Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

Mentir, para contar a verdade

with 19 comments

Mentir, para contar a verdade

Si no è vero, è ben trovato (provérbio italiano)

Terminei de almoçar no restaurante Don Salmón, em Ensenada, localidade próxima ao Vulcão Osorno. O terreno do restaurante termina em uma praia feiosa de um lago muito bonito, tendo como fundo a silhueta do vulcão. Entre o restaurante a a praia, freqüentada nesse dia por banhistas recatados e famílias, um espaço confuso de areia cinza escura e uma feia construção, aparentemente um depósito. No meio disso tudo um monte de lenha arrumada, com suas tonalidades alegres de madeira. Deixara a família experimentando sobremesas para tentar, ali, uma ou duas fotografias.

Meu olhar procurou, procurou, mas o entorno, apesar do lago e do vulcão, ere feio e cinzento. Aproximei-me, então, do monte de lenha, fechei o diafragma além de f/16 para garantir grande Profundidade de Campo e fiz o enquadramento da  fotografia acima, só a lenha com seus tons amarelos-vermelhos e o vulcão.

Olhamos a foto pronta e associamos a neve e a lenha, e sabemos de pronto que é uma região fria e com vegetação de clima temperado. A fotografia nos informa sobre o ambiente de uma região, sem que essa região figure nela. A fotografia nos faz imaginar a natureza de lá como ela de fato é, evocando em nós lembranças complementares de ambientes vistos pessoalmente ou em outras fotografias vistas, nos faz evocar a vegetação mais áspera que a de cá, as paisagens.

No entanto, aquilo realmente. fotografado foi um monte de lenha com o vulcão ao fundo, nos fundos feios de um restaurante.

O que essa fotografia diz a quem não sabe disso, e mesmo para quem sabe, é mentira ou é verdade? A resposta é impossível, mas uma das muitas respostas possíveis é ter sido dita a verdade através de uma mentira, posto que o ato fotográfico sim si foi completa construção de narrativa, foi recortar de tal forma a “realidade” (seja lá o que essa palavra significa) que é impossível não notar a artificialidade deste recorte em relação à experiência de estar no local, quando sabemos como a foto foi feita, mas é igualmente difícil imaginá-la só por ver a fotografia. Contudo, a mensagem da fotografia é verdadeira. De fato lá é frio, de fato queima-se lenha nas lareiras, de fato a região tem esse tipo de rusticidade evocada e de fato há a onipresença do vulcão.

Tal construção da imagem não corresponde muito à crença corriqueira relativa ao realismo fotográfico. Lembra mais a ilustração, como aquelas produzidas por desenhistas em tribunais, nos julgamentos onde são proibidas fotografias. Nelas figura o rosto indicando culpa do acusado, a atenção do juiz e do júri, a expressividade de gestos do promotor. Essa ilustração não se refere a instante nenhum acontecido, mas a uma impressão do ambiente e do desenrolar do julgamento, sendo um relato do acontecimento muito mais pertinente do que um hipotético instantâneo fotográfico capturado ao acaso no qual os membros do júri mostrem sono, o promotor esteja ajeitando a gravata, o acusado indiferente.

Ora, podemos certamente dizer que tal instantâneo fotográfico corresponde a um instante de fato ocorrido, ou não ficaria registrado. E podemos dizer que o conjunto da ilustração desenhada nunca ocorreu. Contudo ambos transmitem mensagens e a ilustração pode dar idéia melhor do que ocorreu no tribunal do que o instantâneo fotográfico neutro hipotético. O instantâneo, verdadeiro sob o conceito daquela configuração ter de fato ocorrido, pode ser mais falso que a narrativa da ilustração, cuja conjuntura nunca ocorreu.

Provavelmente a maior falsidade da fotografia provém do isolamento, do recorte do assunto em relação ao ambiente. O mero recorte já é falso e isso é agravado pelos efeitos do achatamento ou da inclusão excessiva promovidas pelos comprimentos focais de tele ou grande angular.

