Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

As entranhas do processo criativo

with 7 comments

a foto

a foto

Planejamento e Resultados

Postar uma fotografia em um site de partilhamento de fotografias e de críticas implica em assumi-la como componente de nossa obra. A escolha das fotos postadas constitui um segundo ato fotográfico, uma Segunda Captura. A escolha é um processo incluindo desenvolver a fotografia para evidenciar as idéias nela contidas, e é preciso ter clareza sobre quais sejam.

Esse processo de escolha no qual uma fotografia é pinçada entre as outras, ele nem sempre é completamente consciente, e muitas vezes a partir das comentários nos sites de fotografia somos obrigados a compreender nossa própria produção, especialmente quando, por algum viés dos comentários, está embutida a pergunta: “Por que? Porque você mostrou esta foto?”

Essa pergunta me foi feita, e para responder voltei-me para a fotografia tentando identificar aquilo nela atraente aos meus olhos. Procurei compreender o meu olhar, sobretudo.

1)    A feitura da foto – o meta-projeto.

Na frente da minha casa acontece anualmente um festival de cultura japonesa. É quase impossível ignora-lo, pois o vejo da janela, então, ir fotografá-lo é irresistível.

De noite, e usando baixas velocidades, evidentemente não podia querer congelar completamente movimentos rápidos e vigorosos dos percusionistas de Taiko. Então, o meta-projeto das fotografias incluía o borramento. A escolha da 135mm, por sua vez, impõe o corte do contexto. Não era possível o isolamento perfeito de um percussionista nem a inclusão completa do contexto, obrigando uma abordagem onde o recorte do frame seria elemento da composição.

De onde venho, da arquitetura, esse núcleo de propostas tem um nome: “partido”. O partido de um projeto é uma série de orientações projetuais não integrantes do rol de necessidades, mas que o arquiteto julga serem contribuições capazes de caracteriza-lo.

Por exemplo, o Frank Lloyd Write, não precisava construir sobre a cascata, mas percebeu o potencial da construção assim feita. Construir sobre a cascata não é parte do programa de uma casa, mas a casa sobre a cascata é única exatamente pelo partido do arquiteto.

No caso da fotografia, traduzir o borrado não era obrigatório. Sempre seria possível usar uma lente mais curta e mais luminosa, elevar o ISO, e os movimentos ficariam mais detidos. A escolha de deixar borrar faz parte do partido, não é injunção dos meios.

Fiz 22 fotografias, divididas quatro ou cinco tipos.

2)    A segunda captura – o reconhecimento.

No Taiko os percussionistas fazem movimentos amplos e sincronizados. Isso gerou um padrão formal repetitivo. Embora tal coisa fizesse parte do meta-projeto e fosse buscada na captura, a pregnância desse padrão resultou uma surpresa feliz, com uma potência agradável e algo inesperada.

 

Figura 2

Figura 2

Observando as várias fotos, essa escolhida foi onde houve maior coerência de movimentos, produzindo composição de força formal pela repetição de quase-paralelas, cuja angulação nas duas direções é aproximadamente a mesma.

A primeira coisa notável é a existência dessas paralelas formadas por linhas continuadas entre um braço e uma baqueta, uma perna e outro braço, etc. Várias linhas são continuadas entre elementos. Isso é pregnante a ponto de constituir um dos temas da foto. Dentre várias fotos, essa apresentou esse padrão mais perfeitamente, mais claro, inequívoco.

Tal coisa foi planejada? Até certo ponto sim, estava contida no partido, mas em fotos feitas com tal dinâmica temos apenas uma probabilidade de sucesso. Fazemos certo número de fotos contando com essa probabilidade. Há planejamento probabilístico, mas há igualmente acaso.

Já o enquadramento fechado nos coloca dentro da ação, apesar do distanciamento normalmente produzido por uma tele. Também é uma escolha de enquadramento, e também é uma escolha probabilística, não uma certeza nem um planejamento exato.

3)    Enquadramento planejado e bônus.

A partir da plataforma probabilística acima exposta, há eventos imprevisíveis. Na figura 3 vemos a razão de nosso olhar sempre terminar na percussionista de cima. O olhar é levado a um vértice superior de um triângulo formado pelas inclinadas.

Figura 3

Figura 3

Notar isso e escolher a foto é uma ação de  segunda captura, de reconhecimento de um fenômeno perceptivo em uma fotografia . Um fenômeno inesperado, um fenômeno impossível de prever na primeira captura, mas completamente dominável na segunda. Nesta foto o olhar vai incessantemente a essa percussionista.

