Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

Inocência e Método

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O jeito é tomar um foguete
É comer desse banquete para obter a paz, aquela paz
Que a gente tinha quando falava com os animais

Samba dos Animais – Jorge Mautner e Nelson Jacobina

Inocência e Método

Sinto saudades da fotografia inocente que praticava após ter comprado minha primeira câmera digital. Engraçado, era muita fotografia, sobraram poucas nos diretórios. Isso quer dizer alguma coisa… A transição entre a fotografia em película e a digital, apesar da primeira câmera digital ter sido muito limitada quando comparada às atuais, foi como abrir uma represa de desejos por muito tempo fechada. O filme tem limitações de custo e tem longo curso entre disparo e resultado, e isso me manteve em poucos temas –geralmente no tema familiar- durante décadas.

Fotografava qualquer coisa com a primeira digital, não havia nunca falta de assunto. Desde os brinquedos do meu filho às plantas molhadas na serra depois de chover, e mesmo um simples passeio de manhã pelo fim da rua onde está minha casa na serra, que termina em uma trilha. Este artigo, aliás, teve como catalizador a foto de uma amiga, foto assim, inocente, que ela chamou de “depois da chuva”, mostrando uma flor com gotas, que lembrou-me de uma foto minha de oito anos atrás com o mesmo título (na época punha títulos em fotos) e com igual temática.

Mas não se pode prolongar artificialmente as coisas, não se pode manter algo quando esse algo não mais é verdadeiro no sentido de não mais corresponder a um impulso simples, lúdico, impulso de selvagem curiosidade. Não é questão de “ter perdido o olhar”, “ter perdido o tesão” ou coisa assim, é questão de não haver graça em repetir. Querendo ou não, vamos aos poucos desenvolvendo uma relação com os temas fotográficos que é mais tensa, menos despreocupada. Não é mais qualquer imagem bonita o interessante, o algo a ser buscado, mas sim algum tipo de abordagem especial, algum desenvolvimento que por vezes parece a quem está fora apenas uma mania ou até um erro.

Há, permanentemente ou reincidentemente no mundo da fotografia, um repertório de fórmulas mágicas para recuperar a inocência. Foi assim –e ainda é- com as Lomos, é assim com o iPhone/Instagram. Como se essa inocência fosse questão de equipamento. Mas não é. E não há caminho de volta, não se recupera aquele descompromisso, exceto em situações bem específicas de uma viagem, de um passeio, enfim, quando, paradoxalmente, fotografar não é a atividade principal que se está fazendo.

Para muita gente parece haver uma questão mal resolvida nas atividades que envolvem criação, questão referente a essa diminuição da espontaneidade e, paralelamente, o crescimento de algo que, por falta de palavra melhor, chamarei de método. O desejo de recuperar a inocência perdida é tão grande que qualquer coisa que pareça oferecer isso é saudada como redentora. Pois é claro que método remete ao trabalho, isto é, ao esforço disciplinado, exigente, não totalmente livre, mesmo quando a fotografia é amadora. Isso não é tão agradável quanto fotografar a esmo.

O problema é que fotografar a esmo, ou fotografar em busca de um varejo de resultados visuais agradáveis, mas sem conteúdo maior, é uma prática paralisante. Conforme a percepção de si mesmo, a percepção das próprias motivações seja mais ou menos aguda, o praticante logo percebe que isso é uma repetição eterna, maçante e de auto-engano. Paradoxalmente, essa variedade  sem rumo conduz à repetição, repetição de padrões formais muito conservadores e estabelecidos, e, para não repetir, o autor precisará aprofundar-se em um algo, precisará abandonar a horizontalidade de fotografar a esmo em prol da verticalidade do compromisso com um tema ou um modo. Porque é na verticalidade, isto é, na pesquisa recursiva sobre os temas, assuntos, modos de fazer que interessaram especialmente ou que por uma mistura de acaso e investigação veio encontrar, que o praticante consegue se mover para fora da repetição. Novo paradoxo: é insistindo no mesmo que nos movemos para fora da área da repetição.

