Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

Posts Tagged ‘Imagem e personalidade

A vida ao nosso redor

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A vida ao nosso redor.

Ivan de Almeida
2017, janeiro

Estar presente. Não é um luxo, é o que somos. Somos nossa presença.

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A 43a fotografia digital que fiz. Julho de 2003

Durante muito tempo acreditei que ao fotografar estava, digamos, buscando ser um notável no mundo social. Fotógrafo! “Fulano é fotógrafo”, isto era uma coisa bacana lá na juventude. Na faculdade de arquitetura levava às vezes a câmera, uma Canon FT com uma lente luminosa f/1.4, e ela pendurada no pescoço eu me achava um cara “cabeça”. Isso foi lá pelos anos 70, de 1972 até fim de 1978.

Depois passei a lutar pela vida, pagar as contas, pagar as despesas de viver, e logo depois me casei e sou casado até hoje. A fotografia acontecia poucas vezes, por vezes para instrumentalizar um trabalho de faculdade da minha mulher ainda universitária.

Trabalhar, me sustentar no áspero tempo dos anos 80. Um Brasil que mergulhou em uma crise econômica terrível e nós, novos e bobos, a sofríamos. Fotografava pouco nessa época.

Ainda, durante muito tempo desta vida fotográfica de então fazia fotos em Preto e Branco e mandava revelar. Era mais barato. Não tinha laboratório, algumas vezes ajudei um amigo em uma revelação, mas não tinha, e os laboratórios domésticos eram sempre em Preto e Branco..

Quando comecei a ter filhos, as fotografias se tornaram importantes e comecei a fazer mais. Mas nessa altura a tal Canon, que era do meu pai (que não fotografava, por paradoxal que isto seja), passou a ser usada pelos irmãos mais novos. Perdi a exclusividade que tinha e aí usei para meu primeiro filho uma câmera emprestada por um amigo, acho que foi uma Praktica. Usei durante pouco tempo e depois resolvi comprar uma câmera para mim. Comprei uma Zenit 12Xs, russa, lembro até da compra num shopping. Uma câmera interessante, um tanto rude mas não muito mais rude que uma Praktica. A lente Helios 44m6 eu gosto e uso até hoje.

Fiz muitos filmes, mas é preciso entender que nesta época três filmes seguidos era muito, muitas fotos, ou seja, 108 fotos ou 110, dependendo do aproveitamento dos filmes pela câmera. O filme tinha 36/37 fotos.

Vivi feliz. Minhas fotografias dos filhos têm a abordagem das fotos que depois fiz com digitais, são tão boas quanto. Era o normal fotografar e nada ver, só depois de revelada viamos as fotos, então por vezes um filme começava hoje e só daqui a dois meses acabava, e já até esquecíamos a primeira parte.

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2005, filme na câmera Kiev IV e sua maravilhosa lente Jupiter 8

Em 2003 a fotografia digital estava começando a aparecer. Em julho de 2003 me dei de presente de aniversário uma camerazinha Canon A30. UAU! Descobri a liberdade que não havia no filme, descobri o “fotografe e veja”, descobri a quase inexistência de custo imediato. Comprei esta camerazinha por 800 reais (isto era caro na época) mais o custo da entrega. Mas era um quase nada. Sim, regulava velocidade e diafragma, o que para mim era essencial, mas tinha e imensidão de apenas UM megapixel e em JPEG. A primeira foto deste artigo foi feita com ela, aliás esta foto aqui mostrada foi a quadragésima terceira foto digital que fiz.

Fiquei com essa câmera menos de seis meses. Lá pelo meio desse tempo eu já sabia das limitações. Fascinado com a liberdade, queria também fotos que pudessem ser maiores nas cópias. Em final de novembro comprei uma Fuji s5000, e ali, em dezembro de 2003 começou o meu mergulho no RAW, onde acontece uma espécie de “revelação”, em um processo que nada tem de relação com a revelação do filme, mas em espírito sim, e na mesma medida que a revelação do filme conforma a fotografia (inexiste revelação neutra, exceto em cromos), a “revelação” do RAW idem.

Bem, a história seguinte foram duas histórias, a paixão pela fotografia e as trocas de câmeras. Hoje tenho seis câmeras digitais, acho, várias velhas mas que me interessam muito –por exemplo, a Fuji E550, já a comprei bem velha e baratinha, mas o sensor com os pixels inclinados em 45 graus é apaixonante.

Voltando ao parágrafo inicial, hoje entendo que a fotografia não me levará a lugar nenhum especial, não me dará fama alguma, mesmo algumas fotos agradando alguns. E hoje também percebo não desejar esta fama, desejo mais a busca íntima de mim mesmo, na qual a fotografia é ao mesmo tempo um brinquedo e um espelho no autoconhecimento.

