Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

Olhar Fotográfico: O que é isso?

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Olhar Fotográfico: o que é isto?

Ivan de Almeida – setembro de 2007-maio 2010 (revisão e publicação)
Republicação de artigo antes distribuído pela newsletter Fotografia em Palavras, com pequena revisão.

De conversa em conversa, os assuntos vão surgindo. Conversando com um amigo fui procurar uma imagem da escultura do Henry Moore chamada O Rei e a Rainha Sentados que vi aqui no Rio no Paço Imperial. Procurando, caí em um artigo do Artur Rozestraten no site Vitruvius sobre o desenho e nesse artigo há um comentário sobre coisas ditas pelo Henry Moore atribuindo ao ato de desenhar o condão de romper a passividade do olhar, sua acomodação.

Que maneira interessante de dizer: o desenho, e quem desenha sabe disso, é um processo analítico tanto quanto uma habilidade manual. Desenha-se pensando, então é um olhar ativo e não acomodado, é um olhar instrumentalizado e não um olhar acomodado.

Sempre encontrei muitas semelhanças entre desenhar e fotografar, e ao ler esse artigo ele deu conta de algo que eu percebia, mas nunca definira ou delimitara: que ao fotografar é exatamente isso o que acontece: o abandono do olhar sem ver, do olhar utilitário e automático por nós usado para nos movermos e atuarmos no mundo. Fotografar também impõe um olhar analítico, um olhar selecionador, um olhar julgador e não um olhar distraído.

Desenho desde menino. Fotografo desde adolescente. Quem desenha conhece bem o fenômeno de errar as proporções da coisa desenhada. Qual a razão para isso? Uma das razões é o olhar não estar sendo usado analiticamente, e o desenho segue uma declaração interna do que seja o objeto, ao invés de seguir de fato a forma do objeto. A falta de análise, quando desenhamos algo que está na nossa frente, é a verdadeira responsável pelos erros de proporção. Não é errado dizer: aprender a desenhar é aprender a analisar as formas.

Quando o desenho é ensinado sistematicamente a alguém, grande parte do ensinamento consiste em processos de análise, em métodos para avaliar as medidas relativas de alguma coisa como está sendo por nós vista, métodos de analisar as inclinações das linhas dos objetos, métodos de decompor um objeto em formas mais simples. Nos últimos dez ou quinze anos algumas técnicas novas foram usadas para evitar o olhar preguiçoso e forçar a análise, e essas técnicas são chamadas “desenhar com o lado direito do cérebro”. Uma delas técnicas consiste em colocar um objeto de cabeça para baixo para ser desenhado, pois ao fazer isso o desenhista não pode apoiar-se na representação convencional do objeto, na declaração mental do que ele seja, e é obrigado a realizar um esforço analítico.

E na fotografia? A mesma coisa acontece na fotografia, mas fica um pouco ocultada pelo fato da câmera “desenhar bem” naturalmente. De fato, qualquer fotografia feita em modo automático, por exemplo, apresenta um desenho convincente do objeto fotografado, correta sob o ponto de vista da representação convencional. Enquanto no desenho a disciplina do desenhista, o rigor de sua análise determinam a correção da representação, na fotografia a correção da representação é garantida desde sempre,  é quase a plataforma mínima da fotografia.

Mas a coisa ressurge com outro nome. Os fotógrafos criaram um conceito mais ou menos impreciso e o nomearam “Olhar Fotográfico”. O nome é muito bom, mas a compreensão do que seja nem tanto. Esse olhar fotográfico é suposto pelos fotógrafos como uma espécie de dom ou de talento, mais ou menos desenvolvível com a prática, mas sendo, aparentemente, uma instância distinta dos ensinamentos de técnica operativa da câmera fotográfica e da técnica de composição. Responderia pela “arte da fotografia”. Esse olhar fotográfico imaginado seria, para os que pensam assim, algo capaz de superar totalmente a técnica compositiva (vista como uma muleta para quem não tem o olhar fotográfico) e algo apenas instrumentalizado pela técnica operativa, essa um saber inerte, passivo, sem capacidade de criar lógicas visuais mas tão somente servir a esse olhar-dom.

O bom nome, como veremos mais tarde, termina assim sendo um biombo a ocultar as questões verdadeiras, quais sejam: o relacionamento das instâncias técnicas com o ato fotográfico e, principalmente, a educação do fotógrafo para superar a preguiça do olhar. Pois é como se o tal Olhar Fotográfico fosse inato ou algo da personalidade e destacado da prática da fotografia, algo pessoal que, de repente, havendo uma câmera e uma técnica, aflorasse, mas sempre estando latente e pronto antes mesmo da experiência fotográfica. É assim, aliás o pensamento majoritário sobre as artes, algo da esfera do dom e não da técnica ou do trabalho. Algo que é inspiração.

