Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

Esta vai para a parede?

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Nota introdutória:

Este artigo faz parte da quota de artigos que eu penso dever ao blog. Em fins de 2010, percebi que o Fotografia em Palavras precisava de três artigos para completar-se. Os três enrodilhados entre si. Escrevi e publiquei o primeiro deles em outubro, chamando-o  A Solidão Criativa na Fotografia e fiquei “devendo” os outros dois. Um é este e o outro, ainda devido, falará sobre autoria fotográfica. Nesse meio tempo, entre outubro de 2010 e hoje, vim encontrando em alguns diálogos com outros fotógrafos pontos de reflexão sobre os temas, e minhas idéias não exatamente mudaram, mas beneficiaram-se de novas observações..

Essa idéia do blog completar-se soou como um anúncio do fim do blog, mas não é bem assim. Apenas com esses três artigos pensei que completaria o bloco principal de minha forma de ver a fotografia, ou pelo menos de ver aqueles aspectos para mim mais importantes. Depois disso o blog aliás ganhou vários desenvolvimentos, como uma segunda vida.

Uma das coisas que me inquietava era a distinção das fotografias que mereciam ou podiam ir para a parede.

Esta vai para a parede?


Muitas vezes ouvimos como elogio a uma fotografia nossa ou de outros “Merecia ser ampliada e colocada na parede”. Isso, prestando atenção, soa como se colocar na parede uma fotografia fosse seu ápice, fosse um atestado dela ser boa sobre todas as demais fotografias que fazemos. Como se, no imaginário dos fotógrafos, houvesse três altares sagrados nos quais a fotografia neles colocada é entronizada como boa: a parede, o museu/galeria e as coleções de fotografia.

Penso isso ainda ser um resquício da mentalidade das Belas Artes, e penso ser o uso de um parâmetro delas que não se ajusta perfeitamente à fotografia pela própria natureza dessa. Uma fotografia pode ser excelente, magnífica, e no entanto não ser uma boa fotografia para a parede. Pode ser perfeita em um jornal, em uma revista, em um site, em um anúncio publicitário em um editorial de moda e no entanto não servir para ser colocada na parede.

Esses três altares; parede, museu, coleção, não são sequer equivalentes entre si. Vou dar um exemplo: possuo uma nota de Zero Cruzeiro do Cildo Meireles. Este trabalho dele é extremamente conhecido, todo colecionador de arte contemporânea tem uma nota dessas de Zero Cruzeiro, ela faz parte do acervo de museus, e, no entanto… a minha está em um envelope muito bem guardada mas não na minha parede.

Por quê?

Ora, porque na minha parede, que forma o ambiente no qual passo grande parte do meu tempo, coloco objetos que têm desempenho estético. Ninguém nega o valor do Zero Cruzeiro na Arte Contemporânea, mas é preciso notar não ser um objeto esteticamente atraente. A nota é feia. Faz sentido em uma mostra em um museu. Faz sentido em uma coleção, fez todo o sentido sua feitura dentro de sua proposta, mas não faz sentido na parede da minha sala ou do meu quarto. Os objetos nas paredes que me cercam são ali colocados para o prazer dos sentidos.

Podemos encontrar nos museus muita coisa, mas é preciso distinguir entre as coisas neles encontradas aquilo que é arte e o que não é, e aquilo que sendo arte tem como característica a agrabilidade estética ou a memória de ações e movimentos. Então, a fotografia para a parede –considerando aqui paredes dos ambientes domésticos e não paredes comerciais nem institucionais onde a fotografia pode fazer parte da mensagem do negócio- é antes de tudo um fato estético. Já a fotografia para o museu pode ser um fato estético, mas pode ser também um feito técnico-histórico, um registro de extrema significação, um exemplo paradigmático de um tipo de abordagem descritiva por imagens, etc. Pode até ser meramente um documento histórico, valiosíssimo, mas sem nenhuma característica estética notável.

Além disso, a fotografia pode viver em outros lugares oferecendo-se à fruição nesses lugares de forma que na parede não poderia. Por exemplo, tomemos o livro África do Sebastião Salgado, uma das mais impressionantes reuniões de fotografias que já vi. O conjunto pode ser uma exposição em uma galeria ou em um museu, situação na qual pode soar além das fotos individuais e beneficiar-se dos requintes de produção das cópias. Cada foto do conjunto, sozinha, aliás, tem capacidade se sobra de reter a atenção. Mas a vida do conjunto em uma exposição ou em um livro de boa impressão é uma vida extremamente adequada ao que são. Através dessa vida do conjunto em livro ele chegará à maioria das pessoas, dar-se-á a conhecer à maioria, e o livro permitirá fruir as fotografias como eventos individuais e também como conjunto sem  contudo, o convívio permanente com elas, como haveria se estivessem na parede.

