Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

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Revelando a Fotografia Digital

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Revelando a Fotografia Digital

Uma crença num “certo”, uma crença contemporânea em uma mentira digital.

Ivan de Almeida, abril de 2017

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Ontem, ciscando os diretórios, dei de cara com esta foto de cima feita em Porto, Portugal, no início do ano passado, 2016. Passei, neste tempo, muitas vezes pelo diretório e nem prestei atenção nela, pois a fotografia me parecia por um lado estourada (o fundo do outro lado do Rio Tejo) e muito escura dentro do barco no qual passeamos.

Um ano sem ver a foto. Por quê? Ora, porque a fotografia digital é gerada por uma transformação convencional do resultado do sensor para a imagem reconhecível como fotográfica. Sempre segue uma rotina, geralmente a rotina determinada pelo fabricante da câmera. Click, pronto, o resultado “é este”.

Mas isso é uma inverdade brutal. Seria como dizer ser a fotografia em filme independe da revelação. Sim, embora principalmente em cromos isto seja muito fixado, a fotografia tem duas etapas e só a primeira é a verdadeira, a sensibilização do filme na câmera, todo o resto é sujeito a escolhas, mesmo quando a escolha é fixada. Nos cromos é fixada, e daí ser vista como verdade única.

Quando em Preto e Branco o filme não tem referencia fundamental nenhuma. Tudo no PB muda a foto; o tipo de revelação, a substância, a temperatura, até na revelação do filme ocorrem variações importantíssimas. Pouco contraste, muito contraste, por aí vai. O mesmo filme revelado por três pessoas diferentes com as mesmas substâncias sairá com três versões de negativos.

E não paramos aí… Ao ser feita a cópia em papel tudo mudará de novo, infinitas variações só relativas ao processo. E isso sem considerar a proposital variação em zonas específicas do negativo, obstruindo a exposição do papel por segundos aqui e ali. A fotografia em PB é incompatível com a noção de verdade pura, como erradamente se entende o cromo e, no nosso caso, como tolamente se acredita a transição entre o RAW e o TIFF ou JPEG. O fato é que a digital verdadeira é como o negativo, é muito, muito afastada da fotografia final em aparência.

Por isso podemos dizer que ao sair do Photoshop ou outro conversor o resultado não é A Verdade e sim é o resultado de uma revelação digital específica. Mesmo dentro do Photoshop podemos configurar esta revelação, curvas de tons, cores mais ou menos vivas, e por aí vai. Uso três conversores. O Photoshop faz de cara aquilo que o fabricante da câmera decidiu ser sua verdade. O RawTherapee cria uma verdade inicial dele, distinta da verdade Photoshop, e o meu preferido, o perfectRAW (este nome, de um delicioso conversor que já tem tempo, foi apropriado por uma empresa que vende um conversor raso).

Por isso, por inexistir a verdade, minha visão é ser a revelação dependente, isto sim, do ISO usado e da exposição da fotografia.  Porque o ISO determina a qualidade, o ISO mais baixo é aquele de maior espectro de tons possíveis, o ISO mais alto é apenas uma fração dos resultados da sensibilização do sensor. Basicamente, o ISO mais alto é pegar a parte pior da exposição e multiplica-la, por isso é tão ruidosa.

Vamos entender que na digital a mentira monta na mentira. Tive uma Canon 300D, dita “ultrapassada”, tive uma Canon 20D, idem, e nenhuma dessas falsificava os ISOs altos. Falsificava? UAU, deixe-me explicar isto…

Usando o perfectRAW, que basicamente é um envelope para a rotina de conversão criada pelo mais importante criador disso, o Dave Coffin (aliás, o DCRAW com adaptações é a coisa usada por quase todos os conversores) vemos que aquilo que o Photoshop considera ISO 400 em uma câmera atual não é ISSO 400, é uma captura muito mais escura clareada pelo software de conversão. Todas as sensibilidades dos ISOs atuais são mentiras. É brutal a diferença de conversão verdadeira e a falsa “muito legal”.

Bem, o público mais normal prefere assim, mas é limitado em trabalhos possíveis. É, digamos, um usuário das rotinas de amplificação de sensibilidade sem saber que as usa, achando que ali é a verdade.

E com isso perde abordagens como a da foto mostrada. Deixe-me explicar…

Qual é a melhor exposição possível para esta foto? A resposta é: “Esta mesma mostrada embaixo deste parágrafo”. Opa, por quê? Bem, a resposta não é simples quando olhada com olhos da conversão “normal”, olhos que a confundem com “a verdade fotográfica”. Mas sim, é a melhor exposição possível para a cena. Vamos olhar como a câmera mostra a dita foto em JPEG. Vejam abaixo.

