Fotografia em Palavras

visões sobre a prática fotográfica, por Ivan de Almeida

Uma imagem vale mais que mil palavras?

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O impacto da rede na linguagem fotográfica.

Ivan de Almeida – maio de 2007

“Isto não havia, acontecia” – João Guimarães Rosa, Terceira Margem do Rio, Primeiras Estórias.

Bem, se uma imagem vale mais do que mil palavras, acima estão apenas quatro. E qual imagem seria capaz de traduzir o universo de significados a que tal frase nos remete? Pois esta é a questão. Uma imagem não vale mais do que quatro palavras, ou uma, ou mil, ela simplesmente é outra natureza de comunicação. O que se pode dizer, isto sim, é que no âmbito de descrição não qualitativa uma imagem é uma boa ferramenta para transmitir informações.

Cada meio de comunicação é capaz de portar melhor certos conteúdos, e é inadequado para outros conteúdos. Dito pelo Marshal McLuhan, “O Meio é a Mensagem”. Ao dizer isso ele apontava para o fato de cada meio de comunicação ter para o receptor uma ação típica, e segundo esta ação típica os conteúdos da mensagem são conformados. Dizendo melhor, um determinado meio permite certas mensagens e dificulta outras.

A leitura, segundo ele, seria um meio quente de comunicação, enquanto a televisão um meio frio. Esses conceitos de frio e quente eram por ele usados para qualificar a participação do receptor na feitura da mensagem. Meios frios são meios onde a mensagem forma-se quase sem participação do receptor, isto é, sem participação de sua subjetividade especial, sendo a significação da mensagem uma decorrência da aplicação a ela dos signos socialmente impartidos e predominantes na comunicação grupal. Já os meios quentes exigem do receptor uma construção ativa do significado, exigem ele participar e apor ao recebido certa carga de experiências pessoais. Os meios frios são portadores de mensagens de rápida interpretação, de interpretação imediata, os meios quentes portadores de mensagens de interpretação demorada e quase, por assim dizer, sopesadas.

Tomemos a frase inicial. “Isto não havia, acontecia”. Uma frase que contém paradoxo, uma contradição aparente, o uso de dois verbos normalmente sinônimos usados como antônimos. Este estranhíssimo uso nos remete a uma luta interna tentando distinguir entre o que há e o que acontece, e somos levados a pensar em quais as distinções possíveis entre haver e acontecer na forma proposta pelo autor, e o que significa no texto essa distinção. Tal tipo de leitura não pode jamais ser automática. A frase não faz sentido se for lida de forma automática. Para haurir seu sentido, é quase necessário revivê-la em nós, saborear o espanto colocado nela pelas palavras sinônimas usadas como antônimas, e abrir a compreensão para sentidos das palavras não habituais. O leitor envolve-se profundamente nisso, não há outra maneira de ler a frase.

Tomemos, em oposição, uma imagem do tipo chamado pelo Barthes de Fotografia Unária no seu A Câmera Clara, isto é, aquela cujo objeto é único e narrado de forma diretíssima. O espectador não precisa contribuir em nada para obter o significado do relato fotográfico, quem impõe o significado é a região mais social da dimensão psíquica do espectador. A leitura é direta, e sob a forte pressão social, não-ambígua. O significado está pronto em uma prateleira, e ao olharmos a imagem ele nos é impartido sem que possamos oferecer resistência. Olhar a imagem é absorver imediatamente a mensagem.

O meio frio paradigmático para o McLuhan é a televisão. Nela acontece um fluxo de informações, cada qual devendo ser rapidamente interpretada. O meio impõe em alto grau isso, pois sendo um meio no qual vários sentidos são mobilizados – e essa é uma das características dos meios frios. É preciso uma cadeia de eventos para nos manter interessados. Uma das coisas bastante interessantes é o fato do videofone até hoje não ter se tornado um meio de comunicação realmente praticado, embora não haja mais qualquer obstáculo técnico para isso. Uma das razões prováveis é que na imagem de alguém ao telefone não há geração de fluxo de informações significativas suficiente para manter o observador interessando. O telefone produz um fluxo auditivo de discurso, mas a câmera do videofone não, ela apenas mostra uma imagem cujo conteúdo informacional é rapidamente apropriado pelo espectador, e depois aquela imagem deixa de interessar e não se renova.

