Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

O MUNDO POR IMAGENS ou O Ocaso da Galáxia de Gutenberg

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O MUNDO POR IMAGENS
ou O Ocaso da Galáxia de Gutenberg

uma imagem de uma imagem

Como vivemos? Esta é uma pergunta que admite um milhão de respostas e essas serão complementares entre si mais do que contraditórias. Cada uma abordará um aspecto de nossa vida. Para esse texto seguinte vamos dizer vivermos, sobretudo, em um ambiente formado pelos demais seres humanos, e poderemos ainda dizer que nossa interação com esse ambiente tem a natureza de comunicação.

Nossos gestos, como caminhar, nossas posturas, tudo isso que tomamos distraídos como simples expressão orgânica na verdade são, sob certo prisma, atos indiretos de comunicação. Quando giramos a chave na fechadura, quando ligamos a luz acionando um interruptor, quando operamos um aparelho eletrônico cheio de funções, comunicamo-nos, pois são objetos conformados para produzirem determinadas respostas-significado. Foram conformados assim por outros seres humanos e, para além disso, conformados através da história da sociedade humana, conformados pela comunicação que houve, e essa comunicação havida é inércia influenciando a comunicação que há e a que haverá.

Mas a comunicação também se modifica. Muitos protocolos para ela surgem ao longo da vida da humanidade: fala, o desenho, a escrita, a geometria, a matemática. Cada uma dessas coisas instituiu um novo protocolo e gerou um ciclo de conteúdos específicos, próprios e conformados pelo protocolo. Cada protocolo é uma caixa onde só cabem objetos da forma certa. Por exemplo, o protocolo Matemática lida essencialmente com quantidades de coisas, implicitando uma suposição prévia tacitamente aceita quanto à relativa igualdade dessas coisas quantificadas. O protocolo Matemática presta-se a certo tipo de mensagens e não a outro, a menos que esteja à serviço de um outro protocolo mais geral quando então perde sua tipicidade.

Pois bem, nesse processo de geração e de disseminação de protocolos, os quais, como dito, prestam-se a certas mensagens e não a outras –cada protocolo define o seu conteúdo- assistimos o transe da explosão do protocolo de comunicação por imagens fotográficas. Poderíamos, grosso modo e com as licenças necessárias, comparar essa explosão com a disseminação da escrita no passado.

Inicialmente a escrita foi protocolo de comunicação de um grupo restrito de seres humanos. Poucos sabiam ler e escrever. Quando falamos da escrita cuneiforme da Babilônia, somos impregnados de uma idéia errada de uma sociedade babilônica letrada onde todos a lessem, mas não era assim, muito provavelmente. Nas sociedades antigas poucos sabiam ler, poucos sabiam escrever. Muito poucos: na verdade um pequeno grupo especializado em uma escrita com funções definidas de registro, de criação da história oficial e afins. Detentores de um saber raro, usado com parcimônia e esmero. Geralmente funcionários do governo. Pessoas que em si reuniam as funções de calígrafo, de literatos, enfim, o domínio completo da interface.

O impacto de tal escrita restrita numa sociedade é muito diferente daquele da escrita disseminada como protocolo comum, dessa nossa escrita dos formulários preenchidos, das anotações em Post-it, das mensagens em celular, dos anúncios em lojas ou em folhetos, ou seja,  escrita de uso generalizado cuja forma prescinde de esmero para efetivar-se a comunicação e dispensa a maneira culta de fazer-se e artesanato especializado.

Assim também está acontecendo com as imagens fotográficas. Hoje não acontece apenas a disseminação da fotografia, mas uma mudança muito grande no seu papel. Essa mudança é provocada pelo fato de todos em uma sociedade pós-moderna terem se tornado produtores de imagens, e, sob certo aspecto, são essas imagens agora aquelas verdadeiramente importantes, porque resultam numa onipresença do narrar por imagens, diferentemente da narrativa especializada e pontual da reportagem fotográfica.

Mal comparando, a narrativa da reportagem fotográfica corresponderia à língua culta. Sua capacidade de descrição e de resumo, de comentário e de crítica, dificilmente e raramente é atingida pelo uso coloquial da imagem, mas, por outro lado, a ubiqüidade da fotografia coloquial a torna capaz de mostrar um mundo em sua fugacidade e particularidade inalcançável pela ação direcionada da reportagem fotográfica.

Este texto teve como centelha e motivação a fotografia feita com iPhone e premiada no concurso Pictures of the Year International em http://www.gizmodo.com.br/conteudo/hipstamatic-e-a-morte-do-fotojornalismo/#more-26514 . Li em fóruns e listas de fotografia considerações do tipo “É isso aí, a foto pode ser boa não importam os meios”. Mas no meu ponto de vista isso escamoteia o aspecto mais importante da coisa, pois nesse caso o importante são exatamente os meios.

É desimportante que a foto feita com um aparelho fotográfico precário rescenda à linguagem visual culta, como a foto premiada rescende. Isso é sua fraqueza e não sua força, porque nos pode iludir associando sua relevância a ser uma relativamente boa fotografia dentro dos cânones cultos, quando sua verdadeira relevância é ser o reconhecimento da ubiquidade fotográfica a partir de aparelhos portáteis que se comunicam à distância.

Bem examinada a questão, as verdadeiras fotografias paradigmáticas dessa ubiqüidade fotográfica não são a do prêmio, que, aliás, nada narra de interessante e só mostra a possibilidade de tudo ser registrado, mas sim aquelas do Iraque, de Abu Ghraib feitas por mero regozijo com a banalização da desumanidade, cruas, sem abordagem estética a não ser essa volúpia de abuso. O prêmio esconde mais do que mostra, porque o prêmio indica que um fotojornalista pode usar esses meios, mas o importante não é mais –no caso desses meios- o fotojornalista –que continua, contudo, a ter o seu papel para a narrativa resumitiva em linguagem visual culta.

