Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

Jaquinzinhos-de-rabo-na-boca

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Jaquinzinhos-de-rabo-na boca

(mas todos podem se divertir)

Ubuntu significa “Eu sou o que sou devido ao que todos nós somos”. O que somos define as possibilidades para o que podemos ser, cada um.

Ontem li um artigo ótimo no Icônica, um ótimo e sério blog de fotografia (Apropriações: modos de transitar pelo excesso). O excelente artigo do Ronaldo Entler  fala de forma bastante estruturada sobre algo que já se falou aqui de uma forma mais modesta e coloquial: da avassaladora quantidade de fotografias hoje existentes no nosso ambiente e da equivalência prática entre as fotografias existentes ou que são produzidas. O artigo, muito interessante, mostra alguns trabalhos reflexivos feitos a partir de imagens recolhidas no Flickr, trabalhos que demonstram essa avassaladora quantidade e a equivalência das imagens geradas, trabalhos nos quais essa infinitude é desvelada em sua dinâmica, seja de produzir fotografias semelhantes entre si, seja de produzir muitas. O artigo vale a leitura, de modo que não vou me alongar aqui o descrevendo. Além disso, quem o ler poderá ter uma compreensão melhor que a minha.

O que sempre fica subentendido ao se pensar tais assuntos é a relevância da produção fotográfica individual diante dessa proliferação de imagens. Esta é a questão oculta, porque é essa no fundo a preocupação de cada fotógrafo. Parece-me que nesse ponto o jaquinzinho é servido de-rabo-na boca, como me explicou uma amiga portuguesa: o peixe arrumado na travessa com o rabo na boca para ir à mesa. Lá usam tal expressão para denotar algo circular, algo que volta viciosamente ao ponto de partida. É uma fantástica expressão e lê-la foi uma dessas delícias da aproximação prática com amigos portugueses feitos através da rede. O pensamento da relevância da produção individual é um desses pensamentos que me parecem voltar sempre ao ponto de partida. Que ponto é esse?

Ora, a coisa começa a partir de uma certa aflição. Aflição com a irrelevância de produzir imagens que uma vez produzidas acrescentam-se a esse oceano, submergem nele, e  luta para permanecer na fina camada de superfície visível ou notável desse oceano, de onde emergem pequenas ondas fugazes logo aplainadas no esquecimento. Essa aflição parece-me provir de, de repente, os produtores de imagens terem se descoberto nessa situação, e de terem visto para si possibilidades muito diferentes daquelas de seus antecessores históricos. A primeira fotografia do mundo, fosse qual fosse o seu tema, fosse qual fosse a sua composição, era totalmente relevante. E, durante um longo período em um mundo enquanto a imagem permaneceu escassa, comparativamente, a fotografia manteve essa aura, manteve-se relevante porque o ambiente humano ainda era pouco povoado por imagens fotográficas e a ilustração ou pintura não era capaz de povoá-lo.

A aflição, agora, provém de se tentar ocupar um lugar que não mais existe. Nesse sentido é circular, porque nessa tentativa, mesmo naquelas tentativas que o artigo citado aponta -reflexões de segunda ordem a respeito do fenômeno-, não se cria relevância, mas apenas mais irrelevância. Os exemplos dados podem ser ditos relevantes tão somente no contexto da reflexão, mas na verdade somam-se também ao caudal de imagens ou derivações de imagens sem delas emergirem especialmente. Contém pequenas surpresas, pequenos desvelamentos, mas não uma surpresa fundamental e não restauram em si a aura das imagens fotográficas. São  teoremas demonstrados,  são exatamente como teoremas na matemática do ginásio, demonstram coisas que já sabemos ser daquele jeito intuitivamente.

Venho aqui insistindo sobre a vanitude de se buscar relevância na produção fotográfica, pelo menos de se buscar relevância nos moldes antigos -ainda uma referência-desejo dos produtores. Essa busca de relevância parece-me incompreensão das condições da época, inconformismo e recusa da aceitação das possibilidades do nosso tempo. Busca-se desesperadamente algo já não disponível, não importando o para isso “talento” do produtor. Tenta-se através de uma desesperada afirmação de talento ter algo já inexistente, como fosse questão de talento. O produtor pode, é verdade, tornar sua produção valiosa, inserir sua produção em um mercado artístico, ter fama, mas isso é profundamente diferente de torná-la relevante no mesmo sentido das fotografias do passado. Essas inserções são condições práticas do intercâmbio e do  mercado, não mais que isso, e não se confundem, como no passado se confundiram, com indicadores de relevância. Paradoxalmente, hoje, quando esse campo é dominado pela ação de curadoria para tentar assegurar antecipadamente a relevância ao mostrado, ele se torna irremediavelmente irrelevante. O fato de tudo ser curatelado só demonstra haver um saber íntimo quanto à irrelevância, e assim funciona como tentativa desesperada de obtê-la através de uma espécie de certificação da obra.

Contudo, a fotografia como fenômeno permanece imensamente relevante para a sociedade e, mais que isso, tornou-se endêmica no ambiente de comunicação. Sua relevância geral como elemento estruturador da comunicação, imensa, não se transmite, porém à relevância particular das fotografias.

Por outro aspecto, a fotografia sempre será imensamente relevante para o sujeito nela descrito ou para os seus próximos. Temos aqui um dos poucos campos onde a água brota limpa da fonte, onde se mantém preservada a relação mágica entre o observador e a fotografia. Os ávidos por relevância deveriam olhar mais para esse campo, mas esse campo termina relegado, termina sendo qualificado de fotografia menor. A razão para isso é não ser discurso com pretensão universal na origem, mas discurso particular, íntimo.

