Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

O Quadrado

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O Quadrado

Ivan de Almeida, fevereiro de 2016

O conteúdo e a forma do continente são, na fotografia, uma das relações fundamentais.

 

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Quadrado da Urca, filme, Zeiss Nettar, julho de 2005

 

Depois de longo período usando digitais, desde 2003 com uma tosca Canon A30, fui tendo câmeras diversas substituindo uma por outra. As digitais eram caras, ou isso se combinava com um orçamento mais apertado meu, então comprava uma e vendia a outra. Porém, as digitais foram ficando baratas, e hoje tenho diversas câmeras, poucas compradas novas, várias de segunda mão. Hoje são seis câmeras, vão desde a Canon 5DII (comprada neste Brasil, diretamente da Canon e em 12 prestações) até a Panasonic FH24, comprada em Orlando, numa viagem aos EUA em 2011 –aliás, no dia em que chegamos em Orlando e que o Bin Laden foi morto, vejam só…

Bem, quando comprei a primeira de todas, a tosca Canon A30, estava acostumado com o formato 3:2 da fotografia em filme 35mm. Vinha há décadas usando os filmes, e a chegada da digital ao mesmo tempo em que me deslumbrou me incomodou muito quanto ao formato. Este formado 3:4 do sensor das digitais mais simples me incomodava. A primeira digital me fez fotografar como um louco, mas o formato me desagradava, nele eu não achava um terço como divisão forte, e não é simples lidar com proporções em um formato 3:4, pelo menos era difícil para mim.

Foram três câmeras com este formato, num tempo ligeiramente menor do que dois anos e meio. Seis meses de Canon A30, doze meses de Fuji S5000 em 2004 (e, desde sua chegada, o mergulho no RAW), uns dez meses com a Fuji S7000 e então voltei ao formato ao qual estava acostumado comprando usada uma Canon 300D.

Por esse tempo, em 2005, comprei uma Zeiss Ikon Nettar, 518/16, antiga de filme médio formato. Algumas coisas nela me maravilharam, entre as quais a forma quadrada da fotografia. Aquela estranheza que eu tinha com as digitais 3:4 sumiu, e a forte geometria do formato quadrado me deliciava. No fundo era isso, eu gostava e gosto da geometria forte do formato, embora hoje use o 3:4 de forma mais adaptada, mais solta. Claro, podemos ter fotos boas e ruins em qualquer formato, mas com alguns nos adaptamos melhor.

Infelizmente, destruí a Nettar, uma das piores tolices que fiz. Queria usar a lente dela na digital e fiz uma adaptação de rosca. Mas adorei a câmera. Um tosco visor, nenhum telêmetro, nenhum fotômetro, só regulagens manuais. Eu usava uma digital como fotômetro e media a distância no olho. Adorei o quadrado, adoro até hoje. Usei outras que faziam o quadrado, uma Hasselblad emprestada, uma Yashica modelo Rollei. Contudo, o filme tornou-se cada vez mais difícil de usar. E mesmo a loja do lado, onde mandava revelar e escanear, tornou-se difícil, passou a cobrar o escaneamento por foto, o inviabilizou.

Recentemente, há uns seis meses, comprei uma Panasonic GF1. Minha motivação foi ter um bom sensor (nos ISOs baixos) em uma câmera pequena e barata. Um brinquedo. Fui comprando adaptadores e variando as lentes, feliz porque ela podia usar lentes de rangefinder, pois tem corpo estreito. Até o dia em que experimentei a 24mm Nikkor, que multiplicada por dois (fator devido ao tamanho do sensor) resulta em 48mm-equivalente. No fundo eu buscava o equivalente a uma 50mm de filme comum. Fotografei e então me veio ideia de mudar o formato e experimentar o quadrado dela…

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Quadrado digital, Panasonic GF1, 2015

No caso específico desta câmera, a mudança de formato tem a linda coisa de nos comprometer para sempre com o formato, como eu gosto. A fotografia para mim quando precisa de correção compositiva me incomoda. Não gosto de corrigir as composições. Mas nessa camera, nem o RAW pode ser usado para converter no formato original, como em outras câmeras acontece. Clicou… pinba! Está definido. Só PB e cores podem ser mudados, mesmo porque o RAW é necessariamente colorido.

Como por mágica, voltei ao que usava com a Zeiss Nettar. Exatamente? Não, é claro, nada é exatamente, mas muito aproximadamente sim. Mesma abordagem compositiva, mesmo jogo dentro do quadrado.

P1140129_DxOFP

Panasonic GF1, Parque da República, 2015

 

O que o quadrado tem de fascinante? Não é fácil responder isso, mas eu diria que tudo nele é forte compositivamente, as diagonais, a divisão áurea, etc. O quadrado é a forma mais forte entre os retângulos. Porém, quem está acostumado com o retângulo estranha um pouco. Porque existe uma linguagem específica, uma espécie de síntese. O formato não admite erro compositivo, e um erro cometido, a foto se perde.

Compor no quadrado não é a mesma coisa que cortar o quadrado dentro de uma foto maior. A composição em si é diferente.

Este artigo mostra o uso do quadrado. Certa vez, peguei uma digital mais velha e boa, a Fuji F550 (comprei velha, fascinado que sou com o sensor diagonal Fuji) e coloquei dois pedaços de fita isolante no LCD, para já compor em quadrados. Ótimo, sim, ótimo, delicioso, mas a atual setada em quadrado é melhor ainda…

DSCF6179

Quadrado digital, Fuji E550 com máscara quadrada no visor.

 

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Written by Ivan de Almeida

3 de fevereiro de 2016 às 1:38 pm

Publicado em Sem categoria

4 Respostas

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  1. Bom assunto. Aliás, o formato que nas artes plasticas é discutido já faz tempo, fica a toa nas conversas sobre a fotografia. Muito bom voce introduzir a conversa sobre a janela e como esse formato condiciona a dinamica do fotógrafo.
    Cartier Bresson e Sebastião Salgado fariam outra obra caso tivessem que compor no quadrado.

    Flavio Colker

    3 de fevereiro de 2016 at 3:53 pm

    • Flavio, a relação entre a forma e o detalhe é antiga, toda a arquitetura antiga era assim. Infelizmente, a fotografia é chamada de coisa espontânea, “talento natural”, e com isso muitos perdem a capacidade analítica ou de planejamento. Um grande abraço.

      Ivan de Almeida

      3 de fevereiro de 2016 at 6:32 pm

  2. Mto bom esse texto. Uma boa “empurrada” para nos tirar da zona de conforto.

    sheila

    11 de fevereiro de 2016 at 1:43 pm

    • Obrigadíssimo, Sheila!

      Ivan de Almeida

      11 de fevereiro de 2016 at 5:48 pm


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