Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

Por que fazemos as coisas? A Fotografia em minha vida.

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Por que fazemos as coisas? A fotografia em minha vida.

Este texto é derivado do artigo anterior, “Eu não quero ser fotógrafo”. Não sei se este é um texto sobre fotografia, embora fale da fotografia. Mas o ponto aqui é um exame das razões pelas quais nos envolvemos com certas práticas, e como estas práticas se desenvolvem na nossa vida ao longo de ciclos através dos quais o motivo do envolvimento muda sutilmente sem percebermos.

Creio que a resposta mais direta a “Por que você se envolveu com fotografia” é a mesma dada pelos alpinistas quando perguntados “por que você subiu a montanha?”. A resposta que já ouvi muitas vezes, em tom de blague, é: “porque a montanha estava lá”. Examinando um pouco a resposta chegaremos a algo como: “havia algo que me interessou e eu achei que poderia fazer”.

É difícil buscar na memória os primeiros envolvimentos com a fotografia. Mas via muitas revistas com fotografias, Manchete, Fatos & Fotos, O Cruzeiro. Eram revistas ilustradas. Via fotografias nelas e em calendários, em posters publicitários. Então, agora mesmo ao escrever percebo, admirar fotografias era admirar a vida idealizada mostrada nas mídias. Talvez escutasse algum rumor sobre a vida dos fotógrafos, também idealizada.

Bem, vendo por esse lado, querer fazer fotografia era querer participar dessa vida idealizada, a qual era diferente da vida cotidiana, real, essa de carros cuja água do radiador fervia quando subiam a serra para Vassouras, essa do almoço calmo na sala vasta. Creio que ao chegar aos 14 ou 15 anos, quando tive minha primeira câmera fotográfica, eu já estava suficientemente contaminado pelo desejo de ter acesso à vida idealizada propagada pela mídia, na qual a fotografia desempenhava tão grande papel. O cinema era coisa muito distante e a televisão em PB da década de sessenta uma precariedade.

Minha primeira câmera era a montanha que eu poderia subir, então. Era uma coisa tosca, de velocidade fixa, três aberturas e foco fixo. Creio que disparava em 1/60s. Comprei-a com o dinheiro de uma magra mesada. Não era uma câmera séria, era precária mesmo. Tinha em torno da lente algo imitando uma fotocélula, mas era mero enfeite. Era o ano de 1968.

Agora me lembro de outra coisa! Meu pai, desde antes, desde 64, talvez, tinha uma rangefinder Voigtländer. Não me lembro o modelo, mas era uma boa câmera. Com ela ele fazia rolos de cromos, alguns Kodachrome que tinham de ser revelados no Panamá ou México, sei lá, e com um pequeno projetor de slides fazíamos em casa sessões de projeção. Havia alguma mágica naquilo, mesmo que com a repetição ficasse maçante. Por vezes, em um fim de semana de noite, aquilo era um programa familiar, ver os slides, sempre todos. Minha irmã perdeu esta câmera ao viajar para os EUA quando fez quinze anos.

Não foi devido a isso que quis fotografar depois. O envolvimento com a fotografia do meu pai foi muito curto em tempo e muito pouco relacionado aos mistérios da fotografia mesma. Sua questão era fotografar ao sol e “acertar”. Os slides mostravam nós mesmos, e era enorme a diferença deles para a fotografia idealizada sobre a qual falei acima, fotografia das revistas, dos calendários e dos posters.

Desse episódio dos slides talvez guarde apenas a admiração pela câmera, que por vezes experimentava no olho e ajustava pelo telêmetro, mas creio nunca ter apertado o botão de disparo dela.

Lembro ainda de outra coisa, anterior a essas. A minha madrinha, segundo casamento do meu avô, tinha uma Rolleiflex. Às vezes em Vassouras ela nos levava para o gramado para fotografar, inevitavelmente tendo um fundo florido ou coisa assim, e inevitavelmente em uma hora do dia em que nos punha a olhar para o Sol e franzíamos o olho pelo seu brilho. Eu detestava aquilo. Ela usava o Rollei com um cabo disparador curto, embora não no tripé.

