Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

Eu não quero ser fotógrafo.

with 28 comments

Eu não quero ser fotógrafo.

Ivan de Almeida

Por mais paradoxal que seja ler isso escrito em um blog sobre fotografia, isto é verdade. Querer ser fotógrafo é bastante diferente de querer produzir fotografias, de gostar de pensar sobre isso, de ter nisso um campo de experiências de vida e de experimentos mais ou menos lúdicos ou reveladores. Querer ser fotógrafo é querer fazer da fotografia uma atividade principal com tendência a única, fazer da fotografia a face de inserção da pessoa no mundo, e fazer da atividade de fotografar aquela com a qual se lida com a vida, e mais do que isso, que dirige a vida em muitos dos seus aspectos.

Falta-me, e sempre me faltou, a fé em algo, fé suficiente para dar-me a esse algo integralmente. E falta-me tal coisa em relação à fotografia também. Pô-la em primeiro lugar antes da vida livre é-me impossível.

Noto, também, que embora veja a fotografia como um campo extraordinariamente denso em questões, tais questões parecem-me interessantes sobretudo porque através delas compreendemos a vida. Não seriam tão interessantes apenas como questões fotográficas, pelo menos para mim. São questões que transcendem a fotografia e dizem respeito à forma como o mundo é declarado real para nós, sobre a natureza dessa declaração de realidade, sobre a descrição compartilhada pelos homens a respeito do que é a existência real, sobre como apreendemos as coisas visualmente. Na fotografia certos aspectos disso são mais facilmente observados – a entronização do espaço regular perspectivavel, por exemplo, objeto de outro artigo ( O Real DA Fotografia ).

Ao longo da vida vamos adquirindo habilidades, dependendo da vida que se levou, em muitas práticas diferentes. Coisas diversas, como montar a cavalo, desenhar, enfim, cada um desenvolve suas habilidades conforme sua história de vida. Mas em seu decorrer deixamos a maior parte das habilidades desenvolvidas de lado, não fazemos delas nossa face, nosso destino, nossa obrigação. Saber fazer é muito diferente de ter de fazer. Ninguém se obriga a fazer apenas porque sabe –seja lá em que grau que sabe.

Este ano se completam oito anos desde que, com minha aproximação com a fotografia digital, a fotografia mudou de patamar como prática para mim. Vindo desde a adolescência fotografando e conhecendo a técnica básica de fotometria, exposição, foco e uso de câmeras, vivi durante décadas como fotógrafo de um filme por mês, se tanto. Há oito anos, o contato com a fotografia digital trouxe-me uma volúpia de produzir imagens, de experimentar e de pesquisar. Não quero julgar aqui se o que produzi ou produzo tem alguma relevância, mesmo porque é questão que me interessa pouco, e discutir essa relevância é de alguma forma querer ser fotógrafo. Não é problema meu. Quem achar relevante, aproveite, quem não achar, ótimo também.

Agora, depois desses anos, não posso deixar de notar em mim uma imensa e enjoativa saturação. À fase da volúpia sucederam as fases de apuro, de pensamento, de compreensão dos aspectos sutis da fotografia, algumas dessas compreensões transcritas neste blog. Mas hoje se sobrepõe em minha impressão um soterramento pela avassaladora massa de imagens que recobre os ambientes em que vivemos, de tal modo avassaladora que meus olhos têm desejo de silêncio. Um amigo contou-me uma história, não sei a origem dela. Teria um apreciador de desenhos japoneses desses de poucos e rápidos traços ido à casa de um mestre desenhista interessado em conhecer sua obra. Em lá chegando, pediu para ver os desenhos e foi levado a uma sala onde havia um. Magnífico desenho. Parou em sua frente e o admirou durante certo tempo, e depois disse: “Posso ver os outros?”. Perplexo o autor retrucou, incrédulo: “Mas você consegue aproveitar duas obras de arte no mesmo dia?”. Esta é a situação em que me vejo e em que vejo nosso tempo: saturado de imagens a ponto de ter a fruição delas embotada.

Esta é a situação na qual me percebo e na qual percebo o fazer fotográfico em geral: Excessivo.

Este artigo não é absolutamente um anúncio de abandonar a prática da fotografia. Ela continua me interessando, mas hoje não me interessa mais como antes, por si só. Interessa-me sua aplicação na vida, interessa-me subordinada à vida. Há algumas coisas a fazer com ela, talvez até pareçam externamente interessantes fotograficamente, mas seu móvel não será a fotografia com a qual devem ser realizadas, mas seu sentido na vida.