Essa escolha entre aquilo que será fotografado e aquilo que não será, essa escolha de como algo será figurado, perto ou longe, achatado por uma tele ou profundo, iluminado ou escuro devido à exposição, juntado ou não a outro elemento pelo ângulo, essa escolha cria o sentido, a mensagem da imagem produzida.

Há algo muito artificial nisso, conquanto tornado hábito não seja sequer percebido por muitos fotógrafos, que acreditam estarem tão simplesmente registrando o mundo como é. E, raramente é percebido pelo observador. Esse compra a mensagem da narrativa reforçada pela mitologia da fotografia-verdade.

Essa artificialidade, essa desnaturação é a mentira da qual nos valemos para contar algo ao observador, a esse alguém a quem é negado o conhecimento das circunstâncias da fotografia. Mentimos, mesmo que para contar uma verdade irregistrável por uma hipotética captura neutra.

Anúncios

19 Respostas

Subscribe to comments with RSS.

  1. Gostei muit. Isso nos leva a pensar e rever o que foi mostrado de verdade até hoje e isso inclui “monstros” inatacados até hoje e meus ícones, Kapra e Bresson………. Parabens e obrigado por compartilhar este texto.

    Abrahão Pedro da Silva

    8 de fevereiro de 2012 at 4:46 am

    • Toda fotografia é assim, inclusive dos monstros sagrados a quem tanto admiramos. Quanto mais o fotógrafo se aprofunda, mais sua capacidade de mentir-narrar aumenta. É uma mentira benfazeja, não significa inventar, mas significa sim contar as coisas de modo que elas façam um sentido que só na foto faz.

      Obrigado e um grande abraço
      Ivan

      Ivan de Almeida

      8 de fevereiro de 2012 at 11:20 am

  2. Muito bem explicado, Ivan. Já pensei muito sobre isso. Há muito havia notado que certas fotos, por serem um recorte, passam a nós, que as fizemos, uma impressão que pode ser muito diferente de quem as observa. Quando fotografamos, estivemos lá, conhecemos o contexto no qual foi feito o recorte e essa impressão fica gravada. Então o recorte, facilmente nos remete novamente à lembrança. Ao observador neutro, resta apenas a foto e sua narrativa. E esta narrativa pode levar à imaginação de outra “realidade”, esta por vezes, inexistente. Esta sua foto por exemplo. Não imaginei que fosse feita no cenário descrito por você. Ao vê-la, imaginei o monte de lenha aos fundos de um chalé em estilo alpino, rodeado de um jardim bastante florido. Imagem esta, que me vem da lembrança de outras fotografias, feitas por um amigo há muitos anos, na mesma região. Nem sei se o chalé, as flores e o vulcão coexistiram em uma mesma foto ou se esta sua apenas juntou os retalhos de várias fotos em minha memória. Mas a mensagem transmitida é a mesma. Clima frio, lenha para aquecer, belas paisagens naturais e a onipresença do vulcão. A narrativa, bem construída, cumpre seu objetivo.

    Abraço!

    Paulo Barros

    8 de fevereiro de 2012 at 11:40 am

    • Obrigado, Paulo.

      O pior é que a mim mesmo, depois de feita e vista no computador, a foto convence quanto ao bucolismo, as paisagens, etc. Nem mesmo eu, autor, deixo de ser levado pela narrativa, a qual lembro perfeitamente de ter concebido lá, concebido de forma artificial em relação ao local específico. Talvez seja das fotos em que o fator de construção seja mais evidente entre as que fiz, e a foto motivou o artigo. Desde lá, ainda olhando a foto no LCD, venho elaborando esse artigo no pensamento, ontem escrevi.

      Nós interpretamos as imagens através de uma poética de evocações, nós juntamos o que estamos vendo com outras coisas que vimos antes, numa colagem simbólica-evocativa-poética. A própria poesia só funciona por isso, por essa nossa capacidade de acrescentar a algo dito uma evocação da memória a ela similar. Este é o jogo que jogamos quando compomos fotografias ou quando escrevemos poesia.

      O Gaston Bachelard tem uns textos em que fala disso, ou de algo próximo. Um deles chama-se a Poética do Espaço, outro A Poética do Fogo, no qual mostra como as imagens do fogo ou do espaço trazem evocações que “interpretam” o que vemos.