Não apenas não é necessária a colocação delas na parede como também não são exatamente o material com o qual se conviveria em uma sala de estar ou de jantar ou  no quarto do casal.

Isso significa serem ruins? Evidentemente não, são fotografias fantásticas, são fotografias que em qualquer critério ocupam o patamar superior do fazer fotográfico, são superlativamente boas. Mas sua vida não depende da parede e sua adequação às paredes não é direta. Fotografias muito piores podem habitar as paredes, contudo.

O fato é haver muitas “Fotografias” muitas formas e objetivos ao fazer fotografia, e não apenas um, porém ocorre um fenômeno que se refere ao campo da imaginação dos fotógrafos sobre a sua própria fotografia: Cada tipo de fotógrafo costuma julgar a Fotografia toda a partir do tipo de fotografia que faz e das motivações que tem, incluindo nisso a forma como vive a vida e como a relaciona com a fotografia. Chega-se mesmo a descompreender a fotografia feita com preocupações outras, finalidades outras. Até os grandes fotógrafos descompreendem a fotografia de outro grande, porque estão tão afinados com sua missão a ponto de crerem que a sua missão é a própria missão da Fotografia.

Disse o Cartier-Bresson sobre o Ansel Adams e o Edward Weston: The world is going to pieces and people like Adams and Weston are photographing rocks! (1)

Ora, ninguém tem dúvidas sobre a fotografia dos três, mas a missão que a fotografia tinha para o Bresson não era existir “para a parede”, enquanto a missão da fotografia do Adams inclui a contemplação na parede e quase a exige. A fotografia do Bresson, por mais que a cópia fosse boa, nascia para o espaço da comunicação pela imprensa, nascia com essa marca. Há a abordagem estética fortíssima, mas essa abordagem está a serviço do “caderno de croquis” no qual ele narrava o mundo da vida humana. O mundo humano era narrado. E essa narrativa do mundo parecia ao Bresson tão essencialmente integrante da Fotografia a ponto de manifestar essa incompreensão com relação ao trabalho do outro gênio que com isso não lidava.

Pois na fotografia do Adams não é exatamente o mundo comum que é narrado, e sim um mundo de forças naturais  exaltado, louvado, idealizado, tornado mais perfeito e dramático do que pode ser em sombras e tons. Ele é descrito de modo que a cena sobrepasse aquela que ordinariamente se presencia no lugar da foto. As paisagens fotografadas em horas escolhidas, em situações climáticas escolhidas. Cada cópia é única, cada cópia é um trabalho de artesanato em prol dessa descrição que exagera e “mente” benfazejamente como forma de fazer-se.

Mas, pelo fato da fotografia do Adams ser para a parede e a do Bresson não, seria cabível dizer uma ser melhor, outra pior? É claro que não. Podemos dizer que cada uma vive em seu espaço, só isso.

E essa é a questão. A fotografia para a parede é um tipo específico de fotografia. Ela é feita para a contemplação demorada, para uma infinidade de momentos de contemplação, para conviver com a pessoa. Ela não precisa comunicar-se rapidamente, porque os momentos de contemplação se sucederão. Ao contrário, a comunicação muito rápida pode esgotá-la também rapidamente, algo fatal para o objeto duradouro.

E, no reverso da moeda, os produtores de fotografias para a parede igualmente não têm as mesmas preocupações dos outros fotógrafos, porque cada tipo de fotografia gera uma preocupação. Nós perdemos essa distinção chamando tudo de fotografia, coisa que esconde as grandes diferenças de atitude, as grandes diferenças de busca.

Dedicar-se à produção de “fotografias para a parede” implica na assunção de coisas diversas, algumas louvadas, outras depreciadas. Bem ou mal, tratar-se-á de uma fotografia decorativa, mesmo quando seus méritos artísticos sejam imensos. Mas não precisa sequer desses méritos artísticos. Basta suportar a contemplação durante muitos anos por seus jogos formais e agradar ao olhar.

Já fotografias com outros objetivos não precisam suportar a contemplação através dos anos, embora possam fazê-lo. Em tom de brincadeira respondi a um fotógrafo conhecido que “nada mais sem impacto do que uma capa de revista velha”, embora a mesma capa possa ter sido na época do seu lançamento muito atraente e chamativa. Fazer uma fotografia capaz de atrair em uma capa de revista, em um mundo repleto de  imagens circundantes, é uma extrema capacidade, mas é uma capacidade de outro tipo, não a mesma necessária às paredes. Os requisitos das fotos são diferentes, o desempenho estético diferente em modo: uma precisa da comunicabilidade rápida, outra tem nisso um perigo.