Leblon, ressaca, 1980

Quando comprei a câmera tosca, não sei bem porque o fiz. Morava em Copacabana e de tarde, depois do colégio, por vezes, saía flanando olhando as vitrines das lojas, “brincando de desejar coisas”. Desejava aviões de armar da Revell que havia numa papelaria no final do percurso de meu passeio. Havia uma loja de fotografia no caminho, e, um dia, ao passar por ela vi essa câmera na vitrine e meu dinheiro podia compra-la. Comprei-a. Talvez tenha sido o primeiro objeto comprado com meu dinheiro e por minha vontade.

Com esta câmera fiz alguns rolos de filme PB, o PlusX 100 Kodak que era mais barato, e cheguei a fazer um rolo de cromo. Nessa ocasião, em face da restritíssima verba disponível, aprendi a olhar o negativo deixando a luz refletir na prata e assim ver o negativo como um positivo. Alguns dos filmes nunca ganharam cópias nem sequer contatos.

Os temas das fotografias eram quaisquer. Um sapato, a vista da janela do meu quarto, etc. Não fotografava pessoas nem nada definido, escapava-me a idéia de tema, a fotografia era quase que só uma satisfação por poder fazer uma imagem. Mas nessa época também aconteceu a primeira decepção por insuficiência do equipamento, pois como tive em mãos um manual de fotografia que ainda tenho, ele me informou sobre diafragma, lentes, velocidades, foco, fotômetro, e nada disso havia na maquininha.

Depois disso, voltei a reencontrar a fotografia durante a faculdade. Anos 70, depois de assistir Blow Up, havia algo glamuroso em fotografar. Alguns amigos fotografavam e eu podia dispor, não plenamente, de uma Canon FT QL que havia sido comprada pelo meu pai para substituir a Voigtländer. Meu pai pouco usou esta câmera, aliás. Nesta época, ainda um tanto sem clareza quanto a temas, fiz as primeiras fotografias nas quais reconheço minha forma de fazer atual. Também conheci um colega de nome Paulo Pavel que fotografava, tinha um laboratório em sua casa, e com ele tive uma pequena vivência de laboratório PB. Admirava sua fotografia, ela era formal e dura, e a forma como a fazia parecia corresponder ao ideário da fotografia-aventura. Era a véspera da abertura política, e na faculdade fazia-se Teatro de Resistência, havia ações de intervenção no espaço, etc, e ele fotografava essas coisas, então era uma fotografia ativista, quase, embora não fosse ele mesmo um ativista. Fiz certo número de filmes em PB, alguns poucos rolos de cromo, também limitado pelo orçamento. Fotografar era um exercício de criação e controle, mas era também se vestir com a roupa de um personagem romântico, o “fotógrafo-na-vida”, aquele que revela a vida aos demais. Fotografar era ser parte de um momento, mas não só fotografar como também fazer música, teatro, inventar ações de intervenção no espaço, tudo isso junto. Participar da aventura setentista, enfim.

FAU/UFRJ, aproximadamente 1977 ou 1978

O terceiro momento, e a terceira diferença e motivação, foi quando nasceu meu primeiro filho e a partir daí. Quando ele nasceu quis regitrá-lo, e isso desencadeou um processo de registar a vida que vivíamos como família. A fotografia deixou todas as externalidades e fantasias de personagem, voltando-se para o íntimo, para o calmo, para a vida doméstica e afetuosa. Inicialmente ainda com a Canon do meu pai, cada vez mais difícil de usar devido à concorrência dos irmãos no seu uso, então, também com os recusos limitados comprei uma Zenit XS. Pela primeira vez tive uma câmera minha com certa capacidade, e eu a adorava. Por certo lado, acho que foi a época mais ajustada entre meios, intenções e resultados. Inexistia qualquer finalidade teleonômica nas fotografias, embora existisse abordagem estética muito definida e completamente coerente com minha fotografia posterior. Durante muitos anos fiz cerca de um filme por mês, mandava revelar e fazer cópias 9X13 e depois 10X15, algumas vezes formatos um pouco maiores como 13X18.

