Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

A Fotografia Afetiva

with 4 comments

A Fotografia Afetiva

Ivan de Almeida, março de 2016

A vida fica nas fotografias, talvez a parte mais doce da vida.

IVAN9116

As fotografias, principalmente as fotografias familiares ou de amigos, depois de alguns anos nos emocionam.

Esta é uma coisa maravilhosa da fotografia, ela é um mecanismo onde a saudade encosta em nós. E algo através do qual nós vamos até o passado e lá lidamos com os nossos queridos, com os amigos, com alguém que nos deu atenção.

Sei que é engraçado pois isto aqui, afinal é um blog que fala de fotografia, mas creio que isto é um dos elementos do valor da imagem.

Creio que ser um fotógrafo é coisa tão diversificada que não cabe sequer tentar definir aqui. Há muitos fotógrafos, com muitas especialidades, com muitas utilidades. Nós mesmos, ou eu mesmo, aqui falando na primeira pessoa, exploro diversos temas, busco em diversos temas. A liberdade do fotógrafo não-profissional é para mim muito valiosa, porque a fotografia vira uma busca pessoal, um caminho de autoconhecimento e um caminho de aprendizado.

Aprendizado de quê? Bem, isto é abrangente do aprendizado de como vivemos, do que gostamos, de como é nossa presença na existência, o que vemos e o que, até o instante anterior, não víamos. Uma abordagem fotográfica que descobrimos é também um descobrimento existencial. Porque nós só fotografamos aquilo que nos interessa, só vemos o que nos interessa. E cada um fotografa mais uma coisa que as outras.

IVAN9118

Tenho amigos que são ótimos num tipo de fotografia e menos bons em outro tipo, por vezes uma diferença espantosa de qualidade compositiva, de abordagem, etc. Geralmente a fotografia humana é o Calcanhar de Aquiles, porque ali há algo além da habilidade, há a relação humana. Aquela pessoa, a presença daquela pessoa constrange o fotógrafo nesses casos. Porque ele acha que constrange a pessoa fotografada.

Muitos se embaraçam na fotografia humana. Não se sentem a vontade, não lidam bem com a vontade, a vaidade, a pessoalidade alheia. Entre as fotos que fiz há algumas que mostram a importância da pessoa, que mostram um caminho afetivo, e outras, da mesma pessoa, são sem graça. Porém quase nunca a pessoa se diz afetada, pois quase nada de pose eu peço, quase nada ou nada, na maioria das vezes.

111015SPS_romerito3-1

A fotografia de pessoa pode ser uma violência ou um carinho. Fotografamos e sabemos que a pessoa não consentiria. Esta é a violência. Violência fotográfica. É pegar alguém à força. Enganá-la. A outra postura é fotografamos ali atentos à pessoa, com consentimento implícito ou explícito. Já me aconteceu de parar de fotografar até mesmo o lugar, uma loja-atelier na serra, e descartar todas as fotos feitas –poucas- porque a pessoa ali manifestou desconfiança e desconforto. Desliguei a câmera na hora, apaguei na hora e ponto final. Como não o fotografara, não imaginei seu incômodo ia até os objetos.

Quando fazemos, digamos, três fotos de alguém quase seguidas, quase iguais, com o mesmo enquadramento, uma delas falará melhor conosco, mesmo as demais sendo também boas fotos. Há exceções, mas em geral uma será melhor, pegará o rosto em uma expressão melhor. Porque nós não somos mágicos, não podemos determinar a foto de alguém completamente.

É esse estado de atenção a coisa realmente interessante ao fotógrafo. Fotografar com atenção é quase um transe, é um transe leve. Nós embarcamos e ali já não somos nós, somos o olhar condutos que seguimos. Esta é uma das delícias fotográficas.

Anúncios

Written by Ivan de Almeida

4 de março de 2016 às 12:44 am

Publicado em Sem categoria

4 Respostas

Subscribe to comments with RSS.

  1. A fotografia é uma arte do tempo.. e como tal, ela é melancólica.

    Flavio Colker

    4 de março de 2016 at 1:24 am

    • Belíssimo comentário, Flavio. É a segunda vez que você, sabiamente, resume a coisa perfeitamente. Muito legal. Obrigado.

      Ivan de Almeida

      4 de março de 2016 at 1:43 am

  2. A fotografia afetiva é a verdadeira fotografia. É onde nos mostramos, no respeito ao próximo, na compaixão, no sentimento bom.
    Ótimo texto Ivan.
    Um abraço.

    peridapituba

    4 de março de 2016 at 2:07 am

    • A fotografia fria, a estética fria não me envolvem, são quase incômodas para mim, Peri. Assim como você, fotografo os próximos, os que gosto.

      Ivan de Almeida

      4 de março de 2016 at 2:11 am


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s