Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

Fotografia Autoral: Ortografia, Gramática, Estilística… e o que mais?

with 7 comments

É interessante, mas este foi o primeiro texto  com o qual inaugurei a newsletter Fotografia em Palavras, depois transformada neste blog. Ele estava esquecido, mas havia, na ocasião, sido também publicado no Câmara Obscura, do meu amigo Rodrigo Pereira, e anteontem recebi uma mensagem Twitter do Armando Vernaglia, fotógrafo com qual tenho antigo contato pela Internet, informando-me ter citado este artigo ( no link do Câmera Obscura) em um artigo seu.

Deu-me vontade de lê-lo, já nem lembrava direito dele, e vim procurá-lo aqui ficando surpreso por não encontrá-lo. Estava somente na newsletter inicial. Resolvi, então postá-lo. Ei-lo:

Açougue em Copacabana - 1977 - cromo

Fotografia Autoral.
Ortografia, Gramática, Estilística… e o que mais?

Ivan de Almeida – abril de 2007

Por certo não podemos esperar de alguém formado em Letras que escreva um poema, um romance ou mesmo uma crônica, apesar desta pessoa dispor de todo o conhecimento da língua necessário para fazê-lo. Evidentemente, saberá produzir um texto em qualquer dos modos acima, mas à poesia não basta a forma ou as rimas, ao romance não basta o enredo, à crônica não basta a meditação sobre um fato.

Quando lemos textos diversos é fácil reparar alguns serem aliciantes, conduzirem nosso pensamento com vivo interesse, envolverem-nos. Noutros, sua leitura é quase um trabalho, e outros ainda nos oferecem algum entretenimento mas nenhuma emoção mais profunda, nenhum deslocamento maior da nossa consciência, nenhuma nova compreensão ou acrescentamento.

Há como ensinar a alguém ortografia e gramática e até estilística e mil modos de construir um texto. Mas tudo aprendido, será como uma estátua a que falta um sopro de vida para sair, andar, viver como homem.

Essa  situação tem paralelismo com a fotografia. Alguém quer aprender a fotografar. Vai a uma escola de fotografia e é ensinada uma ortografia –como regular uma câmera-, uma gramática – rudimentos de composição- e uma estilística – variações sobre o olhar fotográfico. Após alguns anos e muita luta, o praticante torna-se capaz de dominar o aparelho e consegue produzir fotografias coerentes com o fazer fotográfico em sua forma mais assentada. É capaz de fotografar uma árvore em silhueta, é capaz de lidar com o enquadramento peculiar exigido por uma ultra-grande angular, é capaz de desfocar o fundo em um retrato ou de fotografar em contraluz. Domina então a técnica latu sensu isto é, toda a ortografia, a gramática e a estilística. É capaz de fazer um tipo de fotografia que veja em uma revista ou entender como foi feito.

Nessa altura, o praticante está como o recém-formado em letras. Todas as ferramentas estão dominadas, mas… o que fazer com elas?

É forçoso reconhecer que tanto nas letras quanto na fotografia o problema não acaba ao serem dominadas as ferramentas. Talvez fosse melhor dizer que o problema começa nesse ponto. Ao chegar nesse ponto o praticante pode dar-se por satisfeito com o domínio alcançado. Passará a vida fazendo fotos boas tecnicamente, corretas em fotometria, foco, fotos que serão nítidas onde necessário for e muitas vezes fotos vistosas. Mas sua produção não constituirá uma narrativa pessoal mas tão somente uma contribuição à narrativa coletiva na qual certos padrões de fotografia são estabelecidos e reproduzidos.

Neste texto nossa indagação é: O que existe além disso? O que existe para além desse patamar é coisa da esfera do dom ou pode ser aprendida? E se puder ser aprendida,  como perseguir esse aprendizado?

Desde logo devo confessar não ter respostas prontas para essas questões. Tenho, quando muito, algumas linhas de pensamento.

O que é narrado na fotografia? O que cabe no retângulo fotográfico que não é o objeto retratado e não é a técnica de retratá-lo? Poderíamos mudar a pergunta e refazê-la usando a palavra “poesia” em lugar de fotografia. Ficaria mais ou menos assim: O que é falado na poesia que não se resume às palavras ou às rimas? Se conseguirmos uma resposta teríamos algo para seguir.

