Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

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A vida ao nosso redor

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A vida ao nosso redor.

Ivan de Almeida
2017, janeiro

Estar presente. Não é um luxo, é o que somos. Somos nossa presença.

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A 43a fotografia digital que fiz. Julho de 2003

Durante muito tempo acreditei que ao fotografar estava, digamos, buscando ser um notável no mundo social. Fotógrafo! “Fulano é fotógrafo”, isto era uma coisa bacana lá na juventude. Na faculdade de arquitetura levava às vezes a câmera, uma Canon FT com uma lente luminosa f/1.4, e ela pendurada no pescoço eu me achava um cara “cabeça”. Isso foi lá pelos anos 70, de 1972 até fim de 1978.

Depois passei a lutar pela vida, pagar as contas, pagar as despesas de viver, e logo depois me casei e sou casado até hoje. A fotografia acontecia poucas vezes, por vezes para instrumentalizar um trabalho de faculdade da minha mulher ainda universitária.

Trabalhar, me sustentar no áspero tempo dos anos 80. Um Brasil que mergulhou em uma crise econômica terrível e nós, novos e bobos, a sofríamos. Fotografava pouco nessa época.

Ainda, durante muito tempo desta vida fotográfica de então fazia fotos em Preto e Branco e mandava revelar. Era mais barato. Não tinha laboratório, algumas vezes ajudei um amigo em uma revelação, mas não tinha, e os laboratórios domésticos eram sempre em Preto e Branco..

Quando comecei a ter filhos, as fotografias se tornaram importantes e comecei a fazer mais. Mas nessa altura a tal Canon, que era do meu pai (que não fotografava, por paradoxal que isto seja), passou a ser usada pelos irmãos mais novos. Perdi a exclusividade que tinha e aí usei para meu primeiro filho uma câmera emprestada por um amigo, acho que foi uma Praktica. Usei durante pouco tempo e depois resolvi comprar uma câmera para mim. Comprei uma Zenit 12Xs, russa, lembro até da compra num shopping. Uma câmera interessante, um tanto rude mas não muito mais rude que uma Praktica. A lente Helios 44m6 eu gosto e uso até hoje.

Fiz muitos filmes, mas é preciso entender que nesta época três filmes seguidos era muito, muitas fotos, ou seja, 108 fotos ou 110, dependendo do aproveitamento dos filmes pela câmera. O filme tinha 36/37 fotos.

Vivi feliz. Minhas fotografias dos filhos têm a abordagem das fotos que depois fiz com digitais, são tão boas quanto. Era o normal fotografar e nada ver, só depois de revelada viamos as fotos, então por vezes um filme começava hoje e só daqui a dois meses acabava, e já até esquecíamos a primeira parte.

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2005, filme na câmera Kiev IV e sua maravilhosa lente Jupiter 8

Em 2003 a fotografia digital estava começando a aparecer. Em julho de 2003 me dei de presente de aniversário uma camerazinha Canon A30. UAU! Descobri a liberdade que não havia no filme, descobri o “fotografe e veja”, descobri a quase inexistência de custo imediato. Comprei esta camerazinha por 800 reais (isto era caro na época) mais o custo da entrega. Mas era um quase nada. Sim, regulava velocidade e diafragma, o que para mim era essencial, mas tinha e imensidão de apenas UM megapixel e em JPEG. A primeira foto deste artigo foi feita com ela, aliás esta foto aqui mostrada foi a quadragésima terceira foto digital que fiz.

Fiquei com essa câmera menos de seis meses. Lá pelo meio desse tempo eu já sabia das limitações. Fascinado com a liberdade, queria também fotos que pudessem ser maiores nas cópias. Em final de novembro comprei uma Fuji s5000, e ali, em dezembro de 2003 começou o meu mergulho no RAW, onde acontece uma espécie de “revelação”, em um processo que nada tem de relação com a revelação do filme, mas em espírito sim, e na mesma medida que a revelação do filme conforma a fotografia (inexiste revelação neutra, exceto em cromos), a “revelação” do RAW idem.

Bem, a história seguinte foram duas histórias, a paixão pela fotografia e as trocas de câmeras. Hoje tenho seis câmeras digitais, acho, várias velhas mas que me interessam muito –por exemplo, a Fuji E550, já a comprei bem velha e baratinha, mas o sensor com os pixels inclinados em 45 graus é apaixonante.

Voltando ao parágrafo inicial, hoje entendo que a fotografia não me levará a lugar nenhum especial, não me dará fama alguma, mesmo algumas fotos agradando alguns. E hoje também percebo não desejar esta fama, desejo mais a busca íntima de mim mesmo, na qual a fotografia é ao mesmo tempo um brinquedo e um espelho no autoconhecimento.

Vejo hoje a fotografia como uma mentira mágica. Nossos olhos não funcionam como a lente, a formação de imagem é profundamente diferente, mas nós tomamos, nos iludindo, a fotografia como uma visão verdadeira. O homem se deixa enganar pelas teles que aproximam na fotografia coisas distantes, o homem se deixa enganar pelo foco generalizado ou pelo não foco, o homem se deixa enganar pelo resumo do ambiente que a fotografia faz. O homem não pensa na radical mentira que consiste em separar a fotografia do ambiente.

Hoje, não tendo finalidade maior, me sinto mais livre. A fotografia continua sendo um brinquedo, continua lidando com o emocional, continua brincando com nossos jogos perceptivos, isto sim um tema que me seduz há décadas, buscar entender a percepção.  Não entender o que seria de forma pura, mas como é usada por nós para, com ela treinada, acharmos que vemos o mundo real. O aspecto de mentira da fotografia quando consciente (e no que é consciente, pois nunca seremos conscientes totalmente) nos ensina sobre nossa presença e o jogo compositivo das imagens tem algo do “Conhece-te a ti mesmo”.

Desculpem-me o artigo de hoje. Falei muito e não disse muita coisa de útil para a fotografia.

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2002, Zenit com a Helios 44m6. Obra na serra.

Uma Busca Fotográfica: Sem Rumo!

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Uma Busca Fotográfica
A Busca Inicial: Sem Rumo!

Primeiro de uma série de artigos sobre as fotos feitas diariamente entre 20 de junho e 19 de julho de 2016.

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Entrada de um prédio-vila na Rua do Catete

Ontem, 19 de julho de 2016, terminei aliviado um ciclo fotográfico que impus a mim mesmo. Pode parecer engraçado ler isso, alguém impor algo a si mesmo uma tarefa com prazo fixo, mas talvez a personalidade seja tão plástica que por vezes preciso impor um prazo, para ter certeza do que será buscado.

Desta vez foram 30 dias de fotografias, todas em Preto e Banco, todas quadradas (acho que houve um dia só perdido), todas com a mesma câmera. A câmera foi uma Panasonic  LX7, sucessora infeliz de outras Panasonic LX que tive, a LX1 e a LX2, esta última quebrada na última viagem que fiz. Caiu no chão de uma geleira em Ushuaia, Argentina, no início deste ano.

Aí, para substituí-la comprei a LX7, e tem algo nela que sinceramente não gosto. A LX2 era honesta, a fotografia era aquela que enquadrávamos. As linhas retas eram maravilhosamente retas graças à lente. Pois bem, a partir de certo modelo, a Panasonic colocou uma lente mais clara porém… um tanto esférica. Esta chega a f/1.4, e tem uma grande angular mais aberta, mas a foto é gerada com alguma esfericidade, e corrigida pelo software interno da câmera ou do Photoshop. Aí que sofrimento! Detesto corrigir fotografias, detesto fotografias corrigidas em sua geometria. E, naturalmente, detesto esta característica da câmera…

Enfim, vamos vivendo, vamos fazendo o que podemos. Mas sinto muita pena da perda da LX2 na geleira de Ushuaia. Câmera honesta.