Remeto-me aqui a um artigo publicado há alguns meses: Autoria é trabalho continuado. No artigo, este mesmo assunto é abordado de outra maneira, nele sob o aspecto da compreensão social do que é autoria. Aqui, neste lado da moeda em que agora estamos –o lado do autor-, isso é examinado nos seus aspectos motivacionais. Aqui nos interessa a questão: “o que é mesmo que eu quero fazer”. Mas, como no outro artigo, esse fazer passa pelo trabalho continuado de aprofundamento.

O que é um trabalho de aprofundamento? De onde surge um rumo, um tema pessoal? De onde o criador o “inventa”? Ele o inventa de fato? Ou ele o encontra? Qual a diferença entre inventar e encontrar?

Ora, quando observamos a obra de todos aqueles que se destacaram no campo das artes visuais a primeira coisa que podemos notar é que as obras de um autor são todas parecidas entre si. Será que isso é indicativo de uma limitação? Ora, nos parâmetros que consideram a espontaneidade como vetor, seria. Por que o Picasso produziu centenas de colagens muito parecidas representando uma guitarra (violão)? Por que elas são tão parecidas? Seria o Picasso limitado? Por que fez centenas de gravuras da série Minotauro? Por que o Sérgio Camargo produziu esculturas e relevos que são tão parecidos uns com os outros? Por que eles não ficaram procurando surpresas e novidades em cada coisa?

No entanto, é exatamente isso que confere valor às suas obras, porque o observador encontra nelas não uma novidade em relação a outra obra do mesmo produtor, mas níveis de aprofundamento, e quando vê em uma sala cinqüenta guitarras feitas de papel, jornal e coladas, percebe palpavelmente o raciocínio do criador investigando a forma mais, mais e mais.

Mas as coisas são paradoxais. Quando vemos as guitarras, livres na concepção, mas incrivelmente metódicas quando analisado o processo todo, não nos parece que o método seja limitante, tal a qualidade do resultado. Vemos que ele, ao invés de limitante, é um poderoso meio de ir adiante, de sair da zona do indistinguível, da variedade-Torre-de-Babel. Da confusão indistinta de novidades descartáveis.

Contudo, o método é mentalmente exigente. É preciso perseverar, continuar, fazer dia após dia e conviver com a alienante cobrança de novidade que o mundo apresenta –é claro que não apresentava ao Picasso, mas apresenta aos produtores comuns. Ora, “você sempre faz pannings na sua janela, vá para algum lugar fotografar coisas diferentes”, já me disseram em uma conversa sobre fotografia, insinuando que sou pessoa acomodada. A maioria acha que competência é permanecer na sopa de variedades cuja resultante é nula.

Fizemos uma pergunta em um parágrafo anterior. De onde surge um tema? A resposta a essa pergunta é difícil, não porque seja difícil mas porque para ser compreendida é necessário que se tenha experiência concreta em atividades de desenvolvimento criativo, e não apenas uma imaginação sobre o que é criação. A grande maioria dos fotógrafos não passou por um tipo de escola na qual a criatividade seja desenvolvida, na maior parte das vezes passou por cursos de “como fazer” (como iluminar, como usar um flash TTL, como usar o Lightroom, etc), e isso faz com que esse “o que fazer” seja reduzido àquilo aprendido no “como fazer”.

Basicamente, a criatividade é desenvolvida quando em um ambiente de ensino entrega-se a um aluno um propósito somado a um leque de limitações. Digamos, em um trabalho de modelagem –um exemplo concreto, que fiz quando estudava arquitetura- usando uma folha de papel comum. O professor apresenta um propósito, no caso “criar uma textura uniforme em toda ela” e um leque de limitações, no caso passado “não pode destacar partes do papel nem colar, a textura tem de ser produzida apenas cortando e dobrando”.

É claro que a pessoa pode dizer: “essas regras são muito limitantes” ou “mas eu queria colar aqui e ali, ficaria melhor”. Independentemente de poder ficar ou não melhor, isso fugiria do desafio criativo, seria uma fuga do problema e não uma solução criativa.

