Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

Há uma nova Fotografia surgindo?

with 3 comments

Republicação.
Publicação inicial na newsletter Fotografia em Palavras
junho de 2007

Há cerca de dois ou três anos li uma afirmativa do David Hockney sobre a fotografia na qual ele, com termos que não são exatamente esses, afirmava estar a fotografia afastando-se do paradigma naturalista e caminhando para a pintura.

Agora há pouco, ciscando no Flickr, passei os olhos sobre muitas imagens em HDR, tanto imagens com combinação de exposição quanto imagens produzidas a partir de uma única tomada. Obviamente elas fogem do paradigma ao qual associamos a representação fotográfica realista, embora esse paradigma por sua vez nada tenha também de realista, e aproximam-se do desenho, especialmente lembrando o desenho em têmpera.

As artes visuais vivem de voltas e reviravoltas. Há cerca de 40 a 30 anos o movimento chamado Hiper-Realismo levou os pintores a pintarem fotografias, quase. Mas é no quase a diferença importante. Pois eles não somente pintavam fotografias como a elas acrescentavam muitas vezes uma ampliação do mapa tonal, dando visibilidade aos detalhes das baixas-luzes. Nisso não havia inovação, pois a pintura paisagística e outras sempre ignorou a visibilidade da cena em favor de sua descrição. De certa maneira, a pintura sempre usou HDR.

Mas agora começamos a ver fotografias parecendo… pinturas hiper-realistas, as quais pareciam ao seu tempo… fotografias.

Olhando a série de imagens em HDR ou em mapa tonal estendido, compreendemos bastante bem a opinião do Hockney. Ele mesmo tem com a fotografia uma relação muito investigativa, tanto em suas colagens quanto em pinturas e desenhos de abordagem nitidamente fotográfica.

Navegando no Flickr encontro imagens surpreendentes. Uma grande parte delas mal feitas ou exageradas, mas algumas poucas trazendo uma descrição dos ambientes e das situações surpreendentemente potente. Não são fotografias em sua forma pura, mas logo somos levados a perguntar o que é essa forma pura da fotografia, arte tecnológica desde sempre, e arte que inventa uma representação através de seus próprios métodos. Se nos parece pouco realista uma fotografia de viés hiper-realista/HDR, que afinal de contas nos informa coisas sobre a cena que seríamos capazes de distinguir se lá presentes, pois o funcionamento de nossa visão é sempre adaptativo à iluminação do objeto (e assim distinguimos os detalhes muito claros e os muito escuros na mesma cena, coisa que a câmera não faz), por que nos parece correta uma foto com fundo desfocado, quando nunca percebemos o ambiente desfocado devido exatamente às inúmeras adaptações de nossa visão quando o escrutina?

O desfocado é uma decorrência da ótica, é uma descrição formal advinda não de nossa experiência de mundo, mas de uma experiência de segunda ordem, a experiência de usar o aparelho fotográfico, e só através dele acessível.

O desfocado só existe na ótica, então ele é tomado como representação natural tão somente devido ao nosso costume em contemplar e entender imagens geradas pelo instrumento ótico.

Então, o quanto não-realista é um HDR? O quanto ele é uma negação da fotografia e o quanto ele é tão somente um ideal realizado cujos fundamentos já encontrávamos na fotografia feita pelo Ansel Adams? Quando ele dizia não ter feito Deus a escala tonal certa de muitas cenas, e por isso as corrigia, o que ele fazia além de pintar e desenhar?

Mas o meio duro, o meio químico que em essência é hardware foi substituído pelo meio mole, software, e sem queremos, sem percebermos, e somente porque o novo instrumento nos mostra certas coisas mesmo contra a nossa vontade, somos empurrados a abordar as tonalidades já sem tê-las tão amarradas quanto antes. Mesmo o fotógrafo digital que pensa estar fazendo a mais castiça fotografia, ao converter um RAW recuperando as altas-luzes e ao diminuir o contraste para ganhar meios-tons está, sem perceber, sem sequer aceitar, adotando o novo paradigma.

Assim, ao ver tantas fotos em HDR ou em mapeamento estendido de uma única foto percebi que uma parte de minhas fotos já obedecia espontaneamente a esses modelos. Pura e simplesmente obedecia por serem os problemas e as soluções semelhantes.

Em que ponto fica rompida a ligação com a fotografia? Algumas fotos minhas eu chego a percebê-las como desenhos. Mas a transformação do pensamento sobre o que é uma foto segue surda, escondida, implícita. Há quatro ou cinco anos seguramente era mais fácil ter certezas sobre isso, sobre o grau de tratamento desnaturante. Mas essa certeza foi sendo perdida, não por debates e discussões a respeito, mas sem esses debates terem sequer ocorrido direito. Enquanto tantos discutiram os méritos da fotografia com película versus os méritos da fotografia digital, mas no fundo tentando fazer com essa última o serviço da primeira, um monte de amadores, de curiosos, de gente sem compromisso prévio com a fotografia foi se aventurando, foi experimentando, e mesmo os que seguem o dogma naturalista em certos momentos mexem nos contrastes, mudam as curvas, tornam visíveis coisas invisíveis, e sem discutir, sem pensar, sem nada o dogma vai mudando.