A cobra troca de pele periodicamente para crescer.

Rio de Janeiro, 24 de abril de 2011

PS: ATENÇÃO!: Este é o último artigo deste blog que será divulgado em redes sociais, fóruns e listas de discussão. As publicações seguintes não receberão nenhuma divulgação, exceto através da lista-newsletter Fotografia em Palavras visto essa ter como inscritos pessoas que se inscreveram especificamente para receber os artigos ou suas notificações. Caso você tenha interesse em acompanhar as publicações futuras, há três formas: Inscrevendo o blog no RSS, entrando na newsleter Fotografia em Palavras ou simplesmente acessando diretamente o blog. O blog Fotografia em Palavras continuará a ser  atualizado durante o ano de 2011 com artigos e video-artigos em uma cadência aproximada de 20 dias de intervalo, mas a divulgação começa a ser incoerente com minha visão atual quanto à forma de oferecer idéias e debates nesse mundo excessivamente informado.

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Written by Ivan de Almeida

24 de abril de 2011 às 2:57 pm

28 Respostas

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  1. Parece ser natural, depois de algum tempo, fechar-se em si mesmo em relação à produção, considerando o oceano de imagens a que somos submetidos. No entanto, essa é uma questão pessoal que não deve ser entendida como regra ou modelo. O modelo está, talvez, um patamar acima: na reflexão sobre o fazer, e não simplesmente no fazer a ou b.

    Considero o rótulo fotógrafo, para aqueles que não o são profissionalmente, um tanto incômodo. Por um lado, parece usurpar a classificação daqueles que tem a fotografia como atividade principal; por outro, parece reducionista, como qualquer tipo de rótulo. Sou fotógrafo? Não. Também não sou outra coisa.

    Rodrigo

    24 de abril de 2011 at 3:19 pm

    • “Considero o rótulo fotógrafo, para aqueles que não o são profissionalmente, um tanto incômodo. Por um lado, parece usurpar a classificação daqueles que tem a fotografia como atividade principal; por outro, parece reducionista, como qualquer tipo de rótulo. Sou fotógrafo? Não. Também não sou outra coisa.”

      Exatamente, Roidrigo. As duas coisas.

      Por outro estou há algum tempo “bordejando a cerca” como dizia o Brizola. Estou de fato saturado de imagens, de novidades, etc. Não acho mais graça nas novidades.

      Sim, não pode ser regra nem método. É, como todo este blog é, fala na primeira pessoa do singular.

      Abraços

      Ivan de Almeida

      24 de abril de 2011 at 3:24 pm

  2. Ivan,

    A cobra troca de pele, mas continua sendo uma cobra. É hora de descer do muro e colocar a cara à tapa, suas elocubrações estão minando o seu potencial.

    abraços cordiais

    Renato

    Renatão

    24 de abril de 2011 at 3:33 pm

    • Obrigado, Renato, pelo comentário e por enxergar em mim algum potencial…

      Infelizmente, Deus dotou-me de certo radicalismo, um radicalismo que não parece radical porque não é um radicalismo de fazer, mas de não-fazer. E a vida tem me dado condições de praticá-lo.

      Não me vejo sobre muro algum, ao contrário, um artigo como esse é muito claro e muito “arriscado”, porque quase afronta um ideário comum entre os fotógrafos, e o público deste blog é de fotógrafos em sua maioria. Ao escrevê-lo não imagino de forma alguma uma recepção dele que o compreenda em sua natureza existencial, pois sei que ao tocar um ponto tão delicado o mais provável é serem levantadas reações ao dito.

      Um grande abraço,

      Ivan de Almeida

      24 de abril de 2011 at 3:43 pm

  3. Caríssimo Ivan,
    Não sei se você se recorda de mim, mas trocamos muitas figurinhas no newsgroup Fotobrasil e até alguns emails tem uns 5 ou 6 anos.
    Concordo completamente com sua visão. O mundo anda saturado de imagens. E também anda saturado de informação, que acaba gerando muita confusão quando há a falta de um filtro adequado pra se separar o joio do trigo. Infelizmente esse filtro cada um tem o seu e depende da sua experiência pessoal (ou da falta dela).
    Tenho acompanhado a discussão sobre o Instagram e seus discípulos (seriam discípulos de Steve Jobs também? rs!) e vejo que muito do que você fala no artigo tem uma relação direta com o assunto. Como ser totalmente livre em fotografia (e em arte por que não?) quando essa pretensa liberdade está presa a um aparelhinho e a um software que assumem o controle da situação?
    Parabéns pelo artigo e, se der, continue divulgado os que virão pelo twitter.
    Um forte abraço do amigo
    Rogério