Vejamos ser isso diferente da atitude de ensinar “como fazer”. Não se é dito como fazer, aliás, o como fazer é óbvio: é dito que só se pode fazer de tais maneiras, mas se cobra um resultado, e esse resultado, para atender ao requisito, precisa ter características de criação claras, ou seja, o trabalho de um aluno deve diferir do trabalho de outro e conter algum elemento próprio de interesse.

Ora, é bastante claro que o leque de limitações funciona como uma espécie de conjunto de regras de um jogo criativo, jogo que é plástico, porque sua solução não está pré-determinada, mas é relativamente rígido porque as regras são imperativas.

Agora vamos imaginar que ao invés de um professor em um curso estipular as regras do jogo, elas sejam estipuladas pelo próprio autor…

Bem, temos um problema: o autor é livre para mudar de idéia quando quiser. Ou seja, ele é livre para modificar as regras do jogo. No entanto, deve ser dentro delas sua busca pelo aprofundamento. Isso parece bastante contraditório à primeira vista, mas não é. Poderíamos mesmo definir o processo criativo vertical como um aprofundamento somado a uma deriva. Ao mesmo tempo em que o autor busca recursivamente sobre as regras que ele mesmo estabeleceu para sua criação (aprofundamento), ele é atento às sutis oportunidades de mudá-las (deriva controlada), mas não mudá-las totalmente tornando sua produção episódica e sim mudá-las em um sentido que a própria mudança seja um aprofundamento das regras.

Ora, esse processo tem características anti-sociais. Quem diz o rumo é o próprio autor, não pode contar com a aprovação externa como contaria no caso de uma produção horizontal de “coisas bonitas e variadas”. Quem tem de decidir sobre as regras (sem precisar enunciá-las, as regras não são regras de fato, mas um conjunto de princípios formais, estéticos, geométricos, conceituais, simbólicos que o autor elege como pertinentes) é o próprio, e o próprio precisa ser suficiente atento às variações para perceber nelas novos desdobramentos e suficientemente fiel a si mesmo para manter um rumo. E, além disso, o autor, embora seja livre no sentido de escolher um rumo, após o fazer o seguirá metodicamente, isso significando que abdicará da inocência variada direcionada por uma vontade volúvel em prol de um aprofundamento no qual sua produção tomará uma feição pouco variável (quando a pessoa tem sucesso isso é chamado de estilo, quando não tem, de limitação).

Autoria e limitação não existem uma sem a outra. Para haver autoria, isto é, para haver um traço distintivo da produção de alguém, essa produção precisa ter uma face, uma feição comum, precisa pertencer a um mesmo jogo de linguagem dentro que qual fará sentido.

O trabalho de criação geralmente envolve duas instâncias em diálogo permanente: reconhecer e desenvolver. Desenvolver não parece apresentar muitas questões, trata-se tão somente de produzir dentro da moldura de regramentos que se escolhe. Reconhecer é mais sutil.

Porque o reconhecimento implica em uma espécie de visão de caçador através da qual os caçadores distinguem a caça que está escondida nas folhagens, por vezes sem vê-la, apenas pelos movimentos que sua presença ocasiona nas folhagens, ou então a vendo quando está tão disfarçada que outro não a veria. O reconhecimento significa a capacidade de discernir uma idéia promissora ainda quando essa idéia somente se insinuou em uma experiência qualquer que fez, e ainda não é visível, nítida, plena, distinguível.

O autor fez uma foto. Nela não parece haver nada de especial, mas ele distingue em alguma coisa dela uma possibilidade, um modo de fazer que produz certa mensagem. Aquela foto como obra pode não ser relevante, mas como passo do caminho por vezes é a mais relevante.

Então, no processo de aprofundamento o autor precisa das duas atitudes, a atitude do desenvolvimento e a atitude do reconhecimento. No aprofundamento o que é reconhecido e incorporado é aguçamento do rumo que se acentua, espessa o trabalho, e não é uma novidade anômala qualquer.