As fotografias iam para álbuns desses “magnéticos”, isto é, com um plástico que recobre e “protege” as fotografias. E esses álbuns eram folheados de vez em quando, como nas sessões de slides da infância. Até essa época, nunca usara nenhuma lente diferente da 50mm e na Zenit a 58mm. Normais, portanto. Para falar a verdade, sequer tinha vontade de usar outra lente. Aquilo era direto, simples e bastante. Tudo o que fazia era uma memória de minha vida familiar, como se para agarrar o tempo que escorria gentil e feliz.

com 1mp, primeiras fotos digitais

Em 1993 fiz cinqüenta anos. Resolvi comprar uma câmera digital para mim, a Zenit já envelhecera um pouco, e toda hora lia a respeito da fotografia digital. Não tinha meios de traze-la de fora, e aqui nas lojas eram muito caras, então comprei a mais barata câmera que me permitisse usa-la em modo manual, uma Cânon A30 de espantosos 1,3mp (1mp, na verdade). De início, com ela continuei a fotografia familiar de sempre, adorando a súbita liberdade que a fotografia digital dá.

Bem, aí vem a história da montanha… De posse de ferramentas cada vez mais capazes, porque fui trocando de câmeras, aquela história do alpinista que sobre a montanha porque ela está ali veio se tornando cada vez mais justificadora. Com a digital, dava vontade de fazer todo tipo de fotografia que o filme inibia. Era uma volúpia, tudo era possível –quase tudo- e de repente parecia que podiamos cumprir os desejos e fantasias do passado no presente, fazendo as fotos que antes quiséramos fazer e não podíamos, pois não tínhamos os meios nem a prática. A prática acumula-se em uma velocidade espantosa com a fotografia digital. Assim percorri os últimos oito anos, quase.

Não foram esses anos todos iguais, mas também não cabe mencionar cada modificação. Houve a etapa de fotografar tudo, houve a etapa de experimentar por experimentar, houve a clareza quanto à aplicação dos estudos sobre percepção feitos ao longo da vida para o campo da fotografia, houve, em rebatimento, a noção da fotografia ser uma atividade excelente para pesquisar o mesmo assunto, enfim, um caminho longo, variado e divertido. E, pela primeira vez, acompanhado de interlocutores, porque, já na era da Internet, através de listas, fóruns, sites de mostrar fotografias eu tive contato com outras pessoas que fotografavam, pude olhar sua produção e mostrar a minha. Minha compreensão da técnica fotográfica avançou muito, meus critérios estéticos avançaram em compreensão mais do que aperfeiçoamento (visto já trazer a isso a formação em arquitetura que tem alta dose de desenvolvimento estético).

Este ciclo é que chega ao fim, tendo seu réquiem a publicação do artigo Eu não quero ser fotógrafo.

O mais espantoso, porém óbvio, é que em relação aos temas e modos de aborda-los volto ao que desde sempre fiz. Ainda a fotografia familiar reveste-se de importância especial, agora estendida à fotografia de pessoas. Através da fotografia de pessoas reparei que elas confiam em mim ao serem fotografadas, dão-se a fotografar de forma natural, não ficam tensas nem assumem expressão impostada. Aprendi uma espécie de compaixão com os demais seres humanos fotografando-os, e basicamente só fotografo pessoas de quem gosto.  A fotografia de gente é claramente uma extensão da fotografia familiar que praticava, e é completamente afim com essa em abordagem.

Ao longo disso tudo, o querer, o que querer, o que não querer não têm sempre a mesma face. Vamos mudando, vão mudando as circunstâncias. A cada momento a fotografia tem sido uma, e assim deve ser: coerente com a etapa. Os porquês vão mudando e vai mudando também a forma de fazer, vai mudando o que é feito. Há um fio unindo tudo? Aparentemente há.

 

Written by Ivan de Almeida

28 de abril de 2011 às 11:16 pm

2 Respostas

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  1. Ivan,

    Comeco meu comentario com uma frase de Heráclito – “É na mudança que encontramos um objetivo”.

    Obrigado pelo seus textos, suas opinioes e suas imagens.

    E termino com outra frase – “Nada é tão duradouro como a mudança”(Ludwig Borne).

    Grande abraco,

    Sergio

    Sergio

    5 de maio de 2011 at 3:48 pm

    • Sergio;
      Creio que ao vivermos passamos por processos de definição (concentração) e, reversamente, de abertura, abertura aqui entendida como uma passagem onde se quebra um casulo e se pode olhar de fora para aquilo que se fazia. Ao declarar-me não-fotógrafo a fotografia mesma tornou-se para mim muito mais plástica. Estou gostando disso, as idéias surgindo ainda tímidas mas promissoras.
      Abraços.

      Ivan de Almeida

      15 de maio de 2011 at 2:42 pm


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