Fazer fotos para pertencerem ao universo da arte,isso é outra coisa e  isso também difere das fotos para a parede –embora, assim como no caso anterior, possa haver fotos que criadas no diálogo da arte sejam “emparedáveis”. As fotos propostas como arte visam os museus, as galerias, as mostras curateladas, enfim, visam um universo delimitado pelo discurso da arte.

E a mesma coisa pode ser falada para fotos publicitárias, de moda, de eventos, de reportagem, etc. Cada uma delas tem um meio onde viverá bem, e pode aparecer em outros meios, mas não é ali o seu reinado.

Porque em cada meio são diversas as características para a eficiência de uma fotografia.

Acontece uma grande confusão na produção fotográfica. Parece haver um desejo e uma presunção em cada fotógrafo de suas fotos serem “dignas” de ocuparem um dos três tronos sagrados, ou mesmo os três, como se isso fosse importante. Fotografias são produzidas em métodos e papéis com qualidade para museus, antes mesmo de serem adequadas a eles. Fotografias têm de ser grandes, não sendo não servem para “a parede”, “a galeria”, “o museu”. Todos acham que uma parte de sua produção, uma meia dúzia de fotos bonitas entre todas, têm de ser impressas para durarem centenas anos e poderem ser cuidadosamente preservadas para a posteridade.

Em muitos sentidos, essa atitude é contraditória com a própria fotografia e com seu poder narrativo de atualidade. O perene da fotografia, na maioria das vezes, é um sedimento, não uma proposta. As fotografias clássicas que estão em museus não foram feitas para eles. Foram parar lá, mas não foram desde sempre modeladas para isso. Em certo sentido, a fotografia é como a arte culinária: é consumida na refeição. Há uma dimensão de perenidade, mas não é ela que move a fotografia no cotidiano.

Dedicar-se a um ramo fotográfico implica  saber que atenderá a certas necessidades e essas são antagônicas a outras. Fotografar para a parede é conscientemente colocar os fatores decorativos na frente de outros fatores, por mais que isso seja por vezes tido como depreciativo. Isto é bom? Isto é ruim? Ora, isto é assim, e bom ou não dependerá da qualidade da produção. Fotografia para a parede é tão somente um tipo de fotografia, não um atestado de excelência.

Os fotógrafos muitas vezes mantém uma visão demasiadamente conservadora da fotografia. Ainda, depois de tanto tempo, desejam a respeitabilidade do pintor, mas um desejo descabido pois sequer o pintor goza mais dessa respeitabilidade.

 

1) Agradeço ao Luiz Paulo, companheiro da Fototech ter localizado a fala do Cartier-Bresson sobre o Adams e o Weston. Eu a lembrava imprecisamente e desejava cita-la, e ele a localizou, então cito a tradução que ele deu à frase e que me parece extremamente apropriada: “O mundo está caindo aos pedaços e pessoas como Adams e Weston estão fotografando pedras!” (ou rochas)

 

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16 Respostas

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  1. Agrada o texto, agrada a forma como o conduziu. Fotografia tem muitas variáveis e aplicações, sua produção pode estar atrelada ao destino! Há fotógrafos editoriais, sociais, publicitários, científicos, etc, porque há formas diferentes de usar a fotografia além de coloca-las na parede. Nem sempre se pensa no objetivo, esse é um tema interessante e que no momento tem sido esquecido. Fala-se muito em estética, mas nem todas as fotos são artísticas, aliás creio, que há um grande percentual delas que são ilustrativas e nesse caso sua estética – quando o fotógrafo trabalho por demanda – é adaptada ao publico que se destina. Obrigado por compartilhar seus pensamento. Abs

    Pepe Mélega

    30 de março de 2011 at 10:51 am

    • Obrigado, Pepe. É exatamente isso. E o destino em geral liga-se à maneira habitual do fotógrafo produzir, liga-se á fotografia que ele faz. Quem tem fotos em revistas não tem motivo nenhum para ansiar pela parede, e por aí vai.

      Ivan de Almeida

      30 de março de 2011 at 11:41 am

  2. Olá Ivan,

    Obrigado pelo texto, por sinal tenho os livros do Salgado, menos este Africa, que por sinal comprei outro dia, mas para dar de presente. Vou comprar, pois preciso olhar isso em detalhes.
    Um sugestão que foge do tema mas acho importante, gostei do video que fez, acho que sua comunicação no video é boa e didatica, minha sugestão seriam duas.
    1. Fazer estes textos em forma de video, acho que fica mais agradável, coisa pessoal.