    Rogerio Martins

    24 de abril de 2011 at 3:36 pm

    • Olá, Rogério;

      Não tem diretamente ligação com o debate do Instagram, talvez só alguma porque o debate me fez pensar-me. Mas tudo é relacionado, todas as nossas visões terminam sendo entrelaçadas, então não dá para dizer que não tenha nenhuma relação totalmente. Porém, se observar, os últimos artigos deste blog já apontam na direção deste, e este é quase um fechamento dos outros. Nesse sentido, não há causa e efeito estabelecida com o debate do Instagram, exceto relação de simultaneidade e no máximo de catalização.

      Como respondi ao Renato, sou condenado a certo radicalismo. Esse radicalismo consiste em não seguir com nada quando esse algo começa a incomodar-me. Isto é bom? Isto é ruim? Bem, hoje em dia penso que isso abre-me algumas possibilidades e fecha-me outras. E este blog é escrito assim. Justamente parei de escrever em fóruns para ter a total liberdade de encaminhar os assuntos como quisesse.

      Obrigado pela compreensão
      Grande abraço,
      Ivan

      Ivan de Almeida

      24 de abril de 2011 at 3:53 pm

  4. 2 considerações:

    1- Também não sou fotógrafo … e nem quero ser.
    2- Também tenho estado de saco cheio disto, apesar de ter tido um período anterior breve bem produtivo.

    Estar de ‘saco cheio’ não significa abandono, siginifica uma possível reclusão para novos pensamentos, talvez novos rumos.

    Belas palavas e um momento oportuno para mim.

    Abraços, Ivan.

    peridapituba

    24 de abril de 2011 at 5:20 pm

    • Um grande abraço, Peri.
      Obrigado.

      Ivan de Almeida

      24 de abril de 2011 at 5:21 pm

  5. Ivan, seus artigos e crônicas me trazem muita felicidade, felicidade em viver e fotografar sem os conflitos filosóficos que povoam sua mente.

    A obsessão pela técnica lhe tirou o que a fotografia tem de melhor, o prazer de fotografar, tente colocar conteudo em suas fotos (você fotografa muito mau) quem sabe assim voce se liberta de suas amarras filosóficas!
    Eu também nao quero ser fotografo, eu quero apenas fotografar!

    Abs

    Carlos

    Molina

    24 de abril de 2011 at 10:03 pm

    • Carlos, agradeço a sua franqueza e o seu comentário. O grande problema sempre é imaginarmos que os outros querem as mesmas coisas que queremos, querem fazer as mesmas coisas que queremos. Quando pensamos assim fica difícil entender aquilo dito por outros com outro modo de ver. Alguns comentários que recebo têm aparentemente esse viés. Mas isso não é um problema meu. Como sempre digo, este blog é escrito na primeira pessoa do singular. Nele dou conta de mim mesmo, se tanto. Aquilo que você chama de conflitos filosóficos é para mim uma grande diversão, eles são parte de uma interessante aventura intelectual.

      Muitas pessoas quando discordam do que escrevo dizem que fotografo mal. É algo com o que estou acostumado. Não me causa nenhum aborrecimento ler isso, ao contrário, me diverte um pouco. Podem de fato não gostar das minhas fotos, o que lhes é direito sagrado.

      Fotografe, seja feliz, não estou querendo criar regras para você. Meus textos dizem respeito ao meu percurso, aos meus interesses, apenas.

