Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

Círculo Vicioso (ou virtuoso, à escolha do freguês)

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Círculo Vicioso (ou virtuoso, à escolha do freguês)

Por vezes, a questão não é o que fazer, mas o que não fazer.

A maior parte do conteúdo fotográfico circulando na rede, em revistas ou em livros é de leitura fácil e direta. O Observador vê logo o que deve ver nas fotos, sem questões ou ambigüidades, e isso o satisfaz e o faz reconhecer haver ali algo que compreende, e, portanto, que é  certo e bom (pois não compreendendo não achará bom). Conscientemente ou inconscientemente, o gosto comum do público e os produtores de imagens entraram em uma relação simbiótica de confirmação mútua na medida em que as imagens fotográficas tornaram-se mais e mais comuns no ambiente social. Um confirma o gosto do outro, o outro confirma a qualidade da produção de um. Por isso tudo é tão parecido e há tão pouca coisa capaz de deslocar o observador para o estado de contemplação diferenciado e poético.

O incômodo, esse estado de não-acomodação tão característico, esse estado no qual o observador é retirado de sua estabilidade e lançado em uma inquietação poética provocada pela imagem, esse deve ser evitado na comunicação, pois, na velocidade em que as imagens se sucedem, o observador não pode dar a nenhuma mais que alguns instantes de contemplação. Ao invés de poética a imagem deve ser espetáculo e prosa: direta, previsível, de rápida assimilação. os produtores de imagens podem não assumir claramente para si mesmos que perseguem isso, mas, com um pouco de questionamento terminam revelando que é a aceitação pública a definidora do valor de sua produção, é o metro com que medem o valor do que fazem.

A proliferação avassaladora de imagens induz a isso, criando um ambiente em que cada imagem precisa competir com todas as outras pela fração de atenção do observador, volúvel e sufocado por informações. No passado, com menor quantidade de imagens no ambiente, cada imagem dispunha de mais tempo para ser interpretada.

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Nota: Esta postagem inaugura um formato mais curto e mais freqüente que coexistirá com os artigos maiores. Será criado para essas mensagens curtas um meu específico na lateral direita.

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5 Respostas

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  1. Necessariamente a proliferação dos meios de produção, que hoje são abundantes e de custo relativamente baixo, assim como a proliferação dos canais de comunicação voltados à internet, que é hoje a responsável direta pelos círculos sociais, tem induzido também a isto que você diz.

    Se temos hoje abundância de equipamentos e abundância de “amigos” virtuais, nada mais óbvio que a comunicação entre estes círculos sociais desfrutem de imagens, imagens que devem ser de fácil assimilação.

    E isto parece evoluir como uma bola de neve, criando camadas em cima de camadas e alicerçadas por conteúdo pífios na maior parte das vezes.

    Um ‘bulling’ internético a desafiar esta “facilidade” é motivo de chacota, e então, quem correrá este risco?

    É algo sem volta e engana-se quem acha que os canais mais freqüentados mudarão este panoramana.

    Ao contrário, canais mais direcionados e restritos podem ser uma espécie de oásis ao banal.

    Mas … não seria isto o anteposto ao proposto pela web?

    Abraços, Ivan.

    Peri.

    peridapituba

    10 de outubro de 2011 at 3:15 pm

    • Penso como você, Peri. Ao se navegar contrariamente a essa maré somos punidos por isso – muito bem descrito como um bullying internético, uma espécie de turba enfurecida e automaticamente alinhada na causa de defender a manutenção da roda girando.

      Sim, o caminho são os círculos restritos, mas quantos abdicarão da popularidade? Na medida em que se fez sinonímia entre qualidade e aceitação, que não são a mesma coisa, isso torna-se uma armadilha muito difícil de escapar.

      Ivan de Almeida

      10 de outubro de 2011 at 4:19 pm

      • É um Círculo Vicioso mesmo.

        Resta definir (será preciso ???) se do bem ou do mal.

        peridapituba

        10 de outubro de 2011 at 5:08 pm

  2. Quando entramos em qualquer site de fotografia, como o Flickr, por exemplo, temos acesso às miniaturas. As fotos que funcionam bem em miniatura são as mais valorizadas. Imagens mais complexas são preteridas, já que muitas vezes só atingirão seu potencial quando bem ampliadas e não funcionam numa tela — que dirá miniaturizada. Ou seja, há nessa história a influência das características dos meios e comunicação atual, que favorecem a leitura rápida e direta.

    A questão da confirmação do mediano entre os grupos já é bem sabida, acho até que já discutimos isso algumas vezes. Em certa medida isso é natural, da mesma forma em que não dá pra esperar que tudo seja poesia. O problema é quando esse fechamento leva a uma espécie de alienação, ou anestesiamento, como você fala, que além de confirmar o padrão, rejeita o diferente.

    Parece não haver muita saída: ou se opta pela aclamação grupal, fazendo mais do mesmo, ou percorre-se a trilha do “artista solitário”.

    Rodrigo

    12 de outubro de 2011 at 12:44 pm

    • Rodrigo, o que espanta, para mim, não é esse processo de confirmação, que acho natural, até. Mas, em outras épocas, os produtores não pretendiam o sucesso midiático dessa forma tão única como agora. Há 20 ou 30 anos atrás um produtor de obras visuais (não quero aqui entrar nessa questão de artista) afirmava tranquilamente sua produção sem pretender que fosse universalmente gostada, e, até ao contrário, não sê-lo era um sinal confirmador para si sob alguns aspectos.

      Sinceramente, não sei o que sobra, ou se sobra. Somos passageiros da época em que vivemos, então ela define as oportunidades e não nós.

      Um grande abraço, obrigado pelo comentário,
      Ivan

      Ivan de Almeida

      12 de outubro de 2011 at 1:08 pm


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