A atitude de reconhecimento é necessária em diversas etapas da construção da obra, tanto nessa etapa primordial, quando o autor encontra em fotos sugestões de caminhos, quanto depois das fotos produzidas quando precisa reconhecer entre elas quais expressam sua mensagem, quais são as mais precisas, importantes, estéticas. Sob muitos aspectos, e isso já foi abordado neste Blog, a escolha da fotografia na tira de contatos (mesmo que virtual) é uma escolha capital, é ela que separa aquilo que é obra daquilo que é etapa.

Pois bem, embora lembrando com saudade a fotografia exploratória e diversificada, lúdica, do tempo da primeira câmera digital, sei que isso não é mais possível, como não é mais possível entreter-me em brincadeiras infantis depois de adulto. É claro que em uma ou outra ocasião, quando a circunstância motivar, essa fotografia de momento, casual, uma a uma, pode acontecer e ser vivida como alegre e boa, mas isso não pode mais ser a matriz do processo. Esta é a razão pela qual vejo com tanta desconfiança as  alternativas de restaurar a inocência através de equipamentos precários como as Lomo ou o binômio iPhone/Instagram.

Não se vai a lugar nenhum ciscando aleatoriamente. É preciso uma direção. Segui-la implica em disciplina, isso é chato mas não existe alternativa. A proliferação de soluções mágicas, de truques de novidade só denota a incompreensão do que é de fato um processo criativo profundo e significativo. Evidentemente se pode fazer obra com qualquer meio, incluindo Lomos e Iphones, mas isso é muito diferente de emprestar a esses meios a responsabilidade pelo caráter de novidade ou de liberdade de uma produção. A infância acabou, não adianta que as brincadeiras de criança não divertem mais. Não falamos mais com os animais. Nossa paz já não pode ser buscada na inocência, mas, ao contrário, na máxima precisão e intenção.

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Written by Ivan de Almeida

30 de setembro de 2011 às 5:11 pm

15 Respostas

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  1. Excelente artigo Ivan, traduziu em palavras com exatidão um momento pelo qual eu, por coincidência, passo. Tinha na verdade identificado como “ter perdido o tesão” pela fotografia. A cada parágrafo eu tive uma resposta concisa, objetiva e clara. Muito boa a sacada da troca de tecnologia como uma tentativa de resgate da inocência, eu cheguei mesmo a pensar que estava cansado da minha SLR. Carregar aquele trambolho. A imposição da cerca onde deve-se limitar as possibilidades para então solucionar a obra com criatividade talvez seja uma das coisas mais difíceis de perceber para os amadores. Muito bom!

    Klaus L Vello

    30 de setembro de 2011 at 11:33 pm

    • Olá, Klaus;

      Obrigado pelo comentário. Este blog é engraçado porque o escrevo meio na primeira pessoa, mas todos nós somos primeiras pessoas para nós mesmos, e as questões são vividas por muitos. Acho que não são apenas os amadores a chegarem a esse impasse, talvez seja até mais grave entre os profissionais. Sei lá, acho que é de todos.

      Grande abraço,
      ivan

      Ivan de Almeida

      1 de outubro de 2011 at 4:01 am

  2. Meu caro Ivan.

    Mais um de seus ótimos artigos, sempre questionadores, muito reflexivos, e que nos demandam uma ou mais leituras, e a vontade imensa de participar.
    Aliás, participar da grande maioria de seus textos é das coisas mais gratificantes do Multiply. O que nem sempre faço, exatamente porque dada a profundidade dos mesmos, sinto-me na obrigação de fazê-lo com tempo, calma e também reflexão.

    Algumas considerações:

    Eu concordo com a “inocência”, palavra usada para designar o período em que estamos em certas atividades, no caso a fotografia, como você cita, o tempo de suas primeiras câmaras digitais. Buscando tomadas aqui, acolá, fotografando não importa o que. Um prazer inigualável com a descoberta de certos ângulos, cores, formas.
    Trouxe sua afirmativa para a psicanálise, onde o “lúdico” dessa repetição não é nada mais do que um retorno à infância, reajustando, como diz Freud, os elementos em um mundo mais agradável. Seria errado dizer que não levamos esse lúdico a sério, pois o próprio Freud afirma que a criança leva a sério a sua brincadeira e dispende na mesma muita emoção.

