Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

Revelando a Fotografia Digital

with 3 comments

Revelando a Fotografia Digital

Uma crença num “certo”, uma crença contemporânea em uma mentira digital.

Ivan de Almeida, abril de 2017

P1100441 copiar_DxOFP

Ontem, ciscando os diretórios, dei de cara com esta foto de cima feita em Porto, Portugal, no início do ano passado, 2016. Passei, neste tempo, muitas vezes pelo diretório e nem prestei atenção nela, pois a fotografia me parecia por um lado estourada (o fundo do outro lado do Rio Tejo) e muito escura dentro do barco no qual passeamos.

Um ano sem ver a foto. Por quê? Ora, porque a fotografia digital é gerada por uma transformação convencional do resultado do sensor para a imagem reconhecível como fotográfica. Sempre segue uma rotina, geralmente a rotina determinada pelo fabricante da câmera. Click, pronto, o resultado “é este”.

Mas isso é uma inverdade brutal. Seria como dizer ser a fotografia em filme independe da revelação. Sim, embora principalmente em cromos isto seja muito fixado, a fotografia tem duas etapas e só a primeira é a verdadeira, a sensibilização do filme na câmera, todo o resto é sujeito a escolhas, mesmo quando a escolha é fixada. Nos cromos é fixada, e daí ser vista como verdade única.

Quando em Preto e Branco o filme não tem referencia fundamental nenhuma. Tudo no PB muda a foto; o tipo de revelação, a substância, a temperatura, até na revelação do filme ocorrem variações importantíssimas. Pouco contraste, muito contraste, por aí vai. O mesmo filme revelado por três pessoas diferentes com as mesmas substâncias sairá com três versões de negativos.

E não paramos aí… Ao ser feita a cópia em papel tudo mudará de novo, infinitas variações só relativas ao processo. E isso sem considerar a proposital variação em zonas específicas do negativo, obstruindo a exposição do papel por segundos aqui e ali. A fotografia em PB é incompatível com a noção de verdade pura, como erradamente se entende o cromo e, no nosso caso, como tolamente se acredita a transição entre o RAW e o TIFF ou JPEG. O fato é que a digital verdadeira é como o negativo, é muito, muito afastada da fotografia final em aparência.

Por isso podemos dizer que ao sair do Photoshop ou outro conversor o resultado não é A Verdade e sim é o resultado de uma revelação digital específica. Mesmo dentro do Photoshop podemos configurar esta revelação, curvas de tons, cores mais ou menos vivas, e por aí vai. Uso três conversores. O Photoshop faz de cara aquilo que o fabricante da câmera decidiu ser sua verdade. O RawTherapee cria uma verdade inicial dele, distinta da verdade Photoshop, e o meu preferido, o perfectRAW (este nome, de um delicioso conversor que já tem tempo, foi apropriado por uma empresa que vende um conversor raso).

Por isso, por inexistir a verdade, minha visão é ser a revelação dependente, isto sim, do ISO usado e da exposição da fotografia.  Porque o ISO determina a qualidade, o ISO mais baixo é aquele de maior espectro de tons possíveis, o ISO mais alto é apenas uma fração dos resultados da sensibilização do sensor. Basicamente, o ISO mais alto é pegar a parte pior da exposição e multiplica-la, por isso é tão ruidosa.

Vamos entender que na digital a mentira monta na mentira. Tive uma Canon 300D, dita “ultrapassada”, tive uma Canon 20D, idem, e nenhuma dessas falsificava os ISOs altos. Falsificava? UAU, deixe-me explicar isto…

Usando o perfectRAW, que basicamente é um envelope para a rotina de conversão criada pelo mais importante criador disso, o Dave Coffin (aliás, o DCRAW com adaptações é a coisa usada por quase todos os conversores) vemos que aquilo que o Photoshop considera ISO 400 em uma câmera atual não é ISSO 400, é uma captura muito mais escura clareada pelo software de conversão. Todas as sensibilidades dos ISOs atuais são mentiras. É brutal a diferença de conversão verdadeira e a falsa “muito legal”.