Assim, uma das características dos meios frios é funcionarem por torrentes. Estabelece-se um binômio funcional: mensagens de interpretação rápida e renovação constante em torrente. A rapidez da decodificação exige que o tempo seja preenchido por uma torrente de eventos, e os eventos adequados são exatamente aqueles amoldados a isso, isto é, aqueles que possa ocupar o lugar na torrente fornecendo uma leitura rápida e libertando o espectador para o evento seguinte. O fluxo tem de ser de tal forma que não deixe espaço vazio, que cada evento possa ser percebido na totalidade da mensagem contida e depois possa ser substituído por outro evento equivalente. Os bons eventos para a torrente são aqueles de significado reiterativo, pois só a reiteração pode ser rapidamente interpretada.

Em oposição a isso, os meios quentes tipicamente oferecem eventos profundos. Eles não podem ser rapidamente apreendidos e não podem sequer ser substituídos por outros ou transformados sem perderem sua natureza. Tive uma experiência recente nesse sentido em um festival de poesia no colégio de minha filha. A poesia é uma configuração verbal quente, exige escuta ou leitura atenta e exige tempo para os significados desdobrarem-se no ouvinte/leitor. Neste festival havia uma sala onde em cartazes escritos em grande tamanho havia meia dúzia de poemas; Cora Coralina, Cecília Meireles, etc. Entrei na sala e os li, e os primeiros três foram de leitura muito tocada pelos significados que traziam. Leitura quente. Depois, fui me tornando cansado e minha atenção decaiu um pouco. Mais tarde um poeta convidado declamou uns 30 poemas em seqüência, e a declamação tornou-se extremamente penosa e maçante, pois a apresentação dos poemas em torrente era completamente incompatível com a necessidade de deixar os significados de cada um reverberarem em nós.

Os meios e as mensagens são entrelaçados. Não é possível ouvir poesia em torrente, ela se destrói, pois é destruída no observador sua atenção, e sua atenção é necessária para acompanhar o jogo de significados. Reversamente, não é possível manter alguém ligado a uma torrente de poemas.

Mas, voltando ao nosso ponto. Temos uma grande mudança acontecendo no que tange ao lugar da fotografia. Antes a fotografia era em papel, hoje ela é eletrônica. Antes ela era vista impressa em papel, agora é vista na tela de um computador, ou no ambiente da publicidade. A fotografia, usando os conceitos expostos acima, deslocou-se de um meio relativamente quente para um meio bastante frio, e o julgamento do que é uma boa fotografia sofreu com isso a transformação necessária à adequação ao meio.

A experiência de ver fotografias, antes relativamente rara, tornou-se torrencial. Pegando uma modelo-paradigma para muitos fotógrafos, o estilo National Geographics, podemos observar a mudança da dinâmica de contemplação de fotografias. Há dez anos atrás um número da revista era comprada pelos apreciadores do estilo e sua vida útil durava um mês pelo menos, o intervalo para o novo lançamento. Nesse mês ela era folheada algumas vezes, e o leitor ia estabelecendo uma relação quente com um apreciável número de imagens. Uma revista típica teria talvez umas 50 imagens, dessas umas 20 maiores e principais, e dessas umas cinco destacadas, e o leitor as percorreria com interesse desde uma primeira leitura na qual veria as mais destacadas até uma leitura final na qual os detalhes menores seriam percebidos. Seu exame do material seria ativo, ele construiria uma relação com cada foto, lembrar-se-ia delas por algum tempo. Normalmente voltaria várias vezes ao longo dos meses e anos seguintes a folhear a revista, renovando sua significação das imagens.

O mesmo interessado, hoje, é submetido ao mesmo número de imagens que via em um mês em apenas um dia. Navegando nas comunidades fotográficas na rede, nos sites de autores, é submetido a uma torrente de imagens, e a maior parte das imagens vistas é perdida no sentido de ser irrelevante recuperá-las para nova visada. Ele tem uma infinidade de pequenas surpresas, mas pouquíssimo aprofundamento em cada uma.