O CICLO

Pois bem, há um mês, terminando ou quase terminado uma obra aqui em casa, resolvi cumprir esse ciclo: Pelo menos uma fotografia por dia, em Preto e Branco , em RAW (aliás todas as minhas são em RAW), quadrada, já que esta câmera faz fotos quadradas realmente assim limitando o próprio RAW (esta é uma boa qualidade desta câmera).

Em 20 de junho saí com a câmera regulada para PB, pois aí a composição em Preto e Branco ficaria mais clara, e fotografei.

Hoje olhando as fotos do primeiro dia as acho sem graça, comparativamente. Sem rumo. Sem unidade na escolha do tema.

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Galpão na Rua das Laranjeiras onde eram vendidas plantas

Neste primeiro dia saí andando caoticamente, comecei fotografando na Rua do Catete, fotografei um pouco numa transversal e depois fui ao Parque Guinle, com esperanças em relação a fotos figurando partes dos lindos prédios de projeto do Lúcio Costa, um dos grandes arquitetos brasileiros.

Olhando os resultados, não foram os prédios que me seduziram mais. Fora os cantos de construções menos louvadas, mais comuns, porém mais íntimas.

Escolhi para primeira a foto que gostei mais, e as outras aquelas que me interessaram também, ainda hoje.

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Portaria cinquentista

Nesta etapa, o fato da lente curva estragar a foto quando usava os conversores de RAW que mais gosto (perfectRAW é o que mais gosto) e me exigirem uma segunda etapa em que fazia o “serviço” que a Panasonic e o Photoshop escondiam, me aborreceu. Convertia no perfectRAW, gerava uma verdade abaulada e tinha de usar o Photoshop depois para retificar, como a câmera fazia ocultamente. Chato isso. Mais tarde, na série, abandonei o perfectRAW pois o Photoshop resolvia já na conversão, embora continue gostando muito menos da conversão do Photoshop.

De toda forma, após a conversão em cores as fotos eram abertas no DxO Filmpack 3 e nele convertidas em Preto e Branco, em seguida esta convertida era reaberta no Photoshop para reduzi-la ao tamanho para exibição no Facebook e aplicação de sharp. Claro, tudo isso com mais acertos, variáveis conforme a fotografia.

Mas, voltando à questão, pois a busca não era técnica e sim psicológica e estética, esta primeira sessão não teve unidade. Uma coisa estranha, pois em geral minha fotografia tem essa unidade. Porém o início deste ciclo foi assim. Saí, passeei e fotografei, sem uma idéia, sem unidade.

Essas fotos mostram aquilo que gostei mais deste primeiro dia.

O QUE VIRÁ

Obviamente, não serão escritos 30 artigos. Talvez 3, talvez cinco. Mas o início é em si início, é apalpar aquilo que será feito sem saber muito o que será. E foi assim que começou esta série. E é assim que começam os artigos.

Vamos ver se amanhã ou depois.

Written by Ivan de Almeida

20 de julho de 2016 at 12:36 pm

Ênfase e Estilo

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Ênfase e Estilo

Ivan de Almeida, março de 2016

Nós vemos a nós mesmos ao notarmos o que nos interessa na fotografia, o que fazemos, o que e como enquadramos.

 

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Ontem, conversando na rede com um amigo, ele demonstrou interesse pelas fotografias que faço de pessoas. Paradoxalmente, o tipo de foto que ele faz é mais raro, mais acurado, mais dependente da precisão. A fotografia de pessoas implica em alguma espontaneidade. Ele faz paisagens em geral, com uma abordagem muito interessante onde a paisagem está longe e é vasta, é vazia, é imóvel. É claro, faz também outras coisas, mas o fulcro, o ponto de concentração me parece ser este.

E sou um admirador dessa fotografia. Caramba, é brutalmente boa, torna evidente que aquela produção, na sua abordagem, é uma produção superior e que ali há enorme quantidade de atenção e determinação. A atenção necessária para fazer é imensa. Fico bobo olhando várias de suas fotos.

Conversando comigo na rede, me perguntou sobre retratos, um ramo que faz pouco, e expressou esse fazer pouco como uma obrigação não cumprida, talvez, embora de forma leve e sutil. Fiquei pensando nisso. E pensei, com meus botões, que cada um tem sua produção, sua característica. É como comparar o Ansel Adams e o Cartier-Bresson. Um deles, o Adams, é sublime nas fotos de natureza, nas paisagens, isto lhe custava muito tempo e muita presença nos lugares naturais. Este item é fundamental, a presença em lugares remotos. Já o Bresson fotografava a vida diária, então tinha de estar no mundo comum, nas cidades, nos locais onde a vida humana pudesse ser parte do seu tema.

Com os devidos descontos no meu caso, ele toca na orquestra do Adams, eu toco na beirada da orquestra do Bresson.

Sou incapaz de fazer fotos de paisagens com sua ênfase. Nem me vem na cabeça, posso fazer paisagem, mas na minha há uma inserção, uma presença. Nas dele há algo transcendente, uma beleza pura.

Prefiro admirar. A obra alheia nos abre uma janela da percepção distinta do nosso existir.

 

 

Written by Ivan de Almeida

9 de março de 2016 at 12:37 pm

Seguindo soltamente uma ideia

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Seguindo soltamente uma ideia

Nós somos as nossas ideias, e conforme as reconhecemos temos uma pequena liberdade.

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Uma das coisas que para mim se tornaram claras na busca por linguagem fotográfica foi ser indispensável reconhecer em algumas fotos, mesmo quando toscas, mesmo quando ruins, um caminho interessante. Há, nos dias de hoje, uns três tipos de fotografia que são mais ou menos buscas minhas, não comuns. Uma foi gradualmente crescendo desde as primeiras fotos há cerca de nove anos atrás, outras vieram mais prontas e, de certa maneira, são tipos parentes daquele primeiro.

Não se trata de fazer fotografias só assim ou só assado. São ramos, são galhos da árvore maior. Não ganho dinheiro com fotografia, então, se pode perguntar: por que, Ivan, essa busca quase obsessiva?

Ora, responder isso não é fácil. Posso no máximo dizer que na fotografia entro por vezes em meio-transe, situação na qual o olho ali agarrado comporta-se diferentemente do olho na vida comum. Ele vê o que não vejo no dia a dia. Ele vê coisas que dependem da câmera para captura.

Fascina-me isso. É uma “viagem”, é deixar outro eu mesmo agir, é buscar o inútil, mas o grande brinquedo, o grande prazer de buscar imagens. E a fotografia, como a faço, não é uma busca de imagem específica, na verdade ela exige uma atenção à vida, não a faço em estúdio, não preparo nada, nada é feito a não ser enquadrar, compor, saber o que é o desejado. Mas esse saber não está pronto, é ali com o olho no visor ou no LCD nas câmeras pequenininhas em que algo ocorre, que minha mente viaja numa busca sem sentido prático algum, mas enorme sentido de viver, de perceber.

Fotografar para mim é parte do viver. Nem como hobby vejo isso, embora possa passar meses sem fazer uma só foto, ou ano, ou mesmo parar de fazer sem nenhuma dessas atitudes ser um aleijão. Porque o viver não é só isso, e isso é um jogo para esse vivo agora, um jogo do agora.

Num tempo quis algo da fotografia. Uma pequena fama, talvez. Felizmente isso foi se diluindo, ficando só o grande brinquedo, a grande busca dentro do sentido visual. Nós fazemos e nos compreendemos, se nisso prestarmos atenção.

Written by Ivan de Almeida

14 de junho de 2013 at 11:05 pm

Antes, Fotografia. Agora, parte do mingau.

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Antes, Fotografia. Agora, parte do mingau.

Ivan de Almeida Junqueira

17 de janeiro de 1012

As imagens, antes poucas e por isso cada uma chamando a atenção de quem a via, hoje são o ambiente de viver. Ninguém presta tanta atenção ao ambiente costumeiro…

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Os olhos do mundo são as cãmeras diversas, as de fotografia, as das televisões, as dos os telefones que filmam ou fotografam.