    Porém, não estou muito certa se a fase que se segue a esse primeiro momento, pode ser entendida como o abandono desse lúdico, como o fim da repetição infantil. O fato do refinamento da técnica e todo upgrade que se alcançar, não apenas em fotografia, mas em qualquer manifestação artística, teremos um adulto fazendo o mesmo que o brincar da criança. Aliás, o apuro na técnica e na sofisticação de equipamentos está na mesma proporção em que tal adulto envergonha-se de suas fantasias infantis e proibidas, precisando ocultá-las diante do mundo. Não quer dizer de um abandono ao lúdico, não quer dizer de um avanço emocional. É do mesmo Freud a afirmativa: “…quem compreende a mente humana sabe que nada é tão difícil para o homem quanto abdicar de um prazer que já experimentou”.

    Fica-nos a questão: A criança resta inexorável em cada um de nós? Parece que sim, mesmo porque, em cada escolha de profissão, haverá sempre uma função “reparadora” como pano de fundo.

    Falo de minha experiência.

    Estou no auge do lúdico e do encantamento com a fotografia. Tenho um equipamento semi-profissional, nada sofisticado, e uma preguiça imensa de estudar e conhecer mais a fundo todo e qualquer detalhe técnico. Puro instinto, olhar, momento. Deparei-me recentemente com um probleminha, pois ao organizar minhas fotos mais antigas e outras recentes numa pasta, algumas pessoas quiseram comprá-las (juro……rsrsrs), e eu as vendi, claro. Lembro-me de uma série que fiz em Ouro Preto, e outra na França, foram-se todas. Isso, claro, não me autoriza como profissional, e tão pouco acho que os compradores são loucos..rsrsrsrs. Mas nem isso me fez desejar um conhecimento mais apurado na área.

    Claro, tenho uma atividade profissional que me apaixona a cada dia mais, e nunca pensei na fotografia como um meio de subsistência. É o que você falou e eu concordei: a fase inocente, na qual devo ficar até não sei quando. Repetição a que me dou amplo e total direito, que me dá prazer, que tomo como um hobby leve e gratificante em meus momentos de lazer. Pode até ser denominada de um “lúdico consciente”.

    Gostei de sua citação sobre Picasso (um de meus pintores favoritos), que trouxe ao mundo magistralmente o seu lúdico, este sim, escancarado, sem barreiras, por isso mesmo fantástico. E, sinceramente, não acredito que um método ou disciplina o tenha guiado em seus passos na pintura, mas tão apenas a busca de uma imagem da sua infância que insistia em lhe escapar. E tal busca se mostrou presente em sua vida amorosa, inquieta, com paixões avassaladoras que se desmanchavam etéreas e volúveis , como os próprios desejos de uma criança.

    Um abração

    Rita de Cássia Guimaraes

    1 de outubro de 2011 at 1:28 pm

    • Rita, obrigado pelo comentário. Você olhou por debaixo do tapete do artigo, e acho que você está certa. É o infantil que é deslocado, nesse sentido a inocência se contrapõe ao método, mas em ambos há o infantil e a repetição, somente que no primeiro ela é cansativa e enjoativa para as mentes exigentes.

      No caso do Picasso, o paradoxal é que seu infantil seja tão visível e seu método tão oculto, mas quando observamos suas pinturas Cubistas (não as posteriores, mas quando ele produzia coisas semelhantes às do Braque) vemos muito mais razão do que qualquer outra coisa. O cubismo original é uma coisa racional, embora depois o Picasso tenha deixado de lado o Cubismo rigoroso. Porém, ele continua metódico. No caso das guitarras, há uma sala no MoMA com 50 colagens, pelo menos, todas elas parecidíssimas feitas de papel pardo e jornal e mais uma ou outra ação, guitarras cortadas em tesoura. Podemos falar até de uma realização que também é lúdica, mas o metódico fica totalmente evidenciado pela quantidade de coisas de mesma feição, quase equivalentes.

