Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

Dentro da Fotografia – o jogo da composição

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Dentro da Fotografia – o jogo da composição

Ivan de Almeida

6 de maio de 2013

   “É por isso que certos pensamentos não podem ser comunicados às crianças, mesmo que elas esejam familiarizadas com as palavras necessárias. Pode estar faltando o conceito adequadamente generalizado que, por si só, assegura o pleno entendimento.” Pensamento e Linguagem – L.S. Vigotski
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Fotografo há dezenas de anos, então vou deixar de lado todos os assuntos técnicos, mesmo porque é óbvio o conhecimento deles pela maioria dos leitores. Mas tenho  outro lado, que o que a fotografia tem e para ela é importantíssimo, e, de onde vim (da arquitetura na qual não mais trabalho e do estudo da percepção humana), há uma educação em parte do assunto, embora não tão profunda quanto deveria ser. Este lado é a composição.

A composição, quando lermos um livro do Le Corbusier (grande arquiteto francês, embora não fosse arquiteto –o irmão era-), importantíssimo na Arquitetura Moderna, leremos algo que é pouco dito e muito feito: a forma de proporcionalizar as construções, as fachadas, etc. Ele mostra fotografias de construções renascentistas e lá mostra a forma de obter proporção, isto é, as linhas organizadoras da posição das partes e seus tamanhos e proporções, que são linhas organizadoras ocultas mas existem. Mostra suas obras e como criou a ordem visual da fachada (a arquitetura dele ia muito além disso), isto é, o “desenho oculto” que organizava as janelas, os tamanhos, etc. Mostra nas obras dele, mostra nas obras renascentistas, mostra em obras gregas e em obras de civilizações anteriores à grega mais conhecida.

Ora, essa composição oculta, digamos assim, ao a olharmos nos deliciamos, sem entendermos a razão daquilo nos agradar tanto. Não é óbvio… Por que nos agrada? Esta é a resposta mais interessante… Uma composição nos agrada, falando da fotografia, porque embora na fotografia esteja tudo no papel, o olho não olha tudo de uma vez, e no mundo real, nos ambientes e construções, também não.  É uma coisa boba pouco percebida.

O olho consegue ver uma proporção de 5% do campo visual com nitidez, todo o resto do campo visual é embaçado. Mas nós não temos a impressão de ser assim, porque, aí vem a diferença nossa em relação à câmera, nosso olho muito rapidamente vai de parte em parte da cena voltando para esta parte o centro e a vê nítida, focaliza, e isso na nossa cabeça forma um conjunto. Mas, observe, movemos o olho, então é diferente da fotografia, pois ao movermos o olho movemos a direção da nossa “câmera interna”.

Mas, isto ainda é mais interessante, nosso olhar ao percorrer uma cena a percorre dentro de uma ordem de prioridade decorrente do que está sendo visto. Por isso ao ver algo nós olhamos para a coisa dentro de uma ordem de importância das coisas ali presentes e também de uma ordem formal. Essa ordem formal é importantíssima para o fotógrafo, o arquiteto, etc. A arrumação das coisas numa foto, digamos assim, nos induz a ver isso e não aquilo, nos induz a um ver o que é o objetivo da foto. E numa fachada de arquitetura idem, e numa decoração idem, e numa pintura idem. Há ênfase e há coisas não relevantes, e nosso olhar não vê as coisas irrelevantes. Não vê na visão normal, é claro, e se mandamos a pessoa examinar com cuidado tudo ela provavelmente verá muito mais coisas (não tudo).

Andamos na rua. Olhamos os carros, não olhamos os reflexos do mundo na lataria ou vidros dos carros. Ambos são visíveis, mas ignoramos uma das coisas visíveis porque nossa educação do olhar é uma. Uma ignora a outra.

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Somos fotógrafos. Então vemos coisas que os demais não veem, e devemos nos educar para vê-las. Ver o quê? Ora, ver não apenas as coisas retratadas mas sem consciência as proporções usadas, e essas proporções são, digamos, arrumações que jogam um bom jogo com os hábitos perceptuais, mesmo sendo esses hábitos pouco conhecidos.

Em termos tradicionais (na pintura, por exemplo), nos ensinamentos clássicos de composição, sendo que o Henri Cartier-Bresson foi assim educado por seus pais ligados à pintura de quadros, e ele, Bresson, estava sendo ensinado para pintura, as proporções clássicas todas são aprendidas. Número de Ouro, diagonais, terços, etc. etc. A fotografia do HCB é riquíssima nisso, é facilmente observável nisso. Evidentemente, para observar isso é preciso uma educação nisso.