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Olhando assim parece que estourou perdendo detalhes na parte mais clara, e igualmente perdeu detalhes na parte escura. Os prédios do fundo perderam. O rosto quase não se vê.

Porém usando o perfectRAW mudei os parâmetros e consegui que os prédios de fundo ganhassem cor, detalhes, etc. Ou seja, escureci a foto para salvar a parte mais clara. Salvei e mudei de nome depois de salva, para não salvar outra conversão por cima.

Em seguida mudei a “revelação”, desta vez elevando a luz para ganhar detalhes na parte de baixo, rosto, interior do barco, etc. Bem, isso feito tinha duas revelações da mesma fotografia, numa o fundo estava bom e a cena interna do barco muito preta, noutra a cena interna estava boa e o fundo horrivelmente estourado.

Vejam, do click o arquivo final contém os dois, mas as imagens com revelação única matam uma parte para mostrar a outra…

Assim feito, somei as cenas, eliminei da foto de cena interna boa, a janela, a tornando transparente para ver ali a outra revelação. Somando as duas passei a ter a cena completa, como se tivesse usado um filme de baixo contraste ou feito uma revelação de baixo contraste. O mesmo click, não o mesmo resultado final.

Não há nisso feito nenhuma falsidade, aquilo foi objeto de captura, e um pouco mais exposto mostraria imediatamente o interior e queimaria em branco o externo, e um pouco menos exposto o externo ficaria bom de início, mas a cena interna seria só um preto. Nenhuma das opções usaria a real extensão do arquivo RAW.

Bem, a fotografia digital tem lá sua lógica, e a maioria não conhece a lógica. Isto não é ruim nem deprecia os fotógrafos, pois a boa fotografia não cabe em regras desse tipo. Tenho um amigo que é dono de um restaurante simples e que fotografa com o celular (bom celular, aliás), e as fotos dele são ótimas, embora ignore até como lidar com velocidade e abertura. Mas mesmo nada sendo obrigatório, este assunto passou pela minha cabeça nesses dias, vi haver algum interesse quando explicava, daí este artigo.

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Written by Ivan de Almeida

9 de abril de 2017 at 1:26 pm

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O Transe Fotográfico

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O Transe Fotográfico

Ivan de Almeida
janeiro de 2017

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Entendo fotografia não como algo que retrata a realidade, pois fotografia não é realidade. A fotografia mente de mil formas com as lentes, com as partes claras e escuras, com o que mostra e o que não mostra. O não mostrar é tão poderoso que quase se pode dizer ser a principal arma fotográfica.

Por isso a fotografia para mim é uma mistura de jogo compositivo com o “aqui e agora” (como dizia o papagaio no A Ilha do Aldous Huxley). São duas buscas pessoais fortes. Fotografar nos traz para o agora, mergulhamos na contemplação, saímos dos desejos corriqueiros e mergulhamos na busca estética, e junto com isso nosso treino compositivo nos orienta.Estar presente, é uma das delícias da fotografia.

O treino compositivo não é instintivo, não é “meu jeito de ver”. O treino compositivo é uma educação que pode ser espontânea (estética mais convencional) e pode ser espontânea mais muitíssimo reforçada pela educação compositiva formal. A palavra espontânea que não deve ser entendida como “minha característica de nascimento”, mas como o treinamento perceptivo comum dos homens na vida social, na infância social.

Sou quase fanático por isso, por entender a percepção, sua lógica. Um tanto desta educação na composição provém de ter feito lá no passado a faculdade de arquitetura, e depois, muito depois, fiz mestrado em arquitetura com um trabalho específico sobre composição. Na arquitetura busca-se o belo, mesmo quando isto não é dito.

Uma das delícias de fotografar é a indução ao “aqui e agora”, ao “estar presente”, sem imaginação mas com intensa atenção ao presente. Arquitetura, pintura, fotografia, todas essas coisas usam os mesmos recursos visuais. Usam nossa resposta à educação visual inerente no homem civilizado, aquela educação que faz todos os homens entenderem que uma porta maior em um prédio é a entrada principal e a porta pequena é entrada secundária, coisa que não é absolutamente relacionada com nossa percepção animal mas com a ordem social e isso é tão condicionado que se acha isso óbvio.

 Fotografo há décadas, e minha fotografia de adolescente não correspondia à fotografia feita depois de virar um universitário que estudava composição. Não é questão técnica, a técnica foi assimilada lá com 14 anos, adolescente obsessivo. É a educação compositiva que em mim ocorreu neste tempo universitário. Quando comparo meus desenhos de antes e de depois, é clara a educação compositiva.

Fotografar é um delicioso transe.

