O Transe Fotográfico
O Transe Fotográfico
Ivan de Almeida
janeiro de 2017

Entendo fotografia não como algo que retrata a realidade, pois fotografia não é realidade. A fotografia mente de mil formas com as lentes, com as partes claras e escuras, com o que mostra e o que não mostra. O não mostrar é tão poderoso que quase se pode dizer ser a principal arma fotográfica.
Por isso a fotografia para mim é uma mistura de jogo compositivo com o “aqui e agora” (como dizia o papagaio no A Ilha do Aldous Huxley). São duas buscas pessoais fortes. Fotografar nos traz para o agora, mergulhamos na contemplação, saímos dos desejos corriqueiros e mergulhamos na busca estética, e junto com isso nosso treino compositivo nos orienta.Estar presente, é uma das delícias da fotografia.
O treino compositivo não é instintivo, não é “meu jeito de ver”. O treino compositivo é uma educação que pode ser espontânea (estética mais convencional) e pode ser espontânea mais muitíssimo reforçada pela educação compositiva formal. A palavra espontânea que não deve ser entendida como “minha característica de nascimento”, mas como o treinamento perceptivo comum dos homens na vida social, na infância social.
Sou quase fanático por isso, por entender a percepção, sua lógica. Um tanto desta educação na composição provém de ter feito lá no passado a faculdade de arquitetura, e depois, muito depois, fiz mestrado em arquitetura com um trabalho específico sobre composição. Na arquitetura busca-se o belo, mesmo quando isto não é dito.
Uma das delícias de fotografar é a indução ao “aqui e agora”, ao “estar presente”, sem imaginação mas com intensa atenção ao presente. Arquitetura, pintura, fotografia, todas essas coisas usam os mesmos recursos visuais. Usam nossa resposta à educação visual inerente no homem civilizado, aquela educação que faz todos os homens entenderem que uma porta maior em um prédio é a entrada principal e a porta pequena é entrada secundária, coisa que não é absolutamente relacionada com nossa percepção animal mas com a ordem social e isso é tão condicionado que se acha isso óbvio.
Fotografo há décadas, e minha fotografia de adolescente não correspondia à fotografia feita depois de virar um universitário que estudava composição. Não é questão técnica, a técnica foi assimilada lá com 14 anos, adolescente obsessivo. É a educação compositiva que em mim ocorreu neste tempo universitário. Quando comparo meus desenhos de antes e de depois, é clara a educação compositiva.
Fotografar é um delicioso transe.


Lembrou-me de um provérbio zen…
“Antes de estudar Zen, as montanhas são montanhas e os rios são rios; enquanto se estuda o Zen, as montanhas já não são montanhas e os rios já não são rios; mas quando alcanças a iluminação, as montanhas são novamente montanhas e os rios, novamente rios.”
Rodrigo Fernando Pereira
14 de janeiro de 2017 at 8:09 pm
Olá, Rodrigo. Estou mandando uma mensagem pessoal sobre o assunto. Um abração.
Ivan de Almeida
15 de janeiro de 2017 at 11:37 am
Prezado Ivan,
Delicioso transe, além de fotografar, é ler os seus textos. Você é ótimo. Parabéns pelo retorno. Nunca me canso de reler suas antigas postagens da Fotografia em Palavras, mas é uma alegria saber que agora poderei desfrutar de matérias novas.
Márcio Pannunzio
14 de janeiro de 2017 at 11:30 pm
Obrigado, Márcio. Creio que continuarei errático – risos. Mas de vez em quando vem alguma coisa. Um abração
Ivan de Almeida
15 de janeiro de 2017 at 11:37 am
Olá Ivan. Como vai, tudo bem com você?
Que coincidência este seu texto hoje. Ontem, mostrando para minha esposa algumas fotos de uma recente viagem a Ubatuba ela comentou ao ver uma delas: “Mas você mexeu nesta foto!”. Respondi que faço isso em todas. Enquanto respondia lembrei imediatamente de você, que em alguma antiga discussão no Brfoto frisou (e me marcou) que fotografias mentem. Não são nunca uma realidade. Aliás, sempre que penso em composição quando fotografo, é inevitável a lembrança sua. Aprendi muito contigo naquele período de convivência no forum, algo pelo qual sou muito grato.
Grande abraço!
Paulo Barros
16 de janeiro de 2017 at 4:00 pm
Muito legal esta sua mensagem, Paulo. Obrigado. Muitas pessoas confundem falarmos de um assunto com um exibicionismo, mas acho que não vai por aí. Para nos desenvolvermos em um assunto é preciso ventilá-lo, e é assim que tento fazer. Este blog é para isso também, para consolidar um pensamento. Obrigadíssimo.
Ivan de Almeida
16 de janeiro de 2017 at 4:30 pm