Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

A Solidão Criativa na Fotografia

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A solidão criativa na fotografia.

Ivan de Almeida – outubro de 2010

Volta e meia escrevo aqui sobre os processos criativos, e meus escritos narram vivências ou meditações a partir de jogos criativos fotográficos e também de jogos criativos não fotográficos . Penso  ser válido, e penso ser válido porque o processo criativo é semelhante nos diversos campos quanto ao aspecto abordado neste artigo.

 

Foto 1 - 2003 Um jogo simples... Com uma câmera de 1.3mp e vontade de fotografar, por vezes ao anoitecer e em casa nada havia de fotografável. Bem, pannings da janela sempre são possíves, mas com ISO80 da câmera de então foi necessário usar longos tempos de exposição. Essas limitações começam, então, a serem as regras criativas, e a atitude de reconhecimento começa ao aceitar que pannings podem ser interessantes sem perfeita –e impossível- nitidez usando essas exposições de perto de meio segundo.

 

Criatividade é uma palavra difícil, porque, embora seja atividade humana comum, não é comumente desenvolvida. A grande maioria das pessoas não desenvolve durante sua vida atividades criativas por isso não ser um requisito para a vida social, então, para essas pessoas, o ato criativo não é compreendido como vivência própria, tornando-se assim nebuloso e quase mágico. A pessoa pouco ligada à criação atribui à criação alheia uma dimensão exagerada, uma qualidade de espírito invulgar, quase inumana. O criador é tido como gênio, iluminado, extraordinário. A criação é tomada como “inspiração”. Não tendo experimentado o processo criativo não sabe olhar para as origens da criação, para o jogo criativo, só olha para a criação pronta. O jogo criativo permanece oculto, as engrenagens da criação ficam invisíveis e só o resultado parece brilhar espontaneamente, magicamente.

A conseqüência disso é parecer a criação surgir de uma fonte impalpável, de uma inspiração do criador somente. Quanto mais afastada a pessoa das atividades criativas, mais ela acredita na inspiração, pois menos sabe como as coisas de fato acontecem.

Basicamente, criatividade é uma atividade intelectiva de associação de idéias como qualquer outra, podendo ser idéias-conceito, idéias visuais, idéias práticas, idéias científicas, etc. O pensamento é uma atividade associativa, ensinou-nos isso o Freud, e a criatividade um tipo dessas associações. O ato criativo baseia-se em permitir associações novas e em ter material para essas associações (ter esse material significa ter cultura e ter vivências suficientes no campo específico), e, em um segundo momento, saber reconhecer quais as associações são relevantes dentro da linha de trabalho empreendida.

 

Foto 2 - 2005 Usando longas exposições em pannings, logo alguns fenômenos começaram a aparecer. Um deles ocorria quando um veículo ultrapassava o outro com diferença de velocidade. A câmera capturava os dois veículos no mesmo lugar do frame, criando uma transparência. A regra necessária para fotografar no escuro agora passa a ser regra eletiva visando conseguir essa transparência e obter dramaticidade.

 

A geração de associações e o seu reconhecimento podem ser atividades individuais ou em grupo. A criação em grupo, chamada de tempestade cerebral, é mais fácil de examinar, porque ela exige a fala, e a fala é exteriorização das idéias. Coloquemos duas ou três pessoas em um debate livre para resolver um problema e liguemos um gravador. Finda a sessão, poderemos ouvir a gravação e ver como uma idéia puxa a outra, como alguém fala algo e isso faz outra pessoa externar uma nova associação em um processo que é um verdadeiro jogo, jogo no qual cada idéia cria as regras e as fundações para a idéia seguinte surgir. Isso pode revelar a estrutura do jogo, desmistificando-o. Há alguns amigos com os quais rapidamente estabeleço diálogos assim, sob variados temas. São conversas ricas, divertidas, e várias associações surgem como coisas engraçadas e depois são assumidas.

Mas na criação individual a estrutura do jogo permanece oculta, tudo se passa em silêncio externo, entre as orelhas da pessoa, embora ela siga também uma espécie de diálogo interno. Isso não pode ser gravado por um aparelho e assim não é examinável, a menos que o autor tenha suficiente atenção a si mesmo e tenha registrado, mesmo informalmente, os passos da criação em sua memória.