Vejo hoje a fotografia como uma mentira mágica. Nossos olhos não funcionam como a lente, a formação de imagem é profundamente diferente, mas nós tomamos, nos iludindo, a fotografia como uma visão verdadeira. O homem se deixa enganar pelas teles que aproximam na fotografia coisas distantes, o homem se deixa enganar pelo foco generalizado ou pelo não foco, o homem se deixa enganar pelo resumo do ambiente que a fotografia faz. O homem não pensa na radical mentira que consiste em separar a fotografia do ambiente.

Hoje, não tendo finalidade maior, me sinto mais livre. A fotografia continua sendo um brinquedo, continua lidando com o emocional, continua brincando com nossos jogos perceptivos, isto sim um tema que me seduz há décadas, buscar entender a percepção.  Não entender o que seria de forma pura, mas como é usada por nós para, com ela treinada, acharmos que vemos o mundo real. O aspecto de mentira da fotografia quando consciente (e no que é consciente, pois nunca seremos conscientes totalmente) nos ensina sobre nossa presença e o jogo compositivo das imagens tem algo do “Conhece-te a ti mesmo”.

Desculpem-me o artigo de hoje. Falei muito e não disse muita coisa de útil para a fotografia.

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2002, Zenit com a Helios 44m6. Obra na serra.

Seguindo soltamente uma ideia

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Seguindo soltamente uma ideia

Nós somos as nossas ideias, e conforme as reconhecemos temos uma pequena liberdade.

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Uma das coisas que para mim se tornaram claras na busca por linguagem fotográfica foi ser indispensável reconhecer em algumas fotos, mesmo quando toscas, mesmo quando ruins, um caminho interessante. Há, nos dias de hoje, uns três tipos de fotografia que são mais ou menos buscas minhas, não comuns. Uma foi gradualmente crescendo desde as primeiras fotos há cerca de nove anos atrás, outras vieram mais prontas e, de certa maneira, são tipos parentes daquele primeiro.

Não se trata de fazer fotografias só assim ou só assado. São ramos, são galhos da árvore maior. Não ganho dinheiro com fotografia, então, se pode perguntar: por que, Ivan, essa busca quase obsessiva?

Ora, responder isso não é fácil. Posso no máximo dizer que na fotografia entro por vezes em meio-transe, situação na qual o olho ali agarrado comporta-se diferentemente do olho na vida comum. Ele vê o que não vejo no dia a dia. Ele vê coisas que dependem da câmera para captura.

Fascina-me isso. É uma “viagem”, é deixar outro eu mesmo agir, é buscar o inútil, mas o grande brinquedo, o grande prazer de buscar imagens. E a fotografia, como a faço, não é uma busca de imagem específica, na verdade ela exige uma atenção à vida, não a faço em estúdio, não preparo nada, nada é feito a não ser enquadrar, compor, saber o que é o desejado. Mas esse saber não está pronto, é ali com o olho no visor ou no LCD nas câmeras pequenininhas em que algo ocorre, que minha mente viaja numa busca sem sentido prático algum, mas enorme sentido de viver, de perceber.

Fotografar para mim é parte do viver. Nem como hobby vejo isso, embora possa passar meses sem fazer uma só foto, ou ano, ou mesmo parar de fazer sem nenhuma dessas atitudes ser um aleijão. Porque o viver não é só isso, e isso é um jogo para esse vivo agora, um jogo do agora.

Num tempo quis algo da fotografia. Uma pequena fama, talvez. Felizmente isso foi se diluindo, ficando só o grande brinquedo, a grande busca dentro do sentido visual. Nós fazemos e nos compreendemos, se nisso prestarmos atenção.

Written by Ivan de Almeida

14 de junho de 2013 at 11:05 pm

A FALSA ARTE, A NOSSA ARTE, A TOLA NOSSA PARTE

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A FALSA ARTE, A NOSSA ARTE, A TOLA NOSSA PARTE

Ivan de Almeida Junqueira
janeiro de 2013

Antigamente olhava na Fatos e Fotos ou na Manchete e lá via um mundo que tinha de aprender. Hoje vejo na mídia toda, mesmo nas fotos “artísticas”, mera repetição.

O enorme significado da fotografia de nossa vida, o pequeno significado das tantas vistas todo dia, antigamente raras visões do mundo, hoje uma repetição quase insuportável da mesma coisa.

Todo dia aqui na internet vejo muitas fotos, muitas delas formalmente propositivas, muitas delas obviamente boas em soluções gerais.

Mas todo dia vejo várias, de modo que elas vão se tornando esquecíveis. Uma fotografia, vista ela num mundo menos cheio de imagens, é recordável para sempre, marca nosso olhar… Mas tantas…

Vejo fotos em PB de lagos ou mares alisados pelo tempo de exposição, com alguns poucos elementos ali, de pedra, de alguma construção.