      Abraços,
      Ivan

      Ivan de Almeida

      24 de abril de 2011 at 10:18 pm

  6. Ivan;

    Eu, de minha parte, afirmo com orgulho:
    “SOU FOTÓGRAFO”.
    Integralmente.
    Há 40 anos.
    Profissionalmente, esteticamente e por puro prazer.
    Porém vejo agora que não existe em você a compulsão, o que de forma divertida chamei de “vício” em meu artigo do Istagram; é aquela força vital que move escultores, pintores, artistas e… Fotógrafos.
    Mas já sei, você me disse mais de uma vez não acreditar em força vital, e sim em treinamento, e entendo isso perfeitamente.
    Apesar de não concordar.
    Concordo também com alguns dos colegas acima; vi um começo de produção fotográfica aflorando, sendo pensada e discutida por você; vi um esboço de continuidade, e uma vontade discreta de exibi-la; e vi a filosofia, como um tsunami, atropelar tudo isso.
    Uma pena, pois eu fui um dos que, com sinceridade, acreditava naquele caminho fotográfico, e via nele uma forma de expressão pessoal bastante interessante. Retratos familiares e documentos da solidão.
    Mas você não quer ser fotógrafo, e isso imediatamente compromete o que foi feito, enfraquece a intenção. A sua resposta em meu post também me fez refletir, e lhe sou grato por isso, e por todas as conversas instigantes que temos tido.
    Para finalizar, *apesar* de desfrutar muito das conversas, reafirmo: estou muito mais interessado em fotografias.
    Como sempre estive.
    Faz parte de mim.

    Abraços,

    Clicio

    clicio

    24 de abril de 2011 at 11:54 pm

    • Clicio, todos temos varias nomeações, entre elas a que nos damos e as que o mundo nos dá. De minha parte, só posso deliberar sobre o nome com que me nomeio, não posso deliberar sobre o nome com que me nomeiam.

      O nome que me nomeio me guia, refere-se à minha busca, refere-se ao sentido dessa busca. O que me nomeiam… bem, esse varia, depende da pessoa que nomeia, de suas expectativas, mas ninguém tem mais do que apenas uma versão. Qual a versão que vale? Não sei, isso só se sabe no fim, e se Deus quiser estou longe dele.

      Sou eu quem lhe agradece muitíssimo as conversas e a atenção, mas vivo para cumprir meus próprios designios, não os desígnios alheios. Para seguir meus próprios caminhos, não aqueles imaginados por outras pessoas, por mais que as considere. Sei que é difícil aceitar que um caminho que prezamos muito não atraia outra pessoa, mas é assim.

      Tanto é verdade que outras pessoas não desejam ser como nós, como é verdade que não desejamos ser como outras pessoas.

      Você identificou muito bem essa postagem no blog ser um turning point, uma virada. É uma virada em vários sentidos, não apenas por explicitar que não quero ser fotógrafo, mas, também, por algo que é orgânico com a assunção anterior: a decisão de passar a postar neste blog sem divulgar as postagens.

      Ambas as decisões apontam em uma mesma direção. Ambas têm o mesmo sentido, e é o sentido que me atrai seguir.

      Entendo sua posição sobre a fotografia, faz sentido, é justa, mas não me cabe ter sobre ela qualquer opinião: é a sua maneira de viver e isso basta. Caso minha declaração de não querer ser fotógrafo ponha um ponto final ou diminua nossas conversas, vou lamentar, mas não é algo que dependa de mim. De minha parte sou sempre aberto a conversas com quem as buscar e com quem traga idéias, opiniões, não importa se concordantes ou discordantes das minhas.

      Um grande abraço,
      Ivan

      Ivan de Almeida

      25 de abril de 2011 at 12:34 am

  7. Olá Ivan,

    Entendo perfeitamente sua atitude, eu me encontro e encontrei em vários momentos dessa forma.
    Existem momentos que nosso ‘saco’ parece que enche, não é não gostar de fotografia, é saturação de informação.
    Mas isso tem ocorrido comigo nos ultimos 15 anos, desde que apareceu internet na minha vida, a quantidade de lixo que recebe de informação sem a menor importância é impressionante.
    Muitos se acham ‘Jesus Cristo’ depois da internet.
    Um outro bom exemplo é a musica, ””acabou””a produção é tão grande, que não temos tempo de ver o que é bom, a industria foi pro espaço, que era uma peneira e você ouvia e selecionava dentro de um universo muito menor.
    Hoje este universo é tão grande e tão extenso… que confunde … este exagero de informação não é nada inteligente.
    Mas fazer o que …. agora é salve quem puder.
    Algumas ‘bestas’ chamam isso de inclusão social ou digital…. rsrs
    Abraços,

    Abdo

    Abdo

    25 de abril de 2011 at 12:25 am

    • Risos.

      Tem esse lado citado por você. Como posso clamar pelo silêncio fazendo eu mesmo barulho?

      Claro que continuarei fotografando, mas o sentido disso mudará muito.

      Obrigado, Abdo, grande abraço.

      Ivan de Almeida

      25 de abril de 2011 at 12:36 am

  8. Eu só desejo felicidades nessa nova etapa.

    Guaracy Monteiro

    25 de abril de 2011 at 4:32 am

    • Obrigado, Gurarcy.