Contudo, assim como aprendemos a desenhar treinando em nós uma maneira de analisar a cena e traduzi-la em uma convenção bidimensional de representação, e essa análise é muito bem definida em seus procedimentos consistindo em medir, comparar, avaliar tamanhos relativos e inclinações, e sobretudo, evitar que o olhar preguiçoso empregado na vida normal contamine o desenho, aprendemos também o Olhar Fotográfico fotografando e treinando como analisar a cena em função da representação desejada. Na verdade, adquirimos o Olhar fotográfico quando aprendemos a olhar para as coisas como uma câmera fotográfica; analisando o DOF, analisando um mundo contido em um retângulo definido, analisando a luz e a reação da superfície sensível a ela. Nosso pensamento produz um prognóstico da captura.

O olhar fotográfico é inseparável dos atos analíticos que empregamos para definir a fotografia. Ele não tem outra natureza a não ser a antevisão dos atos fotográficos a partir de uma compreensão do aparelho.

A relação entre Olhar Fotográfico e técnica fotográfica ou técnica de composição é uma relação como a cara e a coroa de uma moeda. Não é possível fazer uma moeda só com um lado. Não existe o Olhar fotográfico sem a introjeção da experiência fotográfica e sem o ato de análise fotográfica. É como um dado. Podemos olhar o dado de seis lados diferentes, mas teremos somente o dado como coisa completa de seis lados do mesmo objeto. Experiência fotográfica (técnica) e Olhar fotográfico são a mesma coisa, somente que cada uma dessas expressões simboliza uma categoria analítica. Mas,de fato, o tal olhar acontece como uma conjugação de escolhas técnicas, e é adquirido pela experiência de fazer escolhas técnicas até o ponto em que sem uma câmera na mão podemos saber como uma câmera, com uma determinada lente, capturaria um assunto.

Diversas estruturas formais da fotografia são estranhas à vista humana desarmada; desfoques, silhuetas, DOF curto, perspectiva rectilinear, nada isso é nosso, nada disso é parecido com nosso olhar humano. Tudo isso é aprendido pelo uso da máquina ou pela contemplação do universo de imagens fotográficas circulantes no mundo. Aprendemos a fotografar vendo fotografias e entendendo sua forma de fazer.

Consta que o Henry Cartier-Bresson costumava olhar suas provas de cabeça para baixo para não ser perturbado pela coisa retratada ao analisar a composição. Olhando de ponta-cabeça ele via menos a coisa –o referente- e mais o jogo visual de linhas, massas claras e escuras, etc. É muito interessante como isso guarda semelhança com o desenho “com o lado direito do cérebro”. Separar a representação da análise formal tem sido, para todas as gerações de artistas visuais, o grande desafio. A fotografia é feita de um objeto, mas constitui uma coisa própria, regida por leis próprias, e olhar fotográfico é análise formal, é tornar consciente a percepção visual, e aplicar essa consciência ao enquadrar o mundo no retângulo.

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Written by Ivan de Almeida

maio 8, 2010 at 12:23 am

18 Respostas

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  1. Muito bom esse artigo Ivan. Sempre um prazer ler seus escritos.

    Para um texto tão bem escrito, não posso deixar e observar que a palavra “objeto” está repetida na terceira linha (de baixo para cima).

    E ainda, vai que seu texto é publicado em alguma prova de artes num concurso/vestibular. (lembrando o que aconteceu com um texto do Clicio) :-)

    Mais uma vez, parabéns e obrigado por compartilhar!

    Abs!

    Felipe Schiavon

    maio 10, 2010 at 12:00 am

    • Obrigado, Felipe.
      Sou um revisor preguiçoso, e pior, tenho a mania de escrever direto no formulário de publicação, não um artigo inteiro como esse, mas quando o modifico ou algo acrescento, vai direto… isso somado à revisão preguiçosa gera cacos como esse. Obrigadão, já corrigi.

      Ivan de Almeida

      maio 10, 2010 at 12:08 am

  2. Ivan,

    Espremer os olhos e desfocar a imagem também ajuda a abstrair o referente; desta forma o grafismo, os pesos, a composição e, de certo modo, o conotativo, acabam se impondo e o fotógrafo pode fazer uma análise mais isenta da imagem.
    Obrigado pelo artigo.

    Abraços,
    Clicio

    clicio

    maio 17, 2010 at 10:58 pm

    • Sim, é outro método, aliás, fazemos assim ao desenharmos também, vendo as massas gerais.

      É um jogo entre forma e referente, não é? Só forma não é fotografia. Só referente é discurso em prosa. É no jogo que está a graça.

      Abraços,
      Ivan

      Ivan de Almeida

      maio 18, 2010 at 1:25 am

  3. Ah!
    Aqui é sempre como comer chocolate!!!

    Priscila MOnteiro

    maio 18, 2010 at 4:44 am

    • Obrigadão, Priscila.

      Para quem adora chocolate, como eu, ler isso que você escreveu é… como comer chocolate…

      Ivan de Almeida

      maio 18, 2010 at 11:31 am

  4. Ivan, em minhas aulas também gosto muito de usar a relação da fotografia com o desenho, pensando que UMA das ideias da boa fotografia é “desenhar os objetos”, ou, talvez melhor, desenhar o quadro. Vou usar teu texto, certo! Disseste coisas que sempre quis dizer. Valeu!