      Seu comentário é muito legal e agradeço muito você o ter transcrito do Multiply para cá, onde enriquecerá o artigo abrindo vias de análise para outrs leitores também. Neste blog tem acontecido de alguns comentários, não poucos, darem tal dimensão à conversa que o artigo em si nunca atingiria.

      Ivan de Almeida

      1 de outubro de 2011 at 1:44 pm

  3. achei muito interessante seu blog! Parabéns! este ultimo texto veio na hora certa. Já fotografei muito e parei – agora estou recomeçando e nessa busca pelo “meu” assunto, estilo, sei lá. Tanto que tenho trabalhado várias idéias paralelamente. Voce não tem twitter?

    @john_trane

    1 de outubro de 2011 at 5:23 pm

    • Obrigado, Vinicius.

      Uma questão lateral que mereceria um outro texto é sobre o reconhecimento dos próprios interesses. Porque, é claro, os limites não são artificalmente escolhidos (exceto em um ambiente de ensino), mas devem corresponder ao impulso da pessoa, aos seus interesses particulares. Acho que você me deu uma boa idéia para o próximo artigo, que talvez venha à luz ainda esse mês. Acho que seria um texto complementar a esse.

      Tenho twitter sim: @ivan_de_almeida

      Abraços
      Ivan

      Ivan de Almeida

      1 de outubro de 2011 at 5:31 pm

  4. […] Há alguns dias o Ivan publicou em seu WP um artigo onde discorre sobre 2 pontos importantes sobre a forma como nos encaminhamos e vivemos tendo a fotografia como suporte para o registro de nossas passagens importantes, inocência e método. […]

  5. Como sempre, você é preciso (e precioso) nas palavras. No entanto, distingui um sutil amargor nelas. Estou correto?

    Douglas Pescadinha

    2 de outubro de 2011 at 10:03 pm

    • Olá Douglas;

      Obrigadão. Não penso que estivesse nem um pouco amargurado ao fazer o texto, que nasceu fácil, aliás, quase todo escrito pela manhã antes de sair para o trabalho. Não tenho nostalgia da inocência fotográfica. Lembro-me dela assim como lembro das coisas engraçadas da época da faculdade, dos sonhos e idéias de então, lembrança meio saudosa, meio divertida, mas definitivamente não sentida como perda. Aquilo não me atrai mais, aquilo já é outro, já não é meu ou eu. Do meu lado, compreendo bem que há um processo, ou seja, estamos em certo ponto dele, não antes, não depois. Tentar restaurar o antes é recusar o crescimento, tentar o depois é voar no vácuo. A cada época aquilo que nela cabe.

      Mas vejo por aí uma tentativa sôfrega de reter água com as mãos em concha, uma tentativa deseperada de evitar que o processo se desenvolva, uma tentativa deseperada de permanecer ou de voltar à infância fotográfica. Não sofro disso, mas vejo acontecer. Como olhar um retrato nosso de 20 anos atrás, de um momento feliz. É legal ver o retrato, mas não significa que queiramos ser aquele que éramos.

      Provavelmente o artigo seguinte tratará ainda desse assunto sob outra ótica ainda, a dos problemas do desenvolvimento individual.

      Grande abraço,
      Ivan

      Ivan de Almeida

      2 de outubro de 2011 at 10:17 pm

  6. Meus parabéns, Ivan. Preciso e claro, como ainda estou longe de ser. Fico me perguntando – as pessoas realmente acreditam nessa “salvação da fotografia”, ou estão simplesmente usando o modismo como um vento favorável aos negócios?

    É inacreditável que não se questione a validade e duração de algo que está com ESSE NÍVEL de superexposição. Não em nossa cultura. Como dizem os argentinos, “estes son, o se hacen?”