Há um truque simples para isso: o desmonte das associações. Ao termos uma idéia, podemos tentar lembra qual a idéia nos ocupava instantes antes, e identificando essa tentarmos ainda lembrar da anterior e da anterior, e assim por diante. Ao fazermos isso estaremos tornando o jogo das nossas associações consciente, e poderemos verificar que ele não é mágico, que há em cada idéia anterior um embrião da nova, que há um caminho de associação mapeável.

Todo processo criativo é um jogo. O que significa chamá-lo de jogo? Significa que, ao contrário do que se pensa –ele ser totalmente livre-, há uma moldura de regras, mesmo essas não sendo inflexíveis, e o processo consiste em jogar dentro dessas regras e igualmente desenvolver novas regras, mas as vir mudando não significa anomia, desregramento, pois a partir de total desregramento não existirá parâmetro nem para a associação, nem para o reconhecimento da associação.

Passando isso para a fotografia, imaginemos um processo no qual se faz uma primeira sessão de fotos de um tema, volta-se para examinar as fotos e nessas fotos percebe-se certas abordagens interessantes. No dia seguinte faz-se nova sessão, nessa já tentando seguir as abordagens identificadas antes como boas, e novamente ao voltar para casa mapeia-se nessa segunda sessão as partes de interesse. Duas ou três sessões depois da primeira, já se estará seguindo regras (rumos) que eram desconhecidas no início, regras criadas durante o processo. Regras criadas a partir do reconhecimento de focos de interesse das sessões anteriores.

Essa é a segunda questão da criação: o reconhecimento. Talvez aí esteja a parte mais crítica, especialmente crítica para os fotógrafos devido a um cacoete da prática fotográfica, a um “vício profissional” extensivo aos amadores. Reconhecimento é o ato pelo qual o criador identifica um fragmento significativo dentro de um processo, um fragmento com característica de novidade para ele. No momento do reconhecimento o criador separa uma determinada idéia, uma forma, um aspecto de uma criação sua e diz: “Isto me interessa!”. Na hora pode não saber porque aquilo interessa, mas mesmo assim precisa ter a coragem de destacar a coisa. O ato do reconhecimento equivale ao ato do garimpeiro ao identificar algo valioso no meio do cascalho, e esse algo valioso por vezes também parece cascalho.

Para os fotógrafos isto é muito difícil, porque a cultura social dos meios fotográficos não recebe bem a idéia bruta, só lida com a produção acabada. Isso impõe uma barreira psicológica muito séria à criação. Faz-se uma foto. Por vezes o criador sente nela haver algo interessante, mas… a foto em si não está boa. Não está perfeita, não está bem realizada. O fotógrafo, condicionado pelos códigos sociais da atividade, está acostumado a só reconhecer o bem feito, talvez porque a fotografia como arte técnica sublinhe tanto a parte técnica.

Dizendo em outras palavras, na fotografia não há croquis. Há fotos ruins e fotos boas, mas a cultura fotográfica não lida bem como fotos de desenvolvimento, fotos que são etapas intermediárias de um processo criativo. E sem tais fotos intermediárias, reduz-se muito a chance de associar e de reconhecer.

Comparo isso à minha formação de arquiteto e aos códigos sociais dessa formação. Arquitetos preferem ver croquis a verem projetos. Croquis são mais interessantes, mostram o essencial, mostram a idéia bruta. Projetos são chatos de ver. Muitas vezes a idéia bruta fica ocultada no projeto e revela-se fácil no croquis. E ninguém exige do croquis perfeição. Aliás, a imperfeição é parte da graça, a imperfeição mantém vivas e abertas as regras do jogo criativo.

Não havendo croquis em fotografia, sendo os fotógrafos arredios a mostrarem fotos-croquis, e quando o fazem são muito mal compreendidos, a criação fotográfica termina recaindo em uma recitação de truques. Truques têm limites, surpreendem da primeira vez vistos mas enjoam rapidamente. Fotógrafos são viciados em truques. Costumam chamar de criação o domínio de um truque novo.