O importante é que a mensagem do meio, ou a mensagem-meio é a ubiqüidade em si. A mensagem é a onipresença, não a narrativa resumitiva.

É possível imaginar um futuro no qual os cidadãos além de aprenderem a ler aprendessem também fotografia, mas não é por aí que a tendência escorre. O saber escrever fotográfico é mais simples, e em lugar dessa instrução pessoal, dessa alfabetização, as câmeras embutem em si partes da ortografia necessária, da gramática até. Cada vez mais possuem programas capazes de resolver minimamente as cenas e ao operador comum cabe apenas identificar (significar) a coisa relevante. Olhe isso! Este é o ato dessa escrita coloquial por imagens já não mais escrita por fotógrafos.

Vamos a um prédio comercial e o porteiro nos fotografa na portaria nos identificando. “Este esteve aqui”, é a mensagem da foto. Não houve um fotógrafo, houve alguém que preencheu um formulário com uma imagem usando garranchos visuais assim como formulários escritos são preenchidos em letras pouco cuidadas e bilhetes são rabiscados em Post-it. “Olha, eu quero uma escova de dentes igual a essa!” E lá vai a mensagem visual cruzando o espaço de comunicação pelo celular até a mãe que está no supermercado fazendo compras. É uma fotografia, mas é um rabisco, assim como um bilhete não é um poema curto.

A ubiqüidade das imagens e dos fazedores de imagem praticamente assegura que qualquer coisa relevante será registrada em um futuro próximo. E não haverá outro conteúdo a não ser a imagem a mostrar a coisa: Isto! Isto! Isto! A fotografia só se torna puramente ligada ao referente quando assim, quando feita por descuido ou por automatismo, quando se elide o ato fotográfico que não seja escolher o assunto.

Câmeras com GPS e bússolas (para saber em que direção apontou) ligadas permanentemente à rede. Basta isso e instantaneamente o mundo gerará um fluxo de imagens narrativas de um Atual (ver Pierre Levy) como nunca se fez, e isso não está distante. Milhões de fotografias simultâneas: o mundo está assim neste Agora! Este é o Atual! Atual e Virtual próximos como nunca. O mundo se conhecerá por imagens.

A fotografia tem sua linguagem, sua narrativa, sua poética? Sim, tem. Mas essa, essa comunicação em linguagem popular pode ter também sua tipicidade, mas ela nos é desapercebida porque constitui o fundo geral do treinamento social humano. Talvez pudéssemos discernir essa estética oculta comparando imagens de celular japonesas com americanas, e essas com brasileiras e assim por diante. Identificar traços distintivos culturais a modelar uma estética onde parece não haver nenhuma.

Alguns fotógrafos do universo culto da fotografia voltam-se sobre esse fenômeno. Além do prêmio citado podemos falar de outro, uma Menção Honrosa do prêmio World Press atribuído ao Michael Wolf por suas fotos feitas de uma tela de computador na qual examinava o Google Street Views, ícone maior da ubiqüidade fotográfica.

Assim como os escribas perderam sua relevância nas sociedades totalmente letradas, os fotógrafos cujo mister era puramente o registro o perderão na sociedade totalmente fotográfica.

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6 Respostas

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  1. Brilhante, simplesmente brilhante. Meus parabéns Ivan, seu texto permite dias de discussão. Abraços, Nando.

    Nando Martins

    18 de fevereiro de 2011 at 3:20 pm

    • Obrigado, Nando.
      Você sabe que este blog é totalmente na primeira pessoa. Raramente escrevo aqui um artigo para agradar, nem sei se já fiz isso, em geral escrevo o que me assalta o pensamento na hora, algum insight. Essas notícias recentes dos prêmios, um deles dado a fotos feitas do Google Street View em uma tela, outro da foto com iPhone, e conversas em listas de discussão sobre isso nas quais notei que a maioria dos fotógrafos presta atenção a se a foto é boa, se aquilo é fotografia, etc, sem darem-se conta dos fenômenos no nível maior da comunicação social dentro dos quais a fotografia é apenas um barquinho no temporal. Esse artigo nasceu assim, de um debate externo e mais que isso do que esse debate externo me fez pensar. Não acredito que será um artigo muito popular, mas era a minha hora, era a minha compreensão do momento.
      Grande abraço
      Ivan

      Ivan de Almeida

      18 de fevereiro de 2011 at 3:41 pm

  2. Parabéns Ivan, excelente texto, para se guardar e refletir.

    Accioly

    19 de fevereiro de 2011 at 11:30 am

    • Obrigado, Accioly.
      Abraços

      Ivan de Almeida

      19 de fevereiro de 2011 at 12:18 pm

  3. aparece um sapo dentro de um cubo de gelo em todas as suas imagens aqui.

    Priscila MOnteiro

    24 de fevereiro de 2011 at 3:43 am

    • Obrigado por avisar, Priscila. Isso é coisa do Imageshack, cujo logo é um sapo. O Imageshac parece ter ficado ontem fora do ar em alguma atualização, e como todas as imagens estão linkadas lá aconteceu isso.
      Mas acho que já normalizou. Ontem eu não conseguia entrar no Imageshack e hoje já consegui.
      Abraços

      Ivan de Almeida

      24 de fevereiro de 2011 at 12:07 pm


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