Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

Prazer, aprendizado, fotografia

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Prazer, aprendizado, fotografia

Não somos o que nascemos. Somos o que aprendemos. Pouco é o aprendizado formal, e por isso chamamos de dom o que provém de nossa vida normal, de nosso aprendizado ambiental humano.

Ficou mais de ano no diretório. Vi pela primeira vez, a achei confusa. Vi anteontem e a achei estruturada, com a estrutura bastante articulada, cada canto demandado.

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Na verdade este texto é uma parte de um diálogo com amigos em um pequeno fórum. Na fotografia, em termos compositivos, de construção de mensagens, há por vezes muitas reações, como se tudo para o fotógrafo fosse “de nascimento”, “pura inspiração”, e esses por vezes sequer olham suas fotos muito ainda toscas desde quando começaram ou numca as relacionam com outras coisas que sabiam. Outros recusam um processo de aprendizado, não o recusam conscientemente , mas em mil maneiras de nunca cumpri-lo

Na faculdade de arquitetura, lá pelo iníco dos anos 70, cada tema, cada trabalho na cadeira Plástica 1 nós  alunos nos “rebelávamos” por ter de comprir algo, como se esse algo fosse uma limitação da nossa criatividade. Muitos anos depois sei que essa tarefa definida é um caminho de progresso, de inclusão de métodos e idéias formais, enquanto que meramente seguir a criatividade é menor, porque ali, naquela época, nada sequer havia em mim de desenvolvimento formal dela.

Assim é na fotografia. Quando na fotografia se pede alguma coisa a quem se está tentando ensinar, muitos gritam “mas isso é limitante!”. Ora, esse é o método, o que não implica em não prticá-lo divertindo-se.

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Na fotografia, a gente brinca e busca.  Toda criação visual é inseparável da brincadeira no sentido do envolvimento sensorial e de uma vontade quase afetiva em relação ao belo. E a grande graça é unir o brincar e o buscar, isto é, saber buscar na dose exata de isso ser atenção é delícia e, ao mesmo tempo, ser uma busca de descobertas, mas não uma coisa chata, monótona. Afinal, fazemos fotografia, de certa forma, rapidamente. Ontem peguei a câmera nova que chegara anteontem e fiz aqui em casa, usando a mesa bagunçada de centro, fotos com diagonais. Boas? Não, banais, sem assunto bom, mas eu mesmo me tratando de saúde não estou podendo nem sair até o outro lado da rua em um parque para fotografar. Mas é bobo, banal, é como uma brincadeira, não uma tarefa difícil e chata.

Quando a pessoa exige de si tudo ao mesmo tempo, aí não dá certo. Ela tem de fazer aquilo que para ela já é fácil enquanto treina o detalhe, o item, mas tudo isso mantendo a coisa no nível da brincadeira instigante, e não de uma obrigação chata. Ora meu Deus, se eu for ali no parque da frente faria 10 fotos com diagonais, talvez não 10 porque perderia a paciência, mas faria sem aborrecimento, brincando de fazer. É sério e nada sério ao mesmo tempo, o sério não pode tirar a coisa da esfera da brincadeira no bom sentido, porque a criatividade sempre tem algo a ver com a brincadeira, e sem ser brincadeira não há criatividade. Nas atividades em que há criatividade a obsessão é uma motivação do criador, mas o fulcro dessa obsessão é a brincadeira que o fez apaixonado pelo desejo de resultado. Uma coisa Dionisíaca, como se diz por aí, e não Apolínea, ou seja, mais para o prazer, para a brincadeira.

Quando falo disso, estou, digamos, propondo uma brincadeira que faz aprender. Todas as artes são assim, a bailarina aprende a bailar com muito esforço, mas aprende porque isso a diverte, a recompensa positivamente, dionisiacamente. Todos os que se dedicam a essas atividades devem ao mesmo tempo seguir a vontade dionisíaca, pois a seguindo as pequenas tentativas árduas, ou aparentemente árduas, não são obrigações, são temas, são coisas para mergulhar e gostar.

Não conseguir é frustrante, eu sei. Mas não conseguir provém de várias coisas… de uma rejeição ao tema, em nome de uma “liberdade” inexistente, de uma maneira de os exercícios-brincadeiras ver como trabalhos, de uma maneira de ver que ignorar que basta ir ali pertinho e fazer o “dever”, sem temas maiores. Basta entender o caminho. Essa rejeição é de quem toma a tarefa como Apolínea, coisa militar, obrigação sem graça. É só uma brincadeira… mas a pessoa sente-se afrontada por ela.

Nada ensina definitivamente a pessoa. O que ensina é ela ver como organizar visualmente uma fotografia pode ser muito melhor em termos de comunicação, em termos de estética. É ela ver que a estética não é espontânea, que todos os que se treinam em artes, faculdade de belas-artes, por exemplo, passam anos se acostumando, consciente ou inconscientemente, com a composição. A diferença entre o consciente e o inconsciente é somente que o consciente -saber o que está fazendo- amplia o campo, amplia as possibilidades, enquanto a mera cópia de esquemas inconsciente é limitante. E que é mais rápido, no campo da fotografia, e fácil, mostrar a alguém provindo de outra área a lógica implícita.

Tudo é uma brincadeira. Dionisíaca, como toda brincadeira. Mas é uma brincadeira que não é a coisa rasa, a preguiça, a crença no dom. É a brincadeira como aquela que deseja ser mais brincadeira, como o camarada que ganha uma caixa de Lego e logo deseja outra para poder brincar mais. Aprender em fotografia é isso, é ganhar uma caixa de lego e desejar outra caixa, outro aprendizado para poder brincar melhor.

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Written by Ivan de Almeida

8 de dezembro de 2012 às 2:23 pm

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