      Não sei se há alguma nova etapa, as coisas são assim mesmo e no texto até está dito que continuo fotografando normalmente e atualizando este blog.

      Grande abraço
      Ivan

      Ivan de Almeida

      25 de abril de 2011 at 11:40 am

  9. […] com o post do Clicio Barroso dia 22/04, ai o assunto após cometário derivou a postagem de Ivan de Almeida em seu Fotografia em palavras. Ai o Neto – diretor de arte e que a muito conhece a fotografia profissional como contratante […]

    • Pepe, só gostaria de ressaltar que o artigo nada tem a ver com o Instagram.
      Grande abraço,
      Ivan

      Ivan de Almeida

      25 de abril de 2011 at 12:48 pm

      • Nem o meu! Tudo tem a ver com liberdade de expressar, com liberdade de ser feliz, com liberdade de produzir, com liberdade de criticar, com liberdade de elogiar, etc. Não há um discurso e sim há produção, há experimentação, há erros, há acertos, há o sair da zona de conforto criada pelo continuísmos. Abs

        Pepe Mélega

        25 de abril de 2011 at 4:19 pm

      • Liberdade, caro Pepe, é uma coisa pessoal, não uma outorga. Nada dito por ninguém a muda nem importa. Nem é preciso falar dela, basta exercê-la.
        Grande abraço
        Ivan

        Ivan de Almeida

        25 de abril de 2011 at 5:10 pm

  10. Oi Ivan, quem fotografou com filme, e sentia a emoção de ver o seu filme revelado e a sensação de ter acertado na exposição, em uma ou duas fotos, era como se ganhassemos na loteria. tenho certeza que voce viveu isso, e é isso que tambem me faz falta, a exclusividade da imagem única que voce produziu. Hoje, a imagem “boa” e única, se dilui no meio de mais 500 que voce capturou junto. O capricho de não errar com filme não existe mais e nen aquela “emoção” de ver o acerto no negativo. Eu sou fotógrafo, vivo da minha fotografia, fotografo o que for preciso por força da profissão. Voce pode fotgrafar o que bem quiser e da forma como quiser, isso é só seu, por isso mesmo tem a obrigação de lhe dar prazer, senão seria burrice fazer por hobbi o que não lhe agrada.
    Obrigado pela atenção
    Abraços.

    Jorge Guill

    25 de abril de 2011 at 2:05 pm

    • Talvez, Jorge, o que o filme nos dava era pura e simplesmente a raridade. Quando fazíamos algo de que gostávamos, não apenas era notável para nós como diverso do que víamos nas mídias.

      Mas minha enunciação nesta postagem no blog tem sim algo a ver com o excesso de imagens, mas tem também algo a ver com um entendimento do que me cabe fazer fotografando. Acho que o primeiro comentário a esta postagem, feito pelo Rodrigo, diz bem a coisa.

      Sou eu quem lhe agradece o comentário, gentil e sereno.
      Grande abraço

      Ivan de Almeida

      25 de abril de 2011 at 4:47 pm

  11. Uma das coisas mais curiosas em fazer e manter um blog é verificar quais assuntos produzem maior audiência. Este está sendo um deles. Isto é muito curioso porque, em meu entendimento, o blog tem outros artigos com conteúdos e assuntos muito mais palpáveis, porém talvez menos atraentes.

    Este artigo e o “Desculpe meu amigo, a sua fotografia não é tão boa”, de 2009, ambos tiveram um surto grande de atenção por parte dos fotógrafos. O “sua fotografia não é tão boa” é ainda o artigo mais lido entre todos, responsável pela maior audiência mensal deste blog, aliás, em grande parte devida a ação espontânea do Clicio divulgá-lo na ocasião -que aqui agradeço. Mas me pergunto: Por quê? Por que esses artigos atraem? Por que um fotógrafo é atraído por um artigo que afirma que a sua fotografia não é tão boa, por exemplo?

    Ora, mesmo sem querer pego-me pensando que nesses artigos toco em um campo de incertezas e perplexidades dos fotógrafos e dos que fotografam, como eu. Tais coisas, geralmente ignoradas por um discurso diário triunfalista e de louvação, que se faz necessário para seguir em frente, não desaparecem devido a esse discurso; ficam lá, inquietando, vez por outra emergindo em pensamentos ou dúvidas ou apenas como um incômodo. É próprio do ser humano duvidar, é talvez sua mais sublime característica e a que o impede de tornar-se unidimensional.