    Grande abraço, e muito obrigado pelas palavras.

    Alex Villegas

    3 de outubro de 2011 at 2:49 pm

    • Obrigado, Alex.
      Esta questão tem sido posta em termos levemente falaciosos, como se fosse questão de ser contra um aparelho. Ninguém é contra aparelho nenhum, e se é um bom aparelho, ótimo. O que pega é isso, emprestar ao aparelho a responsabilidade de devolver uma inocência perdida, quando na verdade é o caminho inverso, o do aprofundamento, aquele capaz de levar a algum lugar.
      Grande abraço,
      Ivan

      Ivan de Almeida

      3 de outubro de 2011 at 4:23 pm

  7. Você sabe, os bebês gostam de repetições porque com elas passam a entender o acontecimento. Como não conhecem nada no mundo, a repetição lhes dá segurança e afirma que sim, eles conhecem. É reconforante. O cérebro se baseia em contrastes, claro e escuro, bem a mal. O público é inocente diante das obras e apenas com a repetição passa a entender, sentir-se familiar, saber o que procurar, e finalmente fazer parte da obra do artista? Da mesma forma, é cientificamente provado que o ser humano adulto comum não gosta do que não possui base para comparação na memória. Por isso os trendsetters são poucos e a moda se prolifera em pirâmide. As repetições criam intimidade e cumplicidade entre o público e o artista e seu universo. E a gente nunca vai voltar a ser criança.

    @marinabitten

    3 de outubro de 2011 at 3:25 pm

    • Marina;
      Em primeiro lugar, muito obrigado pelo comentário, que é exato e complementador. Por certo, por isso mesmo dito por você, gostamos de repetições, e por certo não voltaremos a ser crianças, embora no lúdico sempre haja algo infantil. Mas a questão é esta tensão que deve existir entre aprofundamento e repetição, e deve existir porque a repetição por mais confortadora que seja é também empobrecedora. Por isso no artigo falo que o método assemelha-se ao trabalho, é um tipo de trabalho mesmo quando amador. Nesse jogo entre repetição e mudança (ou aprofundamento) há muitos lugares nos quais podemos ficar, regulando o conforto da repetição com a agudeza do avanço. Depende da psique de cada um. Por certo aspecto -e sinto assim- a repetição pura é intolerável, maçante, enjoativa. O puro avanço é insuportável, talvez. Há um ponto que é o bom para cada um, mas de todo modo, não é possível voltar e encontrar interesse na forma de repetição e na inocência do passado.

      Ivan de Almeida

      3 de outubro de 2011 at 4:29 pm

  8. Ivan,

    Mais um otimo artigo!

    Pensando utopicamente e do ponto de vista somente da fotografia, mais precisamente do tema aqui discutido, se voce pudesse voltar ao tempo com toda ciencia e conhecimento do que viveu até o momento
    nao gostaria de viver novamente esta inocencia, este olhar, este tesao?

    Para mim, nao seria o prolongar artificial, seria tao intenso como da primeira vez, mesmo sabendo que esta ja se fora.

    Diferente de fazer novamente, de lembrar ou tentar, sem saudosismo, sem repeticao……

    Abraco

    Sergio

    Sergio

    5 de outubro de 2011 at 1:19 am

    • Sérgio, este seu comentário dá caldo -risos. nos leva a pensar o que gostaríamos de fazer caso tivéssemos toda a liberdade do mundo na fotografia, e todo o saber.

      Não acho que eu gostaria de voltar ao estado inicial. Asssim, respondendo como “o que você faria caso ganhasse a Megasena” -risos… Ou se tudo fosse possível.

      Bem eu, se tudo fosse possível, gostaria de andar pelas ruas com uma 50mm clara e boa fotografando as pessoas e elas se deixando fotografar sem artifícios, frescuras ou medo. E que cada foto fosse também uma troca de simpatia.

      Grande abraço, obrigado. (estou ouvindo um disco do Ben Harper que é ótimo!)

      Ivan de Almeida

      5 de outubro de 2011 at 1:28 am


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