Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

O mundo em que vivemos (o sono pitoresco)

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O mundo em que vivemos
(o sono pitoresco)


Quando eu era criança, havia, em Copacabana, algumas exposições para vendas de pinturas, exposições montadas em portarias de prédios comerciais, sempre os mesmos e por muitos e muitos anos. Como gostava de desenhar, ao passar por esses prédios entrava e via as pinturas. Eram pinturas de um academicismo conservador, agora sei, como se essas palavras não fossem redundantes. Havia marinas, naturezas-mortas, flanboyants floridos, paisagens bucólicas, e entre os quadros o clássico retrato de um velho negro –provavelmente uma reminiscência da escravatura- pitando um cachimbo feito de sabugo de milho.

Não eram retratos de alguém específico esses, de um ser humano real, mas sim uma imagem-padrão repetida por inúmeros pintores: um tema pitoresco. Menos que o aspecto verdadeiramente humano de um retrato –transcrição sutil da personalidade conseguida por um retratista sagaz- eram essas pinturas uma pilha de clichês: o cachimbo, as rugas, os olhos cansados, o cabelo branco, o chapéu de palha – um grupo de elementos adequados a evidenciar a habilidade do pintor em produzir texturas realistas, tomadas pelo público como suma maestria na arte, à serviço de uma evocação de vida antiga.

Vim reencontrar tal coisa na fotografia. Percebi os fotógrafos caçarem temas pitorescos, assim entendidos por oferecerem texturas e formas dentro de uma simbologia sem ambigüidades.

E, assim como o público daquele academicismo ansiava por pinturas nas quais pudesse reconhecer os objetos pintados em seu papel consagrado estético de objetos belos -as maçãs pintadas perfeitas, as romãs abertas a mostrarem suas sementes vermelhas, os rostos enrugados de idosos-, o público fotográfico majoritário também demanda o mesmo tipo de satisfação visual: objetos e pessoas retratadas como devem ser, temas adequados, pitorescos, rugas, madeiras velhas, alaranjados de pores-do-sol.

Porém, enquanto na pintura o público não é pintor, na fotografia uma parte importante do público e constituída por fotógrafos. A fotografia feita constitui a referência para a fotografia a ser feita, em um processo contínuo de formação de cultura visual e de sua reprodução. O gosto pelo pitoresco torna-se com isso uma guia, um caminho principal para muitos e não só para muitos como para a maior parte da fotografia efetivamente circulada. O gosto pelo pitoresco, cada vez mais inculcado, torna a comunidade dos produtores de imagem relativamente cegos para aquilo que não atende aos requisitos temáticos facilmente identificáveis como “temas fotográficos”, e isso torna a prática fotográfica cega ao mundo presente na qual acontece.

Por certo a fotografia, assim como a pintura, é uma estetização. Cores, texturas, formas, esse é o material visual de interesse e sempre será. Contudo, há de se notar em que sentido tal material é utilizado.

Periodicamente, um artista visual nos revela os valores formais de nossa vida normal aos quais somos cegos, e nos espantamos com, como diz a música do Caetano “ter permanecido oculto quando terá sido o óbvio”. Tomemos o exemplo do Edward Hopper: ele nos releva a vida urbana que constitui a experiência de vida típica da atualidade, a estetizando. Ele nos mostra como vê-la esteticamente, como os ambientes comuns, as suas luzes, os anúncios luminosos, são a experiência que nos cerca, e nos mostrando desanestesia um pouco nossa percepção do entorno.

Grande parte da Arte Pop -as latas de sopa do Andy Warhol- foi tematização do ambiente comum da vida urbana, da publicidade onipresente, do nosso real entorno visual. Isso nos mostra a estética do nosso mundo, mas mesmo mostrada parece haver um poderoso sonífero na água que bebemos porque mesmo as obras do Hopper ainda, depois de tantos anos, são tomadas como novidade. Por que seria assim, a não ser que tal percepção de novidade seja exatamente o contraste com a estética conservadora do pitoresco dominante na produção visual?

As pinturas do Hopper não glorificam a vida moderna, não a reduzem ao espetacular (o espetacular é um tipo de overdose necessária para sensibilidades hiper-saturadas) como muitas vezes vemos ser feito em fotos de futurismos modernos. O Hopper apenas nos mostra a nossa vida que em suas pinturas não é heróica nem banal, não é extraordinária nem irrelevante, e apenas apresentada de forma calma como dizendo: é assim que vivemos.

O mundo está aí, repleto de formas. Feias, caóticas, edificações mal acabadas, construções ricas de opulência ostensiva e tosca, pessoas vestidas com roupas que o tempo nos mostrará serem estranhas e portando-se de forma peculiar à nossa época, e, no entanto, quase só conseguimos ver o pitoresco que não passa de resquícios do passado ainda presentes. Nos atraem as janelas descascadas de madeira e estilo ultrapassado, quando nosso entorno está repleto de janelas de alumínio. Nos atraem os telhados curvados e empretecidos pelo tempo, quando as casas-caixotes com lajes de cobertura predominam ao lado de telhados de amianto e metal. Nos atraem as paredes descascadas de cal, quando há tantos prédios revestidos com cerâmicas de enorme estranheza por aí.

Acordar para o mundo em que viemos realmente. Narra-lo, estetizá-lo. Saber reconhecer a estética de nossa vida comum. Talvez esse seja o grande desafio.

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6 Respostas

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  1. grande post! Grande escritor! Se ainda não pensou- pode começar a escrever seu livro! obrigada,
    abs

    ester

    1 de fevereiro de 2011 at 7:45 pm

    • Obrigadão, Ester.
      Não sei se quero escrever um livro -risos. Muito trabalho… Mas o blog me faz externar pensamentos e acho que o blog todo é um conjunto, como um livro.

      Ivan de Almeida

      1 de fevereiro de 2011 at 8:09 pm

  2. Grande artigo. Visão muito clara. Parabéns.

    Nilo

    3 de fevereiro de 2011 at 9:54 am

  3. Excelente texto.

    Sou muito fã do seu blog. Parabens

    André Americo

    9 de fevereiro de 2011 at 1:54 am

    • Obrigadão, André.
      Grande abraço

      Ivan de Almeida

      9 de fevereiro de 2011 at 1:59 am


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