Não significa um sofrimento enorme para a fotografia cumprir algo compositivo. Na medida em que nos educamos, vamos nos tornando habituais nisso e quase esquecendo que nos educamos, como se aquilo fosse natural, quando é educação estética. Aliás, a pior coisa da fotografia é a crença dos fotógrafos em “dom natural artístico”, pois isso os faz não estudarem os jogos de proporção, e por não estudarem ficam limitadíssimos. Acertam muitas, mas não acertam muitos tipos. No máximo desenvolvem um hábito em certos tipos.

Todos os grandes arquitetos estudaram isso. Todos os grandes pintores estudaram isso, muitos e muitos dos arquitetos mais conhecidos estudaram isso, mas é óbvio que ao vermos a obra ela não está ali com o método registrado. Mesmo na arquitetura aos olhos que não foram treinados para ver isso não veem, não percebem que isso existe ali. Acham só “bem composto”, ou “legal”, ou “fulano, você é artista”. Infelizmente as pessoas entendem artista como dom, e não como uma muito sutil educação sobre a percepção. O homem é complexo, então fazer arte não é só isso, isso é somado a outras tantas coisas, mas tudo é mutuamente definido, não é “isto ou aquilo”. No Rio de janeiro, por exemplo, há o Palácio Capanema, antigo Ministério da Educação quando o Rio era a capital. O prédio é belíssimo e é uma obra compositiva minuciosa, segue as idéias corbusianas incluindo nelas o requinte compositivo de forma absoluta. Mas o homem comum o acha um prédio lindo sem perceber o porquê. O homem comum não sabe ler as proporções, ela apenas acha uma delícia o belo que geram.

Bem… O estudo do proporcionamento é o item um, fácil de compreender. O estudo do jogo simbólico em face do proporcionamento é o item dois. Este é mais difícil de compreender em cada foto, mas um exemplo simples é um homem de perfil e uma casa. Caso o homem esteja proporcional à casa, nós lemos a foto como alguém que está entrando, saindo ou habitando aquilo. Caso o homem seja grande na fotografia e a casa pequena, aí vemos um homem que não pertence a ela, que está vendo de uma forma específica, etc. Ou seja, o significado é dado, em grande parte, por proporções e posições dentro da foto (falei de proporção, mas posição também, pois basta virar ao contrário o homem e ele muda de significado na foto).

Bem, tenho de encerrar esse papo… Foi feito para mostrar que entender a composição fotográfica é uma coisa maior. Que essa composição, minimamente e apenas abordando o principal, inclui proporção entre coisas, jogo de linhas, composição mesmo, como na arquitetura ou na pintura, assim como inclui o jogo de significados, que é a colocação das formas signficantes da fotografia, tamanhos, etc.

Toda fotografia é um discurso visual. Nenhuma fotografia é apenas aquela coisa lá fora que aparece na fotografia. A mais óbvia fotografia, a fachada de um palácio, um carro bonito, etc., joga o jogo compositivo, mesmo quando, como num palácio, o jogo é banal e comum.

Há outro jogo, este o importante para qualquer artista visual, que é aprender os jogos. O grande problema da fotografia é quando os fotógrafos acham que a composição boa provém do dom (embora possa provir de uma educação estética inconsciente) e por isso não estudam composição.

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18 Respostas

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  1. Ivan, o que acontece, voce anda muito sumido!!!

    Molina

    6 de maio de 2013 at 1:41 pm

    • Molina;

      Tive cancer no cérebro, fiz cirurgia em fim de agosto do ano passado. Ainda estou em tratamento quimioterápico, falta um, e isso desnorteia um pouco, me coloca pouco na escrita mais disciplinada, embora tenha grandes projetos pessoais para isso.

      Parece que tudo está dando certo, então voltarei ao mundo -risos.

      Abraços
      Ivan

      Ivan de Almeida

      6 de maio de 2013 at 1:50 pm

      • Pessoalmente espero que seja apenas mais uma brincadeira de sua parte, caso nao seja, desejo rápida recuperação, você esta precisando de alguma ajuda?
        Abraços
        Molina

        Molina

        6 de maio de 2013 at 1:58 pm

      • Não é brincadeira não, foi algo que me pegou de surpresa ano passado, sintomas que eram de percepção. Mas parece que deu tudo certo.
        Obrigado, Molina.
        Um grande abraço

        Ivan de Almeida

        6 de maio de 2013 at 4:08 pm

  2. Muito elucidativo este artigo. Apreciável e digno de ser amplamente divulgado, especialmente no meio fotográfico.

    Alberto Ellobo

    6 de maio de 2013 at 1:51 pm

    • Obrigado, Alberto.

      Tem mais coisa aí no blog, aliás é um blogo só de artigos como esse, não é de novidades.

      Um abraço
      ivan

      Ivan de Almeida

      6 de maio de 2013 at 4:07 pm

  3. Um muito obrigado Ivan. Que a recuperação seja rápida para que possa continuar com o seu bom trabalho.

    Um abraço,
    Carlos

    Carlos

    7 de maio de 2013 at 12:56 am

  4. ” O grande problema da fotografia é quando os fotógrafos acham que a composição boa provém do dom ” – Ivan de Almeida.

