, mas nem por isso deixa de impressioná-lo.

Ora, podemos imaginar uma experiência simples. Imaginemos termos três figuras recortadas. Um cão, um gato, um rato. Imaginemos agora uma folha de papel e vamos dispor essas três figuras na folha de papel. Conforme a posição das figuras, a mensagem visual muda. Podemos colocar, em uma linha, na frente o rato, no meio o gato, atrás o cão. O observador tenderá a interpretar “O gato persegue o rato e o cachorro persegue o gato”. Porém, se colocarmos numa ponta o cachorro e atrás dele o rato, e na outra ponta o gato olhando para eles, o observador é levado a pensar algo como “o rato se esconde atrás do cachorro para o gato não pegá-lo”. Assim, com os mesmos três símbolos visuais, podemos construir mensagens diferentes dependendo da sintaxe visual que os une. A prevalência da interpretação pode ser facilmente demonstrada por pesquisa, nos moldes daquilo mostrado neste blog no artigo “Composição Geométrica e Significado na Fotografia e nas Artes Visuais” .  Esse tipo de abordagem experimental permite mostrar haver interpretações de mensagens visuais que são prevalecentes, isto é, fazem parte do fundo intersubjetivo que permite a comuniação das mensagens visuais e de outras.

Ora, quando fotografamos, nós, através de escolhas como ângulo de tomada, comprimento focal, profundidade de campo, iluminação, exposição, construímos uma mensagem visual articulada por uma sintaxe, e conforme essas escolhas o resultado significará coisas distintas para o observador. Quanto mais o fotógrafo for consciente da mensagem, e, principalmente, dos elementos na fotografia que a constroem ou a reforçam, tanto mais ele pode articular isso na tomada da foto ou no tratamento.

É preciso, porém, dizer ser o assunto fácil de entender em linhas gerais quando falamos de cão, gato e rato, mas não tão fácil quando falamos de fotografia. Porque na fotografia os símbolos não são assim tão explícitos, não são de significados tão diretos. E uma fotografia é, em geral, mais complexa do que os esquemas-exemplo.

Além disso, a mensagem intentada pelo fotógrafo pode ser puramente visual-táctil, sem correspondente simbólico tão forte. O fotógrafo pode querer mostrar formas. As formas também são, em certo grau, simbólicas, elas sugerem interpretações e significados, mas isso é ainda menos palpável e necessita mais aprofundamento para ser entendido suficientemente.

Ao longo dos anos, convivendo com comunidades de fotógrafos, noto ser a questão do tratamento de imagens uma questão relativamente opaca para muitos. A razão disso é a maioria ter uma visão do assunto onde o ato da tomada da fotografia é separado e incomunicável com o tratamento. Toma-se a fotografia como um ato isolado e fechado em si mesmo, e após, sentado no computador, o fotógrafo olha aquele arquivo querendo “embelezá-lo” para mostrá-lo na rede aos companheiros de interesse. Esse embelezamento na maioria das vezes não possui um critério oriundo da própria fotografia. Ele é como uma camada postiça de açúcar colorido que se coloca em cima do bolo de aniversário (glacê). Assim, nessa etapa, quando a atitude é essa, são buscadas fórmulas prontas, plugins, modelos, reproduzir coisas que estão na moda ou foram vistas recentemente. E isto é aposto à fotografia sem razão alguma ligada à própria fotografia. “Vou passar para PB”. Por quê?  Por que razão a mensagem melhorará em PB?.

Ora, quando a fotografia em si tem uma mensagem visual suficiente, esse embelezamento supre a demanda. Fotógrafos mais experientes costumam obter fotografias com boa articulação interna, de modo a esse recobrimento embelezador suprir grande parte das necessidades. Poderíamos dizer, nesses casos, ter havido, por sedimentação de experiência,  uma adequação entre tomada e desenvolvimento da fotografia, isso se expressando por preferências do fotógrafo, mesmo ele não sendo consciente da ligação entre o tratamento e o aguçamento da mensagem fotográfica. A experiência, pura e simples, não meditada, aperfeiçoa a prática, embora em modo restrito e sem muita plasticidade.

