Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

Autoria é trabalho continuado.

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Autoria é trabalho.

autoria é trabalho continuado sobre um mesmo tema, assunto ou técnica

Autoria fotográfica é trabalho continuado e persistente sobre um determinado conjunto de temas e métodos fotográficos, e não produto de genialidade nem resultado de fotos feitas ao acaso ou por susto. Autoria é um pouco mais do que “quem apertou o botão”.

Como as coisas exigem trabalho, e como o aprofundamento de idéias fotográficas exige abordagens recursivas (ou seja, trabalho sobre trabalho, ou trabalho exponencial), os resultados obtidos são “do autor” na exata medida em que foi ele quem pagou em esforço, tempo e pensamento ter alcançado um ponto qualquer, seja de técnica, seja de conceito, etc. Contudo, como conceito é algo que se pega no vento, então há muita confusão sobre isso. Porque quem pega o vento acha que o vento soprou sozinho e não vê o trabalho exponencial que o gerou. É fácil seguir um conceito pronto, é difícil gerá-lo.

O que se protege ao respeitar a autoria é o trabalho. Isto é muito claro na literatura, menos claro na fotografia. Posso escrever o Dom Quixote de novo, desde que o faça com minhas palavras e com minha narrativa. Não é a idéia que está protegida, não é o enredo e sim a escrita mesma, aquilo que é trabalho puro. O que é protegido na literatura é o texto, não o assunto. Contudo, em uma sociedade não totalmente predatória, entende-se que a autoria inclui certo grau de concepção (conceito), mesmo que a lei não o proteja exatamente.

Autoria pode ser entendida como uma reorganização de idéias e de formas já existentes no mundo, em grande dose é, visto ninguém criar a partir do nada, mas a autoria é uma organização de idéias e de métodos realizada em etapas sucessivas por alguém determinado, cada nova etapa montada sobre a anterior, de modo que, embora seja reorganização, é uma reorganização com feições específicas que são de construção individual, isto é, esforço de uma pessoa. O autor é a pessoa que, seguindo um rumo de pensamento e um objetivo vai persistindo em trabalhar sobre as reorganizações, e assim pode seguir de nível em nível de aprofundamento, e em cada nível o anterior que ele mesmo construiu é base, referência e suporte. Digamos que para alcançar uma idéia o autor teve de empilhar patamares de idéias antes, e não encontrou aquilo tão empilhado assim. Autor não é quem colhe o fruto, é quem o planta, quem rega e cuida da plata. Autoria não é coisa fortuita. Autor é quem constrói a escada em que vai subir depois.

Ligar a autoria a qualquer coisa de genialidade é o mesmo que supô-la ou inexistente ou golpe de sorte. Ela não é nem uma coisa nem outra, mas meramente trabalho sobre trabalho. É o trabalho alheio que deve ser respeitado na autoria, não a genialidade.

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NOTA: Este artigo originou-se de uma respota a uma tese oposta publicada no blog Câmara Obscura pelo Rodrigo Pereira na qual a autoria é desvalorizada até o pó porque no  artigo são considerados apenas os fatores sociais da autoria, quais sejam, o reprocessamento das idéias sociais que está contida em toda obra, mas elide a etapa de trabalho inerente à feitura de algo, à criação de um novo conceito, etc. Tal maneira de ver, na qual se desconsidera o trabalho, cria validação para o desrespeito à autoria, isto está implícito, mesmo que, eu sei, não tenha sido essa a intenção do Rodrigo.

Há na atualidade uma idéia muito forte de autoria difusa. A Internet é um pouco causadora disso. Aliás, esta foi exatamente a motivação para este blog, porque os artigos ou quase artigos que publicava em fóruns eram tomados como “parte do fórum”, não como trabalho meu. Ora, um artigo -não esse que foi rápido- demora por vezes mais de uma semana entre as primeiras idéias, escrevê-lo, fazer revisão, encontrar imagens e links ilustrativos, etc. Além disso ele contém idéias, e essas idéias igualmente são resultado de pensamentos sobre os temas, pensamentos que me acompanham por anos, às vezes, antes do artigo ser escrito -e acompanhando por anos são pensado, repensados, enfim trabalhados. Por vezes é uma idéia e não uma coisa o resultado do trabalho, mas a idéia não surge sem que alguém se dedique a um tema profundamente. O problema do artigo do Rodrigo Pereira é que ele cria um fantasma fraco -a crença na genialidade criativa- para combater, e esse fantasma fraco esconde o sujeito que realmente existe, não o gênio, mas o trabalhador obcecado e persistente que planta, cultiva e por fim colhe. O artigo no Câmara Obscura só enxerga a colheita, e por isso desvaloriza a autoria.