Em um sentido muito geral mas não pouco verdadeiro, podemos dizer que ambas as práticas tornam-se poéticas quando modificam a forma como o observador está presente. Quando elas modificam sua maneira de ver o mundo, quando de alguma maneira, seja por serem agradáveis ou incômodas, terminam capturando a atenção do observador e o colocando em um estado psíquico diferente no qual sua percepção do mundo é modificada por algo colocado pelo criador na obra. Nessa modificação o observador vê ou percebe alguma coisa, algum conteúdo ou sensação não incluído em sua experiência costumeira. Digamos que através da obra, da fotografia ou do poema, o observador consegue partilhar de uma maneira de ver o mundo muito própria do criador da obra. Não é uma maneira exclusiva, pois em uma humanidade tão vasta e sendo os assuntos humanos tão próximos é impossível falar de exclusividade, mas é uma maneira diferenciada em relação ao costume mais comumente partilhado.

Essa quase-exclusividade é tão somente um aprofundamento do criador em uma área qualquer da vida, uma atenção maior a alguma coisa. Prestando mais atenção a algo, o criador vai se embrenhando em percepções pouco exploradas, vai indo a “lugares” do entendimento menos freqüentados. Vai adquirindo uma vivência modificada em alguma área. É desse lugar diferenciado que o fotógrafo trará um depoimento que tem para o observador o papel de um mapa para esse visitar através da foto “lugares psicológicos” fora de sua sensibilidade normal, receber material inacessível em sua vida cotidiana ou através da fotografia repetidora dos conteúdos recitativos da comunicação vulgar.

É preciso aqui assumir haver duas esferas distintas. Uma delas partilhada por todos nós, de conteúdos repetidos no discurso cotidiano pelos meios de comunicação –conteúdo esse referente a uma determinada abordagem dos assuntos, a uma determinada e consagrada estética, etc, e uma outra esfera relativa a conteúdos de observação menos comum relacionados a formas específicas de perceber.

O interessante é serem os objetos contidos nas fotos do mesmo tipo, mudando a maneira de narrá-los. Um fotógrafo de natureza após muitos anos fotografa um determinado animal, e outro fotógrafo sem essa vivência também o fotografa. O primeiro tentará mostrar na foto coisas de seu saber sobre aquele animal, coisas de seu saber sutil, como um esgar de ferocidade, uma posição do corpo, etc. Embora o animal e o contexto possam ser os mesmos, a coisa mostrada não é a mesma. Na maneira do primeiro fotógrafo mostrar há algo que somente sua atenção continuada e comparativa dá relevo.

Assim também acontece na fotografia de pessoas. O fotógrafo agrega à fotografia certa visão do ser humano, certa abordagem da humanidade, sem o que a fotografia das mesmas pessoas ficaria resumida a uma visão esquematizada de seus papéis sociais.

Igualmente no plano da estética. Uma pesquisa estética longa e na qual o fotógrafo se coloca problemas formais cada vez mais sofisticados o faz dominar jogos formais incomuns. Trazidos à fotografia, aliciam ou deixam perplexo o observador.

Assim, em resposta à questão inicial deste texto, a dita Fotografia Autoral começa exatamente na vida mesma do autor, do fotógrafo , e será tão mais autoral quanto mais o fotógrafo mergulhar no seu assunto, naquilo que o toca especialmente em oposição à atitude de fotografar “como”. A fotografia autoral sempre se distinguirá da fotografia comum pois ela já não é movida pela fotografia somente, ela já não tem questões puramente fotográficas, mas sim questões onde a fotografia é posta a serviço de algo além dela, algo da ordem das buscas pessoais.

Assim, a Fotografia Autoral não é mais fotografia, embora faça-se como fotografia. Ela é investigação da vida, é depoimento sobre ela, e segundo sua profundidade, será significativa.

Cena - 2008 - digital

Isto pode ser aprendido ou desenvolvido? Bem, como em todo aprendizado há um requisito a ser atendido: O praticante deve desejar o aprendizado. Este requisito parecendo óbvio não o é de fato, sendo ao contrário um ponto de conflito e devido a esse conflito não são muitos os que empreendem essa busca. Por que é assim?