A palavra aguçamento é muito boa para seguirmos. Podemos postular, para seguimento deste artigo, ser o tratamento (desenvolvimento) de uma fotografia um processo de aguçamento da mensagem nela contida. O fotógrafo faz uma tomada na qual certas coisas o interessam, e depois, no desenvolvimento, torna tais coisas mais evidentes ao observador. Esse tipo de tratamento é profundamente diferente daquele realizado sob a mera idéia do embelezamento. Nesse, não apenas o embelezamento é perseguido, mas também uma clarificação da mensagem. Não apenas a imagem toda deve ganhar visibilidade melhorada, mas a melhoria da visibilidade deve ser de tal tipo que aumente a força dos elementos da mensagem visual concebida pelo fotógrafo.

Ora, é muito simples perceber isso necessitar de uma prévia compreensão (leitura de sua própria fotografia), pelo fotógrafo, compreensão de qual é a mensagem visual da fotografia e de que elementos ela depende. Porque é essa compreensão que orientará o tratamento, que permitirá escolher entre dois caminhos, que permitirá entender quando algo precisa de mais ou menos contraste, quando outro algo precisa de tratamento localizado, quando os tons devem ser abaixados ou elevados. Esse entendimento permite ao fotógrafo lidar com a mensagem visual aperfeiçoando sua comunicabilidade. Sem esse entendimento o tratamento não corresponderá à mensagem visual a não ser por acaso.

Evidentemente, o desenvolvimento não é uma etapa na qual o fotógrafo apenas aguca aquilo previsto na tomada. Ao olhar a foto na tela, surgem oportunidades, são identificados elementos interessantes não totalmente previstos, e o fotógrafo então deve avaliar o quanto tais elementos podem melhorar a mensagem visual ou podem modificá-la para melhor. Ora, isso não significa menos leitura da imagem, mas, ao contrário, um segundo e mais aperfeiçoado nível de leitura, um segundo nível de reforçamento. Significa também ser o desenvolvimento uma etapa criativa que não apenas amplia o já imaginado na tomada, mas é também construtora.

IMG_2170

Esse artigo é ilustrado por duas fotografias (além do gráfico). Foram fotografias tomadas pela janela da minha casa. Chovia muito, e carros entrando por uma agulha de troca de pistas levantavam água como uma lancha no mar. Aquilo me interessou, e como tenho prática antiga de fazer pannings pela janela, montei a lente na câmera e me pus a fotografar os carros espargindo água. Bastante acostumado com pannings pela janela –que sempre prefiro fazer ao anoitecer- sabia os efeitos das luzes dos carros com suas cores (em um contexto com vários tipos de iluminação, conforme escolhemos uma como tom-referência as demais tornam-se luzes coloridas). Esse, então, foi o “projeto básico” das fotos. Enquadramento, captura do esguicho produzido pelos pneus, luzes coloridas. Há nesse projeto uma sintaxe esboçada, ele já implicita uma leitura posterior desses elementos como principais do conjunto. Naturalmente, o desenvolvimento procurou enfatizá-los. Não somente embelezar as fotos, mas dar ênfase a esses elementos, em cada foto maximizando as oportuindades por ela oferecidas. Foram feitos tratamentos localizados, especialmente na região do esguicho e do farol,  foi feito sharp localizado, saturações localizadas,  modificações de cores específicas as reforçando ou mudando o hue.  Os elementos, o farol dos carros, o esguicho, o contexto, cada uma dessas coisas recebeu o tratamento julgado necessário para ter a ênfase necessária na imagem.

Tratamento de imagem é um processo de enfatizar, de aguçar a mensagem visual, não apenas de embelezar a fotografia ou dar a ela um aspecto da moda do momento. Isso não pode ser feito sem o fotógrafo ter desenvolvido uma capacidade de leitura da mensagem visual na qual compreenda o que cada parte da imagem significa e o que ela faz na sua relação com as demais, na qual compreenda a importância relativa das coisas figuradas na fotografia. Não é possível ênfase sem se saber aquilo que precisa ser enfatizado. Por vezes é uma cor, por vezes é uma forma, por vezes é um contraste. Mas não é tão somente embelezamento, é definição de mensagem visual.