    Flavio Dutra

    maio 22, 2010 at 11:55 pm

    • No caso, Flavio, exceto se cometermos grandes barbeiragens, a câmera “desenha bem” -risos. Neste artigo meu ponto de comparação foi principalmente a atitude analítica necessária ao desenho. Todos dizem que desenho é “traço”, quando em grande parte desenho é análise. E assim é a fotografia também, somente a análise na fotografia é uma antecipação da captura, a partir do conhecimento do fotógrafo sobre como acontece essa captura.

      Abraços,
      Ivan

      Ivan de Almeida

      maio 23, 2010 at 2:13 am

  5. Olá, Ivan.

    Gosto muito dos seus textos e fiquei honrado pelo seu comentário no meu Blog http://fotoporescrito.wordpress.com/

    Não colei a minha resposta aqui porque ficou longa.

    Abraços.

    Sandro

    junho 29, 2010 at 6:20 pm

    • Obrigado, Sandro.
      Grande abraço

      Ivan de Almeida

      julho 2, 2010 at 6:30 pm

  6. Excelente o blog Ivan.
    Adoro foto, apesar de não entender patavinas dela.

    Sou um “extraterrestre de exatas” que fica paralisado de queixo caido diante de uma boa foto.

    Talvez porque me pareça um “texto de 10 mil linhas”.

    E claro, lamentando que a arte esteja se perdendo na “produtividade”…

    O Coisa

    julho 2, 2010 at 4:35 pm

    • Olá.

      Gostei do seu blog, também.

      Fotografia é uma coisa engraçada porque tem um conteúdo das exatas imenso. É um artesanato técnico.

      Abraços

      Ivan de Almeida

      julho 2, 2010 at 6:31 pm

  7. Olá Ivan, tudo bem?

    Muito bom este artigo e com belas fotografias. No meu entendimento -de um não desenhista- creio que o olhar fotógrafico tem que ser treinado a todo momento, pois quem tem o dom do desenho, consegue ver as formas com mais naturalidade.

    Não se pode esquecer de que, no desenho e mormente na pintura, temos uma área em branco que devemos preenche-la; enquanto na fotografia, temos uma “tela” preenchida e devemos limpá-la, ou seja, selecionar o que queremos evindeciar.

    Mas de toda sorte, devemos treinar o olhar -mesmo os desenhistas e pintores- para buscar aquilo que outras pessoas não conseguem ver, fazer do feio, o bonito e do corriqueiro, uma revelação.

    Parafraseando Drumond, “No meio do caminho há uma foto”, basta enxergá-la! Treino e mais treino a todo momento.

    Abraços

    Ricardo Lou

    Ricardo Lou

    agosto 29, 2010 at 3:36 pm

  8. Gostei do texto. O paralelo entre o desenho e a fotografia me foi muito útil: não sei nenhum dos dois.
    ;-)

    gde abraço

    Adair

    novembro 15, 2010 at 7:25 pm

    • Figura!

      Grande abraço, Adair. Obrigadão.

      Ivan de Almeida

      novembro 15, 2010 at 7:37 pm

  9. [...] Para fazer isso, aprendemos a ver como as câmeras vêem, e isso é chamado de Olhar Fotográfico (ver artigo Olhar Fotográfico – o que é isso?), que, por igual engano, é suposto dom ou espontâneo nos fotógrafos; uma crença ingênua e algo [...]

  10. [...] assunto tem relação com a educação do Olhar Fotográfico, é um dos aspectos dessa educação. Gostou? Compartilhe clicando nos botões ao [...]

  11. Olá Ivan, publiquei parte deste seu artigo no Jornal GGN (do Luís Nassif) acrescentando uma ilustração minha composta por duas fotos e mais algumas fotografias no final do texto. Sou jornalista e tenho o hábito de fotografar eventos e as pessoas envolvidas neles, mas sempre de forma analítica, desenhando dentro do quadro. Como diz o historiador português Antônio Luís Marques Tavares, “a evolução tecnológica da fotografia levou a que a denominada fotografia artística, ou de autor, inaugurada por Henry Cartier-Bresson, trilhasse percursos e tratasse temáticas diversas, conduzindo a que esta se catapultasse, paulatina e eficazmente, para um lugar que, por direito próprio, hoje ocupa na História da Arte Contemporânea”. Para ele, a única diferença entre a pintura e a fotografia é o ‘CLICK’ da máquina fotográfica..A fotografia contemporânea, tal como a pintura, tem na sua essência a criação de metáforas, de conotações, de analogias diversas, conseguindo converter a objetividade em subjetividade. O visível não é necessariamente aquilo que se nos é apresentado perante os olhos. Está muito além do ‘OLHAR FOTOGRÁFICO’.

    erly ricci

    dezembro 18, 2013 at 9:34 pm


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