Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

Posts Tagged ‘direito de imagem

Autoria é trabalho continuado.

with 4 comments

Autoria é trabalho.

autoria é trabalho continuado sobre um mesmo tema, assunto ou técnica

Autoria fotográfica é trabalho continuado e persistente sobre um determinado conjunto de temas e métodos fotográficos, e não produto de genialidade nem resultado de fotos feitas ao acaso ou por susto. Autoria é um pouco mais do que “quem apertou o botão”.

Como as coisas exigem trabalho, e como o aprofundamento de idéias fotográficas exige abordagens recursivas (ou seja, trabalho sobre trabalho, ou trabalho exponencial), os resultados obtidos são “do autor” na exata medida em que foi ele quem pagou em esforço, tempo e pensamento ter alcançado um ponto qualquer, seja de técnica, seja de conceito, etc. Contudo, como conceito é algo que se pega no vento, então há muita confusão sobre isso. Porque quem pega o vento acha que o vento soprou sozinho e não vê o trabalho exponencial que o gerou. É fácil seguir um conceito pronto, é difícil gerá-lo.

O que se protege ao respeitar a autoria é o trabalho. Isto é muito claro na literatura, menos claro na fotografia. Posso escrever o Dom Quixote de novo, desde que o faça com minhas palavras e com minha narrativa. Não é a idéia que está protegida, não é o enredo e sim a escrita mesma, aquilo que é trabalho puro. O que é protegido na literatura é o texto, não o assunto. Contudo, em uma sociedade não totalmente predatória, entende-se que a autoria inclui certo grau de concepção (conceito), mesmo que a lei não o proteja exatamente.

Autoria pode ser entendida como uma reorganização de idéias e de formas já existentes no mundo, em grande dose é, visto ninguém criar a partir do nada, mas a autoria é uma organização de idéias e de métodos realizada em etapas sucessivas por alguém determinado, cada nova etapa montada sobre a anterior, de modo que, embora seja reorganização, é uma reorganização com feições específicas que são de construção individual, isto é, esforço de uma pessoa. O autor é a pessoa que, seguindo um rumo de pensamento e um objetivo vai persistindo em trabalhar sobre as reorganizações, e assim pode seguir de nível em nível de aprofundamento, e em cada nível o anterior que ele mesmo construiu é base, referência e suporte. Digamos que para alcançar uma idéia o autor teve de empilhar patamares de idéias antes, e não encontrou aquilo tão empilhado assim. Autor não é quem colhe o fruto, é quem o planta, quem rega e cuida da plata. Autoria não é coisa fortuita. Autor é quem constrói a escada em que vai subir depois.

Ligar a autoria a qualquer coisa de genialidade é o mesmo que supô-la ou inexistente ou golpe de sorte. Ela não é nem uma coisa nem outra, mas meramente trabalho sobre trabalho. É o trabalho alheio que deve ser respeitado na autoria, não a genialidade.

———————————————

NOTA: Este artigo originou-se de uma respota a uma tese oposta publicada no blog Câmara Obscura pelo Rodrigo Pereira na qual a autoria é desvalorizada até o pó porque no  artigo são considerados apenas os fatores sociais da autoria, quais sejam, o reprocessamento das idéias sociais que está contida em toda obra, mas elide a etapa de trabalho inerente à feitura de algo, à criação de um novo conceito, etc. Tal maneira de ver, na qual se desconsidera o trabalho, cria validação para o desrespeito à autoria, isto está implícito, mesmo que, eu sei, não tenha sido essa a intenção do Rodrigo.

Há na atualidade uma idéia muito forte de autoria difusa. A Internet é um pouco causadora disso. Aliás, esta foi exatamente a motivação para este blog, porque os artigos ou quase artigos que publicava em fóruns eram tomados como “parte do fórum”, não como trabalho meu. Ora, um artigo -não esse que foi rápido- demora por vezes mais de uma semana entre as primeiras idéias, escrevê-lo, fazer revisão, encontrar imagens e links ilustrativos, etc. Além disso ele contém idéias, e essas idéias igualmente são resultado de pensamentos sobre os temas, pensamentos que me acompanham por anos, às vezes, antes do artigo ser escrito -e acompanhando por anos são pensado, repensados, enfim trabalhados. Por vezes é uma idéia e não uma coisa o resultado do trabalho, mas a idéia não surge sem que alguém se dedique a um tema profundamente. O problema do artigo do Rodrigo Pereira é que ele cria um fantasma fraco -a crença na genialidade criativa- para combater, e esse fantasma fraco esconde o sujeito que realmente existe, não o gênio, mas o trabalhador obcecado e persistente que planta, cultiva e por fim colhe. O artigo no Câmara Obscura só enxerga a colheita, e por isso desvaloriza a autoria.