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12 Respostas

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  1. Ótimo! Conteúdo “pesado”, crítico e analítico. Guardei para releituras futuras.

    Raphael Günther

    19 de fevereiro de 2012 at 8:14 pm

    • Obrigado, Raphael.

      Ivan de Almeida

      19 de fevereiro de 2012 at 8:22 pm

  2. O artigo é óbvio! Só estava faltando alguém para traduzir esse pensamento, que também deveria ser óbvio, em palavras, e o amigo Ivan o fez muitíssimo bem!
    Depois, fica fácil… rsrs

    luizlaercio

    20 de fevereiro de 2012 at 1:23 am

    • risos.

      Ao terminar tive essa exata sensação, de ter escrito o óbvio mas bem explicado. Mas é espantoso como ocorrem dois fenômenos: a rejeição a adotar uma postura de atenção à sintaxe de uma imagem, como se isso destruisse seu encanto, e a aplicação de tratamento sem ligação com a imagem mesma, como uma coisa postiça.

      Obrigado pelo comentário.
      Grande abraço

      Ivan de Almeida

      20 de fevereiro de 2012 at 1:51 am

  3. Transcrevo aqui uma resposta a um amigo em um fórum de fotografia, que me perguntou sobre o plenejamento da captura:
    ——————————–

    De fato, Gomes, na captura há uma intenção, há uma análise. O artigo tenta mostrar que isso, haver essa análise é aquilo que possibilita progredir de passo em passo indo da captura ao tratamento como um processo contínuo e não um processo separado. O gráfico que ilustra o artigo fala sobre isso.

    Ler fotografias, ou seja, adquirir o entendimento de como os símbolos e formas nela presente constroem mensagens, é uma capacidade que, quando adquirida é posta em movimento já ao olhar o visor. Assim, a fotografia já nasce construída e não “tirada” nem “capturada”. As expressões tirada e capturada indicam uma espécie de atribuição ao que está lá fora da responsabilidade pelo conteúdo da fotografia. Por isso prefiro as expressões “fazer” uma fotografia, ou “construir” uma fotografia.

    O artigo anterior, “Mentir para contar a verdade” https://fotografiaempalavras.wordpress.com/2012/02/07/543/ mostra uma construção de mensagem intencional desde a tomada da fotografia, uma construção na qual o fotógrafo (eu) estava completamente consciente do jogo de articulações simbólicas que os únicos quatro símbolos da foto provocariam. A madeira, o vulcão, o céu e a árvore. É uma fotografia boa como exemplo porque tem poucos elementos, dá para citá-los e separá-los, e porque as circunstâncias de tomada, como explicado no artigo citado, não “induziam” àquela narrativa, ao contrário, a narrativa é quase uma contradição das circunstâncias verdadeiras.

    O atual artigo liga-se àquele, é uma continuidade de assunto com outra descrição.

    Ora, é evidente que nem toda fotografia é construída desde o início com consciência total da narrativa. O próprio gráfico mostra uma região à esquerda não coberta pela intenção. As fotografias que fazemos trazem surpresas. Outro dia fiz fotos do treino de kung-fú que participo, aliás, fotos não muito existosas devido à complexidade do assunto, e em uma delas, no fundo, atrás da pessoa na postura fotografada, passava um gato cinza. Ora, o gato era invisível no visor, mas ele é um bonus. Porém, ao ver a foto na tela percebi que era um elemento passível de reforçamento na narrativa.

    Isto é muito diferente, contudo, de nada conceber na tomada. Dizem que Deus ajuda a quem se ajuda. É por aí. Um bonus, um imprevisto (ou um defeito, pois pode aparecer algo que atrapalhe) é um acaso que podemos ou não aproveitar, mas não é de acasos que se faz a prática fotográfica.