      Grande abraço,
      Ivan

      Ivan de Almeida

      8 de fevereiro de 2012 at 11:48 am

  3. Destaco duas partes do texto que acho importantes.

    1- …“realidade” (seja lá o que essa palavra significa)…
    Se não é possível definir “realidade”, como definir o contrário? Estou no mesmo local que estava ontem (e todos os outros dias) mas, mesmo para mim, a “realidade” é diferente. Seja a sensação térmica, iluminação, disposição de objetos, roupa, etc., etc.. Posso descrever o ambiente detalhadamente mas poderá/deverá ser percebido por outros de forma diferente. Uso óculos então, a realidade aparece para mim de formas diferente se estou com ou sem. Parece depender dos sentidos e aí é a ‘minha’ realidade. Se algum daltônico estiver comigo, a realidade será diferente para nós dois. Resumindo, acho que realidade não é algo estático. Muda com o tempo e com os olhos de quem vê. Qual a realidade de um cego? Ou de um surdo?

    2- …Contudo, a mensagem da fotografia é verdadeira…
    Acho que é isso o que importa. A mensagem que se transmite é verdadeira. Uma soma dos nossos sentidos mais os ‘sentidos’ da câmera e a sua capacidade de representação. Apenas uma das diversas realidades possíveis. Apenas um ponto de vista e não simplesmente uma mentira.

    Guaracy Monteiro

    8 de fevereiro de 2012 at 1:21 pm

    • Guaracy;

      No texto a palavra mentira está relativizada suficientemente. O que nela debato é exatamente o quanto a narrativa fotográfica é algo construído para passar determinada mensagem. Esta mensagem pode ser verdadeira, no sentido de “aquilo que é dito corresponde a uma descrição pertunente da coisa” mesmo quando essa construção é produndamente artificial na feitura. Toda narrativa depende muito mais do narrador do que de qualquer outra coisa.

      Grande abraço,
      Ivan

      Ivan de Almeida

      8 de fevereiro de 2012 at 3:19 pm

  4. Não concordo de todo! A foto em causa não é mentira nenhuma, pois é um congelamento da realidade daquele instante. Seria mentira se, por manipulação, fosse retirada a neve ao vulcão e, junto à lenha estivesse alguém em biquini e esta foto fosse datada. Seria, então, uma mentira para contar um mentira.
    No caso dos esboços, especulando o estado de espírito dos intervenientes, isso sim, é uma mentira, pois nem sequer é verdade que a especulação do retratista corresponda ao estado de espírito dos presentes esboçados. Contudo é uma especulação que se aceita como podendo ser certa, dado o ambiente do espaço.
    Numa foto, tirada naquele mesmo espaço, nunca será um mentira, pois retrata a realidade dum momento.
    Uma afirmação de que mentira é verdade é uma aberração por subversão dos próprios termos.

    ABÇS

    Luís Mourão

    12 de fevereiro de 2012 at 2:34 pm

    • Olá, Luis.

      Obrigado pelo comentário. Gostaria de acrescentar algumas coisas que talvez mituguem sua discordãncia, talvez não.

      A palavra mentira no artigo tem uma função retórica. Eu mesmo penso que verdade e mentira em uma narrativa, e fotografia é uma narrativa visual, anda juntas, inseparáveis. Mas a palavra mentira no artigo tem função retórica de incomodar o leitor e o deslocar, o colocar em diálogo, seja por concordãncia, seja por discordância, com as idéias expressas, mas discordando ou concordando estar, no debate, consciente da construção da narrativa fotográfica, que tem questões importantes mas que são escamoteadas pela maneira de pensar que considera a cãmera um objeto quase mágico, pois num mundo de incerteza, é o único objeto humano que sempre diria a verdade.

      Mentira, no caso, indica que toda narrativa é narrativa. E que fia-se numa narrativa na medida em que essa nos seduz pelo convencimento ou na medida em que acreditamos no narrador. A fotografia é uma espécie de narrado que tem muita fé pública, mais do que merece.