Vejo fotos de pessoas ou de ambientes, que um pouco notáveis são notáveis conforme a moda visual da atualidade. Aliás, essa é a expressão: há uma moda visual, não a moda mais comum da publicidade, mas a “moda da arte” que não passa de moda, que não é de fato algo que nos enrede, que nos retenha, que nos faça navegar por ela sempre que a olhamos. Não, não fazem isso, no máximo cumprem o papel de ocuparem o lugar da imagem contemporânea. “olha, sou contemporânea (a imagem), a proposta do meu fotógrafo é contemporânea”.

Ai, ai, ai, isso me cansa, confesso, porque vivemos um mundo-época em que tudo é contemporâneo, então o hoje proposto amanhã é apenas um nada, um registrozinho igual a tantos, um algo que por si não será capaz de aglutinar nossa percepção simbólica e estética como a arte quando boa faz, e não fará isso porque terá sido superada por outro modelo de época -talvez o escorrido seja então colorido e não PB e outros modismos assim tolos.

Sempre a arte teve uma moda, digamos assim. Mas o hoje só tem isso quase sempre. Vemos em um museu aquilo que foi proposto arte e aceito como tal na época ou quinze anos atrás, e ao vermos já não há ali substrato capaz de nos deslocar esteticamente, de nos capturar esteticamente e nos manter por minutos, por um tempo, enredados. Não vemos isso, vemos algo cara-crachá, algo que apenas cumpre um papel de momentos e depois torna-se cansativo, embora a arte em seu bom aspecto nunca se torne cansativa.

O mundo que agora não quer arte, quer parte, quer somente do lado de quem produz um tronozinho entre tantos, e, do lado de quem observa, produz-se uma cadeira no auditório, auditório que para ele tem lugares limitados e fazem dos ocupantes um reconhecido como pessoa esclarecida e de bom gosto.

Esse jogo é pobre. Pode não ser pobre ao sustentar alguém, trabalho não é arte, alguma coisa pode ser dita arte mas ser tão somente uma produção compatível com as necessidades de giro do mundo. Mas é um jogo pobre no sentido de libertador, porque, aí a questão, não lança ao espectador o lugar deslocado do lugar midiático, mas sim uma confirmação, uma glorificação da estética midiática.

Nosso mundo é dos raros mundos-momentos nos quais a vanguarda artística não é sequer combatida, ao contrário, é vista com a mais conservadora visão de consagração artística. Onde a vanguarda artística é vastamente “compreendida” pelas principais instituições artísticas, que na verdade fazem dessa vanguarda apenas uma diversão de baixa exigência para o observador que assim acha ser também uma personalidade de refinado critério artístico, quando não é mais do que público de uma parte da indústria cultural atual. A arte visual no hoje em dia é mais relativa ao Teatro do que à arte visual tradicional. Faz-se a peça, as pessoas as veem, e aí vamos ao entretenimento seguinte. Este é o processo atual.

PARA QUEM?

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Para quem?

o1 de janeiro de 2012

A única identidade que a gente reconhece na psicanálise é a solução que cada um encontra ao seu gozo – a não existência da relação sexual. -Teresa Genesini (1)

Venho percebendo que muito do meu prazer de fotografar não está em produzir uma grande imagem, mas sim em jogar um jogo visual que tem limites, um pequeno jogo criativo no qual uma câmera e uma circunstância, e depois uma abordagem de desenvolvimento da imagem sejam o escopo, e a produção da imagem visualmente atraente ou instigante é apenas um parâmetro, mais que uma finalidade. Um parâmetro do jogo.

Não há como não deixar de reconhecer ser isso uma atitude onanista. Jogar jogos consigo mesmo, mais ou menos indiferente à receptividade do mundo, essa também tão somente um parâmetro e não exatamente a finalidade, é uma espécie de onanismo.

Ontem, dia 31 de dezembro, véspera de 2012, saí de bicicleta com uma câmera compacta no bolso pedalando pela orla. Havia preparado a compacta colocando no LCD (ela não tem viewfinder) duas tiras de fita isolante, uma em cada lateral, deixando apenas um quadrado no meio para ver a imagem. Meu objetivo foi fazer fotos quadradas, mas sem para isso recortar posteriormente uma foto feita com outro raciocínio compositivo. Queria honestidade na composição, queria que a foto exprimisse meu raciocínio visual da hora do disparo. Então as fitas isolantes redefiniam o espaço compositivo de modo que depois o recorte se tornou apenas eliminação do que já não era fotografia. Explico: Um dos meus dogmas pessoais, que aplico ao meu fotografar, é não fazer recortes corretores na fotografia. Não julgo o mérito da fotografia alheia por isso, mas a minha faço assim, e quando vejo a necessidade do recorte sinto isso como um atestado de falha, um atestado de que minha análise visual foi fraca diante da circunstância, ao mesmo tempo em que me rejubilo quando percebo o acerto na composição com o frame inteiro.