A busca pela relevância universal  impede a atenção aos campos íntimos. Fotografias familiares, fotografias de viagem, fotografias de baladas realizadas pelos próprios participantes, com ou sem linguagem fotográfica elaborada, continuam relevantes para aqueles nelas figurados ou para seus próximos por décadas. Há aí um campo para a prática fotográfica em sentido pleno, com linguagem, estética etc, mesmo a maioria da produção nesses temas sendo meramente vernacular. Não buscando a universalidade, o jaquinzinho não fica de-rabo-na-boca. O problema é serem perseguidos os mitos do passado, é o desejo de sentar em cadeiras de uma hipotética “academia brasileira (ou mundial) de fotografia” de ser “imortal” como os grandes do passado são e como alguns acadêmicos da ABL atual acham-se. Há um desejo de “academia”, não por forma, mas por uma certificação que declare “isto importa!”. Então acontece uma sôfrega perseguição à originalidade/qualidade=relevância que simplesmente não está mais disponível,  nesse círculo vicioso em uma angústia permanente por nunca ser possível ocupar o o lugar mitológico. Não  é por fraqueza dos produtores de imagens, não é por incompetência, mas pela simples razão daqueles papéis que querem encenar não fazerem mais sentido na atualidade.

Ninguém mais vai revolucionar o mundo pela fotografia. O mundo não mais se quedará surpreso por um instante decisivo, não mais haverá novidade em pictorialismo, não se deslumbrará mais com fotos de natureza depois de anos e anos submetido às fotos da National Geographics e a documentários na TV, não se surpreenderá com fotos-denúncias, não se deslumbrará com mulheres fotografadas como divas imateriais nem explicitamente desnudadas, não ficará pasmo com alaranjados de pores-do-sol. E também já está acostumado com a “novidade” da fotografia contemporânea, cuja estética experimentalista é também clichê. O mundo já sabe que tipo de coisa verá retratada, o mundo já se acostumou com o discurso da fotografia em suas variações. O preço pago por uma cultura amplamente inclusiva é que nada mais será diferente no sentido de resgatar o observador do ambiente psicológico dessa cultura.

Mas, por outro lado, todos podem se divertir. Para seu vizinho, a fotografia que você fizer dele será sempre imensamente relevante. Para você, as fotos dos seus filhos pequenos idem. Viver a vida concreta e retratá-la continuará a interessar. Talvez não faça de ninguém famoso, celebridade, mas continuará a interessar. E a fotografia comercial, idem, igualmente continuará tão relevante quanto necessária, mas não de relevância transcendente e sim da simples relevância da necessidade. Mesmo a fotografia artística gozará de uma relevância semelhante, afinal é preciso mercadoria para movimentar esse mercado. Tudo é mercadoria, exceto aquilo que é feito para si. Mas o feito para si não importa ao mundo. Por isso o jaquinzinho está como deve para ser servido: com o rabo na boca.

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Written by Ivan de Almeida

24 de outubro de 2011 às 1:18 pm

8 Respostas

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  1. Na verdade a relevância está no que fazemos com paixão para nós mesmos e não para os outros … compartilhar apenas para tentar levar algum sentimento legal e bacana ao próximo.

    Entretanto, neste mundo “Bigbrodiano” e que todos buscam ser celebridades a todo custo é cada vez mais raro isto.

    Todos são ávidos por aparecer, por serem ‘descolados’ aos olhos alheios, por serem “in”, serem “o/a cara” em seus meios.

    Para estes a irrelevância pesa, e muito.

    Abraços.

    peridapituba

    24 de outubro de 2011 at 2:40 pm

    • No fundo está exatamente isso dito por você: um vício endêmico no nosso mundo no qual só achamos ter valor através dos olhos do outro. Obrigado pelo comentário, Peri, muito direto e conciso, muito agudo.
      Grande abraço

      Ivan de Almeida

      24 de outubro de 2011 at 2:50 pm

  2. Ivan,
    Muito bom, este artigo vem ao encontro das minhas aflições fotográficas., pois, vejo cada dia mais uma inundação de imagens sendo despejadas e já sem nenhum valor, a não ser, a beleza plastificada nela estampada. Acho que não devemos buscar fazer algo original, mas uma leitura original. É por isso que uma vez falei que fotografo para mim, quando fui perguntado onde eu exponho minhas fotos. Concordo, muitas vezes acabamos preso ao olhar do outro e do seu pensar.
    Roberto

    Roberto

    24 de outubro de 2011 at 4:26 pm

    • Obrigado, Roberto. Noto quase um frenesí para ser relevante em um mundo em que nada é muito relevante. Só angustia.

      Abraços

      Ivan de Almeida

      24 de outubro de 2011 at 6:06 pm

  3. É bem por aí. Deixar de buscar a novidade, a originalidade, a revolução pode ser um passo muito libertador. Tendo a gostar cada vez mais das fotos menos pretensiosas, das que simplesmente mostram.

    Rodrigo

    24 de outubro de 2011 at 9:11 pm

  4. Ivan,

    Belo sumário de um sentimento que se espalha mais e mais. O problema é que a linha do “todos os filmes já foram feitos” as vezes, muito raramente, não é válida.

    Fica a esperança de, um dia, alguém (eu, põe exemplo) poder fazer uma única foto que dispare o “wow” geral.

    Abraços e continue.

    Nilo

    Nilo

    9 de novembro de 2011 at 8:57 pm


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