De repente, esses olhos deixaram de ser uma luta para lidar com o campo do olhar, das representações com ele algo relacionadas e buscadas, e passaram a ser o olhar oficial do ser humano, da humanidade. O mundo é assim, é a afirmação contida em tudo isso.

De repente, as descrições idealizadas, ou reforçadamente ruins, ou reforçadamente boas, ou repetindo estruturas de captura fotográfica como a infinidade de mares e águas lisas desenhadas pela longa exposição, que há cinco anos maravilhavamquem as achava na rede e agora enjoam e por aí vai.

Porque agora as descrições fotográficas não mais são coisas novas, as mesmas que foram novas antes no mundo digitqal,  hoje são repetições. Porque a linguagem de imagens na época dos filmes antes tinha algo de exceção, de mais raras no mundo e hoje é banal, banal no tosco mas também banal no esteticamente desenvolvido na corrente principal. O hoje diferente um pouco amanhã é banal.

E não há corrente privada. A corrente privada pode ser aquilo que só ao fotógrafo interessa, a família, as pessoas conhecidas, porque esse mundo da imagens paradoxalmente não abraça as pessoas, todas aquelas que são mostradas são idealizações, positivas e negativas. São mostradas quando se encaixam no mostrar tido como o normal, mas esse normal não é nada mais que uma visão padronizada.

Hoje, depois de ter comprado um corpo de cãmera carinho, olho para tudo isso e penso sobre o que fazer, e não desejo mais tanto um fazer que olhado é gostado, quase que busco apenas algo meu, uma visão minha, pessoas que gosto quando são fotos de pessoas, imagens que gosto querendo colocá-las em parede. Na minha parede, inicialmente, porque nenhuma imagem desse tipo que não aceite colocar na parede posso supor boa para outros.

Há nisso muitos enganos, e eu me engano. Ontem lutei para imprimir uma fotografia que me parecia boa na tela. A imprimi num bom papel A4, depois a imprimi grande, num bom papel A3. Bom papel para testes, não para final, é claro. Mas ao olhar a impressão maior, ao ensaiá-la na parede usando uma moldura genérica que uso para isso, vi-me desinteressado na fotografia. A boa para a tela é uma coisa boba para a parede, vistosinha mas sem permanência maior. Aceito meus enganos. Tento aprender com eles, confesso que ainda estou longe de aprender e para mim não é claro quando uma ficará boba e outra, que parece na tela quase sem força, ficará como desejo e suficiente para existir na parede.

Isso seria ingenuidade minha? Talvez um pouco, mas o fato de julgar a fotografia pela sua existência em papel e não a visão na tela, isso não julgo ingenuidade, embora seja, reconheço, menos episódios de julgamento devido à menor quantidade de impressões.

Estou numa fase engraçada. Não quero mais um monte de coisas, quero outras. Quero uma fotografia simples, poucas lentes usadas, pouca projeção futura. Não quero afirmação de uma fotografia, mas pura e simplesmente tentar fotografias que o olho possa suportar por dez anos sem enjoar-se, mesmo que no início ela pareça pouca. Isso, neste mundo de tantas imagens, é uma espécie de Yoga, de meditação nas imagens, na fotografia, no seu próprio olhar, em como olha, em como separa algo do mundo para existir no retângulo representado.

Por paradoxal que seja, essa etapa sem planos, sem convicções afirmativas, essa etapa que parece um enfraquecimento na verdade é vivida com calma, com tranquilidade, com prazer visual, especialmente naquilo realmente buscado.

Prazer, aprendizado, fotografia

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Prazer, aprendizado, fotografia

Não somos o que nascemos. Somos o que aprendemos. Pouco é o aprendizado formal, e por isso chamamos de dom o que provém de nossa vida normal, de nosso aprendizado ambiental humano.

Ficou mais de ano no diretório. Vi pela primeira vez, a achei confusa. Vi anteontem e a achei estruturada, com a estrutura bastante articulada, cada canto demandado.

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Na verdade este texto é uma parte de um diálogo com amigos em um pequeno fórum. Na fotografia, em termos compositivos, de construção de mensagens, há por vezes muitas reações, como se tudo para o fotógrafo fosse “de nascimento”, “pura inspiração”, e esses por vezes sequer olham suas fotos muito ainda toscas desde quando começaram ou numca as relacionam com outras coisas que sabiam. Outros recusam um processo de aprendizado, não o recusam conscientemente , mas em mil maneiras de nunca cumpri-lo

Na faculdade de arquitetura, lá pelo iníco dos anos 70, cada tema, cada trabalho na cadeira Plástica 1 nós  alunos nos “rebelávamos” por ter de comprir algo, como se esse algo fosse uma limitação da nossa criatividade. Muitos anos depois sei que essa tarefa definida é um caminho de progresso, de inclusão de métodos e idéias formais, enquanto que meramente seguir a criatividade é menor, porque ali, naquela época, nada sequer havia em mim de desenvolvimento formal dela.

Assim é na fotografia. Quando na fotografia se pede alguma coisa a quem se está tentando ensinar, muitos gritam “mas isso é limitante!”. Ora, esse é o método, o que não implica em não prticá-lo divertindo-se.

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Na fotografia, a gente brinca e busca.  Toda criação visual é inseparável da brincadeira no sentido do envolvimento sensorial e de uma vontade quase afetiva em relação ao belo. E a grande graça é unir o brincar e o buscar, isto é, saber buscar na dose exata de isso ser atenção é delícia e, ao mesmo tempo, ser uma busca de descobertas, mas não uma coisa chata, monótona. Afinal, fazemos fotografia, de certa forma, rapidamente. Ontem peguei a câmera nova que chegara anteontem e fiz aqui em casa, usando a mesa bagunçada de centro, fotos com diagonais. Boas? Não, banais, sem assunto bom, mas eu mesmo me tratando de saúde não estou podendo nem sair até o outro lado da rua em um parque para fotografar. Mas é bobo, banal, é como uma brincadeira, não uma tarefa difícil e chata.

Quando a pessoa exige de si tudo ao mesmo tempo, aí não dá certo. Ela tem de fazer aquilo que para ela já é fácil enquanto treina o detalhe, o item, mas tudo isso mantendo a coisa no nível da brincadeira instigante, e não de uma obrigação chata. Ora meu Deus, se eu for ali no parque da frente faria 10 fotos com diagonais, talvez não 10 porque perderia a paciência, mas faria sem aborrecimento, brincando de fazer. É sério e nada sério ao mesmo tempo, o sério não pode tirar a coisa da esfera da brincadeira no bom sentido, porque a criatividade sempre tem algo a ver com a brincadeira, e sem ser brincadeira não há criatividade. Nas atividades em que há criatividade a obsessão é uma motivação do criador, mas o fulcro dessa obsessão é a brincadeira que o fez apaixonado pelo desejo de resultado. Uma coisa Dionisíaca, como se diz por aí, e não Apolínea, ou seja, mais para o prazer, para a brincadeira.

Quando falo disso, estou, digamos, propondo uma brincadeira que faz aprender. Todas as artes são assim, a bailarina aprende a bailar com muito esforço, mas aprende porque isso a diverte, a recompensa positivamente, dionisiacamente. Todos os que se dedicam a essas atividades devem ao mesmo tempo seguir a vontade dionisíaca, pois a seguindo as pequenas tentativas árduas, ou aparentemente árduas, não são obrigações, são temas, são coisas para mergulhar e gostar.