Uma imagem em um canto de uma revista seria vista dez ou quinze vezes, em aprofundamentos sucessivos de compreensão e significação, agora a fotografia deve mostrar-se inteiramente em poucos segundos, pois do contrário interromper-se-ia o fluxo. A linguagem fotográfica vai se adequando a essa nova cadência de transmissão, e a fotografia vai cada vez mais adotando aquela maneira chamada pelo Barthes de Fotografia Unária, simplificada em apenas um objeto ou em um truque fotográfico, pois é preciso que ela seja o mais explícita possível. O novo suporte impõe uma estética distinta à expressão fotográfica, uma estética da imagem direta, e assim como o poema não pode ser colocado na torrente, certo tipo de fotografia também não pode ser colocado na torrente, pois exige do espectador uma quebra ativa no fluxo perceptivo cotidiano, um esforço de significação quente, já não compatível com a cadência do meio.

O meio precisa ser rápido. Na rede, se o fluxo não é rápido ele fraqueja e termina desaparecendo. Não é possível manter, por exemplo, um fórum de debates cuja alimentação seja de finíssimo material, mas cuja cadência de alimentação seja, digamos, de uma nova mensagem a cada dois dias. Um fórum assim termina logo sem mensagem alguma, pois o freqüentador da rede nela entra para estar em rede, e é necessário que a rede o mantenha, que ela dê sustentação à sua participação nela, que o envolva. Ele é envolvido pela rede, não pelo conteúdo de cada mensagem. Estar na rede passa a ser o importante. Um fórum ou lista com cadência de uma mensagem a cada 48 horas não daria ao participante a inserção na rede, não ofereceria um nó para o participante partilhar do ambiente de rede, e assim não se sustentaria.

É preciso que exista a torrente, pois a rede é torrente.

Mas evidentemente a fotografia assim praticada abandona o viés das imagens de maior densidade em troca das imagens de simbologia imediata. O problema no caso da fotografia é ainda permanecer havendo a contemplação dela em cópias em papel, e as imagens adequadas à torrente fria não são adequadas à contemplação quente. Uma imagem de alto poder de comunicação na apresentação na WEB resulta em uma copia pouco estimulante e relativamente banal se emoldurada e colocada na parede, pois a contemplação de fotos na parede deve sempre ser quente, durável, objeto de aprofundamentos sucessivos, deve sempre ser ativa e renovada, ressignificada. Ao serem emolduradas as fotografias eficientes para comunicação direta elas não podem trazer para os ambientes íntimos a torrente.

Essa mudança tem impactos muito profundos na linguagem. A esta altura é preciso ao fotógrafo saber exatamente o sentido de sua produção, pois do contrário ficará confundido pelos sinais contraditórios, pelas exigências contraditórias da fotografia boa para a torrente e da fotografia boa para a contemplação quente.

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9 Respostas

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  1. Texto sensacional Ivan. Caiu como uma luva!

    Diversas vezes sou levado a pensar. Olhamos fotografias as toneladas diariamente, mas me raras ocasiões vemos impresso fotografias quentes, algo que nos desperta a curiosidade. Na maioria das vezes são fotografias soberbas, mas chatinhas, não passando além daquilo que mostram.

    Daí abre-se um leque de perguntas, entre elas:

    Se estivessemos vendo toneladas de fotografias com elementos que despertassem a curiosidade ou dessem aquele “click” (wtf), não ficariamos saturados ou anestesiados? Muito provavelmente sim, neste caso saudemos fotografias as chatinhas ou frias – como você chama. Pois são elas que nos permitem esse deslumbramento quando defronte a fotos quentes.

    Cabe ainda comentar que fique surpreso com as suas fotos de nuvens… rs…

    ebuscariolli

    junho 8, 2009 at 2:23 pm

    • Eduardo;

      Você sabe que pensei em você ao finalizar essas fotos? Porque elas nos remetem àquela discussão sobre o referente no Obscura, e de certa maneira elas praticamente sintetizam um ponto de vista meu, qual seja: há de haver algum referente na fotografia, ainda que possamos levar a tensão de percebê-lo bem longe (como no caso da segunda).

      Sua visão sobre o artigo mesmo, ela é perfeita, pois o cheio só é cheio porque existe o vazio, e vice-versa, então todas as distinções só acontecem em campos onde há matéria capaz de suportar as distinções.