Ora, quem me obriga a esse jogo? Ninguém. Sei que há outros fotógrafos com igual dogma, e, naturalmente, admiro suas fotografias, esse viés as faz mais interessantes para mim porque posso perscrutar na foto o raciocínio visual que governou sua feitura, posso pensar junto, pensar em paralelo, entender o jogo. Mas fora desse prazer estético meu, o mundo não me obriga a não recortar.

Fazer o LCD quadrado para fotografar quadrado nada mais é que introduzir uma regra no jogo, regra essa que será indiferente ao observador só afetando o autor no seu processo de feitura.

Nessa altura sou obrigado a concordar com o Lacan: não existe relação sexual! (1) Esta conclusão lacaniana, que aprofunda o pensamento freudiano, espanta quando a ouvimos pela primeira vez (embora quando a ouvi pela primeira vez tenha pensado comigo mesmo: “é óbvio”), mas dá conta do fato simples de que a pulsão nasce do organismo, não vem de fora. O fato de o organismo buscar no que está fora o desaguar das tensões da pulsão não significa que o que está fora, o outro, seja a razão da ação. Seguindo a idéia da Autopoiesis do Humberto Maturana (2) e do Francisco Varela, toda ação do organismo visa restaurar seu estado de equilíbrio homeoestático. É nisso que está o impulso, não no externo, no outro, na Arte (no caso da fotografia), na Fama, na Glória. Essas coisas são apenas respostas específicas, contingentes e aparentes para algo que não é nem específico, nem contingente, nem aparente.

Quando se diz que essas coisas são as respostas, seguindo a idéia do Lacan (com alguma liberdade, pela qual o Lacan não é responsável e os lacanianos ficariam horrorizados), se está mentindo. Está-se dizendo que as relações sexuais são possíveis, ou, estendendo o conceito, que fazemos alguma atividade para os outros. Ora, nossa vida em sociedade parece exigir mentirmos, é sempre preciso, parece, elegermos uma causa, uma meta transcendente, nobre, uma busca “séria”, quando na verdade tudo o que fazemos ou é mera ação para provermo-nos de alimentos, ou então onanismo – falsa relação sexual. Quando dizemos que nosso objetivo não está exatamente na imagem que ao ser exposta seja reconhecida pelo outro como bela ou boa, quando dizemos que no fundo o outro não importa, que nosso processo criativo não é voltado para o outro senão parametricamente, parece que estamos dizendo um absurdo e estamos cheios de soberba e de pretensão vazia, que nos pretendemos “artistas incompreendidos” ou outra coisa ridícula qualquer, mas de fato não é nada a não ser o reconhecimento de que não existe relação sexual, ou seja, não é para o outro que nós produzimos, e o outro é tão somente um parâmetro.

Porém, isso não esgota a coisa, porque, bem ou mal, buscamos rondar a estética que é reconhecida como estética. Ou seja, o outro, embora não seja o motivo, mantém-se como parâmetro. A determinação prática da não relação, apesar de tudo, implica em um acontecer (um fazer) dentro da cultura, dentro dos valores formais e narrativos de uma cultura, mesmo quando a obra aparentemente os contesta. Somos dentro dessa cultura, que, por isso, conforma tudo.

Poderíamos dizer, no caso da fotografia, que nela só há duas posições: autoria e mentira (ressalvando aquilo que se faz, bem ou mal, para o sustento). Mentira é tudo o que não é autoria, tudo aquilo que é feito com a ilusão de ser objetivamente bom, de ser pautado por parâmetros externos sem ambigüidade e portanto validadores. Aí também há onanismo, mas um onanismo iludido que se ignora, imaginando haver valores e objetivos externos. Na autoria também há mentira, aliás, sempre há alguma, mas sobre outros pontos.

O autor namora a si mesmo. Não o mundo, não o observador de suas fotos.

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(1) http://www.psicanaliselacaniana.com/mural/textos/jorgeForbes_NoIPLA_asDuasClinicas.html

(2) http://pt.wikipedia.org/wiki/Humberto_Maturana

Autoria é trabalho continuado.

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Autoria é trabalho.

autoria é trabalho continuado sobre um mesmo tema, assunto ou técnica

Autoria fotográfica é trabalho continuado e persistente sobre um determinado conjunto de temas e métodos fotográficos, e não produto de genialidade nem resultado de fotos feitas ao acaso ou por susto. Autoria é um pouco mais do que “quem apertou o botão”.

