Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

O mistério do papel.

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O mistério do papel.

Uma fotografia de certo tamanho no papel soa ao observador muito diferentemente da mesma fotografia na tela de um monitor.

Já sabia disso há muitos anos, desde quando produzi algumas fotografias para aquilo que chamei “exposição caipira”, uma exposição de fotografias em uma pequena cidade da serra fluminense. Lembro-me da verdadeira luta que foi  o processo de escolha, que envolvia ver as fotos na tela, mandar copiar e elas quase sempre me decepcionarem ampliadas. Não porque ficassem diferentes da tela, isso não. As cores resultavam bastante fiéis, o contraste idem, mas havia outra questão, uma questão que até hoje me intriga por eu não ter conseguido resolvê-la: A obtenção de boa previsibilidade do desempenho de uma fotografia para a nossa psicologia perceptiva quando uma imagem é transposta para o papel em um tamanho razoável, digamos, com 25 a 30cm, pelo menos, na menos dimensão.

Lembro-me que para selecionar 12 fotografias ter ampliado em tamanho final mais de 35 entre as já exaustivamente escolhidas. Preparava, olhava, selecionava na tela, levava ao minilab e só poucas, muito poucas sustentavam-se minimamente, isto é, eram capazes de receber atençãocontemplativa  e recompensá-la. Dessas doze, já durante a exposição caipira sabia que apenas umas seis realmente permaneceriam sustentando a minha contemplação, e dessas todas apenas uma ou duas considerava  sólidas.

Ocorre que ao fotografar meu esforço é voltado exatamente para fazer essas duas. Essas duas são a meta, o objetivo, aquilo que todo o processo tenta produzir. Todas as outras são dispensáveis, são apenas caminho percorrido. Dessa exposição, sobraram-me algumas fotos pregadas na parede de minha casa na serra, e essas duas, passados seis anos, mantém para mim todo o poder de enredar minha atenção e a fazer perder-se na imagem.

De lá para cá vi muita fotografia, fotografei muito, mas não conquistei saber fazer fotos que se igualassem às duas. É claro, fiz outras que a elas igualaram-se, mas essas outras foram, como aquelas, emergências, irrupções, não consegui de antemão conhecer o desempenho psicológico de uma foto a observando preparada na tela. Decepcionei-me com muitas fotos de autores famosos quando as vi em cópias, aliás.

Como definir isso? Ora, percebo haver em algumas poucas fotografias certa complexidade na conjugação dos elementos e essa complexidade permite observações recursivas durante anos, sem a observação recair em um “já conheço”. A cada vez, o objeto estético –no caso a foto- captura e enreda a observação, e de tal forma fica enredada que se perde a memória do vi-não-vi. Cada vez é nova, mesmo não sendo novidade. Cada vez é nova como é nova a sensação de comer uma fruta boa, amadurecida mesmo quando já comemos centenas de vezes o mesmo tipo de fruta. Busco isso. Gostaria de saber fazer isso não umas poucas vezes, mas vezes suficientes para poder confiar em fazer deliberadamente.

Essas duas fotos, chego mesmo a esquecer que fui eu quem as fez. Isso simplesmente não importa quando as olho, meu olho não lembra de um eu autor, não se vangloria, não se identifica satisfeito e vaidoso, só olha e é seduzido pela imagem. E não são imagens que pareçam extraordinárias, ao contrário, parecem comuns.

E isso, prever isso nada tem a ver com o aspecto da fotografia na tela, por maior que seja a tela. Hoje tenho uma tela média, de 23” tecnologia IPS, e uma imagem horizontal nela fica quase do tamanho da impressão que faço. Mas isso não me dá nem um pouco mais de capacidade de prever. Por que no papel, fora da tela, ali mesmo, ainda sem moldura nem nada e apoiada sobre a almofada do sofá da sala, uma fotografia me responde de forma surpreendente e outra amiúda a voz? Por que uma fotografia parece que se sustentará por todo o tempo e outra, antes promissora, revela-se rasa, não merece um segundo olhar?

Tenho passado por isso novamente desde uns dois meses quando comecei a imprimir em casa cópias de até 33 cm de menor dimensão. Já sabia disso, sabia dessa questão, mas agora tem sido diária a experiência. Nas últimas duas semanas imprimi muitas em tamanho 30X45. Apenas três delas resultaram animadoras nesse sentido falado.