 

Foto 3 – 2010 Às longas exposições foram se somando novas regras, cada uma deles descoberta, reconhecida ou experimentada a um tempo. O brilho da chuva no asfalto, notado como elemento plástico, criando preferência em fotografar em dias chuvosos. A hora de transição entre a iluminação do dia e a iluminação publica misturando as cores das luzes. Nesta houve ainda a experiência de usar comprimento focal curto, aumentando a área escorrida da fotografia.

 

As fotos apresentadas nesse artigo ilustram um jogo criativo que venho jogando há sete anos. Começa delineado pelas limitadas possibilidades de uma digicam precária, evolui a partir do reconhecimento de fenômenos interessantes derivados dessas limitações, e vai se desenvolvendo em inúmeras sessões nas quais o jogo vai ganhando flexibilidade e vão surgindo novas possibilidades. Ao longo desses sete anos mostrei na rede essas fotos e outras análogas, recebendo desde as primeiras inúmeros desencorajamentos e críticas negativas de um público ávido por pannings nítidos.

 

Foto 4 - 2010- Os desenvolvimentos sucessivos vão criando uma linguagem, a qual é tão somente o somatório das regras desenvolvidas, descobertas em uma ocasião e plataforma para a produção posterior.

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20 Respostas

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  1. Um famoso psicólogo disse que, destreinados, somos péssimos observadores de nós mesmos. Percebemos pouco daquilo que fazemos e, menos ainda, os motivos pelos quais fazemos o que fazemos. Acaba sendo preciso uma boa dose de treino para que possamos entender nossas motivações em qualquer atividade, especialmente numa área que parece tão nebulosa quanto a criatividade.

    Tanto o treino para a consciência de nossos atos quanto a compreensão da noção de processo – coisas que são desencorajadas por uma comunidade fotográfica que preza o imediatismo o resultado pronto – são importantes para desvendar o mito da criatividade como um acontecimento mágico.

    Rodrigo F. Pereira

    25 de outubro de 2010 at 8:14 am

    • Rodrigo,

      Também me incomoda o extinguir a mágica na fotografia; foi por ela, pela magia, que comecei minha carreira em 1972.
      Claro que a compreensão da noção de processo (assim como de química, física, arquitetura, anatomia) åcaba sendo fundamental para a evolução, mas nada, nada se compara ao momento mágico de ver uma imagem surgindo, do nada, e tomando conta do papel branco, no laboratório.
      ABraço,
      Clicio

      clicio

      25 de outubro de 2010 at 9:44 am

    • Tive um professor de desenho livre na faculdade (aliás, ótimos tempos, a turma saía para desenhar pelo Rio de janeiro, cada dia em um lugar). O nome dele era Stélio, já morreu, mas era um cara interessantíssimo. Uma vez um colega estava fazendo um desenho todo caprichado, e ele chegou para o cara e disse: “Olha, não tente fazer de todo desenho um “quadrinho”!”

      Quando temos de acertar sempre, quando não reconhecemos a pedra preciosa porque ela está suja, ou seja, não reconhecemos a boa sacação porque está em uma foto com defeitos, nosso processo de associação/reconhecimento fica muito travado.

      Obrigado pelo comentário, Rodrigo.
      Grande abraço

      Ivan de Almeida

      25 de outubro de 2010 at 10:42 am

  2. Caro Ivan;

    Mais uma vez o seu pragmatismo me deixa incomodado.
    Ser cartesiano a ponto de extinguir a possibilidade da criatividade ser como algo que simplesmente aconteça; assim como você o fez (com lógica irrefutável) quando falávamos de talento, me assusta, pois *não explica tudo*.
    Não explica Mozart, por exemplo.
    De qualquer forma, como sempre, obrigado pelas reflexões que nos causam seus bem-pensados textos!
    🙂
    Abraços,

    Clicio Barroso

    clicio

    25 de outubro de 2010 at 9:40 am

    • Clício, caríssimo…

      Um pouco de discordância dá alegria às conversas, e nós tmos aproveitado isso, porque não discordamos tanto, mas só suficientemente para um propor ao outro temas em uma linha diferente.

      Na minha forma de ver, não é uma visão desencantada essa do artigo. O fato da criatividade ser mapeável, isto é, ser coisa natural com causas e processo, não retira dela nem seu encanto, nem sua delícia -porque criar é delicioso.