    2. E também ter uma versão podcast, isso seria otimo, é uma maneira de ouvir e refletir, enquanto passamos horas no transito.

    Um abraço.

    Abdo

    Abdo

    30 de março de 2011 at 6:06 pm

    • Obrigadão, Abdo.

      O Fotografia em Palavras permanecerá com textos e alguns videos, eu mesmo gostaria de fazer como você sugere: tudo video. Mas no estágio atual de minha capacidade de produzir videos -pequena-, eles ainda serão menos que os textos. E talvez alguns assuntos, esse por exemplo, sejam mesmo mais próprios ao texto.

      A versão podecast para os videos eu teria também de aprender a respeito antes. Vou investigar, parece-me uma boa coisa.

      Grande abraço,
      Ivan

      Ivan de Almeida

      30 de março de 2011 at 6:26 pm

      • Ivan o podcast acho que é mais simples, pode até colocar para baixar, qualquer computador que tenha microfone apenas, acredito que posso funcionar bem. Abs.

        Abdo

        30 de março de 2011 at 6:30 pm

      • Entendi. Vou ver como fazer e como colocar para baixar. Gostei da idéia.
        Obrigadão, Abdo.

        Ivan de Almeida

        30 de março de 2011 at 6:34 pm

    • Em tempo, vale o escrito para o África ou para os outros, só o importante é ver como há produções espetaculares que vivem no livro melhor do que viveriam na parede da sua sala -risos.

      Ivan de Almeida

      30 de março de 2011 at 6:27 pm

  3. Oi Ivan, tudo bem?

    Gostei da maneira que você expôs o tema, nem tudo que produzimos -e me encontro neste conjunto- há que ter uma parede, de museu, de galeria, de coleeções- aliás, muitas vezes uma parede vazia é mais interessante.

    Apenas creio que o termo que usado “esta foto merecia uma parede”, além de ser usada para agradar o autor, ele também mascara a falta de conhecimento para uma crítica mais técnica, no sentido cultural do termo “técnica” que se pretende fazer à fotografia posta a prova, “jogada” à arena.

    Ricardo Lou

    2 de abril de 2011 at 3:46 am

    • Ricardo;

      Obrigado pelo comentário. Penso que quando usada por um leigo é uma expressão inócua, elogiosa. Mas quando usada em comunidades fotográficas e entre fotógrafos, aí é preciso levantar a questão, porque há, penso, uma confusão sobre a própria essência da fotografia.

      Abraços

      Ivan de Almeida

      2 de abril de 2011 at 4:12 am

  4. Bacanérrimo Ivan.
    A minha do Rio Paraíba vai pra parede.
    Mas a minha parede … -rs

    Abraços.

    peridapituba

    6 de abril de 2011 at 10:30 pm

    • Mas é exatamente a nossa parede o grande teste, Peri.

      Ivan de Almeida

      6 de abril de 2011 at 11:19 pm

  5. Ivan;

    Como sempre um texto fluído, muito bem conduzido. Estas questões referentes a quão boa pode ser uma fotografia e ao “alvo” ao qual ela se destina, povoa minha visão e guia minha forma de “ver” e fazer minha fotografia. O seu ponto de vista, apresentado no texto, traz importantes variáveis ao meu modo de entender e me enriquece muito!

    Abraços

    Jefferson

    12 de abril de 2011 at 11:29 am

    • Obrigado, Jefferson.

      Seu comentário foi muito preciso, em poucas palavras quase resumiu o artigo no trecho “questões referentes a quão boa pode ser uma fotografia e ao “alvo” ao qual ela se destina”.
      Na fotografia toda hora mitos estão sendo criados, e é preciso desmontá-los. A foto-parede pode nem ser a melhor “fotografia” no fim das contas, pelo que a fotografia é de fato.

      Ivan de Almeida

      12 de abril de 2011 at 11:50 am

      • Ivan;

        No meu modo de ver, este sue artigo é complementar ao outro onde você questiona se “a sua fotografia é boa o bastante”, só que agora você não questiona apenas o “mérito” mas também a saída dado ao objeto fotografado. Seguindo esta linha, fui feliz no meu comentário e fico feliz que você tenha gostado.

        Abraços

        Jefferson

        12 de abril de 2011 at 12:29 pm

  6. Bela exploração do tema e precisa analise sobre nossa realidade fotográfica. Obrigado, Ivan.

    Marcos Semola

    26 de abril de 2011 at 3:31 am

    • Sou eu quem lhe agradece o comentário, Marcos.

      Ivan de Almeida

      26 de abril de 2011 at 3:45 am


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