Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

Fotografia e anti-liberdade

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Fotografia e anti-liberdade

“Não quero mais,
Essas tardes mornais, normais,…”
Cinema Olympia
Caetano Veloso

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Tenho olhado minhas fotos nos infindáveis diretórios do HD. Gosto delas, não estou insatisfeito com elas, ao contrário, a visão do conjunto me recompensou com uma calma sensação de suficiência. Uma espécie de regozijo. Tenho, por exemplo, uma extensa crônica da minha vida familiar em fotos, um conjunto que sei raro no estoque afetivo das famílias, e sei o valor disso.

Tenho visto fotos na rede também. Fotos de outras pessoas. Vez por outra vejo seqüências ótimas demonstrando a exatidão da concepção de alguns fotógrafos. Em mim passa um susto de admiração pela sagacidade da concepção, pela riqueza de soluções e pelo seu correto equacionamento.

No entanto, tenho andado sem paciência para fotografar, e ver fotografias tem me cansado. Não é bem cansado, é enjoado, é uma espécie de sensação de enfado.

Quando era criança, uma vez uma tia muito querida, irmã de minha mãe que procurava suprir para mim a ausência de sua irmã morta, ensinou-me a fazer, desenhando, uma estrela de cinco pontas. Lembro ter rapidamente, após uma ou duas tentativas vacilantes, aprendido, e me pus a desenhar muitas estrelas de cinco pontas em um papel em seqüência, e, é engraçado porque é uma lembrança muito sutil, talvez rara em uma memória de criança mas em mim muito nítida, lembro-me de quase ao mesmo tempo ter sido tomado por uma sensação de repetição, de esvaziamento de interesse por tão mecânico e infalível que se tornou.

Assim sinto a fotografia, atualmente. Sinto-me como desenhando infinitas estrelas de cinco pontas, e, evidentemente, sei desenha-las. Não cabe aqui discutir se poderiam ser melhor desenhadas ou não – e claro que poderiam-, isso não altera a mecanicidade da coisa. Caso me perguntassem, e como não me perguntam respondo a mim mesmo, diria que um tempo sabático sem ver imagens me faria muito bem, caso fosse possível não ver imagens em nossa vida atual.

Talvez me tenha ficado muito evidente como a fotografia é parte do instrumental que nos aprisiona a sensibilidade, mantendo-a em trilhos definidos, cerrando as portas da percepção ao sobrecarrega-la de imagens uníssonas, alinhadas, culturais. Ao fotografar sinto estar participando disso, contribuindo para a solidificação dessas barreiras perceptuais que nos mantém eternamente aprisionados em um Real repetitivo e socialmente restringido. Assim, sinto agora fotografar como uma anti-liberdade, como um ato anti-libertário, como se colaborasse com o carcereiro.

Ando por aí pela rua e não quero que meu olhar seja instrumentalizado, domesticado. Ando pela rua, e a rua é viva, a rua é ela, não é uma imagem fixa, tem vento, tem cheiros, tem barulho, tem um espaço que meu olho cria ao voltar-se para lá ou para cá observando o camelô a vender roscas ou a banca de jornais. “O sol na banca de revistas”. A perspectiva cônica não a descreve, a perspectiva cônica a reduz, a minimiza, a empobrece, a torna uma estrela de cinco pontas muitas vezes desenhada em um papel. Sinto-me traindo a riqueza do mundo ao fotografá-lo.

Por vários motivos, sinto-me rompido, ou quase rompido, com o fundamento básico da fotografia que é a aceitação da perpectivação cônica da câmera escura. Essa perspectivação me angustia agora. Essa perspectiva, aliás, quando arquiteto eu a sabia desenhar também com os métodos da geometria, e é também apenas um pequeno truque. Uma vez feito, todas as vezes é igual. Fazia com a geometria aquilo que a câmera faz.

Há o que fazer, para além disso, usando uma câmera e o ferramental fotográfico? Não sei. Não sei se há, nem sei se quero. E não é preciso responder, o tempo responderá sozinho. Não sinto pena, ao contrário, sinto é sensação de ter demorado tempo demais para perceber o incômodo com tanta clareza.