    Na fotografia abaixo, por exemplo. Fui aos Saltos de Petrohue, Patagônia Chilena. São extraoridnários, a água tem uma cor impossível e lança-se um pequeno lago através de um canal estreito na pedra, provocando redemoinho e cores azuis turquesas. Ora, como fotografar isso? É um problema, porque é preciso dar noção de tamanho, da fúria das águas, da cor, etc. Isto é um problema fotográfico a ser resolvido, não é apenas fotografar os saltos. No caso, optei por deixar grande parte do espaço para o redemoinho, mas esperar que o barco de passeio turístico que por lá circulava ocupasse a posição desejada para ele dar escala ao assunto, dar um conteúdo que somente a água não teria. Isso é planejamento, planejamento consciente. E ao tratar a foto, depois, minha atenção foi para o movimento da água de modo a enfatizar seu desenho, desenho esse que fez parte da tomada conscientemente.

    Não existiu captura sem planejamento e sem previsão dos caminhos do tratamento, e não existiu tratamento que não fosse enfatizar os elementos da tomada.

    Ivan de Almeida

    22 de fevereiro de 2012 at 2:25 pm

  4. Ótimo artigo, Ivan.
    Obrigado.

    Daniel Esser

    22 de fevereiro de 2012 at 3:02 pm

    • Sou eu quem agradece o comentário, Daniel.
      Grande abraço

      Ivan de Almeida

      22 de fevereiro de 2012 at 4:07 pm

  5. Bem, em primeiro lugar, parabéns pela foto, interessante e informativa.
    Aliás, a fotografia do carro, no artigo imediatamente anterior a este, é excelente.
    Ivan, eu prefiro outras expressões (verbo, na verdade) para o ato fotográfico.
    Odeio “tirar”, “bater”, “registrar”,”capturar”. Admito “construir”, “idealizar”,”arquitetar”.
    Mas uso mesmo “fotografar”.
    Sempre.
    “Vou fotografar”, “estou fotografando”, “vejam o que fotografei”.
    O simples verbo fotografar já traz dentro de si a intenção, o idealizado, o repertório imagético do autor, o enquadramento e a composição. E é técnico o suficiente para prever a escolha consciente do fotógrafo em relação à abertura, velocidade, escolha de objetiva, fotometria, filtragens.
    Obrigado pela reflexão (e pelo gráfico acima).
    Clicio

    clicio

    22 de fevereiro de 2012 at 9:15 pm

    • Obrigado, Clicio.

      Quando conversamos sobre fotografia terminamos tendo de mostrar fotografias exemplificadoras de nossas idéias. As fotos dos carros, infelizmente perdem muito com a redução, mas meu esforço nelas foi desenhar ao máximo o esguicho, esguicho que era aquilo buscado no ato de fotografar.

      Como você, não gosto de capturar, tirar, etc, verbos que denotam uma passividade no ato fotográfico. O artigo, na verdade, é aquele ilustrado pela foto do carro, mas a resposta ao AGomes ficou tão grande e tão complementar que resolvi transcrevê-la nos comentários. isso acontece frequentemente, haver comentários e respostas a eles que preenchem lacunas dos artigos, que dão mais concretude ao tema.

      Incomoda-me muitíssimo a resistência de muitos fotógrafos em considerarm que a fotografia é compreensível, e não um puro sensível. O artigo dialoga com isso, mostrando como a compreensão é a ferramenta que permite unificar o processo da captura ao final.

      Grande abraço,
      ivan

      Ivan de Almeida

      22 de fevereiro de 2012 at 10:06 pm

  6. Ivan,
    Belo artigo, muito bem escrito e de conteúdo fundamental para o ato de fotografar.
    Arquivado para futuras consultas, como já o fez o Rafael e tenho certeza muitos outros fotógrafos.
    Abraço,
    Daniel

    Daniel Costa

    28 de fevereiro de 2012 at 7:28 pm

    • Muito obrigado, Daniel.

      Ivan de Almeida

      28 de fevereiro de 2012 at 7:35 pm

  7. […] […]

    Anônimo

    4 de agosto de 2012 at 4:01 pm


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