      Ao contrário, penso que ao tornarmos mais consciente o processo criativo nós podemos jogar o jogo melhor, podemos brincar com ele.

      O texto fala um pouco dessa brincadeira. Por isso chamei de jogo. É um jogo, um jogo das nossas idéias, sejam idéias racionais, sejam idéias formais, sejam idéias que nem sequer são completamente tradutíveis em palavras, puras idéias visuais.

      Obrigado pelo comentário,
      Grande abraço
      Ivan

      Ivan de Almeida

      25 de outubro de 2010 at 11:03 am

    • Clício,

      Não quero entrar novamente na questão do talento, mas gostaria de discordar um pouco – e consequentemente concordar com o Ivan – de que algo necessita ser mágico ou inexplicável para que seja assombroso, ou encantador. Pelo contrário, a explicação, a compreensão, para mim, tornam um fenômeno ainda mais interessante.

      Rodrigo F. Pereira

      25 de outubro de 2010 at 11:11 am

  3. Ahhh..
    Esqueci!
    Ivan, a foto da motocicleta é absolutamente incrível! Quero vê-la grande, na parede!

    Abraços,
    Clicio

    clicio

    25 de outubro de 2010 at 9:45 am

    • A magia encanta, ela é quem seduz, recolhe os olhos incrédulos ao prazer de ver a foto, simplesmente… surgir
      Ivan, o jogo é o desafio, indiretamente para manter a magia viva… Buscar novos “encantos”… Mesmo com o tom mágico que o clicio cita, as magias podem ter regras, e se existem, podem ser trocadas, quebradas …
      Excelente texto, mais uma vez!
      Abraço

      Fred

      25 de outubro de 2010 at 10:05 am

      • Obrigado, Fred.

        Acho que todos nós que lidamos com criação nos inebriamos ao criarmos algo. Nesse sentido, nós experimentamos a criação como uma delícia tão grande que nos parece mágica, encantada.

        A vida é encantada, em minha opinião. Não sou daqueles que reduzem a vida à bioquímica. A bioquímica, contudo, é um dos aspectos da vida, e a vida é bioquímica. Ser bioquímica não tira o encantamento.

        O uso da palavra regra aqui deve ser entendida de forma abrandada, não como regras duras e inflexíveis, mas como um conjunto de condições e intenções que é conjugado.

        Lá em cima respondi ao Rodrigo citando um episódio da Faculdade de Arquitetura. Cito outro, então…

        Alunos, todos nós passamos o curso reclamando da caretice dos temas e dizendo que queríamos liberdade. Todo tema de trabalho a nós passado nos parecia limitante, parecia podar nossa criatividade.

        Um dia, em uma matéria importante, um grupo de nós conseguiu que fosse adotado “Tema Livre”. Sabe o que aconteceu? As pessoas não sabiam o que fazer. Eu aproveitei esse tema livre porque tinha um caminho já definido, mas a falta de um regramento, a falta de condições externas deixou as pessoas totalmente perdidas.

        Então é necessário um diálogo entre condicionantes e derivações. E as derivações de hoje são as novas condicionantes de amanhã.

        Obrigado pelo comentário,
        Abraço

        Ivan de Almeida

        25 de outubro de 2010 at 11:11 am

    • Ficou bacaninha a moto, não foi? E ela parte de uma escolha “errada”, qual seja, fazer panning com distãncia focal curta. Esse é o jogo do reconhecimento do qual falo no texto.

      Obrigadão, Clicio.

      Ivan de Almeida

      25 de outubro de 2010 at 11:04 am

  4. […] This post was mentioned on Twitter by clicio barroso filho, Frederico Motta and Jeuhen, Associação Fototech. Associação Fototech said: RT @clicio: A solidão criativa: polêmico post de @ivan_de_almeida em seu blog, "fotografia em palavras":: http://bit.ly/bCYhhG […]

  5. Ivan,

    Ótimo texto! Me fez refletir muito.
    Enquanto lia, lembrei deste vídeo > http://www.youtube.com/watch?v=0c2pEILXayk . Se possível, me diga se vê relação com seu texto.