Bem, o público mais normal prefere assim, mas é limitado em trabalhos possíveis. É, digamos, um usuário das rotinas de amplificação de sensibilidade sem saber que as usa, achando que ali é a verdade.

E com isso perde abordagens como a da foto mostrada. Deixe-me explicar…

Qual é a melhor exposição possível para esta foto? A resposta é: “Esta mesma mostrada embaixo deste parágrafo”. Opa, por quê? Bem, a resposta não é simples quando olhada com olhos da conversão “normal”, olhos que a confundem com “a verdade fotográfica”. Mas sim, é a melhor exposição possível para a cena. Vamos olhar como a câmera mostra a dita foto em JPEG. Vejam abaixo.

P1100441b

Olhando assim parece que estourou perdendo detalhes na parte mais clara, e igualmente perdeu detalhes na parte escura. Os prédios do fundo perderam. O rosto quase não se vê.

Porém usando o perfectRAW mudei os parâmetros e consegui que os prédios de fundo ganhassem cor, detalhes, etc. Ou seja, escureci a foto para salvar a parte mais clara. Salvei e mudei de nome depois de salva, para não salvar outra conversão por cima.

Em seguida mudei a “revelação”, desta vez elevando a luz para ganhar detalhes na parte de baixo, rosto, interior do barco, etc. Bem, isso feito tinha duas revelações da mesma fotografia, numa o fundo estava bom e a cena interna do barco muito preta, noutra a cena interna estava boa e o fundo horrivelmente estourado.

Vejam, do click o arquivo final contém os dois, mas as imagens com revelação única matam uma parte para mostrar a outra…

Assim feito, somei as cenas, eliminei da foto de cena interna boa, a janela, a tornando transparente para ver ali a outra revelação. Somando as duas passei a ter a cena completa, como se tivesse usado um filme de baixo contraste ou feito uma revelação de baixo contraste. O mesmo click, não o mesmo resultado final.

Não há nisso feito nenhuma falsidade, aquilo foi objeto de captura, e um pouco mais exposto mostraria imediatamente o interior e queimaria em branco o externo, e um pouco menos exposto o externo ficaria bom de início, mas a cena interna seria só um preto. Nenhuma das opções usaria a real extensão do arquivo RAW.

Bem, a fotografia digital tem lá sua lógica, e a maioria não conhece a lógica. Isto não é ruim nem deprecia os fotógrafos, pois a boa fotografia não cabe em regras desse tipo. Tenho um amigo que é dono de um restaurante simples e que fotografa com o celular (bom celular, aliás), e as fotos dele são ótimas, embora ignore até como lidar com velocidade e abertura. Mas mesmo nada sendo obrigatório, este assunto passou pela minha cabeça nesses dias, vi haver algum interesse quando explicava, daí este artigo.

Anúncios

Written by Ivan de Almeida

9 de abril de 2017 às 1:26 pm

Publicado em Sem categoria

3 Respostas

Subscribe to comments with RSS.

  1. Ivan, queria entender melhor o trecho em que você comenta “Todas as sensibilidades dos ISOs atuais são mentiras.” Não entendi se a mentira está na câmera ou na conversão…

    Rodrigo Fernando Pereira

    9 de abril de 2017 at 1:37 pm

    • Rodrigo, caso eu pegue uma foto ISO 100 e uma ISO 400 lá da antiga 300D, elas se converterão no perfectRAW coerentemente com o ISO, isto é, compensando, digamos, na velocidade, ficarão com resultados muito iguais. Porém, com o mesmo programa convertendo RAW da Canon 5DII ou da Panasonic LX7 isso não ocorrerá. A conversão do RAW em ISO 400 ficará ficará escura comparada com a ISO 100 e necessitará que eu clareie a foto. O que aconteceu neste tempo foi o conversor fazer sua parte na luminosidade resultante, diferentemente do início quando a coisa era “verdadeira”. Não que o RAW de 400 seja um 100 renomeado, mas não é também um 400 de verdade. Um dia desses mostro em imagens, OK?

      Ivan de Almeida

      9 de abril de 2017 at 2:06 pm


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s