Written by Ivan de Almeida

9 de junho de 2011 at 3:17 am

Nossa época e o direito de imagem

with 40 comments

Texto produzido a partir do interessantíssimo debate no blog do Clicio Barroso em seu post “Publicou, Processa”

Inicialmente, este texto foi redigido como resposta no tópico citado, mas percebi ter ficado muito grande e, além disso, de haver nele novas nuances e dimensões que mereceriam postagem independente, principalmente a caracterização do espaço social como inerentemente midiático, espaço no qual cada um de nós pode ser elevado à visibilidade e nessa elevação ocupar o lugar de símbolo, exemplo ou paradigma de algo, nem sempre de algo com que concorda.

———————————

Será o fim da Street Photography?

A fotografia de rua constitui uma das mais caras tradições da fotografia, e alguns dos mais importantes fotógrafos conhecidos têm nela toda a sua produção. Entretanto, pode ser que ela esteja com os dias contados em nossa época, ou que precise passar por grande mudança quanto à atitude do fotógrafo em relação àquilo que fotografa.

O fato é que a “fotografia-no-mundo” tornou-se, nesta nossa sociedade em que as imagens circulam como uma fala, nessa época na qual falamos através de imagens como nunca antes, um problema, pois os sujeitos conscientizaram-se serem o conteúdo das fotografias. Essa conscientização não provém unicamente da prática fotográfica, mas da exposição da vida privada na mídia que hoje acontece, seja nos reality shows, seja na forma reality show que dominou a maneira de fazer televisão e que deu ao homem comum a consciência de viver aquela profecia do McLuhan, de ser famoso por 15 minutos, e de haver valor nessa fama efêmera, valor que é apropriado por outros, seja a televisão que o filma como “caso exemplo” de algum fato, seja no fotógrafo que o mostra, etc.

Nunca mais se recuperará a inocência perdida, pois cada vez mais, em blogs, Orkuts, em páginas de fotógrafos, em Flickr, em tudo isso as imagens circularão, e aquele cidadão pacato, aquele trabalhador pacato sabe que sua imagem circulará por aí sem que ele tenha controle disso. E que, circulando, gerará valor para alguém, para algo, para um site, para qualquer coisa.

Lá na serra, fotografiei um camarada em uma lavoura de tomate, e era manifestada a sua preocupação com o destino das fotos. Contou-me ter uma vez sido fotografado e depois ter sabido que suas fotos apareceram em uma revista ilustrando uma reportagem, e manifestou nisso imensa contrariedade, referindo-se ao episódio como “fizeram-me uma sacanagem”.

É um lavrador, não acesso à Internet, e aparentemente “desconectado”. Mas não quer, e justamente, servir de imagem paradigmática de nada. Não quer que seus dois segundos de fama tenham significado escolhido por outro. As fotos que fiz dele em sua lavoura não postei em lugar nenhum.

Penso que ele está certo. É uma pessoa desconfiada, mas está certo.

Nesse campo, como em todos, só se chega a uma compreensão do problema quando somos capazes de enxergá-lo sob a ótica de outra pessoa, sob a ótica de quem está do outro lado. Do lado do fotografado.

Vejo no discurso dos fotógrafos incapacidade de compreenderem o outro lado. Não vêem a coisa sob a ótica do sujeito da foto, não entendem a relação da pessoa com sua imagem circulando por aí. É compreensível a frustração dos fotógrafos pela ruptura da tradição da fotografia de rua, tão cara em sua tradição, mas é preciso entender o contexto.

Temos de imaginar a situação inversa, da nossa imagem ser usada, e imaginar como nos sentiríamos, se desejaríamos isso, etc. A questão do pagamento mencionada pelos sujeitos muitas vezes é tão somente uma ameaça inibidora mais do que um desejo de obter vantagem.  Ou uma real vontade de punir a apropriação de sua imagem por outro.

A verdade é essa. Na medida em que a vida privada foi praticamente extinta pelo Big Brother verdadeiro, não o programa nem o livro, mas todo o sistema de produção de imagens no qual nos incluímos e que vigia cada coisa da vida coletiva, as leis de proteção da imagem são antídotos para proteger o homem comum dessa máquina voraz.

E a história não volta atrás. É preciso entender isso e ajustar a fotografia às necessidades do tempo, sem querer fazer hoje a fotografia possível há 40 anos atrás. E é preciso descobrir qual fotografia se pode fazer.

Muitas vezes um fotógrafo documenta um grupo ou tribo urbana em eventos determinados, como Cosplayers ou o pessoal de Street Dance e ocorre então ele  fotografar grupos que querem jogar o jogo da imagem, e assim aceitarão a fotografia e a exposição decorrente. Um Cosplayer quer mostrar-se, um grupo de dança de rua quer mostrar-se. A mesma pessoa pode querer mostrar-se como dançarino e não querer mostrar-se quando na padaria comprando pão. É essa escolha que devemos compreender, e entender que hoje cada um conhece a diferença entre sua dimensão social e sua privacidade, como nunca antes.