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Written by Ivan de Almeida

9 de junho de 2011 às 3:17 am

4 Respostas

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  1. Estou acompanhando a discussão original no fórum com a atenção desde o dia da postagem inicial.
    Depois de alguns comentários e depois de 2 intervenções do Ivan em relação ao tema, mudei a atribuição de meu Flckr para ‘todos os direitos reservados’.
    Não é fácil conseguir chegar a um patamar em que nossa própria produção tenha algum valor diferente do apenas “apertar um botão”, no caso da fotografia por exemplo.
    A partir do momento em que se chega a um ponto onde pode-se olhar pra trás e dizer a si mesmo: “é acho que sei o que quero fazer agora” e segue-se em frente, a gente percebe os esforços que foram feitos e a dificuldade que é ter uma linguagem própria, uma maneira particular de expressão e uma busca particular disto.
    Não discute-se o “gostar” ou “não gostar”, mas o direito que os autores devem ter de fazer assim ou assado e esta autoria ser protegida e reconhecida, este é o cerne da questão.
    Se somos pensadores ou produtores de nossas obras, temos o direito de protegê-la acima de tudo e divulgá-la conforme nossas vontades (afinal se fomos nós que a fizemos e auferimos nossos esforços nisto, nada mais justo).

    Abraços, Ivan.
    Peri.

    peridapituba

    12 de junho de 2011 at 2:15 pm

  2. Então, Peri, quando olhamos para trás vemos a construção da nossa mensagem, e vemos como nos dedicamos a isso. Essa história de confundir autoria com genialidade, ou com pretensão de genialidade -que é ridícula- esconde que autoria é trabalho, e trabalho ao longo do tempo, com sucessos, insucessos, e não necessariamente autoria é sinônimo de fazer coisa boa. A pessoa pode ser um péssimo autor, mas ser autor, pela persistência, apego a determinados temas, etc, e a obra de uma pessoa pode ser ruim, mas merecerá todo o respeito da autoria.

    Aliás, só um comentário, ao escolher a foto que ilustra o artigo morri de rir, porque ela mostra a quantidade de inhãme que o cara vai limpar -risos. É uma foto que fala de trabalho, mostra o trabalho e mostra como ele é feito e repetido. Além disso é -e aí é uma graça que só eu posso achar- uma foto intensamente desenvolvida em contrastes, tratamentos localizados, etc, ou seja, uma foto que em si contém muito trabalho meu para ela ganhar a clareza de mensagem que exibe.

    Ivan de Almeida

    12 de junho de 2011 at 4:48 pm

  3. Vc falou uma coisa muito importante quando disse sobre algumas atitudes e licenças que existem, como o CC.
    É fácil o cara chegar, e sob a batuta da “boa vontade alheia”, socializar autoria.
    Muito simples … ‘eu trabalho e vc colhe’. – risos
    Achei suas ponderações ótimas e aquele link melhor ainda, pois explicita muito bem certos conceitos e atitudes.
    Foi depois daquilo que mudei minha licença no Flickr.

    Sobre a sua foto.
    Vc fez uma demonstração dela, não sei se vc lembra, de como foi o passo a passo para vc chegar nesta imagem fim.
    Lembro perfeitamente, inclusive os tratamentos localizados, como na pilha de inhame.
    Agora … o cara ralou. – risos

    Sabe o ditado?

    “Inhame … coma e ame.”

    É uma delícia.

    Abs.

    peridapituba

    16 de junho de 2011 at 8:37 pm

    • Uma das coisas que gosto nessa foto é ela ser intensamente tratada mas parecer natural. Talvez seja isso, autoria tem um enorme trabalho por baixo, mas a coisa pronta parece brotar da terra espeontaneamente.
      Grande abraço, Peri.

      Ivan

      Ivan de Almeida

      16 de junho de 2011 at 9:54 pm


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