Não conseguir é frustrante, eu sei. Mas não conseguir provém de várias coisas… de uma rejeição ao tema, em nome de uma “liberdade” inexistente, de uma maneira de os exercícios-brincadeiras ver como trabalhos, de uma maneira de ver que ignorar que basta ir ali pertinho e fazer o “dever”, sem temas maiores. Basta entender o caminho. Essa rejeição é de quem toma a tarefa como Apolínea, coisa militar, obrigação sem graça. É só uma brincadeira… mas a pessoa sente-se afrontada por ela.

Nada ensina definitivamente a pessoa. O que ensina é ela ver como organizar visualmente uma fotografia pode ser muito melhor em termos de comunicação, em termos de estética. É ela ver que a estética não é espontânea, que todos os que se treinam em artes, faculdade de belas-artes, por exemplo, passam anos se acostumando, consciente ou inconscientemente, com a composição. A diferença entre o consciente e o inconsciente é somente que o consciente -saber o que está fazendo- amplia o campo, amplia as possibilidades, enquanto a mera cópia de esquemas inconsciente é limitante. E que é mais rápido, no campo da fotografia, e fácil, mostrar a alguém provindo de outra área a lógica implícita.

Tudo é uma brincadeira. Dionisíaca, como toda brincadeira. Mas é uma brincadeira que não é a coisa rasa, a preguiça, a crença no dom. É a brincadeira como aquela que deseja ser mais brincadeira, como o camarada que ganha uma caixa de Lego e logo deseja outra para poder brincar mais. Aprender em fotografia é isso, é ganhar uma caixa de lego e desejar outra caixa, outro aprendizado para poder brincar melhor.

Written by Ivan de Almeida

8 de dezembro de 2012 at 2:23 pm

Publicidade, vida social e fotografia

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Publicidade, vida social e fotografia.

texto de setembro de 2006, publicado no Ziguezague em junho de 2012

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Há algum tempo venho falando nos fóruns e listas sobre a estética publicitária. Cabem aqui alguns comentários sobre ela.

1) Do ponto de vista da dinâmica social, todo o conjunto chamado publicidade é essencial para manter a mais-repressão falada pelo Marcuse no livro A Ideologia da Sociedade Industrial e no Eros e Civilização. Provavelmente a publicidade é o ponto central nessa manutenção, pois ela impõe à sociedade novas necessidades incessantemente; sejam novos produtos, sejam produtos já existentes em níveis de aperfeiçoamento diferenciado, tantas vezes produtos descasados do uso efetivo, da utilidade efetiva, mas nisso desenhando um estilo de vida, por ela bom. Nesse ponto de vista, a publicidade é a corrente que prende nossos pés como indivíduos e que mantém toda a sociedade em uma cadeia de interações de natureza desumana e violenta perseguindo coisas que nem sequer são necessárias nem melhoram a vida em nada. Mantém os indivíduos perseguindo metas falsas e ilusórias. Luta-se, rouba-se, corrompe-se, morre-se de trabalhar, vive-se egoisticamente. Para quê? Apenas para poder ocupar lugar imaginário do consumidor, podendo ser de coisas ou de bens inefáveis como imagem, poder, etc.

2) Em um segundo nível, a publicidade pesca no desejo, aquela categoria insanável Freudiana. A falta, essa é a verdadeira matéria de trabalho da publicidade. Ela cultiva a falta, ela mantém-nos na falta, ela dá relevo à falta e até a inventa. Sem a falta não faríamos o que fazemos por bens. Como a falta verdadeira ou não há ou é da esfera do afeto, a publicidade gera falsas faltas para nos manter mobilizados. Nesse sentido, a publicidade é alienante, pois substitui a busca dos valores afetivos e pessoais por uma busca de idealizações descasadas de significado afetivo.

3) Do ponto de vista estético/simbólico, a publicidade opera um jogo de evocações. De evocações de personagens, de modelos, de formas de vida assépticas, perfeitas. Assim, a fotografia publicitária é antes de tudo uma fotografia anti-vida. Ela precisa recusar a vida, precisa recusar o caos cotidiano. Mesmo quando aborda o sofrimento ou condições ruins de vida, elas são reduzidas pela publicidade a clichês, na má condição de vida nada há de bom, na boa condição nada há de ruim, na cozinha não há desgaste das panelas, tudo é descarnado, isolado. A realidade é múltipla, a publicidade unidimensional

A fotografia publicitária exige antes de qualquer outra coisa o controle da luz. A característica da fotografia publicitária é a luz absurdamente controlada para produzir a idealização pretendida, geralmente com “tudo mostrado”, ausência de sombras profundas, etc.

Há não uma poética, mas há uma narrativa. Não cabe falar em poética, pois o que há é somente uma poética degradada, confirmativa. Não há, como na verdadeira poética, um deslocamento do universo de significados corriqueiros que transcende o hábito mental e remete o observador a outras esferas, e sim uma confirmação, o mais direta e plana possível, desses significados. Mas há uma narrativa. Estudando-se uma fotografia publicitária, vemos cada parte significando algo, a veste da mulher mostra seu tipo de vida, o tipo de copo mostra sofisticação, o etc. Há um jogo consciente de significados, mas não poética.

Quanto à interação da publicidade com a prática fotográfica, ela aparece principalmente no desejo que vemos em tantos fotógrafos de fotografarem “com cara de anúncio” mesmo em fotografias não de anúncio. Há falta de treinamento artístico, de formação humana, que é nessa sociedade de massas apenas um luxo, e quando há cultura é em geral uma cultura pret-a-porter, uma cultura de espetáculo transformada em produto de lazer, faz de uma grande massa de fotógrafos repetidores dos clichês publicitários e mesmo incapazes de julgar uma fotografia que fuja deles. Na falta de outras referências estéticas, as idealizações da publicidade tornam-se uma espécie de vida mental que se reproduz nas fotografias dos que nela estão embebidos, então o fotógrafo amador pensa serem boas as suas fotos quando parecem fotos publicitárias, e não busca outra narrativa, outra visão pessoal, mas somente repetir a louvação por imagens dos produtos, sejam coisas ou firmas de vida.

Em todos os sentidos, a fotografia publicitária é uma espécie de violência, pois a captura de corações e mentes não pode ter outro nome. É um seqüestro mental, digamos assim.

Nada contra a habilidade fotográfica de fazer assim, nada contra trabalhar fazendo -pois os trabalhos existem na dinâmica social, sempre- nem ninguém, nem eu, está a salvo de gostar de uma ou outra solução. Mas o conjunto operativo da publicidade deve ser visto como é de fato: como uma prisão .

O Paradoxo da Fotografia Digital em Preto e Branco Parte 2 – A manipulação das cores na Fotografia Digital em Preto e Branco

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O Paradoxo da Fotografia Digital em Preto e Branco
Parte 2 – A manipulação das cores na Fotografia Digital em Preto e Branco

Cada um segundo sua natureza.

Este artigo é uma continuidade do assunto iniciado no artigo O Paradoxo da Fotografia Digital em Preto e Branco, publicado neste blog em novembro de 2010. Pretendia publicar esta contunuação logo depois do outro, porém um blog como esse depende muito de nossos impulsos e vontades momentâneas, de modo que essa continuação acontece quase ano e meio depois do início. Penso ser bastante útil ler a primeira parte, embora o atual artigo tenha certa capacidade de se sustentar sozinho, pois a primeira parte oferece um suporte conceitual e indica uma tendência de interpretação do fenômeno da fotografia em PB digital. parqa ler a primeira parte, clique AQUI.

A primeira parte do artigo sobre fotografia em preto e branco por processo digital terminou com proposta de uma classificação de três atitudes definidoras da abordagem relativa à fotografia PB digital: MIMÉTICA, DESENVOLVIMENTO E NOVOS RUMOS, e foi feita uma indicação sumária quanto ao significado dessa classificação. O presente artigo falará dessas atitudes, dando ênfase às novas possibilidades decorrentes da manipulação das cores como parte do processo de desenvolvimento da fotografia em PB. Ainda que possa inicialmente parecer estranho, isso acrescenta novas possibilidades de desenvolvimento que são tipicamente digitais.