Outro bônus ainda é relativo a esta percussionista. Ela é a única figura humana a olhar para a esquerda. Todos os outros olham para a direita. Produz-se uma perturbação, eu mesmo me sinto perturbado por isso, pois ela, única, é o atrator do olhar por força do triângulo, e assim ganha um peso enorme e impõe uma inversão interpretativa desproporcional ao seu tamanho no quadro.

Por que esta fotografia?

Ao tentarmos responder a essa pergunta, responder porque esta fotografia entre outras foi escolhida como obra e as outras não, podemos lançar luz sobre nossos processos criativos, podemos mapeá-los e podemos compreender o que em uma fotografia é interessante para nós, especialmente quando a fotografia em si não parece conter nada definido, como neste caso aqui comentado.

Muitos confundem essa busca de compreensão, busca externada através de textos como esse, como uma tentativa de validar imagens através de palavras. Não é isso. Os méritos e deméritos de cada fotografia são imutáveis, os dessa igualmente, mas independentemente deles podemos compreender em cada foto os nossos processos de criação. E podemos falar sobre os processos de criação, assim retirando coisa tão importante do território da vagueza, do acaso mágico, da inspiração, trazendo-os para o entendimento, tanto quanto possam ser entendidos. Podemos lançar luz sobre o jogo que acontece entre nossas intenções e os resultados, jogo esse que é mistura de planejamento e de aproveitamento.

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Written by Ivan de Almeida

4 de outubro de 2009 às 11:40 pm

7 Respostas

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  1. Ivan,

    Achei o artigo muito bem fechado, pois você não ignora pontos que eu questionaria ao longo da leitura. Ao ler o título e a proposta do texto receei se tratar de algo hermético, mas percebi que você mesmo apresenta algumas perguntas fundamentais.

    Em primeiro lugar, a desconsideração do mito da foto perfeitamente planejada, muito comum entre os amadores. Pelo assunto ser dinâmico, seria praticamente impossível chegar ao seu objetivo com poucas capturas. O trabalho ocorre em duas etapas, uma série de fotos e em seguida o reconhecimento daquelas em que o objetivo foi melhor atendido. É um jogo de probabilidades, e essa segunda etapa também é fotografar, só que sem a câmera e com as capturas já feitas.

    A fotografia é criação, mas não 100% criação: há o referente, há o acaso, há os caprichos da câmera. Daí a necessidade do trabalho pós-captura (reconhecimento, edição, processamento), pois em muitos casos é nesse momento em que de fato há criação por parte do fotógrafo.

    Nem sempre as razões alegadas são as razões de fato, mesmo quando acreditamos serem. Mas você também lidou bem com essa questão, ao não fechar categoricamente que A se deve a B. Você fala do que o leva a fotografar e do que o leva a escolher, alerta de que não se trata de uma validação das fotos, e sim jogar alguma luz sobre o processo. Há muitos outros componentes que poderiam ser analisados, mas optou-se, por uma questão de formação, pela análise formal do processo de escolha.

    Achei a iniciativa boa, pois o texto ajuda a questionar uma série de mitos que são cultuados na fotografia: o mito do controle total do fotógrafo, o mito da foto pronta da câmera, o mito do instante decisivo e por aí vai. É importante questioná-los sistematicamente.

    Abraços.

    Rodrigo F. Pereira

    5 de outubro de 2009 at 10:23 am

  2. […] partir de uma conversa sobre um texto do Ivan, em que ele descreve o processo de fazer e selecionar uma foto, surgiu a questão de quantos mitos […]

  3. Rodrigo;

    Obrigado pelo comentário.

    Quando escrevi o artigo, fui de fato levado a isso por alguns comentários em um site onde posto fotos, onde um colega, tendo a foto já dois comentários positivos, dizia que “se fosse ele quem possasse tal foto, sem assunto, sem foco, sem cores definidas, a foto não seria boa”, dentro daquela velha história de que a foto é gostada devido ao autor (ou, em outras palavras, a foto ruim do fulano é elogiada -risos).

    Assim, ao escrever este, tive de fazê-lo na primeira pessoa do singular e não tentar uma explicação genérica, universal, impessoal, mas sim uma dissecação do processo mesmo como o experimentei ao fazer a foto. Escolhi falar na primeira pessoa, mostrar os caminhos, tentativas, surpresas, aproveitamentos, reconhecimento, coisas que são movimentos nossos, de nosso pensamento, coisas de cada um. Digamos que são as coxias do processo criativo. Se o artigo tem algo de universal é porque cada fotógrafo fotografa na primeira pessoa.

