Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

VER E NÃO VER – na composição fotográfica

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VER E NÃO VER – na composição fotográfica

Ivan de Almeida
tópico originalmente postado na sala Filosofia a Linguagem Fotográfica do fórum FotografiaBrasil em fevereiro de 2007.

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No tópico sobre o fotógrafo Lee Friedlander, em uma análise propus a idéia de serem várias das fotos dele contruídas de forma a exigirem uma alternância de ação ocular, isto é, não se ofereciam à visão como uma coisa, capaz de ser observada por um único ato de visão (nunca é um único ato, mas vamos aceitar, só para efeito discursivo, que vários atos coordenados são um único grande ato), e sim por atos mutuamente excludentes, isto é, para ver algo de uma foto dele é preciso deixar de ver outro algo. Alguns chamaram isso de foto-dentro-da-foto, mas em minha opinião é mais que isso, pois foto-dentro-da-foto podemos fazer e ainda assim a contemplação do conjunto ser integrada, enquanto há outros contextos que exigem alternância de interpretação visual de fato.

Dá-se isso porque ver não é simplesmente abrir os olhos e deixar entrar o mundo exterior sob a forma de fótons a sensibilizarem a retina, mas um esforço de SIGNIFICAÇÃO do mundo. Ao vermos algo, significamos, interpretamos, damos sentido ao visto. Uma palavra que dá conta disso mas não completamente é RECONHECEMOS. RE-CONHECEMOS, conhecemos novamente, ou seja, ligamos uma coisa ao conhecimento do mesmo tipo, damos significado a ela.

Há uma figura interessante que pode ilustrar isso. Trata-se de uma criação de Roger Shepard.

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Tal tipo de desenho é chamado de “Ilusão de Ótica”, um nome muito inapropriado porque sugere que exista uma percepção errada (ilusória) e assim induz a análise do fenômeno numa direção errada. Prefiro dizer que é um quadro visual que admite duas percepções alternativas e excludentes, tal o antagonismo das significações que gera.

Olhando o desenho podemos, dependendo do ajuste ocular, ver duas coisas diferentes. Ou um rosto de uma moça (o que normalmente eu vejo) ou um saxofonista de jazz. O mais interessante: quando vemos a moça não vemos o saxofonista. Quando vemos o saxofonista não vemos a moça. Peço aos leitores que olhem para o desenho e tentem ver um e outro, e prestem atenção ao seu olho, ao ajuste ocular, aos movimentos de focalização e de direção, e percebam como cada qual precisa de um ajuste ocular diferente, e mais ainda, que quando conseguimos ver o menos fácil (o saxofonista), somente permanecemos vendo se nos aferrarmos ao significado da figura. Se enfraquecermos o significado a moça surge novamente e o saxofonista some.

O mesmo acontece, por exemplo, na gravura do consagradíssimo artista e importante muralista Athos Bulcão. Esta de maneira mais interessante ainda, pois as figuras não formam estrutura figura-fundo como na primeira figura, mas estão lado a lado. Porém, para ver a pomba deixamos de ver a estrela. Os atos oculares são tão antagônicos devido à forma e ao posicionamento em diagonais opostas que um cancela o outro. Novamente convido os amigos a observarem a figura abaixo e notarem o que seus olhos fazem quando observam as estrelas ou as pombas.

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Vamos ainda, a outro exemplo de ver-não-ver. O conhecidíssimo Escher abusava desse jogo em suas construções figura-fundo onde o fundo tornava-se figura e vice-versa. Para ver o peixe, precisamos deixar de ver o ganso. Essa alternância cria um jogo perturbador na obra, pois é gerenciado pelo artista de tal modo que as duas percepções sejam fáceis, embora antagônicas. Ele mantém o observador na indecisão sobre o que ver.

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Voltando ao Friedlander, vejam como ao contemplar a foto abaixo devemos permanentemente escolher entre duas ações oculares antagônicas: seguir a perspectiva, como é sugerido pela metade esquerda, ou seguir a curva, como é sugerido pela metade direita. Duas ações oculares que alternam-se, que nos mantém na tensão, que não nos deixam sossegar na fotografia.

