Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

olhar, como se treina.

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O Olhar, como se treina.

Ivan de Almeida, julho de 2012

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O objeto? Ou o reflexo? Qual é o objeto desta foto?

Quando entrei no Jardim de Infância, alguém comentou eu ser ambidestro. Isso ouvido pelos então responsáveis por mim era ruim: eu deveria ser definido e definido no uso da mão direita, destro. Ensinar-me-iam, depois, a escrever, entre outras coisas, então a mão direita era a mais própria para ser ensinada, não por dom meu, mas porque o mundo estava preparado para a destreza. O mundo é assim orientado, os objetos são, em grande parte, feitos para destros. O que não se diz é que os objetos para destros multiplicam os destros. Fui aprendendo a escrever com a direita, a direita preponderou pelo hábito e muita coisa que pensamos em nós serem “de nascimento” são hábitos adquiridos muito cedo. Desenhei, escrevi, liguei e desliguei as coisas com a mão direita. Há muitos anos, entendendo como nós nos tornamos o que somos por camadas sobre camadas de treinamento, tantas que acreditamos serem as camadas mais antigas e profundas dons, características orgânicas de nascimento. Comecei a buscar em mim atos que contrariassem esse treinamento de vida exatamente para ver o quanto eram inatos, o quanto eram adquiridos. Mudei algumas coisas, embora não muito, pois mais queria viver com a certeza da opção do que treinar um corpo/mente pluri-capazes. Há mais ou menos uns 20 anos comecei a fazer a barba com a mão esquerda. Isto era simples, era um ato isolado, juntava atenção e perícia. Fazer com a mão esquerda não afetaria minha vida, mas me mostraria o grau de dependência verdadeiro relativo ao treinamento. Tornei-me plenamente hábil em fazer a barba com a mão esquerda. No início era lenta, era estranho fazer, exigia grande atenção, mas foi ficando solto, foi ficando natural de modo que hoje faço a barba com a mão esquerda todo dia, há quase 20 anos faço com a esquerda e na maior parte dos anos, tirando um breve início disso de menos de dois meses, faço tão naturalmente que nem penso nisso. Capricho na barba, não no método, que tornou-se natural. Faço a barba tomando banho, então não me vejo no espelho, faço a barba cegamente, só com consciência perceptiva e boa atenção. Todo dia. Todo dia sem nenhuma atenção especial pelo fato de ser desde então com a mão esquerda. Nesses meses, ficando em casa, por vezes vou à cozinha e lavo a louça, lavo o que lá estiver. Reformei a cozinha mas tive preguiça de instalar a máquina de lavar, foram meses sem ela funcionar, embora existente e no vão feito para ela. Há uns dois meses está funcionando, nós a ligamos ao tubo de saída e de entrada, enfim, é novinha embora já tenha um ano. É novinha e pouquíssimo usada -dois meses. Então, ao lavar talheres e pratos eu muitas vezes buscava ser artificialmente canhoto, igual fizera no fazer a barba. Não tive ainda disciplina para fazer disso o normal, mesmo porque são questões interessantíssimas e mais complexas, pois ao lavar louça uma a segura, outra passa nela a espuma de lavagem. É um jogo de atenção interessantíssimo inverter, pois inverte-se as duas, a função das duas mãos e é muito claro que não é um dom ser destro, é um treinamento. Mudando a função das mãos na lavagem de um talher (um segura escolhendo posição e a mudando, outro esfrega) são as duas mãos que precisam de novo treino, não é, como na barba, só a mão e o braço esquerdo. Pesquisar sobre a nossa vida nos hábitos motores. Parece que não, mas isso é buscar a verdadeira liberdade, pois a verdadeira liberdade é não ser escravo dos muitos treinamentos lá na base de tudo em nós. Na fotografia treina-se o olhar, o olhar fotográfico não é, o que tantos tolos acreditam, um dom. É algo aprendido. Aprendemos a perceber, aprendemos a ouvir música, aprendemos a estética. Atualmente tenho orbitado muito os reflexos e isso me fez observar sem parar os reflexos em latarias dos carros, que passei a vida sem reparar. O objetivo fotográfico está me reeducando perceptualmente, e isso é um jogo ótimo de jogar, é bom buscar, é bom conseguir, é bom olhar o que conseguimos como novas conquistas do ver. O objetivo fotográfico é o outro lado do objetivo de autoconhecimento, de desmonte do que parece natural para ver-se atrás dessa normalidade perceptiva e tirar daí uma estética fotográfica. Fui, agora há pouco, buscar o carro na revisão, numa concessionária… que delícia ver os reflexos daquele ambiente nas latarias dos carros lá parados!!!

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Written by Ivan de Almeida

3 de julho de 2013 às 6:04 pm

Publicado em Sem categoria

4 Respostas

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  1. Discordo de voce neste ultimo trecho meu caro Ivan, ””Na fotografia treina-se o olhar, o olhar fotográfico não é, o que tantos tolos acreditam, dom. É algo aprendido. Aprendemos a perceber, aprendemos a ouvir música, aprendemos a estética. ””” Sim o treino ajuda muito e com certeza evolui, mas a percepção é algo que esta dentro da pessoa, sensibilidade e outras tantas coisas, que não se aprende apenas praticando.

    Abdo Abdala

    3 de julho de 2013 at 6:09 pm

    • Abdo, caríssimo…

      Ao longo da minha vida, desde os vinte anos ou pouco mais, esse assunto me fascina. Mas não posso impor a ninguém minha visão da questão, posso só agradecer a manifestação mesmo de uma discordância, pois considero a coisa sincera é o caminho de cada um, mesmo quando discordância. Obrigado pelo comentário.

      Abraços

      Ivan de Almeida

      3 de julho de 2013 at 6:20 pm

  2. É possível ver que alguns aprendem mais rápido e melhor que outros. O que se chama de dom, pode ser apenas uma “arranjo cerebral” diferente. Algo meramente biológico e não sobrenatural.

    Achei interessante relatar uma experiência sobre a primeira parte do texto. Sou destro desde que me conheço por gente. Resolvi treinar a mão esquerda para escrever. Escrever normalmente pareceu um processo não natural. Porém, ao escrever da direita para a esquerda e com as letras espelhadas o processo se demonstrou divertido e lógico (talvez pela novidade). Probleminhas iniciais com o N e o S que insistiam em não sair espelhados.

    Guaracy Monteiro

    6 de julho de 2013 at 1:25 pm

    • Que interessante, você treinava espelhado… Não treinava escrever normalmente com a outra mão. Na verdade são 4 hipóteses, a hipótese de escrever normalmente com a esquerda e a hipótese de escrever da direita para a esquerda com ambas as mãos (duas hipóteses). Tudo isso nos leva ao encontro de nosso treinamento básico, pois é o treinamento básico que para nós parece ser nossa natureza.

      Mas olhando a família da minha mãe, vendo como as tias educam, noto muito o desenvolvimento de liberdades, há quase uma louvação disso, então lá na base, nos primeiros quase quatro anos, essa base que vira fundações para o resto, eu fui assim também criado. Ter chegado ao jardim de infância praticamente ambidestro mostra para mim que até ali não havia sido requerido de mim ser destro, nada requerido, e isso é típico dos Almeida meus parentes.

      Não vejo isso como biológico, mas como uma transmissão pessoa a pessoa, geração a geração que é tão no início da vida, até mesmo pela mão que a mãe usa para cuidar.

      Grande abraço, Guaracy. Obrigado pela observação, você é um ótimo papo, pois pensa solto também.

      Ivan

      Ivan de Almeida

      6 de julho de 2013 at 3:56 pm


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