Written by Ivan de Almeida

14 de janeiro de 2017 at 12:59 pm

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O Engano do Olhar

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O Engano do Olhar

julho de 2016
Ivan de Almeida

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Mostrei esta foto para amigos no Facebook, e uma das amigas lembrou e comparou com às obras do Hopper, pintor americano de meados do século XX. O Hopper é um dos meus preferidos, mas ao fazer a foto não pensei nele. Nós não somos imunes às influências, e quando esta amiga o mencionou entendi e relacionei, principalmente o lado esquerdo da fotografia.

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Edward Hopper

 

Porém… Sim, o lado esquerdo contém aquela paz melancólica do Hopper, mas a foto não acaba ali, ela tem outro lado, o lado direito onde a televisão em outro dente da sala mostra sua imagem, e esperei prestando atenção nas duas, na minha mulher e na imagem da TV para disparar a foto.

Esta imagem da TV dentro da fotografia abre, ou demonstra, melhor dizendo, um outro lado da coisa. Mostra que não vemos tudo ao mesmo tempo, que olhar não é ver tudo, mas examinar a cena em suas partes.

A televisão e a imagem fazem parte da foto, mesmo olhando para minha mulher ali em seu computador, o espaço onde ela está começa na TV. A paz melancólica dela está neste espaço, a TV funcionando faz parte da paz melancólica.

Por sua vez, para vermos a TV, o que nela aparece, personagens comendo algo e se servindo, é preciso olhar para elas e esquecer minha mulher. O olho vai para a tela e não dá para olhar a tela e a cena real ao mesmo tempo, o olho alterna o exame.

Nosso olhar não é fotografia. A fotografia pega tudo que cabe no quadro, o olhar vai de parte em parte, e em cada parte regula seu modo perceptivo. Isto acontece na vida, embora não tenhamos consciência do movimento dos nossos olhos, e mesmo em algumas fotografias isso se torna evidente, esta é uma.

Engano do olhar não é um bom título para este artigo, pois não é engano, é a complexidade do olhar, não redutível somente à projeção cônica da imagem que em geral é a fotografia.

A parte da sala, sim esta parece as obras do Hopper, mas o restante é outra coisa, é um jogo de movimentação seletiva do olhar. A vista da janela do Hopper compete um pouco com a pessoa, como a TV compete com minha mulher, mas não obriga no grau em que a fotografia obriga à seleção ocular, isto é, torna menos consciente a presença de seleção (que há, contudo).

A fotografia nos ensina sobre nosso olhar, mesmo sendo ele tão diferente em modo de apreender uma cena.

 

 

Written by Ivan de Almeida

26 de julho de 2016 at 1:17 pm

A Fotografia Afetiva

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A Fotografia Afetiva

Ivan de Almeida, março de 2016

A vida fica nas fotografias, talvez a parte mais doce da vida.

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As fotografias, principalmente as fotografias familiares ou de amigos, depois de alguns anos nos emocionam.

Esta é uma coisa maravilhosa da fotografia, ela é um mecanismo onde a saudade encosta em nós. E algo através do qual nós vamos até o passado e lá lidamos com os nossos queridos, com os amigos, com alguém que nos deu atenção.

Sei que é engraçado pois isto aqui, afinal é um blog que fala de fotografia, mas creio que isto é um dos elementos do valor da imagem.

Creio que ser um fotógrafo é coisa tão diversificada que não cabe sequer tentar definir aqui. Há muitos fotógrafos, com muitas especialidades, com muitas utilidades. Nós mesmos, ou eu mesmo, aqui falando na primeira pessoa, exploro diversos temas, busco em diversos temas. A liberdade do fotógrafo não-profissional é para mim muito valiosa, porque a fotografia vira uma busca pessoal, um caminho de autoconhecimento e um caminho de aprendizado.

Aprendizado de quê? Bem, isto é abrangente do aprendizado de como vivemos, do que gostamos, de como é nossa presença na existência, o que vemos e o que, até o instante anterior, não víamos. Uma abordagem fotográfica que descobrimos é também um descobrimento existencial. Porque nós só fotografamos aquilo que nos interessa, só vemos o que nos interessa. E cada um fotografa mais uma coisa que as outras.

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Tenho amigos que são ótimos num tipo de fotografia e menos bons em outro tipo, por vezes uma diferença espantosa de qualidade compositiva, de abordagem, etc. Geralmente a fotografia humana é o Calcanhar de Aquiles, porque ali há algo além da habilidade, há a relação humana. Aquela pessoa, a presença daquela pessoa constrange o fotógrafo nesses casos. Porque ele acha que constrange a pessoa fotografada.

Muitos se embaraçam na fotografia humana. Não se sentem a vontade, não lidam bem com a vontade, a vaidade, a pessoalidade alheia. Entre as fotos que fiz há algumas que mostram a importância da pessoa, que mostram um caminho afetivo, e outras, da mesma pessoa, são sem graça. Porém quase nunca a pessoa se diz afetada, pois quase nada de pose eu peço, quase nada ou nada, na maioria das vezes.