    Um mágico ilusionista nada mais faz do que truques. Truques que ele estudou, que desenvolveu e que aperfeiçoou, ou seja, existiu um processo criativo. Nem por isso, a mágica deixa de existir para ele. Os ilusionistas têm que acreditar em suas mágicas mesmo tendo consciência de todo o processo. Só assim ele consegue convencer e encantar outras pessoas. E mesmo quando eu próprio vejo uma mágica da qual conheço o truque, aquilo, inexplicavelmente, ainda me fascina. Acredito que com a fotografia não seja muito diferente.

    Abraço

    Tiago Rods

    25 de outubro de 2010 at 12:39 pm

    • Sensacional o video do HCB falando e principalmente ver os contatos onde várias vezes aparece a mesma cena, igualzinho cada um de nós faz.

      Quanto ao assunto, é preciso distinguir entre a narrativa do Bresson, uma narrativa de dentro de seu próprio jogo, e as determinações ocultas do jogo dele. Tais determinações existem, ou sua fotografia não seria tão característica. Mas ele joga o jogo intuitivamente, depois, e isso deixa bem claro, RECONHECE o reultado. Esse é o sistema: joga-se (com regras, métodos, rumos ou como se queira chamar) e depois se reconhece o resultado. Não é preciso que ao jogar se tenha total clareza quanto aos rumos seguidos, embora seja um insumo importante a meditação sobre isso ao longo do tempo.

      Obrigado.
      Grande abraço

      Ivan de Almeida

      25 de outubro de 2010 at 12:56 pm

  6. Puxa! você realmente deveria ESCREVER mais… ou melhor publicar mais o que escreve! rs

    Referencias, no fim a vida é um jogo de quais referencias você consegue usar, sem que ninguém se aperceba. Acho que isso tirou um pouco do tesão da fotografia para mim, mas lendo seu artigo comecei a repensar essa idéia, do uso de referencial e referencias.
    É bem verdade não se apreciar os processos intermediários na fotografia. Como gosto de desenhar, sempre preferi ver os “rascunhos” dos quadros que apreciava, muitos são melhores que os próprios quadros, vide Degas, mas fotograficamente realmente é difícil se aperceber disso, até por uma questão que citaram antes, nosso mundo, principalmente na tocante a fotografia, é imediatista.
    Mas sabe, para “a solidão criativa”, também há outro jogo além da criação, o jogo com o expectador, quando você deixa explicita a referencia, faz o me descubra. Acho fantástico quando identifico a releitura do que é proposto, porque então é como se houvesse uma notinha na obra. Mas as vezes para quem faz, é um pouco frustrante também ver que quase ninguém se apercebe de qual referencia está se falando.
    Realmente não precisamos sempre saber com que regra jogamos, mas só é possível modificá-las na medida em que as identificamos. Talvez esse seja o grande lance em descobrir o próprio processo criativo. Poder sair dele para outro lugar, e poder tornar a ele em qualquer circunstancia, uma professora de desenho me disse uma vez, que a maior parte do que admiramos nas obras de alguns pintores são os seus vícios, o estilo na verdade, é uma espécie de vicio ao qual o autor está atrelado propositadamente ou não.
    A questão da liberdade é triste, mas fatídica, ainda o é assim, faculdades que adotam a liberdade a todo custo, acabam por destruir a formação dos próprios alunos, porque a maioria não está pronta para definir seu rumo. É preciso que haja liberdade sim, mas coerente ao desenvolvimento. Às vezes gosto de estender esse pensamento a condição humana, e penso se não agimos assim também com relação ao livre arbítrio, não sabemos muito bem como usarmos dele, mas estou indo longe…

    Gosto do movimento explicito nas suas fotografias, movimento é vida, elas passam isso, vida. Mas em outro aspecto, as cores me incomodam, pura questão de gosto obvio, sinto um, qual é o termo, saturado? Não sei, mas que é decorrente do seu processo criativo, o fotografar a noite traz a tona essas cores, minha retina as estranham num primeiro momento. E a descoberta plástica da chuva é fantástica não! Uau, senti a chuva! Descobri a chuva agora outra vez.
    Ótimas reflexões!
    Uma caixinha de bombons para ser saboreada por meses.

    Priscila MOnteiro

    26 de outubro de 2010 at 2:27 pm

    • Obrigado, Priscila.