Como as coisas exigem trabalho, e como o aprofundamento de idéias fotográficas exige abordagens recursivas (ou seja, trabalho sobre trabalho, ou trabalho exponencial), os resultados obtidos são “do autor” na exata medida em que foi ele quem pagou em esforço, tempo e pensamento ter alcançado um ponto qualquer, seja de técnica, seja de conceito, etc. Contudo, como conceito é algo que se pega no vento, então há muita confusão sobre isso. Porque quem pega o vento acha que o vento soprou sozinho e não vê o trabalho exponencial que o gerou. É fácil seguir um conceito pronto, é difícil gerá-lo.

O que se protege ao respeitar a autoria é o trabalho. Isto é muito claro na literatura, menos claro na fotografia. Posso escrever o Dom Quixote de novo, desde que o faça com minhas palavras e com minha narrativa. Não é a idéia que está protegida, não é o enredo e sim a escrita mesma, aquilo que é trabalho puro. O que é protegido na literatura é o texto, não o assunto. Contudo, em uma sociedade não totalmente predatória, entende-se que a autoria inclui certo grau de concepção (conceito), mesmo que a lei não o proteja exatamente.

Autoria pode ser entendida como uma reorganização de idéias e de formas já existentes no mundo, em grande dose é, visto ninguém criar a partir do nada, mas a autoria é uma organização de idéias e de métodos realizada em etapas sucessivas por alguém determinado, cada nova etapa montada sobre a anterior, de modo que, embora seja reorganização, é uma reorganização com feições específicas que são de construção individual, isto é, esforço de uma pessoa. O autor é a pessoa que, seguindo um rumo de pensamento e um objetivo vai persistindo em trabalhar sobre as reorganizações, e assim pode seguir de nível em nível de aprofundamento, e em cada nível o anterior que ele mesmo construiu é base, referência e suporte. Digamos que para alcançar uma idéia o autor teve de empilhar patamares de idéias antes, e não encontrou aquilo tão empilhado assim. Autor não é quem colhe o fruto, é quem o planta, quem rega e cuida da plata. Autoria não é coisa fortuita. Autor é quem constrói a escada em que vai subir depois.

Ligar a autoria a qualquer coisa de genialidade é o mesmo que supô-la ou inexistente ou golpe de sorte. Ela não é nem uma coisa nem outra, mas meramente trabalho sobre trabalho. É o trabalho alheio que deve ser respeitado na autoria, não a genialidade.

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NOTA: Este artigo originou-se de uma respota a uma tese oposta publicada no blog Câmara Obscura pelo Rodrigo Pereira na qual a autoria é desvalorizada até o pó porque no  artigo são considerados apenas os fatores sociais da autoria, quais sejam, o reprocessamento das idéias sociais que está contida em toda obra, mas elide a etapa de trabalho inerente à feitura de algo, à criação de um novo conceito, etc. Tal maneira de ver, na qual se desconsidera o trabalho, cria validação para o desrespeito à autoria, isto está implícito, mesmo que, eu sei, não tenha sido essa a intenção do Rodrigo.

Há na atualidade uma idéia muito forte de autoria difusa. A Internet é um pouco causadora disso. Aliás, esta foi exatamente a motivação para este blog, porque os artigos ou quase artigos que publicava em fóruns eram tomados como “parte do fórum”, não como trabalho meu. Ora, um artigo -não esse que foi rápido- demora por vezes mais de uma semana entre as primeiras idéias, escrevê-lo, fazer revisão, encontrar imagens e links ilustrativos, etc. Além disso ele contém idéias, e essas idéias igualmente são resultado de pensamentos sobre os temas, pensamentos que me acompanham por anos, às vezes, antes do artigo ser escrito -e acompanhando por anos são pensado, repensados, enfim trabalhados. Por vezes é uma idéia e não uma coisa o resultado do trabalho, mas a idéia não surge sem que alguém se dedique a um tema profundamente. O problema do artigo do Rodrigo Pereira é que ele cria um fantasma fraco -a crença na genialidade criativa- para combater, e esse fantasma fraco esconde o sujeito que realmente existe, não o gênio, mas o trabalhador obcecado e persistente que planta, cultiva e por fim colhe. O artigo no Câmara Obscura só enxerga a colheita, e por isso desvaloriza a autoria.

Written by Ivan de Almeida

9 de junho de 2011 at 3:17 am

A Solidão Criativa na Fotografia

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A solidão criativa na fotografia.

Ivan de Almeida – outubro de 2010

Volta e meia escrevo aqui sobre os processos criativos, e meus escritos narram vivências ou meditações a partir de jogos criativos fotográficos e também de jogos criativos não fotográficos . Penso  ser válido, e penso ser válido porque o processo criativo é semelhante nos diversos campos quanto ao aspecto abordado neste artigo.

