Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

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Seguindo soltamente uma ideia

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Seguindo soltamente uma ideia

Nós somos as nossas ideias, e conforme as reconhecemos temos uma pequena liberdade.

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Uma das coisas que para mim se tornaram claras na busca por linguagem fotográfica foi ser indispensável reconhecer em algumas fotos, mesmo quando toscas, mesmo quando ruins, um caminho interessante. Há, nos dias de hoje, uns três tipos de fotografia que são mais ou menos buscas minhas, não comuns. Uma foi gradualmente crescendo desde as primeiras fotos há cerca de nove anos atrás, outras vieram mais prontas e, de certa maneira, são tipos parentes daquele primeiro.

Não se trata de fazer fotografias só assim ou só assado. São ramos, são galhos da árvore maior. Não ganho dinheiro com fotografia, então, se pode perguntar: por que, Ivan, essa busca quase obsessiva?

Ora, responder isso não é fácil. Posso no máximo dizer que na fotografia entro por vezes em meio-transe, situação na qual o olho ali agarrado comporta-se diferentemente do olho na vida comum. Ele vê o que não vejo no dia a dia. Ele vê coisas que dependem da câmera para captura.

Fascina-me isso. É uma “viagem”, é deixar outro eu mesmo agir, é buscar o inútil, mas o grande brinquedo, o grande prazer de buscar imagens. E a fotografia, como a faço, não é uma busca de imagem específica, na verdade ela exige uma atenção à vida, não a faço em estúdio, não preparo nada, nada é feito a não ser enquadrar, compor, saber o que é o desejado. Mas esse saber não está pronto, é ali com o olho no visor ou no LCD nas câmeras pequenininhas em que algo ocorre, que minha mente viaja numa busca sem sentido prático algum, mas enorme sentido de viver, de perceber.

Fotografar para mim é parte do viver. Nem como hobby vejo isso, embora possa passar meses sem fazer uma só foto, ou ano, ou mesmo parar de fazer sem nenhuma dessas atitudes ser um aleijão. Porque o viver não é só isso, e isso é um jogo para esse vivo agora, um jogo do agora.

Num tempo quis algo da fotografia. Uma pequena fama, talvez. Felizmente isso foi se diluindo, ficando só o grande brinquedo, a grande busca dentro do sentido visual. Nós fazemos e nos compreendemos, se nisso prestarmos atenção.

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Written by Ivan de Almeida

14 de junho de 2013 at 11:05 pm

Prazer, aprendizado, fotografia

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Prazer, aprendizado, fotografia

Não somos o que nascemos. Somos o que aprendemos. Pouco é o aprendizado formal, e por isso chamamos de dom o que provém de nossa vida normal, de nosso aprendizado ambiental humano.

Ficou mais de ano no diretório. Vi pela primeira vez, a achei confusa. Vi anteontem e a achei estruturada, com a estrutura bastante articulada, cada canto demandado.

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Na verdade este texto é uma parte de um diálogo com amigos em um pequeno fórum. Na fotografia, em termos compositivos, de construção de mensagens, há por vezes muitas reações, como se tudo para o fotógrafo fosse “de nascimento”, “pura inspiração”, e esses por vezes sequer olham suas fotos muito ainda toscas desde quando começaram ou numca as relacionam com outras coisas que sabiam. Outros recusam um processo de aprendizado, não o recusam conscientemente , mas em mil maneiras de nunca cumpri-lo

Na faculdade de arquitetura, lá pelo iníco dos anos 70, cada tema, cada trabalho na cadeira Plástica 1 nós  alunos nos “rebelávamos” por ter de comprir algo, como se esse algo fosse uma limitação da nossa criatividade. Muitos anos depois sei que essa tarefa definida é um caminho de progresso, de inclusão de métodos e idéias formais, enquanto que meramente seguir a criatividade é menor, porque ali, naquela época, nada sequer havia em mim de desenvolvimento formal dela.

Assim é na fotografia. Quando na fotografia se pede alguma coisa a quem se está tentando ensinar, muitos gritam “mas isso é limitante!”. Ora, esse é o método, o que não implica em não prticá-lo divertindo-se.