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11 Respostas

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  1. Ontem, numa fila de banco inevitável, enquanto ruminava sobre seus posts no blog do Clicio, lembrei de um personagem de Faulkner. Ousando uma segunda pessoa: és um Humanista!

    Voltando a Friedlander, cara, como fiquei maravilhado quando tomei conhecimento da existência dele, na primeira vez em que você postou esse texto. Como são belas e intrigantes as tensões criadas com a segmentação do quadro. Hoje vejo que em diversas fotos dele, ele simplesmente não criava segmentos isolados ou automomos, mas ele também encontrava elementos de ligação entre os segmentos. Tal como nas figuras de Escher, onde a transição não nos deixa ficar acomodados com somente um ou outro extremo.

    ebuscariolli

    30 de maio de 2009 at 2:20 pm

    • Confesso que sou um humanista, Eduardo. Hoje em dia isso é meio cafona -risos- mas não tenho medo da cafonice. A segunda pessoa do singular é o default neste Brasil, só que deturpada na terceira pessoa do “você”.

      “O homem é a medida de todas as coisas”. Essa frase do Protágoras talvez seja a síntese. É para mim a grande frase humanista.

      Sim, o Friedlander, como o Escher, como as ilusões, como o Athos Bulcão e mesmo como a fotinha minha ali em cima, são quadros visuais armados sobre tensões que mostram como nossa percepção é orientada pela significação, e essa significação é o reverso da moeda de uma determinada maneira de olhar, isso significando direção, foco, convergência ocular, rotina de escrutínio. Quando logramos encontrar um significado em um padrão visual, esse significado, por assim dizer, “prende” ou fixa nossa maneira de olhar. Maneira de olhar e significação são a mesma coisa examinada sob dois aspectos diferentes.

      Esses exemplos mostram o que acontece quando o mesmo objeto oferece duas formas distintas de olhar, e assim provoca uma invisibilidade de uma delas quando ativamos a outra, e mostra como conhecendo isso, ou saboreando isso, é possível planejar obras visuais onde essa tensão se mantenha, como bem dito por você.

      Obrigado pelo comentário,
      Abraços,
      Ivan

      123rawfotos

      30 de maio de 2009 at 4:04 pm

  2. Ivan,

    Sendo eu um fã confesso de Escher, admirador do Lee Friedlander, e conhecedor da figura do Shepard, posso afirmar que alguns conseguem desenvolver uma capacidade cognitiva singular; não só percebem a tensão, mas também conseguem visualizar simultaneamente as duas antagônicas ou divergentes imagens contidas em cada exemplo.
    Eu consigo, sem dificuldades. E não estou me gabando disso, pois não me faz bem perceber menos a tensão, que afinal, é o atrativo maior destes exemplos.
    Mas vamos ao que interessa; no caso do Friedlander, temos o denotativo visual (é uma estrada; é inverno; é um PB; há duas vias), e o conotativo (frio, tensão, divergência, decisão, bifurcação, solidão).
    Na foto do Ivan, o mesmo; denotativo e conotativo contidos na fotografia.
    Nos outros casos, o denotativo passa a ser abstrato ou inexistente, e apenas o conotativo se faz presente, intencionalmente nas imagens de Escher e Shepard, e possivelmente como consequência na imagem do Athos Bulcão. O que nos leva a curiosa indagação: por que o denotativo é tão claro nas fotografias e tão nebuloso nas outras imagens?
    Possivelmente pelo próprio fato dessas imagens, nascidas como fotografias, estarem longe da ilustração. A ilustração não necessita de um referente físico; já as fotografias…
    Obrigado pela interessante possibilidade de discussão, Ivan!

    clic!o

    30 de maio de 2009 at 10:38 pm

    • Clicio;

      É possível sim perceber as duas coisas, mas é um tipo de ajuste especial, contrário ao hábito perceptivo, sendo esse hábito perceptivo que, contrariado, gera a tensão. Mas suspeito mesmo a percepção simultânea ser mais para alternância muito rápida que de fato simultaneidade.