Isto me faz pensar que para meus propósitos e diante de minha incapacidade de prever, por mais trabalhoso que  seja, preciso eu mesmo imprimir. Porque percebo haver, pelo menos no que tange ao desenvolvimento desse tipo de fotografias, um caminho do fim para o meio. Na verdade, todo desenvolvimento de fotografia é isso, é um caminho do fim (resultado) para o meio. É a intenção, o meta-projeto, a intuição do que se quer no fim que orienta as decisões-meios. Embora o fim esteja depois dos meios em termos temporais, ele deve preceder os meios como força geradora.

Mas, quando o fim não é na tela, quando o problema não se resume em imprimir a tela, quando uma parte da nossa percepção sobre o objeto estético só acontece nele efetivamente impresso, isto é, só acontece nele, e não em um pré-ele, não podemos iluminar os meios com a intenção do fim a menos que possamos produzir um fim-provisório e pensar sobre ele. Precisamos ver as fotos impressas para isso nos ajudar a criar uma análise do fim para o começo, libertando a análise da ilusão da foto na tela -que é enganadora, não importa o quanto igual a impressão fique.

É na materialidade, no tamanho efetivo, na existência sob a luz do mundo, na existência entre os objetos do mundo que podemos julgar a imagem quando nosso objetivo é ela existir na materialidade. E é desse julgamento que obtemos as idéias estéticas de desenvolvimento. Por mais longe que tenhamos chegado na tela, há algo só visível no final.

Espero que aos poucos vá se construindo em mim um poder analítico do fim para o começo, e que ele inclua essa relação entre a minha psicologia e o objeto, essa dança entre o objeto e minha visita contemplativa a ele a cada vez. Passei algumas noites olhando diretórios de fotos minhas. Centenas, milhares de fotos. Entre elas, quais? De repente, motivado por buscar imagens em Preto e Branco para experimentar uma impressora que preparara para Preto e Branco encontrei algumas. Estavam lá. Não eram as que mostrei a alguém ou postei na rede, não eram as que preparei antes. Eram outras.

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Written by Ivan de Almeida

8 de agosto de 2011 às 3:27 am

10 Respostas

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  1. =)
    Talvez tenha algo que ver com as zonas cerebrais acionadas ao “lermos” na tela, são diferentes das que se acionam ao ler no papel. Se vale para palavras, com estudos, que provam o fato, por que seria diferente com as imagens? Há algo de muito pessoal numa fotografia impressa, que mesmo numa imagem jamais exposta a outros guardada no nosso HD não tem a mesma cumplicidade.
    São discursos diferentes, tempos diferentes, imagens diferentes. Em cada parte do processo a imagem é única, e em todas acredito que sejam fins e meios. É concluída, no primeiro instante quando você a enxerga e clica (não vou lembrar quem é, mas teve um fotografo, que fez não sei quantos zilhões de negativos, e nunca os revelou, foram descobertos depois que ela tinha morrido, era alguém conceituado, se achar depois mando o nome), de qualquer forma, o processo de ver a imagem e registrá-la, já é um fim e um meio, um meio se pensar na imagem na tela, e um fim se pensarmos simplesmente na imagem feita. O fazer a imagem, é o instante do clique, o depois é um novo processo, que pede um novo fim, e assim, numa sucessão infinita de meios e fins, até que parem em uma parede e alcancem um olhar, para recomeçar fins e meios dentro dos sentidos no humano.

    (sempre “briso” nos seus textos, rs)
    Valeu pelos pensamentos!!!