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Na fotografia, a gente brinca e busca.  Toda criação visual é inseparável da brincadeira no sentido do envolvimento sensorial e de uma vontade quase afetiva em relação ao belo. E a grande graça é unir o brincar e o buscar, isto é, saber buscar na dose exata de isso ser atenção é delícia e, ao mesmo tempo, ser uma busca de descobertas, mas não uma coisa chata, monótona. Afinal, fazemos fotografia, de certa forma, rapidamente. Ontem peguei a câmera nova que chegara anteontem e fiz aqui em casa, usando a mesa bagunçada de centro, fotos com diagonais. Boas? Não, banais, sem assunto bom, mas eu mesmo me tratando de saúde não estou podendo nem sair até o outro lado da rua em um parque para fotografar. Mas é bobo, banal, é como uma brincadeira, não uma tarefa difícil e chata.

Quando a pessoa exige de si tudo ao mesmo tempo, aí não dá certo. Ela tem de fazer aquilo que para ela já é fácil enquanto treina o detalhe, o item, mas tudo isso mantendo a coisa no nível da brincadeira instigante, e não de uma obrigação chata. Ora meu Deus, se eu for ali no parque da frente faria 10 fotos com diagonais, talvez não 10 porque perderia a paciência, mas faria sem aborrecimento, brincando de fazer. É sério e nada sério ao mesmo tempo, o sério não pode tirar a coisa da esfera da brincadeira no bom sentido, porque a criatividade sempre tem algo a ver com a brincadeira, e sem ser brincadeira não há criatividade. Nas atividades em que há criatividade a obsessão é uma motivação do criador, mas o fulcro dessa obsessão é a brincadeira que o fez apaixonado pelo desejo de resultado. Uma coisa Dionisíaca, como se diz por aí, e não Apolínea, ou seja, mais para o prazer, para a brincadeira.

Quando falo disso, estou, digamos, propondo uma brincadeira que faz aprender. Todas as artes são assim, a bailarina aprende a bailar com muito esforço, mas aprende porque isso a diverte, a recompensa positivamente, dionisiacamente. Todos os que se dedicam a essas atividades devem ao mesmo tempo seguir a vontade dionisíaca, pois a seguindo as pequenas tentativas árduas, ou aparentemente árduas, não são obrigações, são temas, são coisas para mergulhar e gostar.

Não conseguir é frustrante, eu sei. Mas não conseguir provém de várias coisas… de uma rejeição ao tema, em nome de uma “liberdade” inexistente, de uma maneira de os exercícios-brincadeiras ver como trabalhos, de uma maneira de ver que ignorar que basta ir ali pertinho e fazer o “dever”, sem temas maiores. Basta entender o caminho. Essa rejeição é de quem toma a tarefa como Apolínea, coisa militar, obrigação sem graça. É só uma brincadeira… mas a pessoa sente-se afrontada por ela.

Nada ensina definitivamente a pessoa. O que ensina é ela ver como organizar visualmente uma fotografia pode ser muito melhor em termos de comunicação, em termos de estética. É ela ver que a estética não é espontânea, que todos os que se treinam em artes, faculdade de belas-artes, por exemplo, passam anos se acostumando, consciente ou inconscientemente, com a composição. A diferença entre o consciente e o inconsciente é somente que o consciente -saber o que está fazendo- amplia o campo, amplia as possibilidades, enquanto a mera cópia de esquemas inconsciente é limitante. E que é mais rápido, no campo da fotografia, e fácil, mostrar a alguém provindo de outra área a lógica implícita.

Tudo é uma brincadeira. Dionisíaca, como toda brincadeira. Mas é uma brincadeira que não é a coisa rasa, a preguiça, a crença no dom. É a brincadeira como aquela que deseja ser mais brincadeira, como o camarada que ganha uma caixa de Lego e logo deseja outra para poder brincar mais. Aprender em fotografia é isso, é ganhar uma caixa de lego e desejar outra caixa, outro aprendizado para poder brincar melhor.

Written by Ivan de Almeida

8 de dezembro de 2012 at 2:23 pm