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A fotografia de pessoa pode ser uma violência ou um carinho. Fotografamos e sabemos que a pessoa não consentiria. Esta é a violência. Violência fotográfica. É pegar alguém à força. Enganá-la. A outra postura é fotografamos ali atentos à pessoa, com consentimento implícito ou explícito. Já me aconteceu de parar de fotografar até mesmo o lugar, uma loja-atelier na serra, e descartar todas as fotos feitas –poucas- porque a pessoa ali manifestou desconfiança e desconforto. Desliguei a câmera na hora, apaguei na hora e ponto final. Como não o fotografara, não imaginei seu incômodo ia até os objetos.

Quando fazemos, digamos, três fotos de alguém quase seguidas, quase iguais, com o mesmo enquadramento, uma delas falará melhor conosco, mesmo as demais sendo também boas fotos. Há exceções, mas em geral uma será melhor, pegará o rosto em uma expressão melhor. Porque nós não somos mágicos, não podemos determinar a foto de alguém completamente.

É esse estado de atenção a coisa realmente interessante ao fotógrafo. Fotografar com atenção é quase um transe, é um transe leve. Nós embarcamos e ali já não somos nós, somos o olhar condutos que seguimos. Esta é uma das delícias fotográficas.

Written by Ivan de Almeida

4 de março de 2016 at 12:44 am

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Nós não somos uma câmera.

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Nós não somos uma câmera.

Ivan de Almeida, fevereiro de 2016

No quarto das crianças, em Vassouras, eu, menino, deitado na cama via a pequena poeira flutuando no ar pela manhã, quando entravam pelas frestas da janela os raios de sol.

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Para bem entendermos a composição fotográfica, é preciso que entendamos a forma como olhamos. Nós não somos iguais à câmera fotográfica que, no mesmo instante, vê tudo. Nosso olhar é um exame onde há uma hierarquia. Um contexto é examinado de acordo com a hierarquia, e não de acordo com a perspectiva. A perspectiva, ou melhor, a noção de distância, ajuda a hierarquizar mas não manda, apenas é um dos vetores da percepção.

Este artigo nasceu de uma fotografia que fiz há poucos dias em uma brincadeira que foi fotografar com uma câmera simples enquanto esperava a barca que liga o Niterói ao Rio de Janeiro. Ali, na estação de Niterói, esperando para voltar fotografei. Foram três fotos quase iguais e dos mesmos elementos, e só variam ligeiramente na posição da câmera, uma câmera pequena e simples, uma Panasonic FH24.

Quando fotografamos, ou falando na primeira pessoa do singular, quando fotografo rapidamente hierarquizo o conteúdo. É uma coisa bastante rápida, pois nós nos educamos com o tempo, e, se lá no passado eu tinha que pensar nessa ordem buscada, a coisa vai se tornando uma natureza nossa, natureza do nosso olhar fotográfico, e torna-se quase instantânea. A fotografia de rua precisa dessa introjeção do treinamento, coisa que adquirimos com o tempo. Ninguém nasce com o dom compositivo. A composição provém de costumes, pois quando inconsciente reproduz os costumes sociais, a convenção social de fotografia. Quando estudamos a percepção, nos educamos com outros princípios de ajustes sociais que são menos desenvolvidos e conhecidos.

Qual a diferença? Tomemos, como exemplo, um templo na Grécia. O turista comum o olha, tem o deleite de contemplar o belo, recorda, mas não sabe a razão do deleite. O estudioso da arquitetura grega busca, é claro que também tendo o deleite, reconhecer as proporções da arquitetura grega, estudadíssimas. O jogo de proporções entre a coluna e o todo, entre as partes de cada coluna, coisas desconhecidas da maioria, mas estudadas na arquitetura grega e posterior. Quando fiz faculdade de Arquitetura, nós reproduzíamos o desenho de uma coluna Dórica, Jônica para nessa reprodução aplicarmos as regras de proporcionamento entre as partes. Não é “eu acho”, é uma regra clara na composição das colunas e dos templos e construções.

É um examinar semelhante que será empregado nesta foto, não uma foto brilhante, mas interessante de ver. Um examinar que mostrará que olhar é um processo, e não um instante.

Temos nela três pontos principais de atenção, que brigam, no bom sentido, entre si. 1) O vulto da pessoa em primeiro plano, misturada nos demais, porém mais perto; 2) o rosto do anúncio, mais iluminado, 3) o ambiente e barca lá fora. O olho, ao olharmos a foto, pula de lá para cá e termina no rosto iluminado, mas passa pelo vulto de costas, pela paisagem. A palavra brigam usada aqui não é no sentido negativo, mas sim destacando o fato de haver uma coisa olhada, outra coisa olhada e outra, e, aí o interessante, não vemos tudo ao mesmo tempo. O olhar vai pulando de parte à outra parte.