      Sua questão final, a necessidade de um referente, concordo completamente e isso tem sido mesmo uma insistência minha em algumas conversas com amigos, pois penso não ser fotografia tudo aquilo que sai de uma câmera fotográfica só porque saiu dela. Ao se usar a câmera como um pincel, embora algo “lá fora” dê origem ao padrão gerado, se essa ligação entre o lá fora e o gravado não guarda suficiente capacidade de simbolizar o objeto lá fora, algo essencial à fotografia parece-me perdido.

      123rawfotos

      30 de maio de 2009 at 11:15 pm

  3. Outra coisa interessante sobre o cognitivo na fotografia. Uma foto de um urso polar caminhando no gelo – tudo bem branquinho, o gelo o urso e o céu azul sem nuvens – um belo lago azul formado pelo derretimento do gelo, e o rastro do urso por quilometros na neve, cruzando quase toda a foto.

    Mostrando a foto para pessoas e pedindo para elas descreverem em palavras, com o máximo de detalhes, num tempo de 2 minutos, todas descreveram o lago por quase 1 minuto (a cor do lago, o tamanho, até a profundidade, a sensação) a citação de tranquilidade, paz ou solidão também se faz muito presente, descrições dos tons tão brancos e brilhantes do branco completavam os comentários, poucas pessoas percebem o urso, apesar de conhecerem ursos e dele estar no ponto focal da composição, e indagam “tem um urso andando?”

    Bom, eram pessoas que moram na região das salinas do atacama, e apesar de geograficamente não se parecer com o pólo norte, o repertório visual das pessoas que olhavam a foto, permitia (ou induzia) que vissem apenas um deserto com um belo lago, o que faria um urso ali? quase todos questionaram se a ‘foto’ era realmente de verdade.

    Sandro Correia

    31 de maio de 2009 at 2:27 am

    • Sandro;

      A interpretação de contextos é sempre modulada por uma busca de significação, e essa busca de significação tem por orientadora noaa experiência pregressa e aquilo importante para nossa vida prática. Provavelmente essa mesma foto mostrada a esquimós seria notada quanto ao urso, pois é valioso para eles em termos de conduta prática. Isso é muito interessante, e pelo meu lado penso valer a pena investigar essas questões, não apenas como um inventário de fenômenos mas também em busca de modelos capazes de explicar e permitir prognóstico.

      Neste mesmo blog há um tópico sobre isso em:
      https://fotografiaempalavras.wordpress.com/2009/02/12/composicao-geometrica-e-significado-na-fotografia-e-nas-artes-visuais/

      É um tópico no qual tento mostrar haver previsibilidade relativa em relação às interpretações de um quadro visual, evidentemente dentro de uma moldura cultural capaz de criar uma coerência de interpretação.

      Obrigado pelo comentário enriquecedor,
      Ivan

      123rawfotos

      31 de maio de 2009 at 3:38 pm

  4. Falando em percepção, ou diria eu escrevendo sobre percepção..porque achas que é um Saxofonista de Jazz?
    Percebeu a sutileza do assunto em questão?
    Grande abraço e parabéns pelos desenvolvimento das idéias.

    Francisco Barreto

    12 de junho de 2009 at 6:06 pm

    • UAU! Sensacional sua observação! De fato eu signifiquei a forma a partir de algo que não está no desenho, está em mim.

      Sou bastante conscio da sutileza do assunto, aliás, é desses assuntos somente possíveis com atenção ao sutil, e essa identificação da descrição versus a forma, já aqui apropriando-me um pouco, pode ser um ótimo método de investigação do assunto.

      Muito obrigado, Francisco. Sua observação troxe-me mais elementos para a compreensão desse entrelaçamento entre forma e significado.

      Ivan

      Ivan de Almeida

      12 de junho de 2009 at 6:27 pm

  5. …muito interessante, legal mesmo !

    gilson luis kichler

    22 de outubro de 2011 at 1:57 pm

  6. …retomando a oportunidade de conversar com você, gostaria deixar o link de meu humilde blog fotográfico para você apreciá-lo : http://diafragmafotografiass.blogspot.com ! Abraços !

    Gilson Luis Kichler

    20 de novembro de 2011 at 11:36 pm


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