Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

Intersubjetividade e Poética

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Ivan de Almeida
setembro 2008

resposta a uma questão em um fórum de fotografia
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Essa talvez seja a questão. Quando dito, como foi:

“uma imagem captada é capaz de transmitir a mesma sensação a pessoas com experiências distintas,”

É exatamente aí que está o problema.

Porque nós vivemos dentro de uma sociedade, uma sociedade geral, que abrange todos os homens vivos e que já viveram, e uma sociedade próxima, a nossa cidade, o nosso país. E dentro da sociedade, nós não temos experiências TÃO DISTINTAS, temos experiências muito afinadas. Porque nós vivemos cercados dos mesmo objetos, impregnados da mesma lógica geral de pensamento, temos o mesmo “sistema operacional” instalado pela sociedade em nós desde nossa mais tenra infância.

Então acontece quando olhamos uma foto algo como quando abrimos um programa que roda em Windows e que nunca usamos. Mesmo nunca tendo usado, eu sei mais ou menos o que faz cada opção do menu do programa. Não é porque eu nasci sabendo, ou porque seja inato, mas sim porque o ambiente Windows é CONSISTENTE, isto é, ele referencia-se em experiências passadas do usuário, e essas experiências são comuns a todos os usuários do Windows. Nosso ambiente de vida também é consistente, ele tem muitos elementos iguais para todos.

É nesse campo das experiências comuns que se pratica a pesca poética, não no campo da particularidade, da pura subjetividade. A imagem repercute de forma semelhante nas pessoas exatamente porque elas têm experiências semelhantes, e não porque têm experiências distintas (porque em todo ser humano há aquilo que é muito semelhante aos outros e alguma coisa própria). Por isso venho insistindo em muitos textos, e parece que isso nunca é bem compreendido nem ouvido, que a poética não é subjetiva, mas sim intersubjetiva. Intersubjetividade é exatamente essa coisa comum evocada por uma imagem ou um texto.

Essa categoria, intersubjetividade, é muito bem usada pelo Gaston Bachelard em seus livros Poética do Fogo e Poética do Espaço, nos quais mostra exatamente que essas coisas, o espaço, o fogo, são associados em nós a uma série de maneiras de sentir, a uma série de recordações e memórias, então esse universo de recordações e memórias -que é comum a todos-, é a poética do fogo ou a poética do espaço.

É simples, Imaginem uma imagem de alguém sentado junto a uma lareira e praticamente sentirão o calor e o conforto do calor. Imaginem alguém abrigado num abrigo de ônibus enquanto cai uma tempestade, e imediatamente sentirão tanto a idéia de frio da chuva quanto o conforto relativo do abrigo. Essas são memórias e associações comuns, todos as as temos, todos já sentimos frio e o fogo aqueceu, todos tomamos chuva, então é aí, nesse fundo comum de experiências que está a possibilidade da poética.

Mas, ao fazermos uma obra, uma foto, não devemos ir diretamente à coisa, ou ela fica pobre. É preciso chegar a essas memórias com jeito, com estética. Pois a poética são essas memórias estetizadas, sutilizadas, e não diretas.

Enquanto se acha que cada um sente uma coisa diferente, nada se compreende da poética.

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