Outro fotógrafo no Flickr diz preferir câmeras de sensores pequenos e diz o motivo, e ao lê-lo nos espantamos… Ele gosta porque elas produzem ruído! Ele gosta do ruído, considera o ruído semelhante ao que sua experiência com filme PB lhe fornecia, e mostra uma galeria na qual compara fotos que fez com uma Leica e TriX com fotos feitas em uma Leica DLUX-3, sensor pequeno cheio de pixels.

E assim, o modelo monolítico começa a tornar-se poroso. De várias fontes a fotografia começa a mudar, não mudar pelo meio de captura, mas por possibilidades antes insuspeitadas desse novo meio. Novas ferramentas possibilitam novas formas de gerar imagens, e essas imagens têm novas características. O profundíssimo DOF dos sensores pequenos que nega ao praticante o bokeh cremoso mas lhe dá a descrição funda dos ambientes é um exemplo. Os sensores não foram feitos pequenos para produzirem DOF fundo, mas por economia. Isso foi em um primeiro momento uma característica indesejada apenas para baratear, mas hoje isso torna-se uma ferramenta, abre possibilidades antes inexistentes.

Estamos em um desses momentos em que os praticantes de uma arte são “convocados” pelas mudanças da época para redefinirem o que é esta arte, para refazerem sua prática. Isso pode ser vivido como aventura ou como aborrecimento. Mas, vivendo de uma forma ou de outra, somente se altera a maneira de participarmos de um processo que é inexorável. O processo não depende de nossa vontade individual.

O que estamos perdendo é meramente uma ilusão. A ilusão em ser o aparelho fotográfico uma máquina mágica capaz de capturar a realidade. A palavra captura já encerra essa esperança indevida. Quem captura, captura algo que existe antes e fora do ato de captura. Não mais é o caso de capturarmos nada, mas de construirmos uma narrativa visual das coisas, narrativa essa por natureza heterodoxa, livre, na qual mesmo o dogma passa a ser uma escolha, o dogma passa a ser um estilo somente, imerso no fenômeno maior de produção de narrativas visuais.

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3 Respostas

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  1. Olá Ivan de Almeida!

    Permita-me mais uma intervenção no seu formoso blog.
    A propósito da sua frase acima: “Há cerca de 40 a 30 anos o movimento chamado Hiper-Realismo levou os pintores a pintarem fotografias, quase. ”

    … Se calhar, agora está na moda o oposto! O que pensa o Ivan do assunto que este link em baixo nos mostra no video?
    Obrigado.
    Cumprimentos,
    Olga Piao

    http://www.huffingtonpost.com/tedtalks/alexa-meade-ted-talk_b_4235989.html?icid=maing-grid7%7Chtmlws-main-bb%7Cdl10%7Csec1_lnk3%26pLid%3D403384

    Olga

    12 de novembro de 2013 at 2:33 pm

    • Olga;

      Este artigo foi escrito em junho de 2007. Continuo concordando com o que pensei naquela época, mas hoje ele abordaria outras coisas, talvez, ou até nem fosse escrito.

      Explico:

      Meus artigos neste blog não visam exatamente eu ser notado, eu ter prestígio, sei lá. Não ganho um tostão com fotografia ou texto sobre ela. A fotografia para mim é valiosa não por me dar dinheiro -nenhum, nem por objeto nem por texto- mas por ser um campo no qual exploro a compreensão da estética, da percepção, campos que são meus campos de interesse desde a tenra juventude.

      Busco compreender a percepção para com base nisso compreender a percepção da existência, isso sim para mim valioso. E a fotografia é um dos campos onde a busca de entendimento do jogo ajuda a compreender como nossa percepção visual funciona.

      E há várias outras esferas de compreensão deste assunto que nem aqui abordo, pois fogem do universo fotográfico.

      O trabalho mostrado neste link indicado por você é interessante. Gostei de ver, mas não o poria na parede… Bem ou mal é um simulacro da pintura. Legalzinho, mas bobo, embora bem feito.

      Obrigado
      Ivan

      Ivan de Almeida

      12 de novembro de 2013 at 3:07 pm

      • Apesar do seu artigo ser de 2007, e não ter nada que ver com o link que lhe indiquei (eu apenas vi o link pela primeira vez ontem) também o achei interessante na medida do contraste de há 40 ou 30 anos que se pintava na fotografia, e agora, há quem “pinte o sete” em nome da fotografia – desculpe-me a expressão, é uma expressão portuguesa que significa, “fazer bagunça”.

        Gostei de saber que não sou a única que não penduraria tal obra na parede. Quanto a mim, que gosto só de fotografia apenas como um hobby, (também sem qualquer lucro ou prestigio) achei a obra do link mais para o bobozinho do que para o legalzinho. Mas respeito, claro!
        Obrigado por sua resposta (sempre tão completas)
        Espero que não tivesse sido uma maçada.
        Olga,

        Olga

        12 de novembro de 2013 at 6:22 pm


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