      Grande abraço,
      Ivan

      Ivan de Almeida

      12 de fevereiro de 2012 at 6:16 pm

  5. Continuo a não alterar o que disse acima. Pondo de lado a “Caverna de Platão”, na qual a verdade está sempre em causa, neste caso, a situação é bem mais terrena.
    Não consigo atribuir retórica ao pensamento do autor do artigo principal, pois o que está em causa é o que o observador vé numa imagem, não manipulada, registada por uma câmera.
    Na foto do vulcão, este e a lenha são estáticos, desprezando a mudança de estado, que neste caso é lenta. Claro que uma foto tirada a uma determinada hora não é precisamente igual a uma mesma foto tirada no mesmo local e mesmo ângulo, momentos depois, porque a atmosfera é dinâmica como o movimento do Sol.
    Porém, temos que ter em conta a imagem global que faz parte do nosso conhecimento, proveniente da nossa vivência ao longo da nossa vida.
    Insisto, se não houver qualquer manipulação, uma imagem é sempre uma realidade do MOMENTO, desprezando uma possível alteração da côr do céu ou mesmo da madeira, pois não é fácil uma câmera retratar rigorosamente aqueles pormenores. Contudo sobre estas mínimas diferenças não se pode afirmar que alteram absolutamente aquela realidade, pois já contamos com issso.
    Mentir para contar uma verdade, neste contexto, será sempre um produto, premeditadamente, manipulado.
    Um reporter de guerra, por exemplo, se for sério, está naquele ambiente para registar uma realidade para contar a verdade daquele preciso momento, mas, se estiver com uma missão de contra-informação, ele estará para mentir para veicular uma verdade inexistente e, neste caso a afirmação estará correcta.
    Em resumo, não aceito que se diga que uma imagem é uma mentira para contar uma verdade. Neste caso não é uma atitude séria.
    Qualquer imagem pura, exceptuando, os pormenores que podem estar alterados, mas que todos têm já essa percepção a priori, é sempre uma realidade desse momento.

    ABÇS

    Luíz Mourão

    13 de fevereiro de 2012 at 9:29 am

    • Luis, agradeço sua atenção ao artigo e opinião. Ao explicar o sentido da palavra mentira não buscava exatamente convencê-lo, mas posicionar o texto, somente.

      Uma questão pode tocar a algumas pessoas e a outras menos, de modo que é natural a recepção variada aos textos. A investigação desse ato desnaturante que é fotografar não visa estabelecer verdades e mentiras, coisa que eu mesmo considero vã, mas abrir a discussão da construção da mensagem fotográfica através das atitudes fotográficas.

      De todo modo, agradeço, e tenho por princípio aqui entender e acolher a dversidade dos comentários aos textos postados, pois isso enriquece os debates. Sua visão, sua, e é, nesse sentido, uma contribuição por oposição, e isso ajuda aos demais leitores a posicinarem-se.

      Obrigado,
      Ivan

      Ivan de Almeida

      13 de fevereiro de 2012 at 10:46 am

  6. Meu caro Ivan

    Gostei desta sua introdução, onde refere que pretendia posicionar o texto e ser uma questão que toca a uns e não a outros, ou seja ter uma profundidade de idestreza intelectual ou não. Pode ser, assumo até que não tenha sido sensível à natureza do pensamento do autor.

    Também lhe confesso que o verbo MENTIR me incomoda. Refiro-me às mentiras manipuladoras e não tanto às consideradas misericordiosas, de consequências pouco significativas. Se um doente em fase terminal poderá deixar-nos nos dias próximos, devemos-lhe dizer?

    Mesmo utilizando a aquela retórica eu reajo mal, embora tente compreender o ponto de vista do autor mas, neste caso, eu utilizaria uma outra frase titular como: ESFORÇAR PARA FALAR VERDADE.

    Gostaria de o remeter para uma foto ( a primeira) que tem muito a ver com o que estamos a opinar:

    http://digiforum.com.br/viewtopic.php?t=87408&postdays=0&postorder=asc&start=705

    Segundo um interveniente deste forum, ao fazer um zoom, concluíu ser falsa.