Toda classificação falhará em algum uso, e aqui não se tem a ilusão dessa nossa ser isenta de falhas, e nem sequer de ser possível classificar cada fotografia precisamente em uma das categorias sem isso ser coloca-la em um Leito de Procusto. Tomamos como certo que nenhuma fotografia caberá perfeitamente ajustada em uma dessas categorias, mas ainda assim precisamos usar categorias para falarmos do assunto, para desdobra-lo mostrando diferenças entre as abordagens, mesmo sabendo que no mundo real uma foto real será o resultado de uma mistura dessas atitudes e apenas se poderá dizer haver uma delas dominante.

Então, a primeira coisa a fazer é alertar o leitor para a necessidade de entender essas categorias de forma flexível, considerando-as apenas o suficiente para elas nos ajudarem a examinar o assunto mas sem toma-las como restritivas ou definidoras de forma cabal. Tomando-as rigidamente, logo esbarraremos em seus limites e ficaremos presos em um jogo de contradições e incoerências – inafastáveis – sem aproveitarmos o entendimento geral das possibilidades que elas ajudam a delimitar.

Antes de passarmos às categorizações, é preciso lembrar o artigo anterior quando reconhece ser a fotografia em PB digital a continuidade de uma tradição, isto é, ser continuidade de um processo histórico no qual o passado da atividade –constituído das inúmeras e excelentes fotografias feitas em filme- permanece como referência (referência não é prisão), não para ser copiado, mas porque no estoque de fotografias em PB feitas em película houve o desenvolvimento de uma estética e de uma e isso constituiu nossa cultura visual e esse é o solo para o plantio de novas plantas.

1) A MIMÉTICA

Mimética 1 PB da câmera

Talvez seja a primeira atitude na abordagem da fotografia digital em PB, principalmente para quem vinha de uma experiência anterior com filmes (experiência cada vez mais rara atualmente). O fotógrafo acostumado ao filme deseja, inicialmente, fazer algo semelhante ao que está acostumado, e ao tentar fazer descobre serem bastante diferentes os dois meios: eles respondem diferentemente aos contrastes. Então se lança à procura de soluções prontas, soluções que reproduzam o aspecto da fotografia tradicional de película através do meio digital. Esses fotógrafos de transição têm a seu favor uma memória visual à qual referenciar-se –eles sabem como são as fotos em PB “de verdade”-, e contra si, muitas vezes, mas nem sempre, uma ojeriza ao processo digital que os afasta do entendimento necessário ao desenvolvimento maior de suas fotografias. O resultado pode ser uma insatisfação constante com o processo digital, uma louvação do passado do filme por vezes em tom queixoso, pois comparam seus resultados digitais, baseados em um afastamento tecnológico, com os resultados de uma prática em que se envolveram muito com a tecnologia.

Além desses, há hoje uma maioria de fotógrafos sem qualquer experiência com película PB. Eles também desejam fazer fotografia em PB, mas não tendo a referência de uma memória para lhes orientar, e sendo a fotografia digital por natureza aberta e determinada em grande parte pelas escolhas do tratamento/conversão, mostram grande desorientação quanto ao aspecto final da fotografia a ser buscado. Tal coisa poderia ser suprida pelo treinamento em análise de imagens, treinamento esse onde o fotógrafo aprendesse a distinguir nas fotos a forma como os cinzas e os contrastes acontecem nas fotografias feitas em filme PB, mas esse treinamento analítico é raro, é indisponível como conjunto organizado de informações, e a grande maioria resistiria em adquiri-lo por considerá-lo inefável (chamam-no de “subjetivo”, de “questão de gosto”, etc). De modo geral os fotógrafos resistem ao desenvolvimento analítico de sua prática, e não apenas nesse particular. Parecem acreditar que a análise desencanta a imagem, quando acontece exatamente o contrário.

Mimética 2 - Pluguin Topaz TriX

Uns e outros, experientes em PB e inexperientes, passam a buscar as soluções prontas, plugins, actions, ferramentas prontas –soluções que substituem a análise tonal e o artesanato de preparação de cada foto. Uns porque não conhecem a tecnologia digital suficientemente, outros por falta de referência. Para esses últimos, os plugins simplesmente representam uma resposta à sua desorientação. Usa-se um plugin e pronto, o resultado, supõem-no coerente com a linguagem de PB. Essas ferramentas são muito interessantes, por vezes, com resultados bastante convincentes no sentido da simulação, embora por vezes o resultado tenha certo aspecto de caricatura, de exagero. Mas, sem dúvida, trazem a estética característica dos filmes PB de forma relativamente fácil, tornando-a acessível a muitos. É claro que não funcionam convincentemente sempre.

A MIMÉTICA é a intenção clara desses procedimentos. A foto abaixo foi tratada usando a versão Trial do TOPAZ BW Effects, um pacote de simulação de filmes, PB ou coloridos, usando a opção TriX 400.

Essa atitude mimética pode ser perseguida de forma mais sofisticada, quando menos desnorteada, através do uso de conversões do RAW com sets específicos para PB, ou trabalhar cada foto com filtragem de cores usando ferramentas como o Channel Mixer do Photoshop.

Buscar essa mimética oferece algumas dificuldades em face à peculiar forma de transcrição das luzes no filme PB, quase antagônica àquela da captura digital. A fotografia digital tende a conter demasiados cinzas médios com pouco contraste entre eles. Ela contém mais resolução e menos acutância devido a isso, e, por isso, a simples

abordagem de filtragem de cor nunca é suficiente, sendo necessária a adaptação da curva de contraste geral, grosso modo criando um “ombro” entre as altas luzes e as luzes médias e aumentando a declividade das luzes médias. Mas não existe fórmula única porque simplesmente o filme responde diferentemente do sensor digital. Cada foto precisa de uma preparação diferente. Além disso, os contrastes de vizinhança do filme são muito carcterísticos. Não basta resolver o contraste geral, o filme desenha diferentemente o objeto.

O esforço de mimética pode chegar ao ponto de ser acrescentada à foto digital defeitos típicos do filme como sua granulação, e alguns plugins chegam mesmo a acrescentar arranhados de negativo. A busca de reprodução da aparência do filme faz ser introduzido ruído monocromático simulando a granulação típica dos filmes rápidos ou puxados. E, de fato, essa simulação tem o condão de aproximar o resultado por aumentar os contrastes localizados da fotografia digital, dando impressão de aumento de acutância.

2) DESENVOLVIMENTO COM VARIAÇÕES POR REGIÃO DA FOTO (DODGE&BURN DIGITAL)

Desenvolvimento é a forma como os americanos e outros sempre chamaram a revelação de fotografias e a produção de cópias. A diferença entre as palavras usadas por nós e por eles – a nossa “revelação”, o “desenvolvimento” deles – não é inócua, ao contrário, pois as palavras são indutoras de atitudes. A nossa “revelação” conduz pensar o procedimento como neutro, apenas tornar visível aquilo já determinado na captura (aliás, a palavra “captura” vive no outro lado da moeda “revelação”, há um binômio captura-revelação na qual a revelação é pensada como passiva, ou quase). Já a palavra desenvolvimento subentende atividade criadora continuada, a criação acontecendo tanto no tratamento quanto no disparo.

Durante o longo período em que se usou película, o desenvolvimento das fotografias foi crucial para a obtenção de seu aspecto, para a definição da mensagem, para a dramatização dessa mensagem. Indo desde escolhas planas (isto é, escolhas afetando toda a fotografia) como é a escolha do papel, dos químicos, do filme, dos tempos de revelação e da temperatura dos líquidos, escolhas essas afetando a fotografia quanto a contrastes, intensidade, contrastes de vizinhança, resolução, etc, até escolhas não-planas onde, através de máscaras na feitura da cópia, conseguia-se modificar o balanço dos contrastes e tons entre os elementos da foto.

