Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

Tratamento e Significado na Fotografia

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Tratamento e Significado na Fotografia

Ivan de Almeida, janeiro de 2016

 

Na fotografia, o significado da imagem nem sempre prevalece na pura captura. Não é erro ou insuficiência do fotógrafo, é uma iluminação natural que não reforça a mensagem. Por isso, o tratar não é só mexer nos contrastes, mexer na conversão do RAW. Há fotos em que isso basta, mas, grosso modo, a grande maioria das fotografias se beneficia de tratamentos localizados.

Muitos, ao lerem isso, pulam da cadeira gritando: “Mas a foto deve ser boa! Caso não esteja, foi você que errou!!!” Mas não é bem assim. O mito da foto sem nenhuma interferência é um sonho com bases viciadas, pois a mera formação da imagem numa câmera digital tem por caminho a conversão padrão do RAW e a aplicação de contraste determinado pela fábrica da câmera (caso do Photoshop), ou por quem fez o conversor, e não existe neutralidade nenhuma nisso. Uma mesma foto convertida em conversores distintos produzirá resultados distintos mesmo no default do conversor. E mesmo na época do filme cada filme trazia um resultado um pouco diferente.

O tratamento da fotografia, sobre a melhor captura possível, depende de qual mensagem desejamos enfatizar. O que é mais importante? O que desejamos enfatizar? O que desejamos quase anular? Olhar para a fotografia e perceber o que se deseja parece muito simples, mas não é. Na prática isso constitui uma terceira etapa criativa, e a grande maioria dos fotógrafos não percebe isso. Em uma primeira etapa, a foto é aquela. Em uma segunda, podemos procurar tratamentos automáticos –e sim, isto pode ser uma melhoria. Mas o tratamento localizado exige muito mais. Exige uma visão de finalidade, uma clareza da mensagem contida na fotografia, uma visão do que melhorará uma parte, e que fará da outra parte um coadjuvante.

Vamos pegar esta fotografia para examinar. Ela nasce de um filme feito, um Filme Kodak ProImage 200 em uma câmera Kiev IV, lente Jupiter 8, 52mm. Muitas vezes eu saía para passear e fotografar neste lugar, São Pedro da Serra, onde tive casa por muitos anos. E fotografava. Na rua do lado havia uma serraria onde eu comprava madeira para as obras, e lá eu fotografava um pouco. Na rua desta serraria, do outro lado, eu vi a cena e fotografei. Voltando ao Rio, mandei revelar o negativo e escanear, no caso mais ou menos 6mp.

É preciso entender que 6mp escaneados não equivalem aos 6mp de uma câmera, porque cada pixel do escaneamento contém as três cores, enquanto o pixel da fotografia digital contém apenas uma, verde, azul, vermelho, que depois é misturada com as vizinha para se chegar ao tom certo.

 

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Escaneamento do filme, sem tratamento

Pois bem, a fotografia, sem tratamento, mostra, mas não nos faz mergulhar no assunto. Foi feita em 2005, janeiro, e ficou durante todos esses anos jogada no diretório, eu olhava para ela e algo ali me fazia falta, embora a foto tivesse também algo me atraindo.

Hoje, pela manhã, olhando os arquivos de fotografias, passei por ela novamente. Peguei a dita e resolvi, com o DxO FilmPack 3 melhorar seus contrastes. Fiz isso, usando a opção Fuji VelviaTM 50 e aí comecei a gostar do resultado…

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Tratada no DxO FilmPack 3

Mexi depois um pouco no contraste e postei a dita no Facebook. Ótimo, elogios, etc.

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Um pouco mais fechada, as plantas mais fechadas, sem correção de região

Mas o dia foi passando e ao olhar a foto voltei à minha questão: Há uma espécie de túnel de sombras que conduzem ao cavalo. O cavalo não apenas está no lugar melhor (cada orelha em uma posição “nobre” compositiva, uma no terço da foto, outra na divisão áurea da largura da foto), mas está na ilha de luz dentro da foto. Nosso olhar vai naturalmente para ele.

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O terço e a divisão áurea (a mais externa é o terço)

Nesse ponto, abri a foto já tratada e defini, com a ferramenta de seleção pontilhada e de forma livre, a região que devia ser escurecida. Basicamente, em duas mascaras uma abrangendo menos, outra abrangendo mais, escureci a folhagem envoltória, deixando a “janela” de luz sobre o cavalo. Pronto!

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Foto pronta, tratamento geral e localizado

O tratamento de uma fotografia deve seguir, buscar aquilo que hierarquicamente é importante, ressaltar isso e por vários meios diminuir a força do entorno. Na foto inicial se via o geral, o cavalo chamava atenção, mas não suficientemente. Ele não mostrava tão claramente ser o tema da foto. Na última foto ele é claramente a parte mais importante.

A foto recebeu algum tratamento geral, no DxO FilmPack 3, recebeu algum contraste maior e isso foi a etapa 1. Já se aproximou do desejado.

E então recebeu o tratamento localizado, tornando a mensagem da foto – o cavalo – claramente superior na atenção que damos ao retângulo. Fui fazendo e compreendendo. Um tanto desse tipo de tratamento podemos intuir, mas um tanto descobrimos fazendo. Ao fazermos isso damos ênfase a uma mensagem sobre a percepção geral.

———————————–

Para a feitura deste artigo foram usados os programas DxO FilmPack 3 e Photoshop CC, além do Word. Todos os programas usados regularmente licenciados.

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Written by Ivan de Almeida

14 de janeiro de 2016 às 8:16 pm

Publicado em Sem categoria

4 Respostas

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  1. vc me excluiu do face ? rss

    abdoabdala

    14 de janeiro de 2016 at 8:40 pm

    • Faz muito tempo que não o vejo na rede. Sim, provavelmente o deletei no Face, não me lembro exatamente quando nem a razão específica, se é que houve. De certo modo, minha conversa no Face transcende a fotografia, abrangendo assuntos pessoais.

      Ivan de Almeida

      14 de janeiro de 2016 at 10:27 pm

  2. Legal o texto, simples e claro, e com uma boa escolha da foto para ilustrar o processo. Também uso o DxO Filmpack para o tratamento inicial (que, para mim, na maior parte das vezes é o suficiente).

    Rodrigo Fernando Pereira

    24 de janeiro de 2016 at 8:05 pm

    • Obrigado, Rodrigo. Sinto falta de suas conversas, creia. Um grande abraço.

      Ivan de Almeida

      25 de janeiro de 2016 at 11:43 am


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