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É essa a questão interessante, sabermos examinar a forma como vemos. É importante porque esse saber é uma grande ferramenta da análise e da composição. Para compor, acima de certa complexidade, é preciso entender a forma como examinamos uma cena.

A fotografia em si é muito útil, fotografar é útil, porque nos ensina a ver como vemos a partir de um ver que não vemos. Nós não vemos como a câmera, mas mesmo na câmera vemos um tanto como no mundo, pulando dos objetos principais, de um para o outro. Paradoxalmente, é impossível ver esta foto de uma vez só.

Nossa visão comum é pouco examinada. Nós não fomos educados ou informados do fato de termos uma parte muito pequena da visão que é nítida, e que para conhecermos um ambiente, mesmo parados, os olhos precisarem mudar o foco e mudar sua direção. Mas essa é a verdade. Nós variamos a direção e o foco tão automaticamente que parece que tudo é focado, pois, afinal, quando olhamos para algo focamos esse algo.

No caso do olhar, é necessário prestar atenção no movimento do olho, porque este ver localizado não é só a atenção, é o direcionamento do olho, é a pupila que fecha e abra, fecha para ver a barca, abre para ver o cara de costas ou o anúncio, o olho se direcionando também.

A feitura de uma imagem fotográfica é algo um tanto derivado do conhecer perceptual. Pode ser um conhecer ensinado, pode ser um conhecer relacionado ao funcionamento ocular. Mas a composição ao fim e ao cabo é um arranjo do modo de percebermos uma foto. Há coisas incríveis que demonstram isso, uma delas é a descrição de uma foto vista por algum tempo, descrição onde elementos menos importantes não são lembrados pelos observadores a quem é solicitada a descrição. Outra coisa é o aparelho que segue o movimento do olho, produzindo um gráfico onde fica clara a busca de significação pelo movimento ocular.

Uma pequena foto pode conter um conhecer.

Written by Ivan de Almeida

21 de fevereiro de 2016 at 3:24 pm

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O Quadrado

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O Quadrado

Ivan de Almeida, fevereiro de 2016

O conteúdo e a forma do continente são, na fotografia, uma das relações fundamentais.

 

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Quadrado da Urca, filme, Zeiss Nettar, julho de 2005

 

Depois de longo período usando digitais, desde 2003 com uma tosca Canon A30, fui tendo câmeras diversas substituindo uma por outra. As digitais eram caras, ou isso se combinava com um orçamento mais apertado meu, então comprava uma e vendia a outra. Porém, as digitais foram ficando baratas, e hoje tenho diversas câmeras, poucas compradas novas, várias de segunda mão. Hoje são seis câmeras, vão desde a Canon 5DII (comprada neste Brasil, diretamente da Canon e em 12 prestações) até a Panasonic FH24, comprada em Orlando, numa viagem aos EUA em 2011 –aliás, no dia em que chegamos em Orlando e que o Bin Laden foi morto, vejam só…

Bem, quando comprei a primeira de todas, a tosca Canon A30, estava acostumado com o formato 3:2 da fotografia em filme 35mm. Vinha há décadas usando os filmes, e a chegada da digital ao mesmo tempo em que me deslumbrou me incomodou muito quanto ao formato. Este formado 3:4 do sensor das digitais mais simples me incomodava. A primeira digital me fez fotografar como um louco, mas o formato me desagradava, nele eu não achava um terço como divisão forte, e não é simples lidar com proporções em um formato 3:4, pelo menos era difícil para mim.

Foram três câmeras com este formato, num tempo ligeiramente menor do que dois anos e meio. Seis meses de Canon A30, doze meses de Fuji S5000 em 2004 (e, desde sua chegada, o mergulho no RAW), uns dez meses com a Fuji S7000 e então voltei ao formato ao qual estava acostumado comprando usada uma Canon 300D.

Por esse tempo, em 2005, comprei uma Zeiss Ikon Nettar, 518/16, antiga de filme médio formato. Algumas coisas nela me maravilharam, entre as quais a forma quadrada da fotografia. Aquela estranheza que eu tinha com as digitais 3:4 sumiu, e a forte geometria do formato quadrado me deliciava. No fundo era isso, eu gostava e gosto da geometria forte do formato, embora hoje use o 3:4 de forma mais adaptada, mais solta. Claro, podemos ter fotos boas e ruins em qualquer formato, mas com alguns nos adaptamos melhor.