Ora, junto com a angústia quanto à definição de uma fotografia digital, por ser demasiadamente aberta às escolhas de tratamento como é, veio também a capacidade de se realizar trabalho semelhante ao de laboratoristas exímios usando programas gráficos e computadores domésticos. Livres do medo da ação definitiva, aquela irreversível e monetariamente custosa,  cada fotógrafo pode experimentar, voltar atrás, intensificar, atenuar, manter todas as suas intervenções em uma fotografia em suspenso enquanto busca o melhor balanço delas em função da mensagem visual e simbólica de uma imagem sua.

Dessa maneira, aquilo aqui chamado de desenvolvimento não é algo novo em essência. Mas é algo novo em disponibilidade prática, contudo. Desenvolvimento é usar as facilidades da imagem digital ou digitalizada e usar os programas gráficos para intervir na fotografia, em áreas específicas dela, usando máscaras, buscando em cada parte sua melhor representação. Com os recursos dos programas gráficos isso pode ser feito de forma muito refinada a um custo baixo comparativamente, e o resultado propagar-se-á para todas as cópias feitas, e não a apenas para uma cópia como na fotografia química. Não é uma atitude nova, mas é uma possibilidade nova no grau em que pode ser praticada.

3) NOVAS POSSIBILIDADES A PARTIR DA MANIPULAÇÃO DAS CORES NO PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO DA FOTOGRAFIA EM PB

Começamos o primeiro artigo falando de um paradoxo, qual seja, o de se buscar fazer fotografia em PB através de um processo onde a captura já nasce colorida. Pela nossa abordagem inicial, mostramos isso sendo contraditório, até certo ponto, com a intenção de fazer um PB. Contudo, posteriormente, tentamos indicar ser a aparência final de uma imagem digital irremediavelmente determinada por escolhas, e assim a escolha pelo Preto e Branco não é mais nem menos válida do que qualquer outra.

Dupla filtragem, vermelho/amarelo. O azul do céu foi filtrado em vermelho, escurecendo, e o restante da foto em amarelo ganhando legibilidade e detalhe.

Mas aí surge algo diferente, algo que provém do fato da imagem ser primariamente colorida. Surge um universo de novas abordagens de tratamento (desenvolvimento) que só são possíveis a partir da imagem ser colorida e dela ser digital. Este trecho deste artigo não pretende fazer disso uma abordagem extensiva, pois há infinitas formas de lidar com o assunto. Contentar-me-ei em exemplificar algumas das abordagens possíveis a partir das cores do arquivo primário.

Por exemplo: Tomemos um arquivo colorido qualquer. Vamos torná-lo PB usando uma das ferramentas mais comuns, o Channel Mixer do Photoshop. Usando essa ferramenta, observamos ela nos disponibilizar vários pontos de partida correspondentes às filtragens da imagem por um filtro qualquer de cor. Podemos filtrar com azul, verde, laranja, vermelho, amarelo ou combinando em doses quaisquer as cores. Fazendo isso, é bastante fácil verificar que os contrastes locais são modificados a cada escolha. Pegando uma fotografia de vegetação, essa fica mais clara usando uma filtragem verde, enquanto o céu fica mais escuro usando uma filtragem vermelha, e assim vai. Como regra geral, a cor complementar ao filtro escurece e a cor próxima a do filtro torna-se mais clara.

Tradicionalmente os filtros coloridos foram usados em filmes PB para produzirem fotografias de um tipo ou de outro. O uso do filtro vermelho não somente aumenta o contraste, mas escurece tudo aquilo que é verde, sua cor complementar, clareando, por outro lado, os tons avermelhados. O uso do filtro verde tem efeito oposto. Porém, como tais opções eram feitas no disparo, elas marcavam definitivamente a fotografia de forma plana, isto é, marcavam toda a fotografia. A escolha feita no disparo tornava-se definitiva para a fotografia, incrustava-se no negativo afetando todas as suas partes.

Ora, agora essa filtragem não é mais feita no disparo, e sim sobre um material –o arquivo digital- que contém as cores e que será modificado pela filtragem. Então, pela primeira vez, uma fotografia pode sofrer um desenvolvimento diferenciado de filtragem em relação aos seus elementos, desenvolvimento que afete apenas uma região cromática dela e não ela toda. Digamos que em uma paisagem o céu seja filtrado em vermelho mas o mato em verde em certos locais, de modo a neles termos desenhos de folhagem. E nessa paisagem um barranco de terra alaranjada seja filtrado em azul para aguçar seu contraste e escurecê-lo. O céu escurecerá como se houvesse polarização, o mato se tornará cheio de desenhos e detalhes, o barranco escurecerá e ficará cheio de contraste. O resultado disso, em PB, poderá ser perfeitamente convincente ao observador, que ignorará essa filtragem localizada, mas será tal que outra forma de fazer não produziria, nem mesmo o dodge&burn localizado.

Ora, através de meios de tratamento que são inerentemente dependentes da natureza digital da fotografia, e, mais ainda, do fato dessa nascer colorida, passamos a dispor de formas de desenvolvimento da imagem em PB que não eram disponíveis (não eram impossíveis completamente, mas não eram também relatados como prática de desenvolvimento) na fotografia em película. Passamos aqui de uma inicial contradição entre a fotografia tradicional em PB e a característica colorida da captura digital para depois termos aproveitamento disso para a obtenção de algo que não poderia nascer da captura em PB simples.

Há inúmeras possibilidades novas fazendo um desenvolvimento prévio das cores antes de convertê-las para PB, através de diversas ferramentas como, por exemplo, ferramentas de saturação. O esquema de filtragem com Channel Mixer é apenas uma exemplificação de que a natureza inerentemente colorida pode propiciar desenvolvimentos novos em PB, mas de forma mais simples se pode mexer na saturação e Hue de cada cor da imagem antes da conversão filtrada, tendo em mente a interação do filtro com a cor transoformada. Basta pensar na complementaridade das cores e deslocar, cada Hue de cada cor para mais perto ou mais longe da complementaridade, ou intensificá-la com saturação, para mudar a forma como aquela região de cor aparecerá no PB..

Ou podemos, ainda, mexer diretamente nos canais primários das cores durante a conversão do RAW, obtendo efeitos a partir daí. O potencial disso é facilmente observável quando colocamos a saturação em zero e mudamos o white balance no conversor de RAW. Nota-se que a fotografia muda em tons e contrastes só com a mudança no WB, mesmo a saída sendo em PB.

Mesmo assim não se deve imaginar estarmos inventando uma nova estética em PB. No fundo, com novos métodos e novas possibilidades, é ainda na estética consolidada que se terá referência para os resultados a serem perseguidos. Os resultados serão julgados bons ou não conforme eles se relacionem com a tradição da linguagem PB – sempre serão uma mimética em termos de linguagem-, mas na verdade a ultrapassarão.

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Temos de considerar que o modo digital de fotografar não existe apenas pela criação das câmeras digitais. Essas são um dos elementos de um arcabouço tecnológico de nossa época, um arcabouço maior que constitui um sistema de codificação e comunicação de informações. Independentemente da forma de registro de uma imagem, em filme ou digital, não é imprudente dizer que em algum momento aquela imagem tornar-se-á digital para circular no espaço informacional de nossa época.

Evidentemente a fotografia tradicional em PB continuará existindo por muito tempo, não havendo horizonte para seu fim. Mas tornar-se-á um caso particular da criação fotográfica, não será mais capaz de definir uma estética. Aos poucos, a estética em PB vai tornar-se transicional, vai deslizar para as criações estéticas feitas a partir da tecnologia digital e isso será o seguimento da tradição da fotografia em PB. Uma tradição não é apenas o passado, mas constrói-se com novos eventos que sejam reconhecidos como válidos dentro dela. Não será mais a fotografia feita por métodos tradicionais que comandará a definição da estética, embora o estoque de fotografias feitas no passado, esse sim balizará os desenvolvimentos que serão aceitos como parte da tradição. Como tratamento a manipulação de cores na fotografia digital possibilita refinar as narrativas da fotografia em PB de uma maneira nova e inesperada, embora quando bem feita invisível por natural.