    Priscila MOnteiro

    8 de agosto de 2011 at 4:08 am

    • Concordo muito com você, Pricila. São cadeias de fins e meios, cada qual válida para uma apresentação e para uma finalidade da fotografia. Há mesmo uma necessidade, nos tempos atuais, de produção de fotos para a tela, que soem bem na tela, porque a tela passou a ser um meio final, na tela a fotografia insere-se em um fluxo de comunicação próprio.
      Obrigadão,
      Abraços,
      Ivan

      Ivan de Almeida

      8 de agosto de 2011 at 12:11 pm

  2. Ivan,
    Mas um artigo muito bom e com profundidade. Parabéns!
    Desde que li o primeiro artigo seu, encontrei eco e reflexo para minhas próprias preocupações e indagações. Essa questão da imagem na tela do computador e da mesma imagem adquirindo materialidade física no papel, é bem mais complexa e, como você colocou muito bem, envolve toda uma questão sensitiva psicológica que a gestalt nos dá alguns caminhos. Questões que muitas vezes nem se quer pensamos ao fotografar, geração virtual, cuja maioria nunca segurou uma foto impressa nas mãos. Concordo com você sobre a questão do fim direcionando os meios. Ansel Adams tratou toda sua vida de fotógrafo, sobre este tema e seus conceitos em relação ao método de Zonas por ele criado, é um processo que tem, acredito eu, essa preocupação constante. Mais uma vez parabéns!
    Roberto

    Roberto

    8 de agosto de 2011 at 10:56 am

    • Nós mesmos, Roberto, nos acostumamos à tela. Vou escrever outros artigos sobre impressão, mas existe um paradima que pensa a impressão como um ato passivo, quase. Um monitor bom e calibrado, e o desenvolvimento da fotografia pára ali, depois o que se desejaria é a impressão que não corrompa e que valorize. Mas tenho cada vez mais sido levado a pensar que não pode ser assim, e uma das razões está neste texto de hoje.
      Um grande abraço, e obrigado pela visita e comentário,
      Ivan

      Ivan de Almeida

      8 de agosto de 2011 at 12:08 pm

  3. A foto enquanto objeto vai muito além da foto enquanto mera imagem.

    Rodrigo

    10 de agosto de 2011 at 12:25 pm

    • É isso mesmo, Rodrigo. E para fazer um bom objeto o raciocínio é um pouco diferente do raciocínio de fazer uma boa imagem.

      Ivan de Almeida

      10 de agosto de 2011 at 2:04 pm

  4. Nao é a mesma coisa eu sei, nós sabemos.
    Nao sinto a mesma emocao da imagem na tela, pensava que era só eu, nao consigo uma explicacao logica, alias, nao a quero!

    Abracos,

    Sergio

    Sergio

    13 de setembro de 2011 at 12:16 am

    • Pois é, Sérgio.
      Não é a mesma coisa, e há fotos cuja vida no papel é uma e no video outra. Nem toda foto vistosa no video presta no papel.

      Ivan de Almeida

      13 de setembro de 2011 at 1:50 am

  5. Ivan, que coincidência! Há um bom tempo que não entro no seu blog e hoje recebi o seu e-mail com o link de suas ultimas duas postagens. A coincidência é que há praticamente 1 semana venho pensando sistematicamente na questão da fotografia impressa, lembrando do tempo da fotografia de filme e bolando planos para começar a imprimir meu acervo digital (só as melhores, claro).
    Seu texto traduz bem um dos conflitos na minha mente, e com certeza é um grande incentivo para voltar a imprimir minhas fotografias.
    O que nos leva a outra questão. A partir do momento que se imprime, e se busca a melhor imagem para imprimir (ou aquela que terá o melhor desempenho), passa-se naturalmente a valorizar a qualidade da imagem, em contraponto a quantidade de imagens, praga da era digital. Questões tão básicas da fotografia, como composição, momentos decisivos, etc, passam a ter outro valor, talvez mais perto da época do filme, onde por motivos financeiros o clique era mais pensando, ao invés de disparado.

    Daniel Costa

    30 de setembro de 2011 at 9:02 pm

    • Obrigado, Daniel, pelo comentário.

      A impressão em si impõe algumas disciplinas e escolhas, e considero a impressão parte integrante do processo criativo porque não entendo a impressão como uma etapa neutra que meramente traduz fidedignamente aquilo que está na tela, mas como uma etapa que impõe suas questões e na qual resolvê-las implica em não consderar tanto o que o monitor mostra, mas sim como o papel e a tinta mostram, criando um ajuste “do papel para a tela”. Sem dúvida imprime-se pouco, porque mesmo barateando não é barato, então a seleção precisa ficar melhor e levar em consideração o desempenho da imagem no papel.

      grande abraço
      Ivan

      Ivan de Almeida

      30 de setembro de 2011 at 10:17 pm


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