———————————

NOTA: Em fevereiro publiquei neste blog o poemeto sobre fotografia Desejo de Silêncio. Considero esse poemeto um precursor deste artigo, as mesmas inquietações estão narradas em outro tipo de linguagem. Talvez seja interessante comparar o artigo e ele. https://fotografiaempalavras.wordpress.com/2011/01/18/desejo-de-silencio/

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13 Respostas

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  1. Ah, Ivan….bem vindo ao clube dos desanimados. Fotografo há dois anos profissonalmente e já sinto o mesmo que vc. Mas creio que o ponto é outro sabe…estamos atolados de imagens, isso é fato; milhares de referências. Considero a fotografia comercial hoje em dia mecânica, plastificada, fútil mesmo, se é que se pode definir assim. Depois de tanto pensar sobre isso encontrei um termo: fora de propósito. Pra mim, tud se resume a isso. se não vejo um propósito maior, não me da vontade de fazer. To trabalhando no meu. Quando chegara hora tenho certeza que vc vai encontrar o seu.
    Abraço e parabéns pelo blog!

    Sueli

    8 de fevereiro de 2011 at 2:52 pm

    • Sueli;
      Obrigado pelo comentário, e várias frases do seu comentário eu poderia assinar como “estamos atolados de imagens, isso é fato; milhares de referências” e “fora de propósito”.
      Minha questão, é engradado porque depois que escrevo algo me assaltam novas visões do assunto -e talvez seja esse o sentido de escrever- é de fato um agastamento com a perspectiva cônica, com o espaço domesticado dela, talvez não por acaso tenha escolhido para ilustrar uma foto que ainda feita da mais castiça forma cônica mostra um espaço perturbado. Estamos aprisionados em um mundo de imagens onde a perspectiva cônica é ditadora.

      Ivan de Almeida

      8 de fevereiro de 2011 at 3:00 pm

  2. Amado Ivan, bom texto, talvez um “desabafo” do que vc sente nesse momento.
    No passado, os que seriam iniciados no “grupo rs” de Platão tinham que fazer um longo jejum. Não de alimentos, mas de “palavras”.
    Seria o caso de um “jejum de imagens” uma das possibilidades de alívio para os dias de hoje?
    Ou o oposto, compreender que tudo é Geometria, TUDO, (vc, Arquiteto e Filósofo sabe bem disso) e, sendo assim, fazemos parte plena dessa Geometria, o nosso produto (fotografia) sempre fará parte tembém.
    Jejum de imagens ou ver o colorido da luz do Sol sobre a banca de jornais, após uma boa meditação?

    P.S. Para “ensinar/demonstrar” algumas coisas para alguns que se iniciam, bons fotógrafos, amigos, se referem à câmera como “ferramenta”… No fundo, sei que não pensam assim, mas é preciso falar com certo grupo de alunos assim. Me veio a idéia do “respeito”. Respeitamos nossas câmeras fotográficas com B.B.King respeita sua guitarra, como o pianista respeita seu piano ou, estamos (em nome do desprendimento) nos tornando “operadores de ferramentas” ?
    Mudei um pouco o assunto, mas pode haver alguma conecção.
    No momento posso te dizer: Respeito a fotografia, respeito com carinho todos os equipamentos e também o ofício.
    Me parece que teu caso é simples… Respira, passeia, olhe, e aceite a geometria (cada vez melhor, sem dúvida)
    E, risos… Me desculpe por dar a solução final, “mandar” o que vc deve fazer rs…. VC TEM SORTE QUE SUAS FOTO TEM IDENTIDADE, SÃO SUAS FOTO, BATA O OLHO, SUAS FOTOS!
    Um grande abraço, retorno ao trabalho corrido de hoje. Nando

    Nando

    8 de fevereiro de 2011 at 3:18 pm

    • Meu querido Nando;

      Adorei essa idéia do jejum platônico, acho mesmo que é uma sabedoria enorme. Na penúlgima postagem desse blog já falava algo assim, em sintonia com isso no poemeto fotográfico Desejo de Silêncio . Não é não ver, e sim não ver imagens preparadas, alinhadas, domesticadas pela projeção cônica. No passado, várias décadas atrás, uma excursão solitária a pé, na qual não podia falar porque não havia com quem, trouxe-me novas compreensões importantes, então essa dieta seria muito boa na fotografia, fosse ela possível.