    Por gozar de uma liberdade em relação à prática fotográfica que os fotógrafos em sua maioria não gozam, tanto por inserção material (tenho outra profissão) quanto de meta de vida, posso expressar certas idéias. O Aristóteles, em sua Poética, dizia que a função da Tragédia (tipo de espetáculo do teatro grego) era permitir ao espectador a vivência de situações existencialmente insuportáveis sem destruir-se nelas, como aconteceria se as vivesse realmente. Assim, talvez, sejam esses escritos que me surpreendem com sua popularidade: eles permitem a catarse de dúvidas íntimas gerais que não podem aflorar na vida normal. Por certo aspecto, ao escrever tal tipo de artigo sou um ator-personagem (afinal, somos todos personagens uns para os outros) vivendo explicitamente as dúvidas, e cada um lendo pode afirmar sua posição, negando o que escrevi, concordando, negando e concordando, mas uma ou outra coisa servindo para o tema ruminar em si, aflorar do subsolo reprimido pelo dia a dia.

    A vida é muito cheia de nuances, e viver é um problema delicioso. Ao escrever tais artigos ofereço publicamente meditações das dúvidas íntimas sobre esses assuntos e isso parece interessar às pessoas. Ao mesmo tempo, em termos de caminho pessoal, finco flâmulas indicadoras do meu caminho, fixo limites, estabeleço conclusões.

    Ivan de Almeida

    25 de abril de 2011 at 5:18 pm

  12. Caro Ivan , também não sou fotógrafo :),mas gosto de fotografar e isso só não me basta! Quero entender esse gostar! Quando descobri, não me lembro como, os seus artigos e seu blog posteriormente, me vi imprimindo suas idéias para uma leitura mais detalhada em um canto da sala com direito a observações escritas e grifos nas páginas que logo comecei a guardar e recomendar a leitura a amigos que também sendo ou não fotógrafos, gostam de fotografar e de saber porquê.A lucidez, sinceridade e polidez de seus artigos e opiniões , algo raro de se encontrar,independente de minha total concordância, me fizeram seu admirador.Torço para que essa sua renovação não nos afaste de suas idéias!Fotografar é muito bom, mas Pensar com P maiúsculo, também o é! Sinto não conhecê-lo pessoalmente!Obrigado meu caro!

    Hugo Berti Neto

    27 de abril de 2011 at 11:36 pm

    • Caríssimo Hugo;

      Agradeço imensamente o seu comentário, porque é ótimo saber estarmos sendo úteis a alguém. Você falou algo que é o fulcro desses artigos: a vontade, ou quase compulsão de entender o que se está fazendo ao fotografar. Quanto a este artigo, creio que ele tem o efeito de estabelecer uma zona cinzenta entre ser e não ser fotógrafo, não obstante fotografarmos, pensarmos sobre fotografia, escrevermos sobre fotografia. Esta zona cinzenta é uma zona de liberdade, porque nela não estamos presos a um rótulo, um título, uma meta definida. O artigo abre essa zona cinzenta, a faz permeável, a faz porosa entre o ser e o não ser. Creio ser um lugar adequado a um amador da fotografia.

      Este blog continuará, e não apenas continuará como tem uma inércia de continuidade para os próximos meses, Há temas não completados, há outros apenas indicados. Há os video artigos que são algo novo para mim e nos quais tenho pensado bastante. Também continuarei fotografando e há igualmente coisas que quero fazer com a fotografia. Mas não quero ser fotógrafo -risos.

      Um grande abraço,
      Ivan

      Ivan de Almeida

      28 de abril de 2011 at 12:14 am

  13. Uma nova página foi publicada neste blog, um texto por certo aspecto relacionado a este: https://fotografiaempalavras.wordpress.com/343-2/

    Ivan de Almeida

    28 de abril de 2011 at 11:38 pm

  14. Ivan;

    A liberdade de “ir e vir”… Sim, se até a própria liberdade nos é facultada a escolha, como controlar todo o resto.

    Entendo o seu ponto de vista, respeito e admiro a coragem de assumí-lo e escrever sobre ele. Se concordo, como você mesmo já citou, não vem ao caso.

    Uma certeza eu tenho, fotografo por amor, é minha válvula de escape. Me atenho aos aspectos técnicos mas também me divirto com isto… De certa forma também não quero ser fotógrafo de profissão mas…

    Abraços

    Jefferson

    Jefferson

    5 de maio de 2011 at 5:12 pm


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