 

Foto 1 - 2003 Um jogo simples... Com uma câmera de 1.3mp e vontade de fotografar, por vezes ao anoitecer e em casa nada havia de fotografável. Bem, pannings da janela sempre são possíves, mas com ISO80 da câmera de então foi necessário usar longos tempos de exposição. Essas limitações começam, então, a serem as regras criativas, e a atitude de reconhecimento começa ao aceitar que pannings podem ser interessantes sem perfeita –e impossível- nitidez usando essas exposições de perto de meio segundo.

 

Criatividade é uma palavra difícil, porque, embora seja atividade humana comum, não é comumente desenvolvida. A grande maioria das pessoas não desenvolve durante sua vida atividades criativas por isso não ser um requisito para a vida social, então, para essas pessoas, o ato criativo não é compreendido como vivência própria, tornando-se assim nebuloso e quase mágico. A pessoa pouco ligada à criação atribui à criação alheia uma dimensão exagerada, uma qualidade de espírito invulgar, quase inumana. O criador é tido como gênio, iluminado, extraordinário. A criação é tomada como “inspiração”. Não tendo experimentado o processo criativo não sabe olhar para as origens da criação, para o jogo criativo, só olha para a criação pronta. O jogo criativo permanece oculto, as engrenagens da criação ficam invisíveis e só o resultado parece brilhar espontaneamente, magicamente.

A conseqüência disso é parecer a criação surgir de uma fonte impalpável, de uma inspiração do criador somente. Quanto mais afastada a pessoa das atividades criativas, mais ela acredita na inspiração, pois menos sabe como as coisas de fato acontecem.

Basicamente, criatividade é uma atividade intelectiva de associação de idéias como qualquer outra, podendo ser idéias-conceito, idéias visuais, idéias práticas, idéias científicas, etc. O pensamento é uma atividade associativa, ensinou-nos isso o Freud, e a criatividade um tipo dessas associações. O ato criativo baseia-se em permitir associações novas e em ter material para essas associações (ter esse material significa ter cultura e ter vivências suficientes no campo específico), e, em um segundo momento, saber reconhecer quais as associações são relevantes dentro da linha de trabalho empreendida.

 

Foto 2 - 2005 Usando longas exposições em pannings, logo alguns fenômenos começaram a aparecer. Um deles ocorria quando um veículo ultrapassava o outro com diferença de velocidade. A câmera capturava os dois veículos no mesmo lugar do frame, criando uma transparência. A regra necessária para fotografar no escuro agora passa a ser regra eletiva visando conseguir essa transparência e obter dramaticidade.

 

A geração de associações e o seu reconhecimento podem ser atividades individuais ou em grupo. A criação em grupo, chamada de tempestade cerebral, é mais fácil de examinar, porque ela exige a fala, e a fala é exteriorização das idéias. Coloquemos duas ou três pessoas em um debate livre para resolver um problema e liguemos um gravador. Finda a sessão, poderemos ouvir a gravação e ver como uma idéia puxa a outra, como alguém fala algo e isso faz outra pessoa externar uma nova associação em um processo que é um verdadeiro jogo, jogo no qual cada idéia cria as regras e as fundações para a idéia seguinte surgir. Isso pode revelar a estrutura do jogo, desmistificando-o. Há alguns amigos com os quais rapidamente estabeleço diálogos assim, sob variados temas. São conversas ricas, divertidas, e várias associações surgem como coisas engraçadas e depois são assumidas.

Mas na criação individual a estrutura do jogo permanece oculta, tudo se passa em silêncio externo, entre as orelhas da pessoa, embora ela siga também uma espécie de diálogo interno. Isso não pode ser gravado por um aparelho e assim não é examinável, a menos que o autor tenha suficiente atenção a si mesmo e tenha registrado, mesmo informalmente, os passos da criação em sua memória.

Há um truque simples para isso: o desmonte das associações. Ao termos uma idéia, podemos tentar lembra qual a idéia nos ocupava instantes antes, e identificando essa tentarmos ainda lembrar da anterior e da anterior, e assim por diante. Ao fazermos isso estaremos tornando o jogo das nossas associações consciente, e poderemos verificar que ele não é mágico, que há em cada idéia anterior um embrião da nova, que há um caminho de associação mapeável.

Todo processo criativo é um jogo. O que significa chamá-lo de jogo? Significa que, ao contrário do que se pensa –ele ser totalmente livre-, há uma moldura de regras, mesmo essas não sendo inflexíveis, e o processo consiste em jogar dentro dessas regras e igualmente desenvolver novas regras, mas as vir mudando não significa anomia, desregramento, pois a partir de total desregramento não existirá parâmetro nem para a associação, nem para o reconhecimento da associação.