A palavra tradição denota algo que se transporta, ou seja, algo que vai sendo transportado através do tempo, mas bem entendida, a palavra subentende também mudanças através do tempo, mudanças tais que não reneguem as origens, mas que apontem para possibilidades novas, novas formas de fazer, e para uma mudança estética a partir das novas possibilidades, embora, por certo ponto de vista, essa mudança sempre será continuidade.

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Desenvolvimento (tratamento) e Interpretação da Imagem Fotográfica.

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Desenvolvimento (tratamento) e Interpretação da Imagem Fotográfica.

“Para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve” disse o gato do sorriso – Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll

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Há alguns meses quero escrever esse artigo. Li num fórum de fotografia um fotógrafo escrever, em um tom no qual não faltava uma pitada de ironia, que “ainda precisava aprender fotografia, porque não atinava sobre o que fosse a leitura de uma foto”. Não foi exatamente nesses termos, mas algo parecido.

A forma como a pessoa coloca a questão dá a impressão que a  interpretação de uma imagem, ou seja, sua leitura ou o entendimento de como é construída a mensagem e de qual é a mensagem não é mais que um passatempo esnobe. Que não é algo ligado de fato à fotografia, mas mera exibição de erudição, alheia ao processo “intuitivo” de fotografar.

Ora, essa maneira de ver implicita a defesa de uma fotografia feita sem pensamento, sem consciência do jogo de significados contidos numa imagem, como se esse jogo surgisse espontaneamente a partir de uma fotografia bem feita –talvez tecnicamente bem feita, pois as pessoas, mesmo aquelas defensoras da intuição, ao fotografar reconhecem a necessidade de aprender técnica fotográfica.

Na mesma mensagem lida,  o autor diz que não vê para que deva praticar ou desenvolver uma capacidade de leitura da imagem fotográfica. Bem, creio ser isso um grande engano, pois a fotografia não é uma miniaturização (ou macrificação) do mundo em suas realidades plenas, e sim uma forma de comunicação de idéias –idéias capazes de serem expressadas visualmente– e essas idéias, embora sejam articuladas visualmente, obedecem a uma espécie de sintaxe. Essa sintaxe consiste numa disposição particular dos objetos retratados dentro do retângulo fotográfico de forma a eles transmitirem uma idéia ao observador, idéia essa cuja descrição verbal pode nunca tornar-se consciente para ele, mas nem por isso deixa de impressioná-lo.

Ora, podemos imaginar uma experiência simples. Imaginemos termos três figuras recortadas. Um cão, um gato, um rato. Imaginemos agora uma folha de papel e vamos dispor essas três figuras na folha de papel. Conforme a posição das figuras, a mensagem visual muda. Podemos colocar, em uma linha, na frente o rato, no meio o gato, atrás o cão. O observador tenderá a interpretar “O gato persegue o rato e o cachorro persegue o gato”. Porém, se colocarmos numa ponta o cachorro e atrás dele o rato, e na outra ponta o gato olhando para eles, o observador é levado a pensar algo como “o rato se esconde atrás do cachorro para o gato não pegá-lo”. Assim, com os mesmos três símbolos visuais, podemos construir mensagens diferentes dependendo da sintaxe visual que os une. A prevalência da interpretação pode ser facilmente demonstrada por pesquisa, nos moldes daquilo mostrado neste blog no artigo “Composição Geométrica e Significado na Fotografia e nas Artes Visuais” .  Esse tipo de abordagem experimental permite mostrar haver interpretações de mensagens visuais que são prevalecentes, isto é, fazem parte do fundo intersubjetivo que permite a comuniação das mensagens visuais e de outras.

Ora, quando fotografamos, nós, através de escolhas como ângulo de tomada, comprimento focal, profundidade de campo, iluminação, exposição, construímos uma mensagem visual articulada por uma sintaxe, e conforme essas escolhas o resultado significará coisas distintas para o observador. Quanto mais o fotógrafo for consciente da mensagem, e, principalmente, dos elementos na fotografia que a constroem ou a reforçam, tanto mais ele pode articular isso na tomada da foto ou no tratamento.

É preciso, porém, dizer ser o assunto fácil de entender em linhas gerais quando falamos de cão, gato e rato, mas não tão fácil quando falamos de fotografia. Porque na fotografia os símbolos não são assim tão explícitos, não são de significados tão diretos. E uma fotografia é, em geral, mais complexa do que os esquemas-exemplo.

Além disso, a mensagem intentada pelo fotógrafo pode ser puramente visual-táctil, sem correspondente simbólico tão forte. O fotógrafo pode querer mostrar formas. As formas também são, em certo grau, simbólicas, elas sugerem interpretações e significados, mas isso é ainda menos palpável e necessita mais aprofundamento para ser entendido suficientemente.

Ao longo dos anos, convivendo com comunidades de fotógrafos, noto ser a questão do tratamento de imagens uma questão relativamente opaca para muitos. A razão disso é a maioria ter uma visão do assunto onde o ato da tomada da fotografia é separado e incomunicável com o tratamento. Toma-se a fotografia como um ato isolado e fechado em si mesmo, e após, sentado no computador, o fotógrafo olha aquele arquivo querendo “embelezá-lo” para mostrá-lo na rede aos companheiros de interesse. Esse embelezamento na maioria das vezes não possui um critério oriundo da própria fotografia. Ele é como uma camada postiça de açúcar colorido que se coloca em cima do bolo de aniversário (glacê). Assim, nessa etapa, quando a atitude é essa, são buscadas fórmulas prontas, plugins, modelos, reproduzir coisas que estão na moda ou foram vistas recentemente. E isto é aposto à fotografia sem razão alguma ligada à própria fotografia. “Vou passar para PB”. Por quê?  Por que razão a mensagem melhorará em PB?.

Ora, quando a fotografia em si tem uma mensagem visual suficiente, esse embelezamento supre a demanda. Fotógrafos mais experientes costumam obter fotografias com boa articulação interna, de modo a esse recobrimento embelezador suprir grande parte das necessidades. Poderíamos dizer, nesses casos, ter havido, por sedimentação de experiência,  uma adequação entre tomada e desenvolvimento da fotografia, isso se expressando por preferências do fotógrafo, mesmo ele não sendo consciente da ligação entre o tratamento e o aguçamento da mensagem fotográfica. A experiência, pura e simples, não meditada, aperfeiçoa a prática, embora em modo restrito e sem muita plasticidade.

A palavra aguçamento é muito boa para seguirmos. Podemos postular, para seguimento deste artigo, ser o tratamento (desenvolvimento) de uma fotografia um processo de aguçamento da mensagem nela contida. O fotógrafo faz uma tomada na qual certas coisas o interessam, e depois, no desenvolvimento, torna tais coisas mais evidentes ao observador. Esse tipo de tratamento é profundamente diferente daquele realizado sob a mera idéia do embelezamento. Nesse, não apenas o embelezamento é perseguido, mas também uma clarificação da mensagem. Não apenas a imagem toda deve ganhar visibilidade melhorada, mas a melhoria da visibilidade deve ser de tal tipo que aumente a força dos elementos da mensagem visual concebida pelo fotógrafo.