      Talvez seja, bastando reverter ao estado antes-de-fotógrafo, de distraído. Mas acho que, como o Mautner disse, depois de deixarmos de falar com os animais não há mais volta, e só podermos voltar ao paraíso indo ao infinito e retornando, não podemos recuperar a inocência ocular perdida.

      Não há como escapar da geometria, mas talvez haja como colocá-la subordinada. A pintura fez isso, ajudada pela fotografia que encampou o campo figurativo. A pintura deixou de ser geométrica no sentido da representação, após esgotar-se nele. Tenho meia dúzia de idéias. Infelizmente todas parecem dar muito trabalho -risos.

      Grande abraço,
      Ivan

      Ivan de Almeida

      8 de fevereiro de 2011 at 3:45 pm

  3. Eu diria amo você mas seria muito bobo, então prefiro dizer, estudei dois anos fotografia, não era o curso que queria, mas uma vez lá, eu fiz o melhor que pude.
    Descobri Flusser, Santaela… e algumas outras pessoas interessantes… mas a combinação de Flusser e Pierce na minha mente, simplesmente me fizeram pensar exatamete o que você expos e eu nunca soube dizer com tanta delicadeza, e com tanto sentimento.

    Senti vontade de me isolar também, sumir do mundo, ou sumir com esse mundo de imagens, talvez ninguém tenha aplaudido tanto a atitude do prefeito de SP, de remover os autdoors quanto eu. Parece que ele deu mais oxigenio a cidade… é mesmo esse mundo de imagens, povando tudo ao nosso redor, são ladrões de liberdade…

    como pode, e tem quem nem pense sobre isso. Existem “fabricantes” de imagens, que não questionam um se quer segundo como isso tem afetado, e interferido em todos nós. Estamos cada vez mais cheios de vazios.

    Sinto, porque sempre o vi como um amante da fotografia, e eram pessoas assim como você que me animam a não ver diferente… mas, alguém vai descobrir como voltar a ser livre mesmo diante as imagens, espero que em breve… muito breve, e divulgue a formula caso a encontre.

    Bem vindo de volta a realidade, de onde nada pode ser aprisionado nem mesmo nosso olhar. Porque o olhar dentre todos os outros sentidos é fugaz.

    Pri

    8 de fevereiro de 2011 at 4:13 pm

    • Priscila, querida;
      Uma das coisas inesperadas desta minha postagem no blog foi ter tido comentários carinhosos. Talvez essa sinceridade, essa mania obsoleta de escrever na primeira pessoa ao invés de disfarçar minhas opiniões em análises falsamente impessoais tenha permitido, dessa vez, dizer algo que algumas outras pessoas sentem. Ao ler seu comentário a citação à limpeza visual da cidade de São Paulo pelo Kassab mostrou-me a ressonância na maneira de sentir. É exatamente isso: imagem demais, imagem conformando nossas vivências quando nossas vivências as deveriam, talvez, conformar. Tantas e tantas, avassaladoras, que passam a ser donas de nossa maneira de pensar o mundo, nós não mais o pensamos, recitamo-lo como imagens projetadas. Igualmente sua citação combinativa Flusser-Pierce toca nos dois pólos da construção visual, o funcionamento da “máquina perspectivadora” e a “máquina de significar” que é a comunicação. Isso é a fotografia, ou quase toda ela.

      Posso ter dado a impressão, mas essa minha postagem não foi uma despedida da fotografia, não estou me retirando do campo. Nem desse blog para o qual tenho até artigos meio-escritos e em dívida, como a segunda parte do artigo sobre PB. Entendo que a fotografia continuará comigo em usos onde ela é única, como na construção da crônica familiar e outros, e continuarei fotografando por diversão, diversificadamente. Mas penso seriamente sobre a descrição do mundo feito pela câmera estática – essa máquina de perspectivar- e no que se refere a uma busca, digamos assim, o uso da câmera mudará um pouco.