Passando isso para a fotografia, imaginemos um processo no qual se faz uma primeira sessão de fotos de um tema, volta-se para examinar as fotos e nessas fotos percebe-se certas abordagens interessantes. No dia seguinte faz-se nova sessão, nessa já tentando seguir as abordagens identificadas antes como boas, e novamente ao voltar para casa mapeia-se nessa segunda sessão as partes de interesse. Duas ou três sessões depois da primeira, já se estará seguindo regras (rumos) que eram desconhecidas no início, regras criadas durante o processo. Regras criadas a partir do reconhecimento de focos de interesse das sessões anteriores.

Essa é a segunda questão da criação: o reconhecimento. Talvez aí esteja a parte mais crítica, especialmente crítica para os fotógrafos devido a um cacoete da prática fotográfica, a um “vício profissional” extensivo aos amadores. Reconhecimento é o ato pelo qual o criador identifica um fragmento significativo dentro de um processo, um fragmento com característica de novidade para ele. No momento do reconhecimento o criador separa uma determinada idéia, uma forma, um aspecto de uma criação sua e diz: “Isto me interessa!”. Na hora pode não saber porque aquilo interessa, mas mesmo assim precisa ter a coragem de destacar a coisa. O ato do reconhecimento equivale ao ato do garimpeiro ao identificar algo valioso no meio do cascalho, e esse algo valioso por vezes também parece cascalho.

Para os fotógrafos isto é muito difícil, porque a cultura social dos meios fotográficos não recebe bem a idéia bruta, só lida com a produção acabada. Isso impõe uma barreira psicológica muito séria à criação. Faz-se uma foto. Por vezes o criador sente nela haver algo interessante, mas… a foto em si não está boa. Não está perfeita, não está bem realizada. O fotógrafo, condicionado pelos códigos sociais da atividade, está acostumado a só reconhecer o bem feito, talvez porque a fotografia como arte técnica sublinhe tanto a parte técnica.

Dizendo em outras palavras, na fotografia não há croquis. Há fotos ruins e fotos boas, mas a cultura fotográfica não lida bem como fotos de desenvolvimento, fotos que são etapas intermediárias de um processo criativo. E sem tais fotos intermediárias, reduz-se muito a chance de associar e de reconhecer.

Comparo isso à minha formação de arquiteto e aos códigos sociais dessa formação. Arquitetos preferem ver croquis a verem projetos. Croquis são mais interessantes, mostram o essencial, mostram a idéia bruta. Projetos são chatos de ver. Muitas vezes a idéia bruta fica ocultada no projeto e revela-se fácil no croquis. E ninguém exige do croquis perfeição. Aliás, a imperfeição é parte da graça, a imperfeição mantém vivas e abertas as regras do jogo criativo.

Não havendo croquis em fotografia, sendo os fotógrafos arredios a mostrarem fotos-croquis, e quando o fazem são muito mal compreendidos, a criação fotográfica termina recaindo em uma recitação de truques. Truques têm limites, surpreendem da primeira vez vistos mas enjoam rapidamente. Fotógrafos são viciados em truques. Costumam chamar de criação o domínio de um truque novo.

 

Foto 3 – 2010 Às longas exposições foram se somando novas regras, cada uma deles descoberta, reconhecida ou experimentada a um tempo. O brilho da chuva no asfalto, notado como elemento plástico, criando preferência em fotografar em dias chuvosos. A hora de transição entre a iluminação do dia e a iluminação publica misturando as cores das luzes. Nesta houve ainda a experiência de usar comprimento focal curto, aumentando a área escorrida da fotografia.

 

As fotos apresentadas nesse artigo ilustram um jogo criativo que venho jogando há sete anos. Começa delineado pelas limitadas possibilidades de uma digicam precária, evolui a partir do reconhecimento de fenômenos interessantes derivados dessas limitações, e vai se desenvolvendo em inúmeras sessões nas quais o jogo vai ganhando flexibilidade e vão surgindo novas possibilidades. Ao longo desses sete anos mostrei na rede essas fotos e outras análogas, recebendo desde as primeiras inúmeros desencorajamentos e críticas negativas de um público ávido por pannings nítidos.

 

Foto 4 - 2010- Os desenvolvimentos sucessivos vão criando uma linguagem, a qual é tão somente o somatório das regras desenvolvidas, descobertas em uma ocasião e plataforma para a produção posterior.