Ora, é muito simples perceber isso necessitar de uma prévia compreensão (leitura de sua própria fotografia), pelo fotógrafo, compreensão de qual é a mensagem visual da fotografia e de que elementos ela depende. Porque é essa compreensão que orientará o tratamento, que permitirá escolher entre dois caminhos, que permitirá entender quando algo precisa de mais ou menos contraste, quando outro algo precisa de tratamento localizado, quando os tons devem ser abaixados ou elevados. Esse entendimento permite ao fotógrafo lidar com a mensagem visual aperfeiçoando sua comunicabilidade. Sem esse entendimento o tratamento não corresponderá à mensagem visual a não ser por acaso.

Evidentemente, o desenvolvimento não é uma etapa na qual o fotógrafo apenas aguca aquilo previsto na tomada. Ao olhar a foto na tela, surgem oportunidades, são identificados elementos interessantes não totalmente previstos, e o fotógrafo então deve avaliar o quanto tais elementos podem melhorar a mensagem visual ou podem modificá-la para melhor. Ora, isso não significa menos leitura da imagem, mas, ao contrário, um segundo e mais aperfeiçoado nível de leitura, um segundo nível de reforçamento. Significa também ser o desenvolvimento uma etapa criativa que não apenas amplia o já imaginado na tomada, mas é também construtora.

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Esse artigo é ilustrado por duas fotografias (além do gráfico). Foram fotografias tomadas pela janela da minha casa. Chovia muito, e carros entrando por uma agulha de troca de pistas levantavam água como uma lancha no mar. Aquilo me interessou, e como tenho prática antiga de fazer pannings pela janela, montei a lente na câmera e me pus a fotografar os carros espargindo água. Bastante acostumado com pannings pela janela –que sempre prefiro fazer ao anoitecer- sabia os efeitos das luzes dos carros com suas cores (em um contexto com vários tipos de iluminação, conforme escolhemos uma como tom-referência as demais tornam-se luzes coloridas). Esse, então, foi o “projeto básico” das fotos. Enquadramento, captura do esguicho produzido pelos pneus, luzes coloridas. Há nesse projeto uma sintaxe esboçada, ele já implicita uma leitura posterior desses elementos como principais do conjunto. Naturalmente, o desenvolvimento procurou enfatizá-los. Não somente embelezar as fotos, mas dar ênfase a esses elementos, em cada foto maximizando as oportuindades por ela oferecidas. Foram feitos tratamentos localizados, especialmente na região do esguicho e do farol,  foi feito sharp localizado, saturações localizadas,  modificações de cores específicas as reforçando ou mudando o hue.  Os elementos, o farol dos carros, o esguicho, o contexto, cada uma dessas coisas recebeu o tratamento julgado necessário para ter a ênfase necessária na imagem.

Tratamento de imagem é um processo de enfatizar, de aguçar a mensagem visual, não apenas de embelezar a fotografia ou dar a ela um aspecto da moda do momento. Isso não pode ser feito sem o fotógrafo ter desenvolvido uma capacidade de leitura da mensagem visual na qual compreenda o que cada parte da imagem significa e o que ela faz na sua relação com as demais, na qual compreenda a importância relativa das coisas figuradas na fotografia. Não é possível ênfase sem se saber aquilo que precisa ser enfatizado. Por vezes é uma cor, por vezes é uma forma, por vezes é um contraste. Mas não é tão somente embelezamento, é definição de mensagem visual.

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Mentir, para contar a verdade

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Mentir, para contar a verdade

Si no è vero, è ben trovato (provérbio italiano)

Terminei de almoçar no restaurante Don Salmón, em Ensenada, localidade próxima ao Vulcão Osorno. O terreno do restaurante termina em uma praia feiosa de um lago muito bonito, tendo como fundo a silhueta do vulcão. Entre o restaurante a a praia, freqüentada nesse dia por banhistas recatados e famílias, um espaço confuso de areia cinza escura e uma feia construção, aparentemente um depósito. No meio disso tudo um monte de lenha arrumada, com suas tonalidades alegres de madeira. Deixara a família experimentando sobremesas para tentar, ali, uma ou duas fotografias.

Meu olhar procurou, procurou, mas o entorno, apesar do lago e do vulcão, ere feio e cinzento. Aproximei-me, então, do monte de lenha, fechei o diafragma além de f/16 para garantir grande Profundidade de Campo e fiz o enquadramento da  fotografia acima, só a lenha com seus tons amarelos-vermelhos e o vulcão.

Olhamos a foto pronta e associamos a neve e a lenha, e sabemos de pronto que é uma região fria e com vegetação de clima temperado. A fotografia nos informa sobre o ambiente de uma região, sem que essa região figure nela. A fotografia nos faz imaginar a natureza de lá como ela de fato é, evocando em nós lembranças complementares de ambientes vistos pessoalmente ou em outras fotografias vistas, nos faz evocar a vegetação mais áspera que a de cá, as paisagens.

No entanto, aquilo realmente. fotografado foi um monte de lenha com o vulcão ao fundo, nos fundos feios de um restaurante.

O que essa fotografia diz a quem não sabe disso, e mesmo para quem sabe, é mentira ou é verdade? A resposta é impossível, mas uma das muitas respostas possíveis é ter sido dita a verdade através de uma mentira, posto que o ato fotográfico sim si foi completa construção de narrativa, foi recortar de tal forma a “realidade” (seja lá o que essa palavra significa) que é impossível não notar a artificialidade deste recorte em relação à experiência de estar no local, quando sabemos como a foto foi feita, mas é igualmente difícil imaginá-la só por ver a fotografia. Contudo, a mensagem da fotografia é verdadeira. De fato lá é frio, de fato queima-se lenha nas lareiras, de fato a região tem esse tipo de rusticidade evocada e de fato há a onipresença do vulcão.

Tal construção da imagem não corresponde muito à crença corriqueira relativa ao realismo fotográfico. Lembra mais a ilustração, como aquelas produzidas por desenhistas em tribunais, nos julgamentos onde são proibidas fotografias. Nelas figura o rosto indicando culpa do acusado, a atenção do juiz e do júri, a expressividade de gestos do promotor. Essa ilustração não se refere a instante nenhum acontecido, mas a uma impressão do ambiente e do desenrolar do julgamento, sendo um relato do acontecimento muito mais pertinente do que um hipotético instantâneo fotográfico capturado ao acaso no qual os membros do júri mostrem sono, o promotor esteja ajeitando a gravata, o acusado indiferente.

Ora, podemos certamente dizer que tal instantâneo fotográfico corresponde a um instante de fato ocorrido, ou não ficaria registrado. E podemos dizer que o conjunto da ilustração desenhada nunca ocorreu. Contudo ambos transmitem mensagens e a ilustração pode dar idéia melhor do que ocorreu no tribunal do que o instantâneo fotográfico neutro hipotético. O instantâneo, verdadeiro sob o conceito daquela configuração ter de fato ocorrido, pode ser mais falso que a narrativa da ilustração, cuja conjuntura nunca ocorreu.

Provavelmente a maior falsidade da fotografia provém do isolamento, do recorte do assunto em relação ao ambiente. O mero recorte já é falso e isso é agravado pelos efeitos do achatamento ou da inclusão excessiva promovidas pelos comprimentos focais de tele ou grande angular.

Essa escolha entre aquilo que será fotografado e aquilo que não será, essa escolha de como algo será figurado, perto ou longe, achatado por uma tele ou profundo, iluminado ou escuro devido à exposição, juntado ou não a outro elemento pelo ângulo, essa escolha cria o sentido, a mensagem da imagem produzida.

Há algo muito artificial nisso, conquanto tornado hábito não seja sequer percebido por muitos fotógrafos, que acreditam estarem tão simplesmente registrando o mundo como é. E, raramente é percebido pelo observador. Esse compra a mensagem da narrativa reforçada pela mitologia da fotografia-verdade.

Essa artificialidade, essa desnaturação é a mentira da qual nos valemos para contar algo ao observador, a esse alguém a quem é negado o conhecimento das circunstâncias da fotografia. Mentimos, mesmo que para contar uma verdade irregistrável por uma hipotética captura neutra.