      É bastante razoável supor anestesia em um contexto onde os objetos estéticos sejam superabundantes. Contudo, o que observamos nas pessoas que se cercam de objetos estéticos é um afinamento da sensibilidade, e não sua saturação. Porque de algum modo os objetos estéticos impõem uma educação. Penso ambas as coisas existirem, e caberia isso sim deslindar as relações entre elas, entre a perda da “aura” (Walter Benjamim) pela repetição e a educação da sensibilidade.

      Obrigado pelo luxuoso comentário,
      Abraços,
      ivan

      Ivan de Almeida

      junho 8, 2009 at 3:07 pm

  2. Cheguei ao blog pela Danielle (http://www.flickr.com/photos/ordea/) e, por essas coincidências da vida, estava discutindo com Keiny Andrade (http://www.flickr.com/photos/keinyandrade/) justamente sobre rumos e caminhos da fotografia no meio virtual (ele acaba de finalizar um estrado a respeito).

    Minha questão, portanto, sobre seu texto Ivan é: diante de um meio feito de fluxo, não será o caminho da fotografia se reinventar exatamente como uma torrente contínua?

    Caso não conheçam, vejam estes exemplos: http://mediastorm.org/0021.htm
    http://mediastorm.org/0011.htm

    O ensaio sobre o povo kurdo talvez seja o maior exemplo da questão ligada ao fluxo e às novas tecnologias (meios). Sem a fotografia digital e a capacidade alta de armazenagem esse ensaio seria impossível.

    Mas isso ainda é fotografia? A saída será essa (domar o fluxo tornando os ensaios trabalhos híbridos e coletivos em vez de investir em UMA imagem)?

    Uma imagem vale uma imagem, mas, em tempos de web e novas tecnologias, várias imagens editadas podem significar o início de uma mudança de aspecto para a maneira com entendemos a fotografia.

    PODE, pois eu ainda não tenho uma resposta para isto…

    abraços

    Rodrigo Dionisio

    julho 6, 2009 at 10:49 pm

    • Rodrigo;
      O bacana deste blog são as conversas que tenho pescado -risos.
      Penso já ter visto outro tabalho da Jessica Dimmock, talvez este mesmo.
      Suas fotografias de fato constituem, como conjunto, algo mais do que a foto isolada. E, sem dúvida, este é um caminho. Há de fato uma legenda criada pela série, quando uma foto explica a outra, e elas organizam-se como cartas de um baralho onde há as cartas coroadas, aquelas capazes de comandarem a série, mas há também cartas de transição. Isto é um bom jogo, um jogo rico, e eu mesmo por vezes o jogo (sem essa agudeza da Jessica, é claro).
      Será que isso as define como seres da torrente? Por certo aspecto sim, pois há fotos nessa série que isoladas perderiam o sentido, como aquela do retrato da criança. mas uma série não precisa ser da torrente. Fotógrafos sempre fizeram séries ou ensaios. De todo modo, este exemplo também não é tipicamente da torrente, apesar da forma slide-show, pois é preciso deter-se e olhar, e na torrente mesmo não nos detemos, só vamos passando de uma foto à outra, olhando uma e esquecendo a anterior.
      Por outro lado, a fotografia isolada -seja porque retirada da série onde habita, seja porque isolada mesma- sempre haverá. Tenho tendência a acreditar ser na imagem isolada onde estão os valores maiores da fotografia, sua raiz e âmago.
      Grande abraço,
      Ivan

      Ivan de Almeida

      julho 7, 2009 at 1:12 am

  3. Ivan, achei muiro interessante o artigo publicado em seu blog, e toda sua discussão.
    Tem um filosofo, Walter Benjamin, que já dizia isso em outras palavras e com outros meios de expressão.
    Ele abordava o mesmo tema entre a pintura e o cinema, que o cinema expressava uma linguagem mais coerente com seu tempo, e acreditava em uma “apreensão tatil” das coisas, que até entao fora, em toda a sociedade a apreensao otica, o “parar para olhar”.
    Desse modo, ele aposta, de certa forma, na apreensao tatil como o agente transformador e de tomada de consciencia das pessoas. (as utopias)

    Acho interessante quando colocamos esse assunto na internet, pois ocorre uma subversão de certos (para mim todos- meios de expressao, de banalizar tudo e qualquer tipo de comunicação (para generalizar), em contra partida há uma enorme possibilidade de tomada de conhecimento, e a falta de espaço para “respirar” e parar pra pensar no que está se produzindo/analisando e se questionar, gerando pessoas que não pensam mais em discutir/analisar, mas em pessoas que visam resultado e quantidade.