Infelizmente, destruí a Nettar, uma das piores tolices que fiz. Queria usar a lente dela na digital e fiz uma adaptação de rosca. Mas adorei a câmera. Um tosco visor, nenhum telêmetro, nenhum fotômetro, só regulagens manuais. Eu usava uma digital como fotômetro e media a distância no olho. Adorei o quadrado, adoro até hoje. Usei outras que faziam o quadrado, uma Hasselblad emprestada, uma Yashica modelo Rollei. Contudo, o filme tornou-se cada vez mais difícil de usar. E mesmo a loja do lado, onde mandava revelar e escanear, tornou-se difícil, passou a cobrar o escaneamento por foto, o inviabilizou.

Recentemente, há uns seis meses, comprei uma Panasonic GF1. Minha motivação foi ter um bom sensor (nos ISOs baixos) em uma câmera pequena e barata. Um brinquedo. Fui comprando adaptadores e variando as lentes, feliz porque ela podia usar lentes de rangefinder, pois tem corpo estreito. Até o dia em que experimentei a 24mm Nikkor, que multiplicada por dois (fator devido ao tamanho do sensor) resulta em 48mm-equivalente. No fundo eu buscava o equivalente a uma 50mm de filme comum. Fotografei e então me veio ideia de mudar o formato e experimentar o quadrado dela…

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Quadrado digital, Panasonic GF1, 2015

No caso específico desta câmera, a mudança de formato tem a linda coisa de nos comprometer para sempre com o formato, como eu gosto. A fotografia para mim quando precisa de correção compositiva me incomoda. Não gosto de corrigir as composições. Mas nessa camera, nem o RAW pode ser usado para converter no formato original, como em outras câmeras acontece. Clicou… pinba! Está definido. Só PB e cores podem ser mudados, mesmo porque o RAW é necessariamente colorido.

Como por mágica, voltei ao que usava com a Zeiss Nettar. Exatamente? Não, é claro, nada é exatamente, mas muito aproximadamente sim. Mesma abordagem compositiva, mesmo jogo dentro do quadrado.

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Panasonic GF1, Parque da República, 2015

 

O que o quadrado tem de fascinante? Não é fácil responder isso, mas eu diria que tudo nele é forte compositivamente, as diagonais, a divisão áurea, etc. O quadrado é a forma mais forte entre os retângulos. Porém, quem está acostumado com o retângulo estranha um pouco. Porque existe uma linguagem específica, uma espécie de síntese. O formato não admite erro compositivo, e um erro cometido, a foto se perde.

Compor no quadrado não é a mesma coisa que cortar o quadrado dentro de uma foto maior. A composição em si é diferente.

Este artigo mostra o uso do quadrado. Certa vez, peguei uma digital mais velha e boa, a Fuji F550 (comprei velha, fascinado que sou com o sensor diagonal Fuji) e coloquei dois pedaços de fita isolante no LCD, para já compor em quadrados. Ótimo, sim, ótimo, delicioso, mas a atual setada em quadrado é melhor ainda…

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Quadrado digital, Fuji E550 com máscara quadrada no visor.

 

Written by Ivan de Almeida

3 de fevereiro de 2016 at 1:38 pm

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Tratamento e Significado na Fotografia

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Tratamento e Significado na Fotografia

Ivan de Almeida, janeiro de 2016

 

Na fotografia, o significado da imagem nem sempre prevalece na pura captura. Não é erro ou insuficiência do fotógrafo, é uma iluminação natural que não reforça a mensagem. Por isso, o tratar não é só mexer nos contrastes, mexer na conversão do RAW. Há fotos em que isso basta, mas, grosso modo, a grande maioria das fotografias se beneficia de tratamentos localizados.

Muitos, ao lerem isso, pulam da cadeira gritando: “Mas a foto deve ser boa! Caso não esteja, foi você que errou!!!” Mas não é bem assim. O mito da foto sem nenhuma interferência é um sonho com bases viciadas, pois a mera formação da imagem numa câmera digital tem por caminho a conversão padrão do RAW e a aplicação de contraste determinado pela fábrica da câmera (caso do Photoshop), ou por quem fez o conversor, e não existe neutralidade nenhuma nisso. Uma mesma foto convertida em conversores distintos produzirá resultados distintos mesmo no default do conversor. E mesmo na época do filme cada filme trazia um resultado um pouco diferente.

O tratamento da fotografia, sobre a melhor captura possível, depende de qual mensagem desejamos enfatizar. O que é mais importante? O que desejamos enfatizar? O que desejamos quase anular? Olhar para a fotografia e perceber o que se deseja parece muito simples, mas não é. Na prática isso constitui uma terceira etapa criativa, e a grande maioria dos fotógrafos não percebe isso. Em uma primeira etapa, a foto é aquela. Em uma segunda, podemos procurar tratamentos automáticos –e sim, isto pode ser uma melhoria. Mas o tratamento localizado exige muito mais. Exige uma visão de finalidade, uma clareza da mensagem contida na fotografia, uma visão do que melhorará uma parte, e que fará da outra parte um coadjuvante.