A razão principal é tal busca começar a partir de um reconhecimento pelo praticante de uma situação de insuficiência e desta insuficiência não ser mais técnica –a técnica é coisa externa e sendo externa é entendida como um mero conhecimento operatório a ser obtido independentemente do que se É, do que é a personalidade do fotógrafo. Nesse ponto o autor deve reconhecer haver insuficiência em sua visão de mundo –todos temos isso- deve reconhecer ser ela a coisa a educar. Nesse ponto a fotografia torna-se uma espécie de prática educativa na qual o fotógrafo pode observar a evolução de sua visão do mundo, e a qualidade essa visão de mundo será em última instância a responsável por sua poética fotográfica.

————————————

Escolhi para ilustrar este artigo duas fotos feitas com mais de 30 anos de diferença, mas nas duas evidencia-se a mesma autoria, no sentido de  ser identificável a mesma atitude do fotógrafo, o mesmo tipo de atenção e presença que não se denuncia na cena, a mesma presença de elementos prosaicos.


7 Respostas

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  1. [...] também ser conferido no blog Fotografia em Palavras, do autor Ivan de [...]

  2. Olá Ivan, obrigado pela citação. Gostei muito deste seu artigo, você foi muito feliz na comparação com a escrita pois tornou bastante fácil a assimilação do conceito, saber escrever é fácil, mas isso não é o mesmo que ser escritor, e esta lógica é completamente aplicável à fotografia.
    E assim como na escrita, penso que a fotografia consciente, aquela em que o autor entende seu papel social de comunicador, de testemunha, é como um excelente livro, ou poema, enquanto a foto feita apenas por fazer, para “cumprir tabela”, é como um relatório de empresa, pode ser bem escrito, mas sem nenhuma poesia.
    Grande abraço,
    Armando

    Armando Vernaglia Jr

    abril 20, 2010 at 5:35 pm

    • No mínimo eu lhe devia a citação, Armando, afinal foi você quem desencavou um artigo já esquecido por mim mesmo…
      Grande abraço,
      Ivan
      PS: aliás, este seu comentário também tem coisas bem legais.

      Ivan de Almeida

      abril 20, 2010 at 5:56 pm

  3. Que belo brinde ao ler este texto em uma manhã chuvosa de feriado. Dica do Pepe via twitter.
    “.. O praticante deve desejar o aprendizado.” – vale para todas as áreas de conhecimento e prática. Muito bem redigido, mesclando letras, orações e transformando-as em arte poética em um mundo Real/Virtual.
    Excelente!
    Ah.. Ivan, estivestes presente no workshop de Nu em Floripa com a Alessandra, há uns 3 anos atrás? em Jurerê Internacional.
    Forte abraço!

    Eduardo Trauer

    abril 21, 2010 at 2:35 pm

    • Olá, Eduardo;

      Não, não estive neste Workshop, embora tenha estado no Jurerê de férias no final de janeiro, mas só para passear. Adoro Florianópolis, gosto tanto que nos últimos 9 anos passei sete férias lá, e o Jurerê é um local ótimo, muito cômodo e relativamente tranquilo.

      Obrigado pelo comentário ao texto. Esta frase é uma fórmula feliz, capaz de dar conta de uma coisa óbvia, mas coisas óbvias por vezes são pouco visíveis: quem não deseja aprender algo não valoriza a coisa, e não aprende. Então é preciso a pessoa querer empreender essa busca de si mesmo na fotografia, busca paradoxal pois na fotografia parece sempre estarmos fotografando o externo, e isso engana muito, visto as pessoas acharem que a autoria é “encontrar um belo tema”, a mim isso sendo mais conseqüência que causa.

      Ivan de Almeida

      abril 21, 2010 at 3:06 pm

      • É vero, e como menciona Paco Underhill, “o óbvio nem sempre é aparente” mas devemos sempre relembrar o óbvio, para não correr o risco de esquecê-lo!
        E mais, é interessante, geralmente muitas das soluções estão na simplicidade, porém com este mundo corrido e com uma geração “miojo” que deseja tudo pronto em até 3 minutos, o simples torna-se extremamente difícil de ser percebido!
        Bom feriado!

        Eduardo Trauer

        abril 21, 2010 at 3:15 pm

  4. [...] This post was mentioned on Twitter by Conexão Fotográfica. Conexão Fotográfica said: Um artigo de 2007 mas que vale muito a pena ser lido; Fotografia Autoral http://tinyurl.com/238ba6o [...]


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