    Desculpe-me se o texto não está muito elaborado, acabei vomitando fragmentos de uma reflexão nao tão aprofundada.

    como elogio, achei muito interessante a frase escolhida para discorrer sobre o assunto

    comecomeioe

    julho 8, 2009 at 1:52 am

    • Obrigado pelo comentário sobre o blog. Li sua postagem e fiquei interessado em vários trechos dela. Caso outra hora você queira desenvolver esses ganchos, serei um leitor atento.

      O cinema, apenas pegando só lateralmente um desses ganchos, e só porque foi citado -sei que sem esse sentido- percebo ele ensinar à fotografia mais do que recebe dessa ensinamento, e que aprendemos a descrever cenas com a descrição das cenas cinematográficas.

      Ivan de Almeida

      julho 8, 2009 at 2:00 am

  4. Ivan,

    Interessantissimo seu texto. A “torrente” de imagens que as torna frias, decorrências da Internet e da contemporaneidade, dificulta sobremaneira o aprofundamento e a leitura que a esquenta.
    Discordo porém da sua esperançosa valorização da imagem única, a que não faz parte de uma série; com a convergência inevitável das imagens (movimento, estáticas) e a adição do som, ambiente, ambientado ou trilha, a experiência pode se tornar mais rica e facilitar o aprofundamento do observador.
    Veja um exemplo do que falo, neste link:
    http://www.lost.art.br/grandbazaar.htm

    Abraços,
    Clicio

    clic!o

    julho 24, 2009 at 11:44 am

    • Clicio;

      Não é bem esperançoso… Deixe-me tentar situar mais precisamente a questão como a vejo.

      Meu pensamento é que cada arte, digamos assim, tem seu coração, neu núcleo. Cada arte tem seu problema principal, e seus praticantes devem se haver com ele. O problema principal da pintura, por exemplo, é o suporte plano. Até se admite alguma textura nas pinturas, mas ela é referente ao suporte plano ou quase, assim como a escultura é referente à volumetria.

      O problema da Fotografia é construir uma narrativa em um só quadro a partir de um registro de luz feito por um dispositivo. Uma série de fotografias pode haver, mas ao mesmo tempo em que são juntas uma série, devem manter cada uma certa independência narrativa. Uma fotografia deve poder sempre existir sozinha. Esse é um problema crucial e difícil para o fotógrafo, a ele é imposta essa terrível disciplina.

      Basicamente, uma fotografia é uma peça de dramaturgia retida em uma só imagem.

      No outro extremo, temos o cinema. O Cinema é, aliás, coisa interessante, mais rico que a fotografia no quesito… fotografia. Como é movido por grandes capitais, ele gerou na sua existência milhares de imagens que inspiraram os fotógrafos, e mais inspiraram os fotógrafos do que os fotógrafos inspiraram o cinema. Luzes cinematográficas, narrativa cinematográfica, tudo isso inspirou a fotografia. Mas cinema não é fotografia, apesar de conter milhares de fotografias encadeadas e de haver entre elas algumas imagens capazes de sustentarem-se sozinhas. Cinema não é fotografia porque o problema do cinema não é o mesmo problema da fotografia. As imagens do cinema não são autônomas, não precisam sê-lo e não devem sê-lo.

      O slide-show, como este do Ignácio; excelente. Bem, entre as muitas fotos do slide-show há algumas evidentemente capazes de sozinhas motivarem contemplação, isso deve desde logo ser dito, e é de se esperar, visto ele ser excelente fotógrafo. Mas o conjunto não me põe a pensar como uma fotografia simples do Henry Cartier-Bresson me põe.

      Curioso isso, não é? Porque é exatamente essa a diferença entre o meio quente e o meio frio. A fotografia do Bresson é quente, porque nela mergulho e a fico lendo, ela não acaba quando termina, como dizia o Chacrinha. O slide-show do Ignácio acaba no exato instante em que termina, apesar de ter havido o uso de meios muito mais envolventes -aliás, por isso mesmo, até, pois é isso o que caracteriza o meio frio. Há fotos, dentro do slide-show, que sozinhas poderiam sustentar minha contemplação longa, quente, mas o conjunto-torrente acaba tão logo os créditos aparecem.