Vamos pegar esta fotografia para examinar. Ela nasce de um filme feito, um Filme Kodak ProImage 200 em uma câmera Kiev IV, lente Jupiter 8, 52mm. Muitas vezes eu saía para passear e fotografar neste lugar, São Pedro da Serra, onde tive casa por muitos anos. E fotografava. Na rua do lado havia uma serraria onde eu comprava madeira para as obras, e lá eu fotografava um pouco. Na rua desta serraria, do outro lado, eu vi a cena e fotografei. Voltando ao Rio, mandei revelar o negativo e escanear, no caso mais ou menos 6mp.

É preciso entender que 6mp escaneados não equivalem aos 6mp de uma câmera, porque cada pixel do escaneamento contém as três cores, enquanto o pixel da fotografia digital contém apenas uma, verde, azul, vermelho, que depois é misturada com as vizinha para se chegar ao tom certo.

 

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Escaneamento do filme, sem tratamento

Pois bem, a fotografia, sem tratamento, mostra, mas não nos faz mergulhar no assunto. Foi feita em 2005, janeiro, e ficou durante todos esses anos jogada no diretório, eu olhava para ela e algo ali me fazia falta, embora a foto tivesse também algo me atraindo.

Hoje, pela manhã, olhando os arquivos de fotografias, passei por ela novamente. Peguei a dita e resolvi, com o DxO FilmPack 3 melhorar seus contrastes. Fiz isso, usando a opção Fuji VelviaTM 50 e aí comecei a gostar do resultado…

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Tratada no DxO FilmPack 3

Mexi depois um pouco no contraste e postei a dita no Facebook. Ótimo, elogios, etc.

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Um pouco mais fechada, as plantas mais fechadas, sem correção de região

Mas o dia foi passando e ao olhar a foto voltei à minha questão: Há uma espécie de túnel de sombras que conduzem ao cavalo. O cavalo não apenas está no lugar melhor (cada orelha em uma posição “nobre” compositiva, uma no terço da foto, outra na divisão áurea da largura da foto), mas está na ilha de luz dentro da foto. Nosso olhar vai naturalmente para ele.

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O terço e a divisão áurea (a mais externa é o terço)

Nesse ponto, abri a foto já tratada e defini, com a ferramenta de seleção pontilhada e de forma livre, a região que devia ser escurecida. Basicamente, em duas mascaras uma abrangendo menos, outra abrangendo mais, escureci a folhagem envoltória, deixando a “janela” de luz sobre o cavalo. Pronto!

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Foto pronta, tratamento geral e localizado

O tratamento de uma fotografia deve seguir, buscar aquilo que hierarquicamente é importante, ressaltar isso e por vários meios diminuir a força do entorno. Na foto inicial se via o geral, o cavalo chamava atenção, mas não suficientemente. Ele não mostrava tão claramente ser o tema da foto. Na última foto ele é claramente a parte mais importante.

A foto recebeu algum tratamento geral, no DxO FilmPack 3, recebeu algum contraste maior e isso foi a etapa 1. Já se aproximou do desejado.

E então recebeu o tratamento localizado, tornando a mensagem da foto – o cavalo – claramente superior na atenção que damos ao retângulo. Fui fazendo e compreendendo. Um tanto desse tipo de tratamento podemos intuir, mas um tanto descobrimos fazendo. Ao fazermos isso damos ênfase a uma mensagem sobre a percepção geral.

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Para a feitura deste artigo foram usados os programas DxO FilmPack 3 e Photoshop CC, além do Word. Todos os programas usados regularmente licenciados.

Written by Ivan de Almeida

14 de janeiro de 2016 at 8:16 pm

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olhar, como se treina.

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O Olhar, como se treina.

Ivan de Almeida, julho de 2012

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O objeto? Ou o reflexo? Qual é o objeto desta foto?