    O artigo anterior já é na primeira pessoa também.

    E acho sumamente importante falar sobre como criamos, falar sobre esse jogo onde há planejamento e deriva, onde devemos planejar e onde devemos deixar a deriva acontecer. Em geral vemos as fotos prontas, e isso oculta que até chegar a ela houve etapas exploratórias, houve tentativas e erros.

    Inspiração. O que é inspiração a não ser exatamente essa combinação de desejo, planos, aproveitamento de circunstâncias, reconhecimento das boas linhas de desenvolvimento?

    Ao postar este artigo, percebi que este blog erodilha-se como um caracol em redor de alguns pensamentos centrais que vão sendo sempre retornados, vão ganhando especificação, detalhes, exemplos. Este artigo remete-se diretamente a pelo menos dois artigos anteriores.

    Grande abraço,
    Ivan

    Ivan de Almeida

    5 de outubro de 2009 at 11:49 am

  4. Ivan,

    Excelente.
    Gostei do uso da primeira pessoa, personaliza os pontos de vista; gostei da análise, bastante pertinente e muito bem elaborada; o “partido” é fundamental, e deve ser levado em grande consideração, o que me leva a questionar sua posição seguinte (nos comentários):
    “Inspiração. O que é inspiração a não ser exatamente essa combinação de desejo, planos, aproveitamento de circunstâncias, reconhecimento das boas linhas de desenvolvimento?”
    Ora, sempre tentando racionalizar!
    Me pego pensando se o seu pragmatismo não vai, cedo ou tarde, cercear seu próprio trabalho de criação?
    Sim, não é problema meu, já sei, mas me preocupo. Um pouco.
    🙂
    Viu minhas considerações sobre o Photoshop?

    http://tinyurl.com/y927lua

    Abraços!

    clicio

    6 de outubro de 2009 at 6:28 pm

    • Clício, caríssimo;

      Li, e você puxa um fio capaz de render imensas discussões, pois você sabe haver sentido em ambas as orientações, tanto na intervenção vigorosa na imagem quanto na pureza quase dogmática. Terminaremos, talvez, falando do propósito, do resultado, da mensagem, e terminaremos, talvez também, vendo a coisa como um recurso de linguagem para certas mensagens.

      Quanto a este meu artigo, agradeço muito os comentários. Concordo com você quando ao fato de podermos traduzir inspiração da forma dita acima, penso que o problema está quando o pensamento termina na palavra inspiração, ao invés de começar nela. E detem-se nela ao invés de investigá-la.

      Essa história do pragmatismo… Você lembra eu ter certa vez lhe escrito uma mensagem na qual lhe contei ter aceitado ser a Razão a minha ferramenta, e então ao invés de lutar contra ela procurei usá-la como serva? O pragmatismo é um aspecto disso. Ao mesmo tempo, no artigo anterior falo de transe, de Estado de Fluxo. Uma coisa não nega a outra.

      Uma amiga mandou-me em PVT uma mensagem sobre este artigo, e transcrevo abaixo minha resposta, que talvez mostre com clareza o sentido do artigo e a forma como vejo a questão, em geral:
      —————————
      “No fundo, travo uma longa guerra de inúmeras batalhas para simplesmente mostrar o que é humano. Porque há uma imaginação louca que supõe em nós humanos faculdades que não temos, mágicas, e ao mesmo tempo oculta as faculdades que realmente temos e que são valiosas e divinas, sendo naturais.

      A criação é um processo, um processo no qual podemos até mesmo receber treinamento. Olhar o processo ao invés de só olhar o resultado é a questão.”
      ————————-
      Grande abraço,
      Obrigado pelo comentário enriquecedor,
      Ivan

      Ivan de Almeida

      6 de outubro de 2009 at 8:23 pm

  5. […] partir de uma conversa sobre um texto do Ivan, em que ele descreve o processo de fazer e selecionar uma foto, surgiu a questão de quantos mitos […]

  6. […] partir de uma conversa sobre um texto do Ivan, em que ele descreve o processo de fazer e selecionar uma foto, surgiu a questão de quantos mitos […]

    Blog » Hello world!

    31 de maio de 2010 at 7:09 pm


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