      Ivan de Almeida

      8 de fevereiro de 2011 at 8:45 pm

  4. É a mais pura e palpável verdade da fotografia. Como me dói estar ciente disso.
    É algo que também não quero mais, tenho tentado muito fugir disso, mas como foi colocado por você, às vezes precisamos nos afastar das imagens, ficar cegos, literalmente.

    Além de mentirmos a beleza, tornando-a menor, estamos cada vez mais viciados na repetição, automatizados.
    Definitivamente muito triste.

    Mariana Beltrame

    9 de fevereiro de 2011 at 1:01 pm

    • Não vejo como triste, Mariana, mas como uma injunção de uma vida social conformada pelos meios de comunicação. Eles surgem, trazem um fluxo de novas maneiras de ver o mundo, depois essas novas maneiras tornam-se prisões para os tempos seguintes. Isso é sempre, assim foi na escrita. O Sócrates dizia que não gostava de livros porque os livros não podiam responder quando lhe surgia dúvidas sobre alguma das questões neles mencionadas, isso já era uma domesticação das palavras ao texto. mas para cada um de nós esse fenômeno pode ter um peso. Um fotografador ocasional talvez não encontre essa sufocação por imagens, ou não se dê conta, por não possuir as chaves que possúímos sobre a construção da narrativa por imagens nem terem adestrado seu olho para ver como uma máquina de perspectivar (câmera).

      Ivan de Almeida

      9 de fevereiro de 2011 at 1:07 pm

  5. […] Fotografia em Palavras – Ele faz um bom misto entre texto e imagens, normalmente os textos comentando as imagens. O que me chamou a atenção é que de todos os blogs ele foi o único que incorporou o vídeo dentro do conteúdo. Como ele mesmo diz, ainda precisa acertar alguns detalhes, mas acho que a iniciativa tem futuro. […]

  6. Sabe Ivan, desde o começo desde ano, comecei a sentir exatamente isto, um cansaço de fotografar, a bem da verdade, comecei a senti-lo bem antes, mas não me dei conta, foi quando parei de frequentar os fóruns de fotografias, simplesmente por achar que aquilo estava sendo repetitivo, ou mecânico como você diz neste artigo. Daí este ano passei a me cansar de fotografar, na verdade de me entediar deste ato mecanico. Descobri uma outra forma, faz 2 meses, voltei para o filme, nele, além da limitação de cliques; comecei a ver que o inesperado me traz mais alegria que o imediatismo do digital, acrescentando que nos faz pensar na fotografia, nos faz fazer a fotografia na mente antes e após é registrar aquele pensamento e depois ver se houve uma boa ou má surpresa, ao revelar.

    Talvez nesta seara é que reside esta insatisfação, o imediatismo da onda digital e da web.

    Abraços

    Ricardo Lou

    2 de abril de 2011 at 4:09 am

    • Acho que você está certo, o imediatismo, tomado no particular de cada fotografia e tomado no mais vasto de uma busca fotográfica que não se faz por conta desse imediatismo. Mas há algo além, Ricardo, que é o fato da fotografia ser confirmativa da forma do homem declarar a realidade, na verdade ela é confirmativa de si mesma porque acreditada como forma de declaração da realidade. Isso é uma grande prisão, porque quando isso se consolida, tudo volteia em torno, confirmando, reconfirmando e limitando nossa percepção.

      Abraços

      Ivan de Almeida

      2 de abril de 2011 at 4:17 am

  7. Olá sou Marcos do site http://www.euquefizzz.com.br e gostaria de fazer uma proposta comercial, qual email devo entrar em contato ? Obrigado.

    marcos

    11 de maio de 2016 at 11:12 am

    • Marcos;

      De modo geral, não faço esses blogs com finalidade comercial, mas fico honrado quando recebo um email como este seu, e sim, gostaria de ler o seu propósito/plano, quem sabe me seduzirão? O mundo às vezes nos traz coisas que não pensamos e são boas, só gostaria que não se aborrecesse se eu disser que tal ou qual coisa não é meu objetivo.

      Mandei para seu endereço um email pessoal com meu email

      Um abraço

      Ivan

      Ivan de Almeida

      11 de maio de 2016 at 11:46 am


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