    A verdade que o fotógrafo quer veicular pela mentira, é apenas dele, porque entende que há certos actos que pressupõem milagres e que a maioria aceita como verdade indiscutível. Para mim isto é crime. Mesmo que consideremos que as implicações podem ser insignificantes, mas manipular os espíritos de outrém é profundamente negativo,

    Enfim. talvez fosse mais eficaz se o pudessos discutir este tipo de assunto numa mesa de café pois o assunto requeria outra fluidez de discussão que poderia significar que os nossos pontos de vista tivessem mais pontos comuns do que, por este processo parecem.

    ABÇS

    Luíz Mourão

    13 de fevereiro de 2012 at 12:25 pm

    • Luis, segui o link mas caí numa discussão de inúmeras páginas. por favor, poderia postar um link diretamente para a foto em questão e a discussão em questão?

      Ivan de Almeida

      13 de fevereiro de 2012 at 12:56 pm

      • Ivan, cinga-se à primeira foto e se interessar, às opiniões sobre
        ela, nessa página do forum.

        A foto retrata um baptizado. Analise-a com cuidado.

        ABÇS

        Luíz Mourão

        13 de fevereiro de 2012 at 1:56 pm

      • A análise do Paulo Machado é cabal. Água escorre para baixo, e no caso dela ser lançada na cabeça de um bebê, ela escorre um tanto através da cabeça antes de cair, o que não ocorre. Água não cai inclinada.

        Temos aí uma intenção dolosa de mentir através da manipulação, e, sem dúvida, isso está mais perto da pureza da palavra mentira, indiscutivelmente.

        Mas, essa é a análise mais simples. Verdade = o que havia, Mentira = o que não havia.

        Vamos além. Digamos que uma foto de um bebê sendo batizado mostrasse de fato a água fazendo uma Cruz e um rosário. Isso indicaria algo de santidade? Ora, associar formas com símbolos é atividade perceptiva normal, nós vemos rostos em borrões, vemos rostos em um conjunto de janelas siméticas e portas, etc. Isso acontece porque nossa percepção trabalha buscando dar significado ao mundo. Percepção é um processo de significação.

        Ora, assim nós damos significação mesmo às coisas que são fortuitas, que são acasos. Digamos que eu resolva fotografar 1000 batizados com câmera de alta velocidade de burst, fazendo, para cada batizado, 10 fotos. Por certo em algumas dessas 10.000 fotos a água caindo terá uma feição reconhecível. O rosto de Cristo, a Cruz, enfim, qualquer símbolo religioso. Mas não é a água quem faz isso, é nosso impulso de interpretação que faz isso. É nossa mente que posta uma significação a uma imagem, e não a imagem em si que tem essa significação.

        Nesse caso podemos dizer que seria verdade que a água escorreu assim, mas a interpetação disso como milagre é mentira, porque é uma aposição de significado a uma forma ocorrida por acaso. Nos, por ato mental, impomos o significado a uma forma ocasional.

        Tais processos perceptivos são muito estudados, não estou aqui dizendo novidade.

        Vamos além. No caso da minha foto do artigo, é verdade que a madeira o vulcão e a árvore estavam lá e cabiam na mesma visada. Sim, isso é verdade. Mas o significado da foto, o bucolismo, a impressão de ordem, isso é mentira, isso não havia, o lugar não era bonito nem ordenado nem nada, era um lugar meio sujo e feio. O significado da imagem somos nós que apostamos a ela. No caso, como tenho uma longa meditação sobre isso, fiz de propósito sabendo a mensagem que seria transmitida, e isso me divertiu muito, até.

        O paradoxal é que essa mensagem, mentirosa em relação ao contexto ambiental verdadeiro dos fundos do restaruante é verdadeira em relação ao tipo de vida da região. Por isso “mentir para contar a verdade”.

        Ora, não é preciso haver manipulação. Basta fazer coincidir coisas na fotografia ou separá-las que moldamos significados que não são os significados do ato. Lembra-se da foto do Obama no qual parecia estar olhando a bunda de uma moça? Quando se viu o filme de onde foi tirada se percebeu que na verdade foi um gesto para dar passagem a alguém, e por isso seu rosto ficou de lado. Ou seja, a interpretação da foto, o significado, era falso, embora o instante tivesse ocorriido. A foto fez a junção de duas coisas com nexo causal distinto para dar a impressão de que estavam relacionadas.