      Esse acabar rápido é para mim antitético à fotografia ela mesma, isto é, à essência do problema fotografia, o problema do quadro único. Esse meu texto não tem uma esperança nele embutida, ao contrário, tenho plena consciência da melhor adequação da torrente aos meios de comunicação atuais – e, afinal, o meio é a mensagem. Mas a pintura não morreu devido à escultura nem devido à fotografia, nem a fotografia morreu devido ao cinema. Apenas em cada uma dessas transições, uma prática tem a oportunidade de distinguir aquilo que lhe é proprio e que apenas a si é proprio. Tem oportunidade de sitinguir qual o seu principal problema.

      Penso que a fotografia, hoje, encontra-se em uma bifurcação do caminho, uma bifurcação nebulosa, envolta em uma névoa. E em uma bifurcação não completamente distinguida, de modo que cada um às vezes está mais perto de um dos caminhos, às vezes de outro. Um dos caminhos é o da fotografia para a torrente, que guardará inúmeros valores da fotografia e mesmo sua prática, mas não guardará o fulcro na imagem única autosuficiente, capaz de conter toda a narrativa em um só quadro. O outro caminho é o imagem única, o qual, em meu entendimento, é aquele a herdar o problema principal da fotografia.

      Não há nisso um julgamento de qualidade. É como comparar teatro e cinema. Ambos podem ser ótimos, mas são diferentes. É como comparar fotografia e pintura, cada uma é cada uma. Cada uma lida com o observador de uma maneira diferente.

      Uma outra questão, que deve ser explicitada para não gerar confusão, são as series de fotografias. As séries de fotografias podem estar mais próximas da torrente ou de fotografias únicas agrupadas. Minha observação pessoal é que exceto séries superlativas como a África do Sebastião Salgado, na qual cada fotografia é em si um universo infindável, em geral as séries são híbridas. Dentro delas há fotos individuais e há outras que somente são coringas, fotografias de passagem que fomam “ambiente” para as demais, explicando-as. Essas que meramente são ambiente, são fotografias no sentido de serem feitas fotograficamente, mas não no sentido de conterem em si o problema fotográfico único. Há uma diferença entre ser feito com fotografia, e ser fotografia. O cinema nos mostra isso.

      Obrigado pela questão, que é ótima.
      Penso em publicar como novo tópico no blog, pois terminou ficando grande e substancioso. Posso incluir sua questão (com fonte) como início?

      Grande abraço,
      Ivan

      Ivan de Almeida

      julho 24, 2009 at 1:52 pm

  5. Incrivel seu texto, e a discossoes que se seguiram.
    parabens a todos!

    Tenho uma duvida: No fotojornalismo de hoje temos que produzir e enviar imagens o mais rapido possivel as agencias de fotografia. Por sua vez , estas repassam o material para os diversos veiculos de web(na hora) e impressos (dia seguinte)…

    É correto afirmar que a fotografia quente e aquela unica foto que vai para o jornal no dia seguinte.
    E Fria aquele slideshow na net?

    O fotojornalismo exige que a imagem seja simples e inteligente e que tenha o poder de ser reultilizada ao longo da história. Pode Esquentar /esfriar?

    Muitas vezes , o fotógrafo é visto como uma maquina de fazer fotos. Nao mais como um artista, como outrora.
    Todos querem fluxo. Se um cd nao conter, no minimo, 500 fotos de um evento (que poderia ser sintetizado em poucas dezenas de imagens), siginifica que o fotografo nao trabalhou…

    Talvez o grande problema da fotografia conteporanea, seja a mecanização do fotografo, via atender ao fluxo de imagens . Imagens frias.
    Temo pois estamos criando uma geracao de aperadores de botao.
    Seu texto visa evitar isto.Parabens!

    Perdoe-me se o texto nao esta muito elaborado.
    Escrevi em fluxo de consciencia em meio a edicao de um trabalho.

    Um forte abraço!

    gustavo rampini

    dezembro 13, 2009 at 11:32 pm


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