Nossa época e o direito de imagem

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Texto produzido a partir do interessantíssimo debate no blog do Clicio Barroso em seu post “Publicou, Processa”

Inicialmente, este texto foi redigido como resposta no tópico citado, mas percebi ter ficado muito grande e, além disso, de haver nele novas nuances e dimensões que mereceriam postagem independente, principalmente a caracterização do espaço social como inerentemente midiático, espaço no qual cada um de nós pode ser elevado à visibilidade e nessa elevação ocupar o lugar de símbolo, exemplo ou paradigma de algo, nem sempre de algo com que concorda.

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Será o fim da Street Photography?

A fotografia de rua constitui uma das mais caras tradições da fotografia, e alguns dos mais importantes fotógrafos conhecidos têm nela toda a sua produção. Entretanto, pode ser que ela esteja com os dias contados em nossa época, ou que precise passar por grande mudança quanto à atitude do fotógrafo em relação àquilo que fotografa.

O fato é que a “fotografia-no-mundo” tornou-se, nesta nossa sociedade em que as imagens circulam como uma fala, nessa época na qual falamos através de imagens como nunca antes, um problema, pois os sujeitos conscientizaram-se serem o conteúdo das fotografias. Essa conscientização não provém unicamente da prática fotográfica, mas da exposição da vida privada na mídia que hoje acontece, seja nos reality shows, seja na forma reality show que dominou a maneira de fazer televisão e que deu ao homem comum a consciência de viver aquela profecia do McLuhan, de ser famoso por 15 minutos, e de haver valor nessa fama efêmera, valor que é apropriado por outros, seja a televisão que o filma como “caso exemplo” de algum fato, seja no fotógrafo que o mostra, etc.

Nunca mais se recuperará a inocência perdida, pois cada vez mais, em blogs, Orkuts, em páginas de fotógrafos, em Flickr, em tudo isso as imagens circularão, e aquele cidadão pacato, aquele trabalhador pacato sabe que sua imagem circulará por aí sem que ele tenha controle disso. E que, circulando, gerará valor para alguém, para algo, para um site, para qualquer coisa.

Lá na serra, fotografiei um camarada em uma lavoura de tomate, e era manifestada a sua preocupação com o destino das fotos. Contou-me ter uma vez sido fotografado e depois ter sabido que suas fotos apareceram em uma revista ilustrando uma reportagem, e manifestou nisso imensa contrariedade, referindo-se ao episódio como “fizeram-me uma sacanagem”.

É um lavrador, não acesso à Internet, e aparentemente “desconectado”. Mas não quer, e justamente, servir de imagem paradigmática de nada. Não quer que seus dois segundos de fama tenham significado escolhido por outro. As fotos que fiz dele em sua lavoura não postei em lugar nenhum.

Penso que ele está certo. É uma pessoa desconfiada, mas está certo.

Nesse campo, como em todos, só se chega a uma compreensão do problema quando somos capazes de enxergá-lo sob a ótica de outra pessoa, sob a ótica de quem está do outro lado. Do lado do fotografado.

Vejo no discurso dos fotógrafos incapacidade de compreenderem o outro lado. Não vêem a coisa sob a ótica do sujeito da foto, não entendem a relação da pessoa com sua imagem circulando por aí. É compreensível a frustração dos fotógrafos pela ruptura da tradição da fotografia de rua, tão cara em sua tradição, mas é preciso entender o contexto.

Temos de imaginar a situação inversa, da nossa imagem ser usada, e imaginar como nos sentiríamos, se desejaríamos isso, etc. A questão do pagamento mencionada pelos sujeitos muitas vezes é tão somente uma ameaça inibidora mais do que um desejo de obter vantagem.  Ou uma real vontade de punir a apropriação de sua imagem por outro.

A verdade é essa. Na medida em que a vida privada foi praticamente extinta pelo Big Brother verdadeiro, não o programa nem o livro, mas todo o sistema de produção de imagens no qual nos incluímos e que vigia cada coisa da vida coletiva, as leis de proteção da imagem são antídotos para proteger o homem comum dessa máquina voraz.

E a história não volta atrás. É preciso entender isso e ajustar a fotografia às necessidades do tempo, sem querer fazer hoje a fotografia possível há 40 anos atrás. E é preciso descobrir qual fotografia se pode fazer.

Muitas vezes um fotógrafo documenta um grupo ou tribo urbana em eventos determinados, como Cosplayers ou o pessoal de Street Dance e ocorre então ele  fotografar grupos que querem jogar o jogo da imagem, e assim aceitarão a fotografia e a exposição decorrente. Um Cosplayer quer mostrar-se, um grupo de dança de rua quer mostrar-se. A mesma pessoa pode querer mostrar-se como dançarino e não querer mostrar-se quando na padaria comprando pão. É essa escolha que devemos compreender, e entender que hoje cada um conhece a diferença entre sua dimensão social e sua privacidade, como nunca antes.