        Este é o sentido da palavra mentira no artigo.

        Abraços
        Ivan

        Ivan de Almeida

        13 de fevereiro de 2012 at 2:14 pm

  7. O principal no artigo do Ivan é se levar em conta a extração de um frame do mundo, que naquele local da imagem tem um significado, uma aparência, uma determinada visualização, mas que, após ser deslocada de sua ambientação real, possa adquirir uma outra conotação.
    Isto é assunto recorrente e prática comum em quem constrói narrativas e dispõe deste “artifício” para levar um entendimento que poderá, ou não, coincidir com a imagem real ou o local de onde a referida imagem foi capturada.
    Aqui está o cerne do artigo, a contextualização exata ou não de uma imagem segundo a vontade do autor.
    Aí que assume-se a expressão/palavra MENTIRA como parte integrante do diálogo proposto e como uma palavra flexiva para o texto e para o entendimento.
    Não se trata de afirmar que uma mentira é dita com intuito fora do real, que se “prega uma mentira” (como falamos aqui no Brasil) com intuito de deslocar o entendimento real de uma situação.
    Vale lembrar também que estamos lidando com a imagem congelada e não com uma situação textual, que seja, onde as conseqüências são o mal, o libidinoso, o desprezível, o vil.
    É uma situação apenas de narrativa fotográfica produzida por frames retirados de suas partes originais.
    O entendimento deste ponto é crucial para o encaminhamento das discussões.
    O desentendimento disto, por outro lado, produz desmembramentos que o texto não propõe e não pressupõe.

    peridapituba

    13 de fevereiro de 2012 at 3:46 pm

    • Peri, creio mesmo que o artigo coloca-se difícil exatamente quando a pessoa é menos consciente do desnaturamento que é o ato de recortar. Aí ela estranha mais quando falamos dele como um desnaturamento.

      Ivan de Almeida

      13 de fevereiro de 2012 at 7:41 pm

      • Exatamente.
        O interessante Ivan, é que muitas vezes o que é estranhamento em um primeiro momento pode se tornar costumaz quando as conversas/opiniões progridem.

        Um abraço.

        peridapituba

        13 de fevereiro de 2012 at 8:42 pm

  8. Tanto o desenvolvimento deste assunto, por parte de Mr Ivan e, complementarmente, por Mr Peri, merecem toda a minha aceitação e compreensão, pois dá para ver que não são superficialidades, já que ambos revelam estudo e reflexão sobre o mundo da fotografia. Todo o estudo aprofundado de qualquer matéria até, por vezes, assentam em escolas deste e outros ramos, onde até há uma terminologia instituída que depois se dessimina e que, também, para quem esteja fora do ambiente, pode provocar certas incompreensões dos termos.

    Na foto do vulcão e toros de madeira, embora me apercebesse do que foi descrito, embati no termo MENTIR, quando ateimei para mim mesmo que deveria ser mais OMITIR e, daí, a minha reacção, que pretendi ser construtiva.

    Já na foto do baptismo, aqui sim, MENTIR, é rigorosamente aplicada.

    De tudo isto ficou uma mais-valia para mim, pois aprendi mais alguma coisa sobre o modo de ver este mundo atractivo que é uma máquina fotográfica entre o Homem e a Natureza, esta, em todas as suas vertentes.

    ABÇS AOS DOIS E BOAS FOTOS

    Luíz Mourão

    13 de fevereiro de 2012 at 5:10 pm

    • Exato, Luiz.

      Todo assunto, para o compreendermos, temos mais ou menos de aceitar a significação que o autor dá a uma palavra. Eu sei que isso provocqa estranheza, mas essa estranheza melhora o debate. No caso, os comentários e respostas eu creio terem sido bons acréscimos ao artigo.

      Obrigado,
      Abraços

      Ivan de Almeida

      13 de fevereiro de 2012 at 7:39 pm


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s