    E como tem gente que acredita nisto …

    peridapituba

    7 de maio de 2013 at 1:18 am

    • A coisa mais incrível no aprendizado, Peri, é que, dois segundos depois que aquele aprendizado se incorpora em nós, nós passamos a vivê-lo como se fosse nosso, nosso dom. Nós esquecemos o não saber, pois o que se aprendeu toma conta.

      Esta é a grande questão, é a razão pela qual o dom é tão acreditado por todos. Por todos de certa maneira até nos inclui, porque esse jogo humano é tão forte que nem podemos dizer que nada jogamos dele…

      Ivan de Almeida

      7 de maio de 2013 at 1:29 am

  5. Sei lá. Não querendo desmerecer o artigo nem o fato de teres escrito mas, após ler os comentários, o artigo deixou de ser tão importante para mim. Só desejo um rápido e duradouro reestabelecimento.

    Guaracy Monteiro

    7 de maio de 2013 at 6:00 am

    • Guaracy;
      Felizmente estou num final de tratamento, deve acabar em prática daqui a um mês, deve acabar em recuperação do tratamento daqui a dois meses, mais ou menos. Mas não parei de escrever desde que voltei para casa do hospital no início de setembro (iniciozinho). Aliás, é uma das boas formas de passar esse longo tempo.
      Obrigado, um grande abraço para você.

      Ivan de Almeida

      7 de maio de 2013 at 12:41 pm

  6. Ivan, Henri, por favor. “Henry” pega mal. [ ]s, ig

    Ignacio Aronovich

    9 de maio de 2013 at 4:21 am

    • Desejo-lhe uma rápida e completa recuperação! [ ]s, ig

      Ignacio Aronovich

      9 de maio de 2013 at 4:22 am

    • Obrigado pelo desejo de recuperação, Ignacio.

      Uma das sequelas evidentes do que tive, sequela que não desaparecerá totalmente, é que esqueço nomes, esqueço grafia de nomes. Pode ser nome de pessoa, pode ser nome de vinho, pode ser nome de rua. Não lembro, porque a parte afetada do cérebro é a responsável por isso. Percebi isso já antes da cirurgia, não conseguia dizer na rua tal fulano e beltrano se encontraram, pois não lembraria nomes. Nomes, não exatamente palavras, fatos, coisas, raciocínios. O Henry no lugar de Henri pode ser por isso.

      Saindo do hopital, em início de setembro, nem o nome da minha rua eu lembrava, esse voltei a lembrar devido ao alto contato emocional. Lembro dos nomes familiares, são afetivos e ocupam por isso outras áreas ou áreas maiores do cérebro. Mas não lembro de nomes de escritores, fotógrafos, etc, ou não detalhadamente. O Henri eu lembro às vezes e em outras não. Lendo seu nome lembro de você, mas se perguntarem seu nome daqui a 2 minutos o terei esquecido, embora não o esquecido como pessoa, reações, o que diz.

      Lastimo o artigo não ter lhe agradado, afinal sua resposta foi apenas uma crítica localizada a um analfabetismo meu. Mas não escrevo para ninguém especialmente, escrevo somente seguindo o meu pensamento sobre a coisa, pois escrever é a forma como faço isso desde sempre, escrever obriga a organizar o pensamento de forma maior. Antigamente, e fiz isso em relação a coisas escritas por fotógrafos de ótima fama, quando encontrava erros escrevia pessoalmente para o autor, evitando expô-lo publicamente, mas não posso exigir isso de você, é só uma maneira minha de ver as coisas nas minhas ações.

      Ivan de Almeida

      9 de maio de 2013 at 3:15 pm

  7. Ivan, curti o texto, a intenção, mas não considero a composição (ou a fotografia) um “jogo”, algo que para mim soa um tanto leviano ou me passa uma conotação de brincadeira. Levo mais a sério que um “jogo”, mas não discordo do restante. abs, perdoe a correção publica, da proxima vez o farei via email. [ ]s, cuide-se, ig

    Ignacio Aronovich

    9 de maio de 2013 at 7:17 pm

    • Talvez esteja considerando a idéia de jogo entendendo a palavra de forma negativa, futil, enquanto para mim jogo não é negativo nem futil, é saber o que as formas e proporções provocam e usá-las. É o mesmo jogo que é criação arquitetônica, pintura, etc.

      Abraços

      Ivan de Almeida

      9 de maio de 2013 at 7:54 pm

  8. Muito bom voltar a lê-lo. Excelente recuperação.
    Wellington Macedo

    Wellington Macedo

    12 de maio de 2013 at 12:55 am

    • Obrigado, Wellington.

      Um grande abraço
      Ivan

      Ivan de Almeida

      12 de maio de 2013 at 12:56 am


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