      Mas escrever dá um trabalhinho -risos.

      Pretendo fazer alguns artigos continuando esse assunto, provavelmente um sobre fotografia autoral.

      Ivan de Almeida

      26 de outubro de 2010 at 4:54 pm

  7. Ser o último a comentar tira um tanto do que se há…

    Que estão instigantes o texto e as imagens(e comentários) sem sombra de dúvida.

    Não sei se o acompanho há 7 anos, mas boa parte desse tempo. Você sabe que sempre gostei das suas brincadeiras sérias com a imagem e com as palavras.

    “…e o processo consiste em jogar dentro dessas regras e igualmente desenvolver novas regras, mas as vir mudando não significa anomia, desregramento, pois a partir de total desregramento não existirá parâmetro nem para a associação, nem para o reconhecimento da associação.”

    Esse texto me fez cair um tanto de fichas…

    E me deixou pensando se realmente existe em algum momento essa total “falta de parâmetro” e se é possível criar algo tão novo que não possa ser reconhecido pela audiência… pois se tem matéria, cor e forma nos encarregamos do resto.

    Rejeitado sim… é possível… aliás é a partir da rejeição que começa a abordagem da arte contemporânea que se inspira na necessidade de chocar o público de alguma forma.

    Mas não reconhecido mesmo somente encontro a arte de quem faz da não-expressão artística uma arte de protesto, pois nesse tipo de arte não há suporte ou matéria e nem se saba da existência do artista.

    Abraço

    rodrigovr

    29 de outubro de 2010 at 2:11 am

    • Está sumido do Multipy, Rodrigo… nunca mais o vi lá.

      Bom, espero que você não seja o último a comentar… rs

      Creio que nem na arte contemporânea nem em lugar nenhum se joga sem regras. São regras diferentes, mas são regras. O choque torna-se esperado, já se sabe qual tipo de choque virá.

      De modo geral, pegue um criador de pirmeira como o Sérgio Camargo, escultor… ele cria dentro de um jogo dele, que tem uma moldura definida por ele de onde ele vai derivando mais e mais, fugindo e ao mesmo tempo ficando.

      Ivan de Almeida

      29 de outubro de 2010 at 2:32 am

      • Foi o que eu disse… sempre tem algum parâmetro

        Hoje parei tudo para ver um pouco meu saudoso multiply e me deparei com esse seu ensaio. Acho que comentei um tanto por lá agora a noite…

        Meus projetos andam se acumulando…

        rodrigovr

        29 de outubro de 2010 at 2:50 am

  8. Caro Ivan:

    Você fala em matar o blog. Dê um tempo, só isso. Suas reflexões sobre a criação são muito boas. São generosas no conhecimento e pedagógicas na compreensão. Você não escreve para si, escreve para quem quer ler, refletir, tentar, imitar ou procurar um caminho. Em todo processo criativo existem as barreiras naturais do conservadorismo. Criar precisa ter coragem e isso voce tem e transmite com conhecimento. Ler seu blog é muito bom!

    Abraços do amigo.

    Paulo Queiroz

    29 de outubro de 2010 at 7:25 pm

    • Paulo;

      Não vou matar o blog, ele vai continuar aí. O que acontecerá, provavelmente, é que ele estará terminado para mim, levei a compreensão das coisas até onde precisava para responder às minhas próprias questões, e aí provavelmente sentirei menos impulso mpara escrever -já venho sentindo.

      Agradeço muito sua visão sobre este blog e sobre meus escritos. Acho que, depois de publicar os dois próximos artigos anunciados, haverá ainda publicações, pretendo fazer um índice analítico costurando os artigos em uma ordem lógica, por exemplo, e talvez venha a postar outras coisas. Mas já não considerarei o blog uma etapa em cumprimento, mas sim cumprida.

      Ano que vem pretendo me dedicar a fazer cópias e a tentar dar a essas cópias curso público. O blog me trouxe até aqui, e compreendi, em parte através dele, o que devo fazer pelo menos no que se refere à obra, embora continue sem saber o que fazer para dar curso público ao meu trabalho fotográfico.

      Um grande e amigo abraço,
      Ivan

      Ivan de Almeida

      29 de outubro de 2010 at 7:47 pm


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