Quando entrei no Jardim de Infância, alguém comentou eu ser ambidestro. Isso ouvido pelos então responsáveis por mim era ruim: eu deveria ser definido e definido no uso da mão direita, destro. Ensinar-me-iam, depois, a escrever, entre outras coisas, então a mão direita era a mais própria para ser ensinada, não por dom meu, mas porque o mundo estava preparado para a destreza. O mundo é assim orientado, os objetos são, em grande parte, feitos para destros. O que não se diz é que os objetos para destros multiplicam os destros. Fui aprendendo a escrever com a direita, a direita preponderou pelo hábito e muita coisa que pensamos em nós serem “de nascimento” são hábitos adquiridos muito cedo. Desenhei, escrevi, liguei e desliguei as coisas com a mão direita. Há muitos anos, entendendo como nós nos tornamos o que somos por camadas sobre camadas de treinamento, tantas que acreditamos serem as camadas mais antigas e profundas dons, características orgânicas de nascimento. Comecei a buscar em mim atos que contrariassem esse treinamento de vida exatamente para ver o quanto eram inatos, o quanto eram adquiridos. Mudei algumas coisas, embora não muito, pois mais queria viver com a certeza da opção do que treinar um corpo/mente pluri-capazes. Há mais ou menos uns 20 anos comecei a fazer a barba com a mão esquerda. Isto era simples, era um ato isolado, juntava atenção e perícia. Fazer com a mão esquerda não afetaria minha vida, mas me mostraria o grau de dependência verdadeiro relativo ao treinamento. Tornei-me plenamente hábil em fazer a barba com a mão esquerda. No início era lenta, era estranho fazer, exigia grande atenção, mas foi ficando solto, foi ficando natural de modo que hoje faço a barba com a mão esquerda todo dia, há quase 20 anos faço com a esquerda e na maior parte dos anos, tirando um breve início disso de menos de dois meses, faço tão naturalmente que nem penso nisso. Capricho na barba, não no método, que tornou-se natural. Faço a barba tomando banho, então não me vejo no espelho, faço a barba cegamente, só com consciência perceptiva e boa atenção. Todo dia. Todo dia sem nenhuma atenção especial pelo fato de ser desde então com a mão esquerda. Nesses meses, ficando em casa, por vezes vou à cozinha e lavo a louça, lavo o que lá estiver. Reformei a cozinha mas tive preguiça de instalar a máquina de lavar, foram meses sem ela funcionar, embora existente e no vão feito para ela. Há uns dois meses está funcionando, nós a ligamos ao tubo de saída e de entrada, enfim, é novinha embora já tenha um ano. É novinha e pouquíssimo usada -dois meses. Então, ao lavar talheres e pratos eu muitas vezes buscava ser artificialmente canhoto, igual fizera no fazer a barba. Não tive ainda disciplina para fazer disso o normal, mesmo porque são questões interessantíssimas e mais complexas, pois ao lavar louça uma a segura, outra passa nela a espuma de lavagem. É um jogo de atenção interessantíssimo inverter, pois inverte-se as duas, a função das duas mãos e é muito claro que não é um dom ser destro, é um treinamento. Mudando a função das mãos na lavagem de um talher (um segura escolhendo posição e a mudando, outro esfrega) são as duas mãos que precisam de novo treino, não é, como na barba, só a mão e o braço esquerdo. Pesquisar sobre a nossa vida nos hábitos motores. Parece que não, mas isso é buscar a verdadeira liberdade, pois a verdadeira liberdade é não ser escravo dos muitos treinamentos lá na base de tudo em nós. Na fotografia treina-se o olhar, o olhar fotográfico não é, o que tantos tolos acreditam, um dom. É algo aprendido. Aprendemos a perceber, aprendemos a ouvir música, aprendemos a estética. Atualmente tenho orbitado muito os reflexos e isso me fez observar sem parar os reflexos em latarias dos carros, que passei a vida sem reparar. O objetivo fotográfico está me reeducando perceptualmente, e isso é um jogo ótimo de jogar, é bom buscar, é bom conseguir, é bom olhar o que conseguimos como novas conquistas do ver. O objetivo fotográfico é o outro lado do objetivo de autoconhecimento, de desmonte do que parece natural para ver-se atrás dessa normalidade perceptiva e tirar daí uma estética fotográfica. Fui, agora há pouco, buscar o carro na revisão, numa concessionária… que delícia ver os reflexos daquele ambiente nas latarias dos carros lá parados!!!

Written by Ivan de Almeida

3 de julho de 2013 at 6:04 pm

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Incompletude (micro-tópico)

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Incompletude (a fotografia é uma vida substituta)

Como viveríamos a vida, não fossem as distrações?

Fotografo apenas porque existem câmeras fotográficas e porque gosto de desenhar – fotografar é desenhar com a câmera. Não existe completude possível nisso, nem a busco. Não corro atrás da fotografia cabal, não acho que exista isso. Como dizia o Guimarães Rosa no A Terceira Margem do Rio, “a vida é só demoramento”. Tivéssmos coragem, como um Buda ou como o personagem do conto, de a encararmos completamente de frente, não fotografaríamos nem nada. Fazemos essas coisas para colocarmos biombos entre nós e ela e para a vivermos indiretamente, atenuada, diluída assim como antigamente se servia vinho com água e açucar às crianças em refeiçoes onde os adultos o bebiam.

Written by Ivan de Almeida

19 de novembro de 2011 at 7:08 pm

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